quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Canção da Estrada Aberta



WALT WHITMAN

A pé e com o coração iluminado me entrego à estrada aberta,
Saudável, livre, o mundo à minha frente,
A longa trilha de terra levando aonde eu escolher.

Daqui em diante não peço mais boa-sorte, boa-sorte sou eu mesmo.
Daqui em diante eu não lamento mais, eu não adio mais, não careço de nada;

Forte e contente percorro a estrada aberta.
A terra, isso é o bastante,
Não quero as constelações mais próximas,
Sei que estão muito bem onde estão,
Sei que elas bastam àqueles que lhes pertencem.

(Ainda aqui carrego meus velhos fardos deliciosos,
Os carrego, homens e mulheres, os carrego comigo aonde quer que vá,
Juro que é impossível me livrar deles,
Sou preenchido por eles e os preencherei em troca.)

A terra a se expandir à direita e à esquerda,
pintura viva, cada ponto com sua luz melhor,
a música descendo onde faz falta
e em silêncio onde sua falta não se sente,
a alegre e fresca sensação da estrada.

A partir de agora me ordeno liberado de limites e linhas imaginárias,
Indo aonde eu queira, meu próprio mestre total e absoluto,
Ouvindo outros, considerando bem o que dizem,
Parando, buscando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, mas com vontade inegável, me despindo das amarras que me reteriam.

Inalo grandes porções de espaço,
O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.
Tudo parece belo para mim

Posso repetir a homens e mulheres
Fizestes tal bem a mim que eu faria o mesmo a vós,
Quem me negar não me perturbará,
Quem me aceitar ele ou ela será abençoado e me abençoará.

Agora vejo o segredo de fabricação das melhores pessoas,
É crescer ao ar livre e comer e dormir com a terra.
Eis o teste de sabedoria,
Sabedoria não é finalmente testada em escolas,
Sabedoria é da alma, não é suscetível de prova, é sua própria prova,
É a certeza da realidade e imortalidade das coisas, e a excelência das coisas;

Agora reexamino filosofias e religiões,
Elas podem se revelar bem em salas de conferência, contudo não revelar nada sob as amplas nuvens e junto a paisagem e fluidas correntes.

Eis realização, eis um homem apurado —ele realiza aqui o que ele tem nele,
O passado, o futuro, majestade, amor—se estiverem vazios de ti, estás vazio deles.

A emanação da alma vem de dentro por portões copados, sempre questões provocantes,
Por que há esses anseios? Por que há esses pensamentos na escuridão?
Por que há homens e mulheres que enquanto estão junto a mim a luz do sol expande meu sangue?
Por que quando me deixam minhas flâmulas de júbilo afundam chatas e frouxas?
Por que há árvores sob as quais nunca ando e, contudo, fazem com que grandes e melodiosos pensamentos desçam sobre mim?

Aqui se eleva o fluido e aderente caráter,
O fluido e aderente caráter é o frescor e doçura de homem e mulher,
(As ervas matinais brotam não mais frescas e mais doces todo dia de suas raízes, do que ele brota fresco e doce continuamente de si mesmo.)

Vamos! quem quer que sejais, vinde viajar comigo!
Em viagem comigo encontrarei o que não cansa nunca.
A terra não cansa nunca,
a Natureza é rude e a princípio incompreensível,
não percais a coragem, continuai, existem coisas divinas bem escondidas,
eu vos juro que existem coisas divinas mais belas
do que possam as palavras dizer.

Não devemos parar aqui,
por mais doces que sejam estas coisas arrumadas,
por mais conveniente que a habitação pareça,
não podemos permanecer aqui;
por mais abrigado que seja o porto e por mais calmas as águas,
aqui nós não devemos ancorar;
por mais acolhedora que seja a hospitalidade à nossa volta,
não nos é permitido desfrutá-la
senão por bem pouco tempo.

Vamos! com poder, liberdade, a terra, os elementos,
Saúde, desafio, júbilo, auto-estima, curiosidade;

(Eu e os meus não convencemos por argumentos, símiles, rimas,
Convencemos por nossa presença.)

Ouve! Serei honesto convosco:
não ofereço os macios prêmios de sempre,
mas ofereço ásperos prêmios novos.

deveis habituar-vos aos sorrisos irônicos e às zombarias
daqueles que deixardes para trás,
aos acenos de amor que receberdes apenas respondereis
com apaixonados beijos de despedida,
não permitirás a retenção dos que esticam suas mãos estendidas em tua direção.

