sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Cara de pau



                                                                                                           Rodolfo Pamplona Filho

O indivíduo fura a fila
e ainda reclama da bagunça;
reclama da falta de ética
e pede um cargo no serviço público;
protesta contra a corrupção
e trabalha sem nota fiscal;
fala que o serviço é ruim
e sai mais cedo da aula;
diz que ninguém presta
e esquece que faz parte do todo;
sonha com um mundo diferente
e faz tudo igual...
No final, esse tipo de gente
não passa de um cara de pau...

Salvador, 10 de agosto de 2016, assistindo a ida para a Fonte Nova...

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Rápido e rasteiro


Chacal

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Liberdade


Rodolfo Pamplona Filho

Liberdade é
uma palavra
para dizer
que não há mais nada
a perder...

Salvador, 11 de agosto de 2012.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Cogito



Torquato neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Segredo da Serenidade



É preciso saber
que o sofrimento
não é sua exclusividade.

É preciso conhecer
e vivenciar
o segredo da serenidade.

É preciso respirar
em vez de chorar
e se desesperar.

É preciso parar
e olhar o horizonte
para compreender o que ocorreu.

É preciso não esperar
o mar se abrir (embora ele possa...)
e aprender a nadar...

É preciso transformar
o mistério em problema
para poder solucioná-lo.

Boston, 25 de junho de 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

O Teu Riso



Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.



sábado, 24 de setembro de 2016

Como alguém pode?



Rodolfo Pamplona Filho

Como alguém pode
abrir mão
de seu coração?
Como alguém pode
renegar a essência
do fundo de sua alma?
Como alguém pode
substituir uma parte
da sua própria vida?
Eu acho que não pode...
Prometo, então, que
não vou te esquecer...
Serei sua hoje
por toda essa vida
e só sua nas próximas...

Salvador, 4 de setembro de 2016.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Sem título


Paulo Leminski

Eu tão isósceles
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão

Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Opressor Oprimido


Rodolfo Pamplona Filho

Reconhecer, em si, o mal
Maltrata
Maldiz
Molesta

Descobrir-se opressor
oprime
deprime
machuca

Declarar-se ser
não é suficiente
não é inteligente
não é sequer coerente

Desejar estar ao lado
não é saber
não é viver
não basta

Olhar a si e ao mundo com outros olhos
é a alternativa ao suicídio
é a reconstrução da própria história
é a única esperança da humanidade.

Quarta-feira, 17 de agosto de 2016,  literalmente no voo para Vitoria/ES.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Marina


Dorival Caymmi

Marina morena Marina você se pintou

Marina você faça tudo

Mas faça o favor

Não pinte este rosto que eu gosto

Que eu gosto e que é só meu

Marina você já é bonita

Com o que Deus lhe deu

Me aborreci, me zanguei

Já não posso falar

E quando eu me zango, Marina

Não sei perdoar

Eu já desculpei tanta coisa

Você não arrajava outro igual

Desculpe Marina, morena

Mas eu tô de mal, de mal com você

De mal com você

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Nós não sabíamos



Rodolfo Pamplona Filho

Nós não sabíamos
que, nas madrugadas,
a força imperava
sobre a liberdade.

Nós não sabíamos
que, à sorrelfa,
esperanças se despedaçavam
a cada anoitecer.

Nós não sabíamos
que, ao entardecer,
o sol se escondia
pelo que podia acontecer.

Nós não sabíamos
que, a cada amanhecer,
o medo se renovava
pelo medo do desconhecido.

