quarta-feira, 28 de junho de 2017

Noite de núpcias



Padre Antônio Thomaz



Noite de gozo, noite de delícias,
Aquela em que a noiva carinhosa,
Vai do seu noivo receber carícias
No leito sobre a colcha cor de rosa.

Sonha acordada coisa fictícias,
Volvendo-se sobre o leito voluptuosa,
E o anjo de amor e de carícias
Fecha a cortina tênue e vaporosa.

Ouvem-se beijos tímidos, ardentes,
Por baixo da cortina assim velada,
Em suspiros tristes e dolentes.

Se fitássemos a noiva agora exangue,
Vê-la-íamos bem triste e descorda
E o leito nupcial banhado em sangue.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Ronin




Rodolfo Pamplona Filho

Samurai errante
que não serve
a nenhum mestre,
além de si mesmo...
Será tão diferente
do resto da humanidade?

No Vôo do Equador para o Brasil, em 05 de outubro de 2013, lendo sobre Wolverine e a tradição japonesa dos samurais...


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Deus Homo




Padre Antônio Thomaz


Amo-Te, oh Cristo, dessa cruz pendente,
Varado o coração de acerbas dores,
Do teu suplício os bárbaros rigores
Sofrendo humilde e resignadamente.

Porque assim te revelas claramente
Deus dos filhos de Eva sofredores,
Apto ouvir os brados e os clamores
Da miseranda e triste humana gente.

Folgo em saber, nas horas de amargura,
Que um Deus de natureza igual à minha
Sofresse a mesma dor que me tortura.

Não quadra um Deus feliz ao desgraçado;
Por isso mesmo aos homens não convinha
Senão somente um Deus crucificado.

domingo, 25 de junho de 2017

Não tem jeito











Rodolfo Pamplona Filho

Não há como
Não tem jeito
Ainda me assusto
com toda afirmação peremptória
de inevitabilidade de um resultado...

Não há como
Não tem jeito
O que é mera tosca impressão
chega como uma determinação
de uma profecia consumada...

Não há como
Não tem jeito
Como posso lidar
com uma realidade
impossível de se mudar,
só porque não se quer...


Rio de Janeiro, 14 de outubro de 2013, pensando em certas companhias...


sábado, 24 de junho de 2017

Gelo Polar



Venceslau Queiroz


Role do tempo na limosa penha

Um ano mais, e venha mais um ano,

Role este ainda, e mais um outro venha...


Que importa! se no seio teu não medra

Desengano nenhum, nenhum engano,

Pois que ele abriga um coração de pedra.



A indiferença é tanta, é tanta a neve

Que no teu seio álgido se acama,

Do teu amor é tão gelada a chama,

Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...



E se eu te desse o meu amor, em breve

Sei que se tornaria, altiva dama,

O meu amor, a minha ardente chama,

— Um urso branco uivando sobre a neve.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Meus Direitos...



Rodolfo Pamplona Filho


Desconfie!
Mas desconfie mesmo
de quem não liga
para o contexto
em que está inserido
e só alega o pretexto
de seus direitos
ou da sua peculiar situação...
Há poucas coisas
tão irritantes
quanto quem repete
e exibe
suas prerrogativas,
como se fosse
um passaporte
para o destaque,
que só a si pertencesse,
que só a si fosse importante...
Quando todos tiverem prioridade
- leia-se, privilégios! -
ninguém terá nada...

Salvador, na primeira semana de outubro de 2013, mas pensando no Equador, ou em outras experiências recentes da minha vida...


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Ofertório




Luis Alberto Costa Guedes


Antes de começares ler

Estes pedaços de vida,

Estas lágrimas de saudade,

Estes soluços de agonia,

Estes sorrisos de esperanças

Estas ironias existenciais

que te dedico,

quero fazer meu "OFERTÓRIO"

aos entes que me inspiraram...