Vamos! em busca dos grandes companheiros, e pertencer a eles!
Eles também estão na estrada - eles são homens ágeis e majestosos - elas são grandes mulheres,
Apreciadores das calmarias dos mares e das tempestades dos mares,
Marinheiros de muitos navios, caminhantes de muitas milhas de terra,

Ponderadores e contempladores de tufos, flores, conchas da costa,
Dançarinos em danças de casamento, suaves ajudantes de crianças, portadores de crianças,
Viajantes em estações consecutivas, durante anos, os anos curiosos cada um emergindo do que o precedeu,
Viajantes com companheiros, a saber suas próprias distintas fases,
Ultrapassadores dos latentes dias irrealizados da infância,

Viajantes joviais com sua própria juventude,
Viajantes com sua virilidade barbuda e bem cristalizada,
Viajantes com sua feminidade, ampla, incomparável, contente,
Viajantes com sua própria sublime velhice de virilidade e feminidade,
Velhice, calma, expandida, ampla com a amplitude altiva do universo,
Velhice, fluindo livre com a deliciosa liberdade próxima da morte.

Vamos! ao que é sem fim como foi sem início,
Passar muita coisa, pisadas de dias, restos de noites,
Fundir tudo na viagem a que eles tendem,
e aos dias e noites a que eles tendem,
De novo os fundir no começo de viagens superiores,

Ver nada em lugar nenhum que tu não possas alcançar e ultrapassar,
Conceber nenhum tempo, mesmo distante, que tu não possas alcançar e ultrapassar,
Examinar nenhuma estrada que não se espicha e espera por ti, por longa que seja porém espicha e espera por ti,
Não ver nenhum ser, nem o de Deus nem outro qualquer, que também não vás lá,
Não ver nenhuma posse que tu não possas possuí-la, desfrutando tudo sem trabalho ou compra,

Pegar o melhor da fazenda do fazendeiro e da elegante quinta do rico e das castas bênçãos do casal bem-casado e das frutas de pomares e flores de jardins,
Levar para teu uso fora das compactas cidades quando as atravessas,
Carregar prédios e ruas contigo depois aonde fores,
Colher as mentes dos homens de seus cérebros conforme os encontras, colher o amor de seus corações,
Levar teus amantes na estrada contigo, por tudo que os deixas para trás,
Conhecer o universo em si como uma estrada, como muitas estradas, como estradas para almas viajantes.


Toda religião, todas as coisas sólidas, artes, governos — tudo que foi ou é aparente neste globo ou qualquer globo, descende em nichos e cantos ante a procissão de almas pelas grandes estradas do universo.
Do progresso das almas de homens e mulheres pelas grandes estradas do universo, todo outro progresso é o emblema e sustento necessário.

Para sempre vivos, sempre adiante,
Imponentes, solenes, tristes, retirados, confusos, furiosos, turbulentos, frágeis, insatisfeitos,
Desesperados, orgulhosos, afetuosos, doentes, aceitos por homens, rejeitados por homens,
Eles vão! eles vão! eu sei que eles vão, mas não sei aonde vão,
Mas sei que vão em busca do melhor—de algo ótimo.
Quem sejas, vem! ou homem ou mulher vem!

Não deves ficar dormindo e se distraindo aí na casa, embora a tenhas construído, ou embora tenha sido construída para ti.
Sai desse confinamento obscuro! Sai de trás da tela!
É inútil protestar, sei de tudo e o exponho.
Vê através de ti tão ruim quanto os demais,
Pelo riso, dança, refeição, cear, das pessoas,
Dentro de trajes e ornamentos, dentro desses rostos lavados e aparados,
Vê um secreto e silencioso asco e desespero.

Meu apelo é o apelo de batalha, nutro rebelião ativa,
Quem for comigo deve ir bem armado,
Quem for comigo vai com freqüência com alimento escasso, pobreza, inimigos zangados, deserções.

