sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Frio em São Paulo




Fernanda Soares


Noite fria em São Paulo 
Calor humano 
Passos harmônicos na calçada 
Juízo de valor: intenso 
Coragem sem juízo 
Denso. 
Ah! Poesia 
Corre, flui, emana pelos poros 
Invade a terra 
Vai corajosa e sem pudor, sem medo 
Ecoa nos quatro cantos do mundo 
Para dizer que o mundo tem jeito 
Nós temos cura 
Vai, poesia! 
Invade e desenquadra os quatro cantos do mundo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Espelho


Luciana Pimenta

Eu não tinha estes olhos artesianos
Este aeroporto de palavras
E este mapa de esperanças vestidas
Que supostamente me conduz

Eu não tinha estas ágoras oitivas
Esta boca assim tão noturna
E esta trama caudalosa de meadas
Do rio que me banha e me desagua

Eu não tinha este rosto quase calmo
Este semblante quase límpido
E esta quase lucidez do retrato
Tão certo, tão simples, hoje anunciado.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Oportunidades


Rodolfo Pamplona Filho 

Oportunidades surgem
e despreza-las
é sintoma de empáfia

Oportunidades passam
e não aproveitá-las
é o início da depressão

Oportunidades vão embora
e perdê-las
é arrepender-se pelo resto da vida.

São Paulo, 20 de novembro de 2016.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Tenho tanto sentimento



Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

domingo, 27 de novembro de 2016

Migalhas de Carinho


Rodolfo Pamplona Filho

Eu mendigo
migalhas de seu carinho
como um cachorrinho
junto de sua mesa,
na esperança de, um dia,
encher minha barriga vazia
e meu coração sedento...

Salvador, 16 de janeiro de 2014

sábado, 26 de novembro de 2016

Desencontrários


Paulo Leminski 

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Musicando a Tristeza


Rodolfo Pamplona Filho
Musiquemos a sensação...
A tristeza é inspiração...
O que machuca também ensina
e o sofrimento não precisa
ser uma eterna sina...
Somos movidos  a amor
e - porque não dizer? - a dor...
Somos o Som e a Dor...

Brasília, 14 de março de 2013.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Esquadros


Adriana Calcanhotto
Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de almodóvar
Cores de frida kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Ah! Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto pra quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Esquadros
Adriana Calcanhotto

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Poliamorismo


Rodolfo Pamplona Filho

Por que não se pode
amar mais de uma pessoa
ao mesmo tempo?
Por que o ato de amar
exige uma exclusividade artificial,
como se o coração pudesse....


terça-feira, 22 de novembro de 2016

A culpa do ideal




Osvaldo Leal Júnior
Culpado, 
pelo simples uso do bom senso, de saber o que é certo e o que é errado e descobrir que nada nessa vida ocorre por acaso. 

Culpado, 
por não se contentar com respostas vazias, indo até o fundo do poço buscar a verdade e utilizar a consciência como guia, não importa o tempo que dure, nem a certeza da finidade. 

Culpado, 
pelas noites passadas em claro, virando e revirando possíveis soluções, que provavelmente serão deixadas de lado por alguém revestido de ambições. 

Culpado, 
Por acreditar piamente no pensamento, sem levar em conta que, às vezes, são apenas sonhos, que perdem o poder de convencimento. E nas primeiras horas da manhã se dissipam com o vento, trazendo a frieza e a dureza da vida real. E quando isso acontece, os sonhos se desfazem e a vida volta ao normal. 
Mas ele permanece, o ideal nunca morre. 
Fica na espreita, como um vírus incubado, esperando apenas um vacilo do velho coração endurecido. 
E quando isso acontece, o que se imaginou ter acabado, volta mais forte do que nunca, arrebatando tudo ao seu lado. Assim ocupa todos os espaços novamente. Mas acontece tudo de novo, nada diferente. 
Mas se acontece o contrário e esse ideal é estimulado, aí sim, será ainda mais culpado. 

