domingo, 18 de fevereiro de 2018

Homem do Século XIX



Rodolfo Pamplona Filho

Aquele que tem na rua
o que não pode ter em casa
e é repreendido pelo desfaçatez
da prodigalidade
e não pela estupidez
da insensibilidade.

Aquele que acha normal
viver uma vida
como uma pantomima
em que o roteiro segue adiante
como um trem
em seus trilhos

Aquele que não sente,
não ama, não chora,
mas apenas implora
que somente o deixem
em seu canto em suposta paz.

Salvador, 09 de janeiro de 2018

sábado, 17 de fevereiro de 2018

As sem-razões do amor



(Carlos Drummond de Andrade)

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Frustrações



Rodolfo Pamplona Filho

Minha vida é
oferecer oportunidades
que nunca são aproveitadas.

Minha vida é
chorar sobre o que foi
derramado e não usufruído.

Minha vida é
me frustrar por quem
não percebe o meu esforço.

Minha vida é
servir quem me serve,
mas que não serve para mim.

Minha vida é
sonhar com uma vida
que nunca será vivida.




02 de janeiro de 2018

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Fanatismo



Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…

Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
‘Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Eu preciso aprender a viver só



Rodolfo Pamplona Filho

Eu preciso aprender
a viver só
e saber que o mundo
não existe por minha causa.

Eu preciso aprender
a viver só
e aprender que o silêncio
é melhor do que
o ruído incompreensível

Eu preciso aprender
a viver só
é enxugar cada lágrima
sem a ajuda
de quem quer que seja.

Eu preciso aprender
a viver só!
E só!


Miami, 29 de dezembro de 2017

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Cantiga para não morrer



(Ferreira Gullar)

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Estou Péssimo


Rodolfo Pamplona Filho

Estou Péssimo
como quem comeu chuchu,
quem perdeu o busu,
quem sonhou com urubu

Estou Péssimo
como quem dormiu de jeans,
esqueceu os fins,
desperdiçou os pudins

Estou Péssimo
como quem comeu e não gostou,
sonhou e acordou,
como quem nunca amou


Salvador, 09 de janeiro de 2018

domingo, 11 de fevereiro de 2018

José



Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Encarando o Insano



Rodolfo Pamplona Filho

É preciso ter coragem
para superar o medo
e se sentir pleno

É preciso solidariedade
para se jogar no vazio
por amor a um filho

É preciso muito amor
para enfrentar o dissabor
da tentação de desistir

É preciso ter um plano
de aproveitar cada segundo
e encarar o Insano.



Fortaleza, 28 de outubro de 2017.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Ausência





Vinicius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser está tudo terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Dualidade


Rodolfo Pamplona Filho

Coxinhas
e mortadelas
Times rivais
que viram
Inimigos
quando o mundo
é muito mais complexo
do que um
cara e coroa.


Miami, 29 de dezembro de 2018.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Versos Íntimos




Augusto dos Anjos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Cachimblema


Rodolfo Pamplona filho

Cachaça
Chifre
Problema
Tudo que é difícil de resolver
Tudo que eu nem quero saber
Tudo que me aproxima de morrer.


Salvador, 16 de janeiro de 2018.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Amor



Álvares de Azevedo

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábios beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Abandonado


Rodolfo Pamplona Filho

Estou abandonado,
com a sensação de que
nunca mais vou viver
aquilo que me tornava pleno.

Estou abandonado,
sentindo profunda falta
de quem renovava minha alma
e incentivava eu ser eu mesmo.

Estou abandonado,
como um cão sem dono,
que morre pouco a pouco,
no avanço de cada desconforto.

Estou abandonado
e tenho medo
de nunca encontrar
o meu caminho novamente.

Miami, 29 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Manual


Victor Hugo de Afonso


Abrace seus sonhos,

Imprima seus ideais,

Recorra a fé,

Persista...

Insista....

Negue seu orgulho,

Mantenha seu orgulho,

Refrigere seu olhar,

Mas não perca de vista seu alvo!


Beije cada momento,

Sorria desalentos,

Chore tristezas,

Chore felicidades.


Tire dos ombros a mochila do fardo,

Carregue no peito o bom,

Seja soberano,

Seja insano,

Ao menos uma vez.



