terça-feira, 17 de outubro de 2017

Reforma Trabalhista


Cyntia Possídio

Deram-me vinte minutos para falar do meu tema,
Mas a verdade é que nele enxergo outro problema
De amplitude maior do que ousei supor,
E a partir destes versos tentarei lhes expor.
Se nos dedicamos a analisar pormenorizadamente a questão,
Veremos que a disputa dá-se entre os poderes da Nação.
Judiciário e Legislativo, como se isso fosse possível,
Travam uma batalha em torno do Direito, invocando seus super poderes para prevalecer o que pensam de qualquer jeito.
Aos que têm jurisdição opõem-se aqueloutros com a legislação,
Trocando em miúdos o que querem dizer talvez façam os homens de toga a lei obedecer.
À provocação que lhes é feita, de modo reativo,
Respondem os homens de preto com ativismo,
E nesse cabo de guerra flagrantemente instituído,
Destina-se à sociedade o maior prejuízo.
Haveríamos, em pleno século XXI, de estarmos discutindo o feixe de poderes que lhes é atribuído?
Ou deveríamos estar aprimorando os direitos que já foram concebidos?
No assunto em questão não há novidade: a matéria foi posta sem discussão dar margem.
O papel dos sindicatos foi constitucionalmente reconhecido e Convenções da OIT isso reverberaram no mesmo sentido.
Mas no vazio normativo ou inação dos atores sociais investidos da função,
Não foram poucas as vezes que a jurisdição deu lugar à inovação.
A proliferação de normas apartadas do processo legislativo
Resultou num sistema de segurança jurídica desprovido,
Deixando sem rumo, no caso do Direito do Trabalho, sindicato, empregador e empregado.
E para corrigir essa distorção que se revela mais ampla, é preciso dizer o que já está dito,
Chegando ao extremo de se criar até princípio,
Como forma de criar uma barreira de contenção, limitando o Judiciário em sua atuação.
E nessa incessante peleja, há quem na reforma nada de bom veja!
Blocos antagônicos se formam, dos que não gostam e dos que com ela concordam,
Turvando, asim, a nossa visão, tirando-nos o foco do que está em questão:
Não é a prevalência do negociado sobre o legislado em matéria trabalhista,
Mas aonde chegaremos com essa postura beligerante e maniqueísta!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Ele sabe que nunca serei ela


Rodolfo Pamplona Filho 
Eu o perdoo
por ter medo
Eu não perdoo
por ser covarde
Eu não resisto
a me entregar ao prazer
do seu corpo
só para me divertir
e me perco
na armadilha do amor

Se eu fosse ele,
eu nunca me deixaria ir...
Mas não sou...
Eu deveria parar
de lembrar que
nunca serei ela

Odeio amar você
Não consigo colocar
mais ninguém
acima de você...
Completamente sozinha,
As vezes você me mata lentamente...
Talvez o erro seja meu
Eu só queria ser feliz...

Salvador, 17 de abril de 2017.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A Minha Felicidade



Friedrich Nietzsche

Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.

domingo, 1 de outubro de 2017

sábado, 30 de setembro de 2017

Minha vida



Mario Quintana

Minha vida não foi um romance.
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa,
De encanto,
De medo...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Bom dia, flores do dia! (Soneto)


Rodolfo Pamplona Filho

Como é bom celebrar
a chegada de um novo dia,
sem esconder a alegria
de os amigos reencontrar!

É maravilhoso ter o prazer
de, a cada manhã, saudar
aqueles que saem para trabalhar,
estudar ou simplesmente viver

Se houve tristeza no dia anterior,
pense apenas que já passou,
pois todo mal se esvazia

quando um sorriso ilumina a face
e a frase mais linda nasce:
"Bom dia, flores do dia!"


Guayaquil, 01 de outubro de 2013.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O Que Você Faria


Lenine
 
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Meu amor
O que você faria
Se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia?
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia

Meu amor
O que você faria
Se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Corria pr'um shooping center
Ou para uma academia?
Prá se esquecer que não dá tempo
O tempo que já se perdia

Meu amor
O que você faria
Se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Andava pelado na chuva?
Corria no meio da rua?
Entrava de roupa no mar?
Trepava sem camisinha?

Meu amor
O que você faria?
O que você faria?
Abria a porta do hospício?
Trancava da delegacia?
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria?

terça-feira, 26 de setembro de 2017

CÂNTICO



VINICIUS DE MORAES

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

Rio de Janeiro , 1946

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

domingo, 24 de setembro de 2017

Das utopias.