Salvador, 22 de agosto de 2016.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Amar e ser amado

Castro Alves

Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz... que pensamento!?

domingo, 18 de setembro de 2016

O viço



Rodolfo Pamplona Filho
E se, de repente,
eu te dissesse que não queria mais
viver no mesmo teto, na mesma cama
e que tudo que planejamos
não era mais essencial pra minha chama

E se, de repente
eu te dissesse que meu coração foi tomado
por uma vontade imensa de viver
que não engloba a rotina
que você tem a me oferecer

E se, de repente,
a pergunta que aparecesse
fosse: "Você não me ama mais?”
ou “Você arranjou outra?"
Seria o comum a se falar
pois rupturas ensejam esse pensar

E se, de repente,
tudo que era sólido
se desfizesse no ar
como grãos de areia nas mãos de uma criança,
caindo incessamente na ampulheta da vida.

Isso tudo nada teria a ver com amor,
pois eu continuarei te amando
da mesma forma pura e feliz...
Isso tudo nada teria a ver com amor,
mas com o viço que eu sempre quis...

Será que este viço se perderá?
Se este viço, sem querer, se perder
não será por outro alguém,
mas pelo próprio destino maduro
de uma essência que quer mais do que se tem.
Salvador, 28 de outubro de 2010.

sábado, 17 de setembro de 2016

Televisão para dois


Fernando Sabino

Ao chegar ele via uma luz que se coava por baixo da porta para o corredor às escuras. Era enfiar a chave na fechadura e a luz se apagava. Na sala, punha a mão na televisão, só para se certificar: quente, como desconfiava. Às vezes ainda pressentia movimento na cozinha:
- Etelvina, é você?
A preta aparecia, esfregando os olhos:
- Ouvi o senhor chegar... Quer um cafezinho?
Um dia ele abriu o jogo:-Se você quiser ver televisão quando eu não estou em casa, pode ver à vontade.
-Não precisa não, doutor. Não gosto de televisão.
- E eu muito menos.
Solteirão, morando sozinho, pouco parava em casa. A pobre da cozinheira metida lá no seu quarto o dia inteiro, sozinha também, sem ter muito que fazer...Mas a verdade é que ele curtia o seu futebolzinho aos domingos, o noticiário todas as noites e mesmo um ou outro capítulo da novela, "só para fazer sono", como costumava dizer:
- Tenho horror de televisão.
Um dia Etelvina acabou concordando:
- Já que o senhor não se incomoda... 
Não sabia que ia se arrepender tão cedo: ao chegar da rua, a luz azulada sob a porta já não se apagava quando introduzia a chave na fechadura. A princípio ela ainda se erguia da ponta do sofá onde ousava se sentar muito erecta:
- Quer que eu desligue, doutor?
Com o tempo, ela foi deixando de se incomodar quando o patrão entrava, mal percebia a sua chegada. E ele ia se refugiar no quarto, a que se reduzira seu espaço útil dentro de casa. Se precisava vir até a sala para apanhar um livro, mal ousava acender a luz:
- Com licença... 
Nem ao menos tinha mais liberdade de circular pelo apartamento em trajes menores, que era o que lhe restava de comodidade, na solidão em que vivia: a cozinheira lá na sala a noite toda, olhos pregados na televisão. Pouco a pouco ela se punha cada vez mais à vontade, já derreada no sofá, e se dando mesmo ao direito de só servir o jantar depois da novela das oito. Às vezes ele vinha para casa mais cedo, especialmente para ver determinado programa que lhe haviam recomendado, ficava sem jeito de estar ali olhando ao lado dela, sentados os dois como amiguinhos. Muito menos ousaria perturbá-la, mudando o canal, se o que lhe interessava estivesse sendo mostrado em outra estação.A solução do problema lhe surgiu um dia, quando alguém, muito espantado que ele não tivesse televisão em cores, sugeriu-lhe que comprasse uma:
- Etelvina, pode levar essa televisão lá para o seu quarto, que hoje vai chegar outra para mim.
- Não precisava, doutor - disse ela, mostrando os dentes, toda feliz:.
Ele passou a ver tranquilamente o que quisesse na sua sala, em cores, e, o que era melhor, de cuecas -quando não inteiramente nu, se bem o desejasse. Até que uma noite teve a surpresa de ver a luz por debaixo da porta, ao chegar. Nem bem entrara e já não havia ninguém na sala, como antes - a televisão ainda quente. Foi à cozinha a pretexto de beber um copo d'água, esticou um olho lá para o quarto na área: a luz azulada, a preta entretida com a televisão certamente recém-ligada.
- Não pensa que me engana, minha velha - resmungou ele.
Aquilo se repetiu algumas vezes, antes que ele resolvesse acabar com o abuso: afinal, ela já tinha a dela,que diabo. Entrou uma noite de supetão e flagrou a cozinheira às gargalhadas com um programa humorístico.
- Qual é, Etelvina? A sua quebrou?
Ela não teve jeito senão confessar, com um sorriso encabulado:
- Colorido é tão mais bonito...
Desde então a dúvida se instalou no seu espírito: não sabe se despede a empregada, se lhe confia o novo aparelho e traz de volta para a sala o antigo, se deixa que ela assista a seu lado aos programas em cores.Oque significa praticamente casar-se com ela, pois, segundo a mais nova concepção de casamento, a verdadeira felicidade conjugal consiste em ver televisão a dois.