Vamos! a estrada está à nossa frente!
É segura — a experimentei — meus próprios pés a experimentaram bem — não te deténs!
Que o papel permaneça no atril não escrito, e o livro na estante não aberto!
Que as ferramentas permaneçam na oficina! que o dinheiro permaneça não ganho!
Deixa a escola em seu lugar! desconsidere o rogo do professor!
Que o pastor pregue em seu púlpito! que o advogado pleiteie no tribunal, e o juiz interprete a lei.

Camarada, te dou minha mão!
Te dou meu amor que vale mais que dinheiro,
Eu me dou a ti sem sermão ou lei;
Tu te darás a mim? virás viajar comigo?
Poderemos contar um com o outro enquanto vivermos?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Imagine a cena...





Rodolfo Pamplona Filho

Imagine a cena...
Eu, sozinha,
banho tomado,
camisola de seda
e uma taça de vinho...

Estou feliz por estar só
pois, neste momento,
poderei dormir tranqüila,
imaginando você ao meu lado
e me fazendo acreditar
que o que sinto
é o amor mais puro
e perfeito que já tive...

Sinto sua falta
e queria muito mesmo
estar aí com você....
Na verdade,
essa vontade
nunca vai passar
pois descobri em você
minha extensão...
minha essência
e meu maior prazer..

Pensa em mim, amor!
Eu, de minha parte,
não tiro você da cabeça,
nem do coração...

Salvador, 30 de outubro de 2010.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O livro sobre nada


Manoel de Barros

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

domingo, 17 de setembro de 2017

Para um amor secreto






Rodolfo Pamplona Filho

Querido
Você nem imagina como estou ligada em você...
Você nem imagina como estou ligada a você
Eu me emociono só de pensar
em como seria maravilhoso
ouvir nossas musicas com você...

Descobrir sua essência, além da casca,
fez despertar o amor e a ansiedade de estar perto.
Quero ficar com você em meu colo, vendo o por do sol até a lua iluminar sua face...
Quero fazer um cafuné, deslizando minha mão sobre seus cabelos, ate sentir sua pele...
Quero beijar seu rosto delicadamente, ate fazer você acreditar que não está sonhando...
Quero até mesmo brigar com você, só para ter o prazer da reconciliação...

Você tem um efeito perturbador em mim...
É um sentimento forte, que toma todo meu pensamento...
que me anestesia em alguns momentos
quando imagino nossas vontades reunidas...
E a única coisa que me faz melhorar é chorar...
mas é um choro de alívio e de esperança
de que, algum dia, poderemos
rir juntos e felizes...
...apenas por estar pertos um do outro.
...e você tentar me calar...
...e eu continuar falando que nem uma matraca...
...e você rir porque se diverte comigo...
...e porque não consigo disfarçar
meu nervosismo
de ter transformado
essa fantasia em realidade...

Você é parte de mim,
não como um agente externo,
mas como um complemento de mim mesmo.
Nosso amor não tem amarras, nem barreiras...
e é como um primeiro namoro...
no qual ficamos ávidos por um contato...
na palavra e no carinho...
Não consigo mais pensar na minha vida sem ter você.

Você está fora de todo tipo de definição.
Não posso dizer que é meu amigo,
nem amante, nem ficante,
nem pretendente, nem confidente...
não há rótulos....
Não somos nada disso e, dificilmente, alguém compreenderia esta relação.
Ela está fadada a permanecer apenas na publicidade de nossas almas e corações.

É como se você fosse eu...
como se meu pensamento estivesse em você.....
Por isso que me completa....
e ninguém me entende...
então ninguém entenderia você, dessa forma, na minha vida...

San Francisco, 25 de setembro de 2010.

sábado, 16 de setembro de 2017

Tratado geral das grandezas do ínfimo



Manoel de Barros

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Tem, mas acabou


Ter, tem, mas acabou
Ter, tem, mas ainda não chegou
Ter, tem, mas ainda está com o fornecedor
Ter, tem, mas está em falta
Ter, tem,



São Paulo, 18 de setembro de 2015.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sem Promessas


Rodolfo Pamplona Filho

Se a gente não tivesse planejado tanto...
Se envolvido tanto...
Se identificado tanto...
Talvez conseguisse uma vida sem promessas.

Se a gente não tivesse sonhado tanto...
Sorrido tanto...
Chorado tanto...
Talvez fizesse uma viagem sem turbulências.

Se a gente não tivesse desejado tanto...
Pensado tanto...
Adorado tanto...
Talvez não conhecesse o amor de verdade.