Mário Quintana


Se os sonhos são inatingíveis,

Não é motivo para não quere-los

Tristes dos caminhos se não fora

A presença distante das estrelas...

sábado, 23 de setembro de 2017

Musicando a Tristeza


Rodolfo Pamplona Filho

Musiquemos a sensação...
A tristeza é inspiração...
O que machuca também ensina
e o sofrimento não precisa
ser uma eterna sina...
Somos movidos  a amor
e - porque não dizer? - a dor...
Somos o Som e a Dor...

Brasília, 14 de março de 2013

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Se Todos Fossem Iguais A Você



Tom Jobim

Vai tua vida

Teu caminho é de paz e amor

A tua vida

É uma linda canção de amor

Abre os teus braços e canta

A última esperança

A esperança divina

De amar em paz


Se todos fossem

Iguais a você

Que maravilha viver

Uma canção pelo ar

Uma mulher a cantar

Uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir

A beleza de amar

Como o sol, como a flor, como a luz

Amar sem mentir, nem sofrer


Existiria a verdade

Verdade que ninguém vê

Se todos fossem no mundo iguais a você

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Diálogo em Baianês


Rodolfo Pamplona Filho

Ó o auê aí ó!
Digaí!
Você está por cima da carne seca, véi!
Colé, véi! Você vê os pulos que dou, mas não vê os tombos que tomo...
Você é que é de fritar bolinho e beber o caldo...
Não acerte seu relógio pelo dele, pois, na hora do vamos ver, todo mundo se pica...
Valeu, véi! Vou chegando...

Puerto Varas-Chile, 02 de julho de 2012.

Musicando a Tristeza


Rodolfo Pamplona Filho

Musiquemos a sensação...
A tristeza é inspiração...
O que machuca também ensina
e o sofrimento não precisa
ser uma eterna sina...
Somos movidos  a amor
e - porque não dizer? - a dor...
Somos o Som e a Dor...

Brasília, 14 de março de 2013

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Canção da Estrada Aberta



WALT WHITMAN

A pé e com o coração iluminado me entrego à estrada aberta,
Saudável, livre, o mundo à minha frente,
A longa trilha de terra levando aonde eu escolher.

Daqui em diante não peço mais boa-sorte, boa-sorte sou eu mesmo.
Daqui em diante eu não lamento mais, eu não adio mais, não careço de nada;

Forte e contente percorro a estrada aberta.
A terra, isso é o bastante,
Não quero as constelações mais próximas,
Sei que estão muito bem onde estão,
Sei que elas bastam àqueles que lhes pertencem.

(Ainda aqui carrego meus velhos fardos deliciosos,
Os carrego, homens e mulheres, os carrego comigo aonde quer que vá,
Juro que é impossível me livrar deles,
Sou preenchido por eles e os preencherei em troca.)

A terra a se expandir à direita e à esquerda,
pintura viva, cada ponto com sua luz melhor,
a música descendo onde faz falta
e em silêncio onde sua falta não se sente,
a alegre e fresca sensação da estrada.

A partir de agora me ordeno liberado de limites e linhas imaginárias,
Indo aonde eu queira, meu próprio mestre total e absoluto,
Ouvindo outros, considerando bem o que dizem,
Parando, buscando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, mas com vontade inegável, me despindo das amarras que me reteriam.

Inalo grandes porções de espaço,
O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.
Tudo parece belo para mim

Posso repetir a homens e mulheres
Fizestes tal bem a mim que eu faria o mesmo a vós,
Quem me negar não me perturbará,
Quem me aceitar ele ou ela será abençoado e me abençoará.

Agora vejo o segredo de fabricação das melhores pessoas,
É crescer ao ar livre e comer e dormir com a terra.
Eis o teste de sabedoria,
Sabedoria não é finalmente testada em escolas,
Sabedoria é da alma, não é suscetível de prova, é sua própria prova,
É a certeza da realidade e imortalidade das coisas, e a excelência das coisas;

Agora reexamino filosofias e religiões,
Elas podem se revelar bem em salas de conferência, contudo não revelar nada sob as amplas nuvens e junto a paisagem e fluidas correntes.

Eis realização, eis um homem apurado —ele realiza aqui o que ele tem nele,
O passado, o futuro, majestade, amor—se estiverem vazios de ti, estás vazio deles.

A emanação da alma vem de dentro por portões copados, sempre questões provocantes,
Por que há esses anseios? Por que há esses pensamentos na escuridão?
Por que há homens e mulheres que enquanto estão junto a mim a luz do sol expande meu sangue?
Por que quando me deixam minhas flâmulas de júbilo afundam chatas e frouxas?
Por que há árvores sob as quais nunca ando e, contudo, fazem com que grandes e melodiosos pensamentos desçam sobre mim?

Aqui se eleva o fluido e aderente caráter,
O fluido e aderente caráter é o frescor e doçura de homem e mulher,
(As ervas matinais brotam não mais frescas e mais doces todo dia de suas raízes, do que ele brota fresco e doce continuamente de si mesmo.)