SABINO, Fernando. A falta que ela me faz. 9.ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1923.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

De repente, você...


Rodolfo Pamplona Filho

Sua mão me fez buscar o caminho
que há muito procurei
nos seus olhos, notei o cantinho
que há muito desejei

A vida me deu rasteiras
que eu nunca esperei.
mas o céu não limitou o espaço
que eu sempre acreditei

Assim. construí minha vida.
caminhando com sensatez
e, de repente, você aparece
como nunca imaginei...

San Francisco, 30 de setembro de 2010.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Saudades



Florbela Espanca

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sempre estarei aqui...



Rodolfo Pamplona Filho

Sempre estarei aqui...
mesmo que nosso futuro seja incerto,
talvez sem ver a chuva cair
ou sem lugar para dormir

Sempre estarei aqui...
mesmo quando tivermos que fugir
e esperar que a vida
possa novamente nos reunir

Sempre estarei aqui...
mesmo que os olhos nunca mais se cruzem
que nossos lábios não se juntem
e que a vida trate de cumprir
o inevitável momento do partir.

Sempre estarei aqui...
mesmo que não receba o seu OK
mesmo que o mundo mude sua lei
mesmo que o destino nos afaste de uma vez...

Sempre estarei aqui...
mesmo quando não haja pôr-do-sol
mesmo quando não vejamos o amanhecer
mesmo quando o mundo me tomar você...

Sempre estarei aqui...
ainda que tudo conspire
para que a gente se separe,
meu amor não quer que acabe...

Sempre estarei aqui...
em toda e qualquer ocasião,
em que possa ter a sua atenção
para me entregar na mais louca sensação...

Sempre estarei aqui...
mesmo que você deixe de me amar...
mesmo que você nunca mais queira me ver...
eu nunca descumprirei a promessa
de viver eternamente para seu prazer.

Salvador, 10 de outubro de 2010.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Brisa


Manuel Bandeira

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixaras aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Refazendo a História



Rodolfo Pamplona Filho 
Zuckember​
é Gutemberg ​
A internet​
é a imprensa​
O fundamentalismo​
é o nazismo​
O feminismo ​
é o comunismo
Michael Jackson​
é Elvis Presley​
Câncer ​
é a tuberculose ​
Alzheimer​
é a lepra ​
Ser branco​
é ser judeu
Steve Jobs​
é Karl Marx​
Honestidade ​
é virtude​
Deus​
é o dinheiro​
O anticristo ​
é o próximo.

Sábado, 20 de agosto de 2016,  literalmente no voo para São Paulo.

domingo, 11 de setembro de 2016

Vilarejo



Marisa Monte

Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonhos semeando o mundo real

Toda gente cabe lá
Palestina, Xangri-Lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for