Salvador, 29 de maio de 2017.

domingo, 10 de setembro de 2017

Uma voz ganha corpo



Luciana Pimenta
Eu, mulher, uma voz aguda
silencio para ouvir
Eu mulher, escrevendo o silêncio
a história muda
o passado porvir
Eu, mulher, uma voz ganha corpo
para incorporar as vozes
caladas da noite.
Eu, mulher, violenta língua
violenta história
via lenta à míngua
Eu, mulher, soprano grave
Um sopro de dignidade.



sábado, 9 de setembro de 2017

Por um tempo...


Rodolfo Pamplona Filho

Por um tempo, hesitei em escrever.
Por um tempo, só pensarei em você.
Por um tempo, chorarei solitário pelos cantos.
Por um tempo, não verei os seus encantos.
Por um tempo, não farei vídeos de bom dia.
Por um tempo, sentirei a casa vazia.
Por um tempo, não haverá memes com Mateus.
Por um tempo, não terei os olhos seus.
Por um tempo, estarei somente à distância.
Por um tempo, lembrarei da sua infância.
Por um tempo, vou me olhar sozinho.
Por um tempo, ficarei sem seus gritinhos.
Por um tempo, estarei somente aqui
na torcida por você ser sempre feliz.


Salvador, 02 de setembro de 2017, dia do embarque de Marina para o intercâmbio no Canadá.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A AUSENTE



Vinicius de Moraes

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Trilha da Vida



Rodolfo Pamplona Filho

Ter o privilégio
de ver os ipês amarelos
e a linha de sedimentação
na beleza do paredão.
Renovar a energia
no banho de água fria
na imersão da natureza
na busca da certeza
de que há mais a se viver...
Ter a alma aventureira
no banho de cachoeira
permite encontrar
um sentido para lutar...
O apoio do cajado
ou a firmeza do braço dado
ajudam a enfrentar
cada passo a tomar...
Nem sempre dá
para andar e falar,
mas é preciso aproveitar
a passagem
e a paisagem,
sob pena de perder
o mirante
e o mágico instante
de ver o por do sol...
É possível ir a todos os pontos,
mas nem todos têm fácil acesso!
É preciso saber o momento
de poder seguir adiante!
É vital tomar a decisão
do que se fazer no presente,
com olhos no futuro,
sem vergonha do passado.
Quem é bom em uma coisa
pode não ser em outra
e até o mais fraco
pode ter algo a colaborar.
Nem todos reagem da mesma forma
no correr da sua rota,
no receio das subidas
e no medo das descidas
na trilha de sua própria vida:
na empolgação dos animados,
na desilusão dos fracassados
e na inércia dos acovardados
de quem veio à vida
e não descobriu o que fazer.
Mas o rio segue seu curso
até encontrar o seu destino...

Chapada dos Guimarães, 19 de agosto de 2017.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Encontro



Joana Ferraz

Desde a primeira vez que ganhei aquele abraço, eu sabia. Sabia que iria precisar dele mais vezes, que sentiria de longe a lembrança do momento me encostando.  Foi na varanda, ao vento das árvores grandes que cercam o primeiro rio. O rio que por causa dele estou aqui, estávamos ali. E há muito imaginava o momento, pintando cenas no corpo do desejo. Quais cores fariam presença? Espiei o quarto, vi as telas, achei estranhas. Ou não entendi muito bem. Deve ser porque o sorriso doce também traz confusão. “Agora te conheço mais”.  Depois as mãos pesadas me seguraram as costas e o abraço tocou todas as partes do meu corpo. Era como se estivesse em uma torre cercada de lua e de nada, onde ao longe eu via a mesma cena comum das minhas janelas.  Minha cidade então se transformou num sítio gigante, vazio e afastado, porque o beijo era bom. Porque a língua brincou nas esquinas da minha boca e a vontade reencontrou as florestas que já existiram.

O vestido solto só podia ser de propósito, a roupa desses encontros são as peles.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Deserto


Rodolfo Pamplona Filho


Minha vida se torna um deserto,
se não consigo estar com você...
Por dentro, impera o tédio
e eu sofro por não poder...
... te amar
... te abraçar
... te lançar contra a parede
... e até chamar para brigar...