Vamos! quem quer que sejais, vinde viajar comigo!
Em viagem comigo encontrarei o que não cansa nunca.
A terra não cansa nunca,
a Natureza é rude e a princípio incompreensível,
não percais a coragem, continuai, existem coisas divinas bem escondidas,
eu vos juro que existem coisas divinas mais belas
do que possam as palavras dizer.

Não devemos parar aqui,
por mais doces que sejam estas coisas arrumadas,
por mais conveniente que a habitação pareça,
não podemos permanecer aqui;
por mais abrigado que seja o porto e por mais calmas as águas,
aqui nós não devemos ancorar;
por mais acolhedora que seja a hospitalidade à nossa volta,
não nos é permitido desfrutá-la
senão por bem pouco tempo.

Vamos! com poder, liberdade, a terra, os elementos,
Saúde, desafio, júbilo, auto-estima, curiosidade;

(Eu e os meus não convencemos por argumentos, símiles, rimas,
Convencemos por nossa presença.)

Ouve! Serei honesto convosco:
não ofereço os macios prêmios de sempre,
mas ofereço ásperos prêmios novos.

deveis habituar-vos aos sorrisos irônicos e às zombarias
daqueles que deixardes para trás,
aos acenos de amor que receberdes apenas respondereis
com apaixonados beijos de despedida,
não permitirás a retenção dos que esticam suas mãos estendidas em tua direção.

Vamos! em busca dos grandes companheiros, e pertencer a eles!
Eles também estão na estrada - eles são homens ágeis e majestosos - elas são grandes mulheres,
Apreciadores das calmarias dos mares e das tempestades dos mares,
Marinheiros de muitos navios, caminhantes de muitas milhas de terra,

Ponderadores e contempladores de tufos, flores, conchas da costa,
Dançarinos em danças de casamento, suaves ajudantes de crianças, portadores de crianças,
Viajantes em estações consecutivas, durante anos, os anos curiosos cada um emergindo do que o precedeu,
Viajantes com companheiros, a saber suas próprias distintas fases,
Ultrapassadores dos latentes dias irrealizados da infância,

Viajantes joviais com sua própria juventude,
Viajantes com sua virilidade barbuda e bem cristalizada,
Viajantes com sua feminidade, ampla, incomparável, contente,
Viajantes com sua própria sublime velhice de virilidade e feminidade,
Velhice, calma, expandida, ampla com a amplitude altiva do universo,
Velhice, fluindo livre com a deliciosa liberdade próxima da morte.

Vamos! ao que é sem fim como foi sem início,
Passar muita coisa, pisadas de dias, restos de noites,
Fundir tudo na viagem a que eles tendem,
e aos dias e noites a que eles tendem,
De novo os fundir no começo de viagens superiores,

Ver nada em lugar nenhum que tu não possas alcançar e ultrapassar,
Conceber nenhum tempo, mesmo distante, que tu não possas alcançar e ultrapassar,
Examinar nenhuma estrada que não se espicha e espera por ti, por longa que seja porém espicha e espera por ti,
Não ver nenhum ser, nem o de Deus nem outro qualquer, que também não vás lá,
Não ver nenhuma posse que tu não possas possuí-la, desfrutando tudo sem trabalho ou compra,

Pegar o melhor da fazenda do fazendeiro e da elegante quinta do rico e das castas bênçãos do casal bem-casado e das frutas de pomares e flores de jardins,
Levar para teu uso fora das compactas cidades quando as atravessas,
Carregar prédios e ruas contigo depois aonde fores,
Colher as mentes dos homens de seus cérebros conforme os encontras, colher o amor de seus corações,
Levar teus amantes na estrada contigo, por tudo que os deixas para trás,
Conhecer o universo em si como uma estrada, como muitas estradas, como estradas para almas viajantes.


Toda religião, todas as coisas sólidas, artes, governos — tudo que foi ou é aparente neste globo ou qualquer globo, descende em nichos e cantos ante a procissão de almas pelas grandes estradas do universo.
Do progresso das almas de homens e mulheres pelas grandes estradas do universo, todo outro progresso é o emblema e sustento necessário.

Para sempre vivos, sempre adiante,
Imponentes, solenes, tristes, retirados, confusos, furiosos, turbulentos, frágeis, insatisfeitos,
Desesperados, orgulhosos, afetuosos, doentes, aceitos por homens, rejeitados por homens,
Eles vão! eles vão! eu sei que eles vão, mas não sei aonde vão,
Mas sei que vão em busca do melhor—de algo ótimo.
Quem sejas, vem! ou homem ou mulher vem!

