quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Amar








Carlos Drummond Andrade


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Certezas da Vida






Rodolfo Pamplona Filho


Na vida, há mais dúvidas
do que certezas...
Não se sabe quanto tempo se vive,
nem o que se terá às mesas...
Uma convicção, porém,
que todos certamente têm
é que impostos pagarão
e, um dia, morrerão...
Eu, porém, tenho a sorte
de mais uma certeza ter:
que nem terminará a morte
o meu amor por você...

Santiago/Chile, 27 de junho de 2012.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Poema de Sete Faces






Carlos Drummond Andrade


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

domingo, 15 de setembro de 2019

Cachorro Vira-Lata








Rodolfo Pamplona Filho

Sou um cachorro vira-lata,
solto nas ruas,
em busca de comida
e de carinho...
Procurando um refúgio,
onde possa ser amado
e não ter mais subterfúgio
para me sentir abandonado...

Puerto Varas-Chile, 02 de julho de 2012.

sábado, 14 de setembro de 2019

Minha moeda







Uma riqueza eu guardava
Passei agora a distribuir
Sou artista das palavras
Que foram depositadas em mim

Creditadas desde o ventre
Por aquela que ao mundo me fez vir
Hieróglifos de amor
Compreendidos pelo sentir

De moeda em moeda
Que da conta me perdi
Sou um banco de palavras
De tão rica que me senti

A riqueza acumulada
Eu passei a dividir
Pois desta vida nada se leva
Vale aquilo que vivi

Quando no papel assento um poema
Sinto: com o Mundo reparti
A fortuna que de graça
De tantos outros recebi

E, se pensas, só foi da família
Que riquezas recebi...
Acharás na Antiga História
Traços do saldo creditado em mim

Sendo assim passa a ser tua
Minhas posses repasso a ti.
Pelos poemas, deposito versos
Transferências para banco que habita em ti.

Negra Luz

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Soneto do Último Romance...






Rodolfo Pamplona Filho



Você é meu último romance...
Você é, na realidade,
o meu primeiro e único lance,
a quem me entrego de verdade...

Quero amar como se não houvesse
qualquer impedimento ou estrutura,
pois minha alma envelhece,
se não me entrego à doce loucura

de apenas em você pensar...
de nunca me arrepender de tentar
aproveitar cada sensação vivida,

após alguém finalmente encontrar
com quem possa compartilhar
a cama, a palavra e a vida.

Salvador, 09 de junho de 2012.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Arrrrhhh






Arrrrhhh

Rastro
Rasteira
Retada

Raiva
Razão
Revoltada

Rumo
Rumores
Retomada

Rir?
Rota
Rasgada?

Rezar
Reencontro
Risada

Ranhuras
Resistência
Renovada

                 Negra Luz

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Tempero




Rodolfo Pamplona Filho

A fome é o tempero da comida
A saudade é o tempero da paixão

Salvador, 14 de março de 2019.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

DO DIREITO AO TRANSPORTE E À MOBILIDADE






Jorge da Rosa

(ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA)


Transporte e mobilidade
Direito da pessoa com deficiência
Igualdade de oportunidades
Estatuto referência

Identificação e eliminação
De todos os obstáculos
Barreiras não podem não
Pois são tristes espetáculos

Vagas reservadas
Próximas aos acessos de circulação
Devidamente sinalizadas
De acordo com a legislação

Veículos de transporte coletivo
Com acessibilidade
Ato inclusivo
Direito de mobilidade.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Sobre Pais e Filhos



Rodolfo Pamplona Filho

Desapontar pais
é um rito de passagem
O Diabo fez disso
um estilo de vida

Salvador, 12 de janeiro de 2019.

domingo, 8 de setembro de 2019

Todo o teu espaço



Mario Quintana

Quero todo o teu espaço
e todo o teu tempo.
Quero todas as tuas horas
e todos os teus beijos.
Quero toda a tua noite
e todo o teu silêncio.

sábado, 7 de setembro de 2019

Sobre a Medicina



Rodolfo Pamplona Filho

Entre a investigação
e a medicação,
há muito mais
do que se pensava atrás:
antes do diagnóstico,
aquém do prognóstico,
há um campo em que a razão
convive com a pura emoção
de ultrapassar a observação:
respeito é atenção,
verdadeira dedicação
não somente ao que se tem,
mas no aceitar de onde vem,
para onde vai ou se crê no além.
Afinal, cuidar e informar
são dois lados de um espelho
em que a autonomia é o reflexo
do direito de ser o que se quer,
o que se ama e o que se é.

No vôo para Vitória/ES, 06 de junho de 2019.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Mar do amor



Negra Luz

A lâmina mais dura contorce
Diante das tuas ondas ocultas
A rocha, ora rochedo, por insistência pura
Invade os muros: liberta
O limite o ar: a janela
Não satisfeito, submerge
As civilizações anoitecem
Achavam-se cais
Eram atóis
Farol no oceano
Ilhas...
Arquipélagos humanos
Os teus sais: invasão, devassa
Pretensa a inteligência atua
Reforça quebra mares
Que diante dele flutuam
Nada foge da tua mão
Seixos em qualquer direção
Memórias de um mundo transformado
Pela onda profunda do sagrado mar do amor.


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Pacto Social


Rodolfo Pamplona Filho

No dia em que
o homem se submeteu
a fazer o que prometeu
finalmente aprendeu
que há mais no mundo
do que seu próprio Eu.

No dia em que
o ódio e o amor
superaram seu temor
e souberam dar valor
à força da paz
transcenderam sua própria dor.

No dia em que
se descobriu que a aliança
transcende os que estão na dança
renasceu a esperança
de que toda tempestade
finda com a sua própria bonança.

06 de maio de 2017, no voo para São Paulo.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Amor Violeta



Adélia Prado

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.


(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 83)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Amores Estranhos



Rodolfo Pamplona Filho

Cada um tem uma forma de amar e também de receber o amor.
Há quem seja mais carente e precise de um amor completo.
Aquele que é amigo, companheiro, amante...
Um amor que entenda, que acompanhe as loucuras, que queira estar junto em qualquer lugar, de qualquer jeito...
Porém, há amores diferentes...
Verdadeiramente estranhos...
Como alguém que diz que ama pode ver o outro triste e não fazer nada?
Como alguém que diz que ama não faz algo para agradar o seu amor?
Como alguém que diz que ama pode deixar o outro sozinho?
Mas, mesmo assim, esse alguém diz que ama...
e devia amar mesmo.
Mas são formas de amar diferentes de quem ama intensamente e querer ser amado...
São amores estranhos.

Salvador, 31 de julho de 2019.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Canção




Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

domingo, 1 de setembro de 2019

Eu te desejo um ótimo dia!



Eu te desejo um ótimo dia!
Sem rugas na testa
Sem desperdício de energia
Que tudo flua bem no seu trabalho
Que se alimente bem
Que termine o dia de hoje
com tudo organizado
e a sensação de que
acordar valeu a pena

Salvador, 14 de março de 2019.

sábado, 31 de agosto de 2019

Timidez


Cecília Meireles

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Era só um eu te amo



Rodolfo Pamplona Filho

Era só um eu te amo
Um eu te amo nunca é só
Um eu te amo nunca é pouco
O meu eu te amo para você é o cotidiano das nossas vidas
Ele é o sangue que corre em Nossas veias
Ele é o ar que inflama nossos pulmões
É a vontade de viver
É a sede de ser feliz
É a certeza de que Amor existe
É a certeza de que Amor existe

Salvador, 15 de janeiro de 2019.