Esteja sempre disposto ao novo,

Seja plural!

Invente,

Reinvente.


Reprima o negativo,

Ignore os abutres,

Ame,

Apaixone - se.


Faça um café forte,

Tire o pigarro,

E escreva suas linhas.



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Causa de Tudo



Rodolfo Pamplona Filho

A Causa de Tudo
é o que nos faz sofrer
A Causa de Tudo
é o que dá vontade de morrer
A Causa de Tudo
independe do que você faça
A Causa de Tudo
me deixa sem graça
A Causa de Tudo
doi fundo no peito
A Causa de Tudo
me diz respeito
A Causa de Tudo
não é o problema em que você se meteu
A Causa de Tudo
sou eu.

Salvador, 15 de janeiro de 2018.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A PAZ



Manoel Hermes

Que é a paz senão a sensação de tranquilidade

Acalmação do corpo e da alma

Luz brilhante a iluminar uma escuridão brutal

Nascida da incompreensão e egoísmo humanos

Que com o uso de armas mortais destrói irmãos

Pessoas inocentes que amam a vida e choram

Deitadas sobre os corpos dos entes queridos idos

Vítimas dos cruéis indivíduos assassinos,

Impiedosos vampiros que se realizam com o sangue

Sugado no corpo dos seres bons, e salpica o chão,

Que umedecido se vê enlameado e triste

Mancha avermelhada causada por homens levianos

II

Que é a paz senão o prazer de viver em alegria

Flor nascida dentro das gentes felizes

Que sorriem sempre com tudo de presença bela,

Candura brotada sem mágoa e rancor no coração

Semente plantada com sincera e meiga afabilidade

Que com suas gotas de pureza na molhação

Germina flores cheias de amor e encanto

III

Que é a paz senão o ouvir dos pássaros o seu cantar

Em trinados fortes percebidos a distantes lugares,

Escutados, soam com suavidade na direção certa,

Na reta caminhada, com sol, ou noite enluarada,

Até ao encontro das águas dos rios e dos mares

Que entoam com suas ondas brancas e altas

Alegres sinfonias musicais, harmônicas, cadenciadas,

Em variados escalas e compassos nas claves

Emitem a voz da natureza orquestrada em sons mágicos

Deleito do espirito calmo que ao encontro vai

Na flutuação com a melodia circundante no espaço,

Mensageira da esperança e da certeza de perguntar:

Que é a paz senão querer ser livre e com liberdade

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Que o mar leve embora...



Rodolfo Pamplona Filho

Que o mar leve embora...
todo mal
Toda tristeza
Toda frustração

Que o mar leve embora...
todo o sal
toda avareza
Toda má sensação

Que o mar leve embora...
Toda mágoa
Toda decepção
Toda dor do coração

Que o mar leve embora...
todo sentimento ruim
que o mas só não leve
você para longe de mim!



No mar de Miami, 31 de dezembro de 2017.

domingo, 21 de janeiro de 2018

TAPA OLHO




Victor Hugo De Afonso


É bom não saber de economia

Nem da alta da inflação

Tampouco por onde anda

O novo Saddam, Marighella  ou Napoleão


É bom não saber sobre o  Flamengo

É bom não saber sobre o timão

É bom não tentar saber o futuro...

Ser xiita

Por vezes perder a visão

É bom não saber sobre o tio sam

Nem Rússia , Irã ou Afeganistão

É bom não saber que estamos na prisão

Seja de ventre, ideológica ou bélica


É bom não saber que exclusos somos na sociedade

Também não é bom saber

A receita daquele macarrão

Tampouco lembrar o nome do vinho

Nem aquela canção....


É bom não ouvir música clássica

Nem blue, sertanejo ou sambão

É bom não sentir medo ou vaidade

É bom não ter munição

É bom guardar as armas

Sendo vencido vencedor


É bom esquecer  desse mundo

Trapacear a ambição

Ilhar-se no âmago de uma paixão

Viver feito bobo contando nuvens

Esperando avião


É bom subir no telhado

É bom pegar o encanto da lua

É bom fazer bolha de sabão


Mesmo que isso tudo seja

Uma insana  doce

Ilusão.......


É bom..........

É bom..............