Culpado, 
pela felicidade, por ver o sonho realizado. 
Poder chorar de alegria e constatar nesse momento que a dor, a angústia e o sofrimento são compensados apenas pela euforia. 
E o que dizer do prazer do objetivo alcançado, obra prima da sabedoria do amor e da esperança. 
Um momento de gozo que se estenderá para sempre na lembrança. 
Por tudo isso ... e, principalmente, por tornar a vida bem mais intensamente vivida, o ideal é: 

"CULPADO". 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Desmascarando o Canalha


Rodolfo Pamplona Filho

Você se diz infinito,
acreditando que
seu poder é ilimitado,
mas está errado!

Você não passa de
um acidente da natureza,
um câncer da criação,
um tumor com ilusões de grandeza...

É hora de extirpá-lo...
jogando-o no lixo, que é o seu lugar,
para que eu dance sobre seu caixão
e escarre em sua sepultura...

Apenas mais irritantes que
as trombetas da moralidade alheia
(pois a própria não vale nada...)
só os sepulcros caiados
que posam de vestais nas cerimônias,
sem pudor da sua podridão interior...

Praia do Forte, 09 de março de 2011.

domingo, 20 de novembro de 2016

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades




Luís de Camões Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

L. V. de. 200 Sonetos. Porto Alegre: L&PM. 1998.

sábado, 19 de novembro de 2016

Promessa Recíproca


Rodolfo Pamplona Filho

Promete morrer
depois de mim?
Prometo morrer
no dia que você morrer
para eu não ter de viver
um dia sequer sem você...

Assim eu choro...
Só chore na minha frente
para que eu possa enxugar
suas lágrimas com meus beijos
Obrigado por você ser perfeito
Eu é que agradeço por ser privilegiado por seu amor.

Somente vou descansar
no dia seguinte a você
para não ter que viver
uma noite sequer sem você

21 de outubro de 2016, no voo para Fortaleza.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

E SE TODOS FOSSEM IGUAIS?


Caio Souza Matos

Hoje acordei cedo e logo fui caminhar
Andando pelo sertão me pus a pensar:
Afinal, o que é a justiça que tanto ouço falar
No radio, na tv ou na mesa de um bar?

Sai por ai perguntando, procurando de canto em canto:
O que é justiça para o senhor, me responda sem espanto?
O silencio dominava, só se ouvia a passarada.
Ninguém dizia, ninguém falava, mas todo mundo pensava...
O que será essa Justiça por tantos procurada?

“IGUALDADE!!!!” gritou o velho que estava no canto do bar.
Me interessei pela fala dele, logo começamos a prosear
Uma dose de cachaça, um tira-gosto pra cortar
O “vei” me perguntou se eu parei pra pensar:
Como seria o mundo se A fosse igual a B,
E B fosse igual a A?

- Justiça é igualdade, sem rancor e sem maldade
Igualdade que vem pura, sem rancor, sem amargura.
Justiça é igualdade, equilíbrio, equidade.
Se fosse cor era branca, pra não ter disparidade...
Pois o branco reúne todas as cores, deixa tudo na igualdade.

O "vei" era esperto, me deu logo essa resposta.
Mas como seria o mundo em que tudo fosse igual?
Ninguém diferente, sem classe social, sem diversidade cultural.
Ai pensei:
todo mundo ia nascer no mesmo lugar;
Usar a mesma roupa;
Falar do mesmo jeito;
Estudar a mesma coisa;
Torcer pro mesmo time;
Comer a mesma comida;
Ter o mesmo carro
Ter as mesmas coisas
Não ter as mesmas coisas...

Pensei mais um pouquinho:
Num mundo desse, onde não tem rico e não tem pobre...
Preto, branco, amarelo, verde, azul, roxo...
Onde todo mundo é igual  a todo mundo, eu me pergunto:
Serei eu a deixar de ser matuto pra virar executivo?
Ou vai ser o executivo que vai virar matuto e viver como eu vivo?

Virei para o "veio" e comecei a replicar.
Ele até que tava certo, vou até parabenizar!
Parei na sua resposta que muito me fez pensar.
- Justiça e igualdade como irmãs devem andar...
Mas não esqueça a diversidade, ela também tem o seu lugar.

O mundo é diferente, basta ver na nossa frente.
A natureza é nossa mãe, dela vem muita gente.
Todas diferentes!!!
Uns alegres e sorridentes,
Outros nem tão contentes!