Não deves ficar dormindo e se distraindo aí na casa, embora a tenhas construído, ou embora tenha sido construída para ti.
Sai desse confinamento obscuro! Sai de trás da tela!
É inútil protestar, sei de tudo e o exponho.
Vê através de ti tão ruim quanto os demais,
Pelo riso, dança, refeição, cear, das pessoas,
Dentro de trajes e ornamentos, dentro desses rostos lavados e aparados,
Vê um secreto e silencioso asco e desespero.

Meu apelo é o apelo de batalha, nutro rebelião ativa,
Quem for comigo deve ir bem armado,
Quem for comigo vai com freqüência com alimento escasso, pobreza, inimigos zangados, deserções.

Vamos! a estrada está à nossa frente!
É segura — a experimentei — meus próprios pés a experimentaram bem — não te deténs!
Que o papel permaneça no atril não escrito, e o livro na estante não aberto!
Que as ferramentas permaneçam na oficina! que o dinheiro permaneça não ganho!
Deixa a escola em seu lugar! desconsidere o rogo do professor!
Que o pastor pregue em seu púlpito! que o advogado pleiteie no tribunal, e o juiz interprete a lei.

Camarada, te dou minha mão!
Te dou meu amor que vale mais que dinheiro,
Eu me dou a ti sem sermão ou lei;
Tu te darás a mim? virás viajar comigo?
Poderemos contar um com o outro enquanto vivermos?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Imagine a cena...





Rodolfo Pamplona Filho

Imagine a cena...
Eu, sozinha,
banho tomado,
camisola de seda
e uma taça de vinho...

Estou feliz por estar só
pois, neste momento,
poderei dormir tranqüila,
imaginando você ao meu lado
e me fazendo acreditar
que o que sinto
é o amor mais puro
e perfeito que já tive...

Sinto sua falta
e queria muito mesmo
estar aí com você....
Na verdade,
essa vontade
nunca vai passar
pois descobri em você
minha extensão...
minha essência
e meu maior prazer..

Pensa em mim, amor!
Eu, de minha parte,
não tiro você da cabeça,
nem do coração...

Salvador, 30 de outubro de 2010.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O livro sobre nada


Manoel de Barros

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

domingo, 17 de setembro de 2017

Para um amor secreto






Rodolfo Pamplona Filho

Querido
Você nem imagina como estou ligada em você...
Você nem imagina como estou ligada a você
Eu me emociono só de pensar
em como seria maravilhoso
ouvir nossas musicas com você...

Descobrir sua essência, além da casca,
fez despertar o amor e a ansiedade de estar perto.
Quero ficar com você em meu colo, vendo o por do sol até a lua iluminar sua face...
Quero fazer um cafuné, deslizando minha mão sobre seus cabelos, ate sentir sua pele...
Quero beijar seu rosto delicadamente, ate fazer você acreditar que não está sonhando...
Quero até mesmo brigar com você, só para ter o prazer da reconciliação...

Você tem um efeito perturbador em mim...
É um sentimento forte, que toma todo meu pensamento...
que me anestesia em alguns momentos
quando imagino nossas vontades reunidas...
E a única coisa que me faz melhorar é chorar...
mas é um choro de alívio e de esperança
de que, algum dia, poderemos
rir juntos e felizes...
...apenas por estar pertos um do outro.
...e você tentar me calar...
...e eu continuar falando que nem uma matraca...
...e você rir porque se diverte comigo...
...e porque não consigo disfarçar
meu nervosismo
de ter transformado
essa fantasia em realidade...

Você é parte de mim,
não como um agente externo,
mas como um complemento de mim mesmo.
Nosso amor não tem amarras, nem barreiras...
e é como um primeiro namoro...
no qual ficamos ávidos por um contato...
na palavra e no carinho...
Não consigo mais pensar na minha vida sem ter você.

Você está fora de todo tipo de definição.
Não posso dizer que é meu amigo,
nem amante, nem ficante,
nem pretendente, nem confidente...
não há rótulos....
Não somos nada disso e, dificilmente, alguém compreenderia esta relação.
Ela está fadada a permanecer apenas na publicidade de nossas almas e corações.

É como se você fosse eu...
como se meu pensamento estivesse em você.....
Por isso que me completa....
e ninguém me entende...
então ninguém entenderia você, dessa forma, na minha vida...

San Francisco, 25 de setembro de 2010.

sábado, 16 de setembro de 2017

Tratado geral das grandezas do ínfimo



Manoel de Barros

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Tem, mas acabou


Ter, tem, mas acabou
Ter, tem, mas ainda não chegou
Ter, tem, mas ainda está com o fornecedor
Ter, tem, mas está em falta
Ter, tem,



São Paulo, 18 de setembro de 2015.