Agora, eu me valeria de tudo, amado,
para poder estar em seus braços,
sentir todo seu cuidado
e me deleitar nos seu afagos...
E a febre, com certeza, subiria,
mas, não, pela doença instalada,
e, sim, pelo ardor que se cultiva
dessas nossas vidas separadas....

Salvador, 25 de outubro de 2010.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Poeminha do Contra



Mário Quintana 
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

domingo, 3 de setembro de 2017

Natureza


Rodolfo Pamplona Filho 

Quando as cores da aquarela
Se tornarem uma só
Quando a vida, então bela,
Virar fogo, virar pó

Quando o verde virar cinza
E o céu não for anil
Vida não era mais vida,
Homem-bicho será vil

Quando o sangue derramado
Escorrer por minha mão
Lembrarei que, algum dia,
Já vivi em comunhão

E era belo, e era lindo
E era tudo o meu viver:
Homem-planta, homem-flor,
Homem-homem, Homem-ser

Não sabia que havia
Vida pura e sem dor
Bicho e homem, seres iguais,
Já viveram com amor

(1990)

sábado, 2 de setembro de 2017

Pedaço de mim



Chico Buarque

Notas
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor


Adeus

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Rompendo


Rodolfo Pamplona Filho

E, de repente, o silêncio!!!
E o que era unidade
virou dois corpos abraçados
(mas não era a mesma coisa!)
E o silêncio persiste!!!
Palavras são emitidas,
mas parece não haver som
Confesso: estou com medo
(ela também!)
Medo de quê???
Medo de perdê-la
e nunca mais tê-la...
... de volta ... em meus braços
O rádio está ligado,
mas o silêncio continua... (insuportável!!!)
Fala-se sobre qualquer coisa,
mas o silêncio continua...
Será o fim?
Ou será apenas a explosão de outra neurose?
Enquanto escrevo,
meu corpo sua e treme!
Será febre?
Será medo?
Será que vou conseguir encontrar
alguém que eu goste de abraçar
alguém com quem eu possa conversar
alguém que eu possa amar,
sem ser você, amiga?
Acho difícil,
Acho impossível,
acho insuportável!
Mas, então, por que, meu Deus, por que?
Por que meu coração está confuso desse jeito?

Se eu a amo,
por que hesito?
Se não a amo,
por que existo?
Vejo seus olhos marejados
Sinto que ela vai chorar.
Se tenho vontade, por que não grito logo que a quero?
que a amo?
que a desejo?
Porque...
... sou imaturo
... sou um idiota
... sou influenciado por palavras que não vem da minha boca
nem da minha alma
nem do meu coração.
Mas, mesmo assim,
e por isso mesmo,
eu hesito quando
quando tudo seria bem mais fácil
e bem mais simples
se eu (mente, alma e coração)
apenas dissesse:

Meu amor, quero ficar contigo o resto de minha vida!

(11.10.92)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Velho E A Flor



Vinicius de Moraes

Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.

Ninguém sabia me dizer,
Eu já queria até morrer
Quando um velhinho
Com uma flor assim falou:

O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta
em pétalas de amor.


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Cadáver Vivo



Rodolfo Pamplona Filho


Acordar, comer
Banhar-se, vestir
Trabalhar, beber
Deslocar-se, dormir
Não saber o que mais fazer?
Quem sabe, talvez, viver?
Ver que um dia passa
sem, de nada, achar graça
é finalmente perguntar:
será que morri e
me esqueceram de enterrar?


Salvador, 13 de junho de 2013, após uma sessão de analise junguiana.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

SINO DE CARRANCAS


Helena Maria De Oliveira Siqueira

Não te vejo ...
mas te escuto ...
te escuto na calada da noite ...
te escuto na aurora ...
no correr do dia ...
te escuto quando chove ...
quando desperta os pássaros e me desperta também ...
Te escuto quando você eleva sua voz aos céus e me presenteia com a Ave Maria ...
Te escuto até mesmo quando alongas minhas noites e diminuis os meus dias ...
quando aceleras ou retardas os meus passos ...
Te escuto quando és o mensageiro de boas e de más notícias ...
Não te vejo ...
mas o nosso diálogo é harmonioso ...
você fala ...
eu te escuto ...
e nossa relação é de vida eterna ...
Te escuto quando só você me vê ...
Te escuto ainda quando não me vês porque estas meu coração  ...