segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Ausente



Joana Ferraz 

Os sorrisos que me provocas
Parecem eternos.
Como eu queria, meu amor,
Que pudesses ver
Que os sorrisos trazem outros sorrisos
Por lembrar, por te ter.

E se visses meu dia
Em tua companhia
Quase dou a mão, quase olho pro lado
Suspiro. Saudade.

Sente. Dá pra sentir. Ausente?
Quando estás
Os meus olhos sempre dizem:
Vais ficar.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Cuidado com a Poesia


Rodolfo Pamplona Filho 


A poesia, quando nasce,
tira o sono, arranca os pijamas
e impede a paz

A poesia, quando surge,
arrebata, rasga as roupas
e sobe à superfície

A poesia, quando cresce,
empodera, toma o corpo
e preenche a alma

A poesia, quando domina,
seduz, induz a pensar
e muda o mundo.



27 de dezembro de 2016, em direção a Ilhéus, pensado, inspirado e dedicado a Ferreira Gullar.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A chuva.



Moisés Dantas  

Anunciou-se em barulho vindo de longe
Rufando telhados trazidos a mim
Caminhou com pés rápidos em visão turva
Até se fez chuva a tudo cobrir

Correu pra molhar cruzando vetores
Brincou de ser mar com ondas de vento
Calou com sua música milhões de motores
Em câmera lenta, ao chão sedento

Aplaudiu o espetáculo que ali se via
Com milhares de mãos invisíveis no ar
Guarda-chuvas se abriram pra não lhe conter
No seu vício incessante de se derramar

Voava lânguida e só a nuvem triste
No fim de uma manhã cinza e crua
A terra molhada ergueu o seu cheiro
Como uma linda mulher que corre na rua.

13-01-03

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Encontro



Joana Ferraz

Desde a primeira vez que ganhei aquele abraço, eu sabia. Sabia que iria precisar dele mais vezes, que sentiria de longe a lembrança do momento me encostando.  Foi na varanda, ao vento das árvores grandes que cercam o primeiro rio. O rio que por causa dele estou aqui, estávamos ali. E há muito imaginava o momento, pintando cenas no corpo do desejo. Quais cores fariam presença? Espiei o quarto, vi as telas, achei estranhas. Ou não entendi muito bem. Deve ser porque o sorriso doce também traz confusão. “Agora te conheço mais”.  Depois as mãos pesadas me seguraram as costas e o abraço tocou todas as partes do meu corpo. Era como se estivesse em uma torre cercada de lua e de nada, onde ao longe eu via a mesma cena comum das minhas janelas.  Minha cidade então se transformou num sítio gigante, vazio e afastado, porque o beijo era bom. Porque a língua brincou nas esquinas da minha boca e a vontade reencontrou as florestas que já existiram.

O vestido solto só podia ser de propósito, a roupa desses encontros são as peles.

Amores Possíveis



Rodolfo Pamplona Filho

O rei e a rainha sempre ficarão juntos
em qualquer lugar da existência:
Mesmo em casas separadas?
Mesmo em continentes separados?
Mesmo em planetas diferentes?
Nenhuma distância separa
o que nasceu para ser um do outro.


Salvador, 20 de dezembro de 2016.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

DA FELICIDADE


Mario Quintana

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Utopia


Rodolfo Pamplona  


A Utopia é
o cruzeiro do sul,
a estrela polar,
o Norte magnético.

A Utopia é
o mundo sem crime,
todo pecado punido,
todo sonho realizado.

A Utopia permite
corrigir o real,
transformar o concreto,
desejar o impossível.

A Utopia é
o inatingível,
o inalcançável,
o irrealizável.

A Utopia é
indispensável,
imprescindível,
simplesmente essencial.


Ilhéus, 27 de dezembro de 2016, mas pensando em tempos antes.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Uma voz ganha corpo



Luciana Pimenta
Eu, mulher, uma voz aguda
silencio para ouvir
Eu mulher, escrevendo o silêncio
a história muda
o passado porvir
Eu, mulher, uma voz ganha corpo
para incorporar as vozes
caladas da noite.
Eu, mulher, violenta língua
violenta história
via lenta à míngua
Eu, mulher, soprano grave
Um sopro de dignidade.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A Mulher que habita em mim


Rodolfo Pamplona 

A Mulher que habita em mim
nunca teve medo
de andar sozinha
em uma rua escura

A Mulher que habita em mim
não ficou horas deitada
chorando
com cólica menstrual

A Mulher que habita em mim
nunca precisou sorrir
diante de um gracejo
ou cantada agressiva

 A Mulher que habita em mim
não precisa provar
que consegue trabalhar mais
e melhor, "apesar de ser mulher".