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Tipo Assim



Rodolfo Pamplona Filho

Beleza?
Ah, tá!
E ai!
De boa!
Tipo assim:
Sei lá!
Valeu!
Então, tá!


Salvador, 07 de outubro de 2013, avaliando um seminário de Responsabilidade Civil...


terça-feira, 20 de junho de 2017

Pivete - 1978

Francis Hime - Chico Buarque









No sinal fechado
ELe vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé
Pinta na janela
Batalha algum trocado
Aponta um canivete
E at;é
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Sobe o Borel
Meio se maloca
Agita numa boca
Descola uma mutuca
E um papel
Sonha aquela mina, olerê
Prancha, parafina, olará
Dorme gente fina
Acorda pinel

Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Nané
Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Na contramão
Dança pára-lama
Já era pára-choque
Agora ele se chama
Emersão
Sobe no passeio, olerê
Pega no recreio, olará
Não se liga em freio
Nem direção

No sinal fechado
Ele transa chiclete
E se chama pivete
E pinta na janela
Capricha na flanela
Descola uma bereta
Batalha na sarjeta
E tem as pernas tortas

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Quando a paixão acabar



Rodolfo Pamplona Filho

Quando a paixão esfriar
e só o amor ficar,
duas vezes vou pensar
antes de me revoltar
com a comodidade
que vem com a idade
ou com a rotina
de usar a mesma cortina
ou do uso crítico da ironia
para combater a monotonia.

Quando a paixão parar
e só o amor ficar,
despertarei a madrugada,
ainda que para fazer nada,
mas só pelo imenso prazer
de um novo dia conhecer,
mesmo reconhecendo-se sem rumo,
pela falta de aprumo,
com a falsa sensação de liberdade
de uma marionete de verdade.

Quando a paixão terminar
e só o amor ficar,
saberei que o fogo do sexo
não é essencial, nem complexo,
e terei plena certeza
de que a vida vai além da mesa
e que há gozo na obediência,
desprezando a displicência,
cansando da loucura
de procurar sempre uma aventura.

E pensar que...
E sonhar que...
E permitir que...
E decidir que...
E reconhecer que...
E, finalmente, saber que...
que, sim, a desejada paixão
vai me deixar, um dia, na mão...
quando a paixão acabar,
só o amor vai me salvar...
Salvador, 05 de dezembro de 2010.




domingo, 18 de junho de 2017

Vaidade

Florbela Espanca

A um grande poeta de Portugal





Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !


Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada !


E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...


Livro de mágoas (1919)

sábado, 17 de junho de 2017

Amor e Posse


Rodolfo Pamplona Filho

Amo você inteiro
Amo você por inteiro
Só odeio quando me faz
lembrar que não é meu...
Mas alguém é dono do outro?
Ninguém é dono de ninguém
Então por que o dilema
entre o amor e a posse?
Se as teorias são corretas,
por que não consigo agir assim?
Tão utópico esse amor
Tão lindo esse amor
É tão maravilhoso amar,
mas, ao mesmo tempo,
é tão ridículo ficar preso a alguém...
Há uma coação social
acima do amor..
Há uma caixa castradora
que poucos conseguem destrancar
Seja Karenina ou Beauvoir,
é possível descobrir novas formas de amar...
Se você amar alguém,
deixe-o livre...
E quando não for feliz no sistema,
subverta-o
ou liberte-se dele.

Salvador, 16 de maio de 2017.                       



sexta-feira, 16 de junho de 2017

O valor da coisas não está no tempo que elas duram


Fernando Pessoa 

“O valor da coisas 
não está no tempo que elas duram,
 mas na intensidade com que elas acontecem. 
Por isso existem momentos inesquecíveis, 
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Teorias


Rodolfo Pamplona Filho
Teorias são,
na verdade,
uma simplificação
da realidade


Salvador, 15 de janeiro de 2013.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Coração e inteligência devem voltar a se falar.



