terça-feira, 16 de outubro de 2018

Amar não é suficiente




Rodolfo Pamplona Filho

Amar não é suficiente,
se falta compreensão,
se falta atenção,
se falta audição.

Amar não é suficiente,
se falta empatia,
se falta poesia,
se falta harmonia

Amar não é suficiente,
se falta presença,
se falta crença,
se falta diferença

Amar pode ser tudo,
mas não é suficiente,
se não for tudo
para a gente.

Salvador, 08 de outubro de 2018.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Do amoroso esquecimento



Mário Quintana

Eu agora — que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

domingo, 14 de outubro de 2018

A Única Certeza é a Esperança




Rodolfo Pamplona Filho

Não dá para saber
o que o futuro me reserva
Não adianta sofrer
pelo que não se enxerga
Só há sentido em viver
o dia em que se levanta
Há muito o que fazer
até chegar a sua dança.
Apenas não quero que
desvaneça minha esperança
enquanto espero pela certeza.

Salvador, 07 de setembro de 2018.

sábado, 13 de outubro de 2018

A Rua dos Cataventos



Mário Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Filho




Rodolfo Pamplona Filho

Filho,
quando você surgiu
um mundo novo se abriu
para quem achava que sabia tudo
e viu que tinha muito a aprender.

Filho,
quantas vezes chorei calado
só para poder estar ao seu lado
e dizer algo para você,
mesmo que não fosse entender.

Filho,
quantas coisas eu quis ensinar
o que achava ser a verdade
para você não ter que penar
como eu quando tinha sua idade.

Filho,
quantas vezes quis que a dor
que você sentia em temor
passasse toda para mim
para você não sofrer tanto assim.

Filho,
o tempo se esgota para todos,
inclusive para quem cuida da gente
e não dá viver novamente
os momentos que se perde só.

Filho,
há muito quero contar
que nunca deixarei de amar
cada instante da nossa história
e o que ficar na memória.

Filho,
peço sincero perdão
pela minha imperfeição
de não ser o melhor, enfim,
para você ter orgulho de mim.

Filho
Hoje eu só quero um abraço
e que você descanse em meus braços
para saber que conta comigo
e que serei sempre seu melhor amigo.

Praia do Forte, 03 de junho de 2018.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Precisão


Clarice Lispector

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Perdão


Rodolfo Pamplona Filho

Desculpe por não ter imaginado sua dor
Desculpe por ter te causado horror
Desculpe por ter sido tão insensível
Desculpe por ter sido tão horrível
Desculpe por pensar que atos somem
Desculpe por ter sido tão homem

terça-feira, 9 de outubro de 2018

MEU DEUS, ME DÊ A CORAGEM



Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

domingo, 7 de outubro de 2018

Dor elegante



Paulo Leminski

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Bem no fundo



Paulo Leminski

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Alienação Parental




Rodolfo Pamplona Filho

Qual é o sentido de ser deixado só?
Qual é o significado de
virar joguete de quem o criou?
O que faz alguém transformar
o fruto do amor
em uma forma para torturar
alguém a quem já se entregou?
Como imputar tamanha dor
a quem não pediu sequer
para vir ao mundo viver
ou provar o seu sabor?

Quando filhos viram massa,
só se construi um muro de tristeza;
Quando filhos viram moeda,
só se paga o preço do rancor;
Quando filhos viram brinquedos,
só se joga o jogo do ódio;
Quando filhos viram propriedade,
só se é dono do seu próprio veneno...

Morte, tragédia, culpa,
homicídio doloso da inocência
isolamento, depressão,
raiva convertida em manipulação
roubo, furto, perda,
em pungente sede de não,
vítima que é assassina
também de seu próprio eu,
em uma Medéia que ensina
o avesso de amar o seu
para, ao mesmo tempo,
nunca mais ser de ninguém...

Não seja algoz de quem te ama.
Não seja cúmplice da frustração.
A vida vai além da lei e da cama
e o mundo não é só comiseração.
Se relacionamentos terminam,
filhos são para sempre...
Se partir é doloroso,
mais ainda é deixar de ser gente...


Porto Alegre, 12 de abril de 2013.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Eu sou trezentos...



Mário de Andrade

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

O Martelo e o Tacape



Rodolfo Pamplona Filho

Qual é a diferença
entre o martelo e o tacape?
Qual é a distinção
entre autoridade e ditadura?
Qual é a crença
da importância da postura?
Qual é a sensação
de fazer algo de livre vontade?
Qual é a consequência
de assumir sua liberdade?
Qual é a vantagem
de encarar a realidade?
Qual é a diferença
entre o martelo e o tacape?

Salvador, 08 de novembro de 2013

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Solitário



Augusto dos Anjos

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-Velho caixão a carregar destroços-

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

domingo, 30 de setembro de 2018

Fantasia Fugaz II


Letra: Rodolfo Pamplona Filho
Música: Jorge Pigeard

Loucos são os que pensam
Haver padrões para uma mente
Destroços de cultura
De um mundo tão doente
Homem: ser ambíguo
Pois sua sina é a incerteza
Fruto produzido em sua própria natureza
Sem respostas, cem questões
No infinito das ilusões

Fronteiras do Inconsciente
São como sonhos: tênues linhas
As mudanças de lágrimas para risos
Têm a complexidade da noite para o dia
da tristeza para alegria

Vida, margens duma porção,
Um todo preenchendo metade,
O ciclo da dualidade
Lucidez e Loucura,
Tangentes da Razão,
Mas são frágeis correntes entrelaçadas
Numa mesma...
... canção!

Fantasia fugaz fluindo...
... como uma...
... canção!!!

(1992)

sábado, 29 de setembro de 2018

Ao Luar



Augusto dos Anjos

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Ampulheta


Rodolfo Pamplona Filho


Um dia, ganhei uma ampulheta
e pensei em como o tempo flui,
mudando projetos e sentimentos,
vendo escoar as areias do tempo
e torcendo para que o destino sorria.

Neste dia, chorei...
pela imensa agonia de não saber...
tanto o que o futuro reserva,
o que o presente demonstra
e o quanto o passado significa.

Será que, algum dia, conhecerei
a essência e o sentido
de cada minuto vivido,
oportunidade desperdiçada
ou palavra desfrutada?

Não sei...
Só aprendi que é bonito
olhar através do vidro
e descobrir a verdade impactante
de que o processo de aprendizado
é tão ou mais importante
do que qualquer bom ou mau resultado. 

Salvador, 23 de maio de 2011.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Leveza



Cecília Meireles

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.