A Mulher que habita em mim
nunca se sentiu agredida
com um olhar,
uma palavra
 ou um gesto de condescendência.

A Mulher que habita em mim
é insensível.

A Mulher que habita em mim
é um homem.


27 de dezembro de 2016, em direção a Ilhéus.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A AUSENTE



Vinicius de Moraes

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

E La Nave Va



Pessoas surgem

Pessoas passam

Pessoas somem

Pessoas marcam

Pessoas chegam

Pessoas vão

Algumas ficam

Outras não

E a vida segue...

Búzios, 29 de dezembro de 2016.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Trabalhador Brasileiro


Helio Gustavo Alves 

Por anos cedo acordei para trabalhar
sempre fiz hora extra para o patrão ajudar
mas um dia ao emprego chegar
tinha outro em meu lugar.

Perdi o trabalho,
fiquei por anos o emprego a buscar,
me achavam velho para o labor,
foi então que percebi
que era um homem sem valor!

O jeito foi fazer bico,
não fiquei um mês sem labutar,
para a vida inteira lutar
a fim do carne do INSS pagar
e um dia me aposentar.

Trabalhei no pesado,
de criança até cansar,
quando na hora da aposentadoria buscar
o Governo resolver a lei mudar.


Ao invés de aos 49 anos me aposentar,
mesmo sem emprego encontrar
sou obrigado continuar a trabalhar
para aos 65 anos tentar
a minha aposentadoria pegar.

Como no Governo não posso confiar
vou rezar para até lá
a norma não mais alterar.




Por Helio Gustavo Alves
Em 10/12/2016
Poema escrito por um Jurista após viver o maior Golpe da história do Brasil em que o Governo deu nos trabalhadores, roubando-lhes o Direito da Aposentadoria, bem como, inúmeros Direitos Sociais previstos no capítulo Dos Direitos e Garantias Fundamentais da Constituição Federal.
Vivemos a mais nova modalidade de Ditadura, que é aquela disfarçada em Democracia Governamental, onde a vontade do Governo vale mais do que todos os Pactos Sociais em vigor, sejam Nacionais ou Internacionais.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Cachorro Vira-Lata


Rodolfo Pamplona Filho
Sou um cachorro vira-lata,
solto nas ruas,
em busca de comida
e de carinho...
Procurando um refúgio,
onde possa ser amado
e não ter mais subterfúgio
para me sentir abandonado...

Puerto Varas-Chile, 02 de julho de 2012.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Soneto do Último Romance...


Rodolfo Pamplona Filho
Você é meu último romance...
Você é, na realidade,
o meu primeiro e único lance,
a quem me entrego de verdade...

Quero amar como se não houvesse
qualquer impedimento ou estrutura,
pois minha alma envelhece,
se não me entrego à doce loucura

de apenas em você pensar...
de nunca me arrepender de tentar
aproveitar cada sensação vivida,

após alguém finalmente encontrar
com quem possa compartilhar
a cama, a palavra e a vida.

Salvador, 09 de junho de 2012.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A gente era feliz e não sabia


Rodolfo Pamplona Filho

quando o máximo da produção 
era uma novela de época;
quando demorava no trânsito 
há mais de uma década;
quando reclamava do calor
antes do aquecimento global;
quando sonhar com um amor 
era o caminho natural;
quando fazia refeição 
em viagem de avião;
quando era a inflação 
nossa maior preocupação;
quando tínhamos de decorar 
toda a taboada;
quando o carburador 
era a peça mais complicada;
quando tínhamos de nos preparar 
para uma sabatina;
quando podíamos caminhar
da casa até a esquina;
quando éramos inocentes 
do que está ao nosso redor;
quando éramos só sementes
e não estávamos sós...

No voo para Brasilia, na madrugada de 29 de novembro de 2016.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Pedaço de mim




Chico Buarque

Notas
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Canção da Partida sem Despedida

Canção da Partida sem Despedida
Letra e Música: Rodolfo Pamplona Filho

Você não pensa em sua vida,
mas sabe que o tempo
corre como um louco
e está contra você!...


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Poeminha do Contra



Mário Quintana 
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Hipocrisia Útil


Rodolfo Pamplona Filho

Na porta do elevador,
ela me diz: - Bom dia!
Eu abaixo os olhos
e digo: - Bom dia!
E a vida continua...

Subimos silenciosos,
cada um para seu andar,
como se momentos embaraçosos
não interferissem no andar
E a vida continua...

E a vida continua...
E a vida...
E...
?

Salvador, 08 de março de 2013.

domingo, 11 de dezembro de 2016

DIALÉTICA


Vinicius de Moraes
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...