Alain Finkielkraut

"Coração e inteligência 
devem voltar a se falar.
O perigo que corremos não 
está na falta completa de um ou da outra, 
mas em seu divórcio: se coração e
inteligência vão cada um
por um lado, os efeitos
 são devastadores".


terça-feira, 13 de junho de 2017

Paralaxe



Rodolfo Pamplona Filho
Enxergar tudo
sob o ponto de vista alheio.
Cada um vê algo
que os demais sequer percebem...
Usar os olhos não dói.
Sentir a dor do outro, sim.

Praia do Forte, 26 de março de 2013.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Adoro Reticências…



Nilson Furtado 

“Adoro Reticências… Aqueles três pontos  intermitentes que insistem em dizer que nada está  fechado, que nada acabou, que algo sempre está  por vir! A vida se faz assim! Nada pronto, nada  definido. Tudo sempre em construção. Tudo ainda  por se dizer… Nascendo… Brotando…  Sublimando… Vivo assim… Numa eterna  reticência… Para que colocar ponto final? O que  seria de nós sem a expectativa de continuação?

domingo, 11 de junho de 2017

Calma...


Rodolfo Pamplona Filho

A imaturidade demora para ser curada.
Há quem nunca se cure...
A esperança persevera sobre a experiência
Há quem nunca aprenda...
O processo é desgastante
e pode sempre piorar...
A tristeza parece infinita
e não se vê luzes no horizonte...
Quando a solução parece passar
pelo afastamento total e irrestrito
é hora de falar para dentro:
Calma...

Salvador, madrugada de 03 de maio de 2017.                       



sábado, 10 de junho de 2017

Principado Extinto


 Matilde Campilho
Isto é um poema
fala de amor
ou medo do amor
Fala da morte
ou do fim da amálgama
rosto voz alma e cheiro
que é a morte
Isto é um poema
tenha medo
Fala dos peregrinos
que atravessam avenidas
de sobretudo e óculos
carregando flores invisíveis
e chorando mudos
Isto aqui é um poema
fala da permanência inútil
de um coração devastado
de uma floresta devastada
de uma corrida devastada
logo depois do disparo
da arma de 40 peças
que soltou a bandeirinha
e assim mesmo se desfez
Isto é um poema
fala da aparição do inverno
fala da fuga dos albatrozes

fala do punhal sobre a mesa
e do absurdo do punhal
feito de madeira e pedra
sobre a mesa do jantar
Fala do poder da erosão
que afinal incide sobre
pele nervo e osso e olho
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Claro que é um poema
fala do toque de saída
no colégio de Île de France
e das 39 saias das meninas
esvoaçando sem vontade
na direção do cais de ferro
Fala do pânico do corpo
que esbarra em si mesmo
no espelho pela manhã
e do urro silencioso
que nenhum vizinho
escuta mas que ainda
assim reverbera sem dó
até a hora final
fala do vômito que advém
dos gestos repetidos

Fala do vômito que advém
dos gestos gastos
prolongados assim ad astra
até que o sono apague tudo
Fala da palavra saudade
ou da palavra terremoto
fala do olho que tudo via
deixando lentamente de ver
até mesmo a cara de Jack Steam
o porteiro da loja de discos
onde toca a canção de Chavela
Nada mais no mundo importa
Isto é que é poema
Fala do cheiro das flores
e da injustiça da existência
das flores na cidade
Fala da dor excruciante
meu bem excruciante
que faz até desejar
o fim do poema
o fim da palavra amor
que após o disparo
se espelha apenas
na palavra loucura.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Crise de Abstinência


Rodolfo Pamplona Filho

Chegou o dia
Bateu o horário
e o que se espera
não chega...
nem virá...

Chegou o dia
Bateu o horário
e o que se precisa
não está mais
ao alcance

Seja uma droga,
um amor
ou uma vida,
poucos sobrevivem
aos efeitos
de uma crise de abstinência.


Salvador, 01 de maio de 2017.