Não adianta ser tudo igual pra dizer que ta tudo justo.
Nunca quis ser executivo, executivo não quer ser matuto.
O que se busca é justiça nesse mundo absurdo.
E justiça é viver com respeito, sem olhar só pro seu mundo
Pois o mundo é de todo mundo.
O destino é de todos nós...
E ninguém é igual a ninguém!!!!

 14/11/2016
(Em referência à teoria da justiça, de John Rawls.)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Conte comigo!


Rodolfo Pamplona Filho 

Estar ao lado
não é só
aproveitar as coisas boas!
É dividir o peso!
É compartilhar a dor!
É emprestar o ombro!
É chorar pelo mesmo temor!

Estar ao lado
não é só
postar-se fisicamente!
É torcer na mesma linha!
É pensar em alternativas!
É vibrar na mesma sintonia!
É buscar uma mudança de vida!

Estar ao lado
não é só
dar uma mensagem de ânimo!
É unir seu desejo à sua emoção!
É transformar a palavra em ação!
É poder dizer verdadeiramente:
Conte comigo para todo o sempre!

Praia do Forte, 12 de novembro

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Tomara



Vinicius de Moraes

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho


Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A ajuda vem


Rodolfo Pamplona Filho

A ajuda vem
de onde
menos se espera

A ajuda vem
de quem
nem se cogitava

A ajuda vem
da forma
menos ortodoxa possível

A ajuda vem
quando
a esperança
parecia esvair

A ajuda vem
quando
a consciência
supera o pudor

A ajuda vem
quando
se descobre haver
mais de uma forma de amor.

Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2016.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Hamlet



William Shakespeare
Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.

domingo, 13 de novembro de 2016

Preconceito


Letra: Rodolfo Pamplona Filho
Música: Adelmo Schindler Jr. e Ricardo Barata

Sou baiano,
Negro,
Pobre
E Gay
Sou cigano
Feio,
Baixo e
Chinês
Nordestino ou
Argentino
Mendigo ou
Indigente
Idoso ou
Menor Carente
Deficiente ou
Impotente

(Refrão)
Crente ou
Ateu
Árabe ou
Judeu

Umbandista ou
Adventista
Testemunha ou
Kardecista
Migrante ou
Imigrante
Presidiário ou
Proletário
Refugiado ou
Desabrigado
Bêbado ou
Drogado
Alcóolatra ou
Viciado
Desempregado ou
Condenado

(Refrão)
Crente ou
Ateu
Árabe ou
Judeu

Sou muito mais que tudo isso...
Se, não na carne, no espírito
de solidariedade com aquele
que sofre, chora e morre
não pelo que faz ou fez,
mas pelo sentimento incontrolável
de quem não compreende...
Nem faz qualquer esforço para isso...

É preciso sentir na pele,
por vezes, literalmente,
para dimensionar a loucura
de julgar o outro
sem um dado objetivo
que justifique esta postura.

Sou baiano,
Negro,
Pobre
E Gay
Sou cigano
Feio,
Baixo e
Chinês
Nordestino ou
Argentino
Mendigo ou
Indigente
Idoso ou
Menor Carente
Deficiente ou
Impotente

(Refrão)
Crente ou
Ateu
Árabe ou
Judeu

Umbandista ou
Adventista
Testemunha ou
Kardecista
Migrante ou
Imigrante
Presidiário ou
Proletário
Refugiado ou
Desabrigado
Bêbado ou
Drogado
Alcóolatra ou
Viciado
Desempregado ou
Condenado

(Refrão)
Crente ou
Ateu
Árabe ou
Judeu

Não é fácil matar
um leão por dia
e ser excluído pelo
grau de melanina
OU por quem você suspira
OU pela sua conta bancária
OU pela sua luta diária
OU de onde vai ou vem
OU de quem você crê no além...

Esqueça-me por um dia
ou – melhor! – definitivamente,
pois o meu maior defeito
é parecer diferente
aos olhos de quem esqueceu
qual é o sentido de
ser gente...

sábado, 12 de novembro de 2016

Velha História



Mário Quintana 

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!...Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado...