segunda-feira, 23 de julho de 2018

Nós



Ferdinand Azalb

Se não tem como ir,
alimento-lhe de mim.
Dou-me-lhe em nacos.
Transmito-me-lhe, aos poucos.
Cedo-me, em reflexões e apoio.
Incentivo, pois, a ousadia,
as suas potencialidades;
para que vá além de mim;
para que voe bem mais alto;
para que alcance novos ares.
Porque, assim, fará bem mais;
o que eu não poderia fazer,
E, nos voos, estarei em ti...
Metáfora e mente.
E, nas suas conquistas,
também conquistarei.
Se não tenho como ir,
alimento-lhe de mim.
E, assim, vou... em ti.
E, enfim, voo alto...
no seu voo...
com as suas asas,
com o seu talento.
Uma dupla,
uma equipe...
Mesmo a sós,
Sempre...
nós.

sábado, 21 de julho de 2018

Baile



Ferdinand Azalb

Se te quero,
nada quero,
além de mim.
Baile comigo
no salão da mente,
onde vejo a gente.
Aos poucos,
nesse bom bolero,
digo que te quero.
Imagine só?!
Imagino só!
Imaginação.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A Flor e a Náusea



Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Sobre Amar




Rodolfo Pamplona Filho

Brilhante não é a vida.
Brilhante é o amor que brilha em nós
Novidade não é o que acontece:
é o que fazemos acontecer.
Cada dia pode reservar
uma nova chance de viver 
ou de amar...
E o amor pode ser 
uma cadeira cativa de um estádio,
uma poltrona confortável de um teatro 
ou um banco duro de um ônibus.
Tanto faz...
De qualquer forma, vale a pena vivê-lo.

Salvador, 08 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Elegia 1938



Carlos Drummond de Andrade


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A Alma Doente



Rodolfo Pamplona Filho


O corpo dói
e pede ajuda
a quem sequer sentiu
a força da dor na alma.

A cabeça lateja
e reclama
de quem não viveu
a intensidade da alma.

O espírito fraqueja
e rasteja
por não conhecer
a cura da doença da alma.


Praia do Forte, 24 de junho de 2018.

domingo, 15 de julho de 2018

Canção de Mim Mesmo



Walt Whitman

1.
Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.

Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.

Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.

Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.

2.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.

A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.

A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

3.
Eu ouvi a conversa dos falantes, a conversa sobre o início e sobre o fim,
Mas não falo nem do início nem do fim.

Nunca houve mais iniciativa do que há agora,
Nem mais juventude ou idade do que há agora,
E jamais haverá mais perfeição do que há agora,
Nem mais paraíso ou inferno do que há agora,

O anseio, o anseio, o anseio,
Sempre o anseio procriador do mundo.

Na obscuridade a oposição equivale ao avanço, sempre substância e acréscimo, sempre o sexo,
Sempre um nó de identidade, sempre distinção, sempre uma geração de vida.
Não vale elaborar, eruditos e ignorantes sentem que é assim.

Certeza tal como a mais certa certeza, aprumados em nossa verticalidade, bem fixados, suportados em vigas,
Robustos como um cavalo, afetuosos, altivos, elétricos,
Eu e este mistério aqui estamos, de pé.

Clara e doce é minha alma e claro e doce é tudo aquilo que não é minha alma.

Faltando um falta o outro, e o invisível é provado pelo visível
Até que este se torne invisível e receba a prova por sua vez.

Apresentando o melhor e isolando do pior, a idade agasta a idade,
Conhecendo a adequação e a eqüanimidade das coisas, enquanto eles discutem eu mantenho-me em silêncio e vou me banhar e admirar a mim mesmo.

Bem-vindo é todo órgão e atributo de mim, e também os de todo homem cordial e limpo.
Nenhuma polegada ou qualquer partícula de uma polegada é vil e nenhum será menos familiar que o resto.

Estou satisfeito – vejo, danço, rio, canto;
Quando o companheiro amoroso dorme abraçado a mim a noite inteira e depois vai embora ao raiar do dia com passos silenciosos,
Deixando-me cestas cobertas com toalhas brancas enchendo a casa com sua exuberância,
Devo adiar minha aceitação e compreensão e gritar pelos meus olhos,
Para que deixem de fitar a estrada ao longe e para além dela
E imediatamente calculem e mostrem-me para um centavo,
O valor exato de um e o valor exato de dois, e o que está à frente?

4.
Traiçoeiros e curiosos estão à minha volta
Pessoas com quem me encontro, os efeitos que a minha infância tem sobre mim, ou o bairro e a cidade em que vivo, ou a nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores antigos e novos,
Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
A indiferença real ou fantasiosa de um homem ou mulher que eu amo,
A doença de alguém de minha gente ou de mim mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de dinheiro, depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem de mim outra vez,
Mas não são o meu verdadeiro Ser.

sábado, 14 de julho de 2018

Ninho Mofado



Rodolfo Pamplona Filho

Por mais que amemos
viver o nosso canto,
ninhos também mofam
e nunca voltam ao que eram...
Resta saber
se o costume do espaço
superará o cansaço
de nunca mais respirar livremente...

Salvador, 21 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Reencontro


Denise Lefrançois


Eu preciso descobri-lo

E quanto mais afundo

Vou me perdendo em

Mim mesma...

De camada em camada

Vou desnudando sua essência

sempre em busca de algo

Que vai me doer

Não por ser ele

Mas por seu eu

Algo que não foi dito

Me deixou perdida assim

Mergulho fundo agora em mim

Preciso descobrir-me...

Naquele espelho que escolhi

Para ver o que está a frente

Algo que não me foi mostrado

Procuro

Mas tudo é opaco

E sofro

Porquê é nele que

Estão minhas próprias respostas

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Desejo morrer



Rodolfo Pamplona Filho

Desejo morrer
por não poder
fazer mais do que
fiz para você,
na ilusão de que controlaria
onde o Sol um dia se poria.

Desejo morrer
por não conseguir
fazer você afinal sorrir
depois de uma vida
de luta, dor e lamento
como se sua sina fosse o sofrimento.

Desejo morrer
por não consumar o
tudo que sonhei realizar,
sentindo-me preso
a uma vida sem sabor
onde nunca terei o fogo do amor.

Salvador, 16 de junho de 2018

quarta-feira, 11 de julho de 2018

ARTIGO 59-A DA CLT



Na primeira impressão

Parece favorável

Para o art.7º, XIII, da Constituição

É inaceitável



Ao legislador ordinário

Não cabe abrir exceção

Sem comentários

Ir contra a Constituição



Atividades braçais

12 horas de jornada

Atividades intelectuais

Uma pressão instalada



Fadiga excessiva

Irritabilidade

Lei abusiva

Inconstitucionalidade.



Jorge da Rosa

terça-feira, 10 de julho de 2018

Elite




Rodolfo Pamplona Filho

Os Privilegiados
Os Herdeiros dos Reality Shows
Os Políticos do Um por Cento
Os Playboys Bilionários
Os Adoradores do Pato
Os Batedores de Panela
Os Cultuadores do Ódio
Os Bem-Nascidos
Os que se acham
Os de sempre,
mesmo que mudem as caras.

Praia do Forte, 03 de junho de 2018.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Minha querida, minha amada



Bruno Terras


Minha querida, minha amada,

agora que tanto se passou,

que mesmo a última esperança despedaçou,

é mais fácil admitir minha culpa

por seu agastamento, por não saber dizer,

no momento mais importante,

em que nada mais era significante,

uma palavra de amor.



Agora, quando nada resta,

quando não há nenhum motivo para aresta,

nem mesmo é relevante estar próximo ou distante,

desabafar é tonificante,

ainda que o alívio do espírito

não seja lenitivo para a dor

que cada parte do corpo sente

por ausência de seu calor.

Respiro profundamente e sem temor.



Quem não é de Deus que não repare

a confusão de um crente

no instante da separação.

Quem é do terreno infundado,

dos suspiros sem retorno,

do piso sem chão e que desequilibra,

que me aguarde,

estou descendo do campanário

que enganei merecer

e não me pertence nele viver.



Sorriem por me calar,

deprimem o sentimento de tocar.

Tudo que direi no oportuno.

Pagarei pelo deslate e nada reclamarei,

pregado por pés e punhos

de frente ao recôncavo de abominável destino.

Que significa agora dizer,

se o que disser já nada puder prover?



Torno os olhos para o poente

e apenas sei que se nada fizer

nem perdão dos meus netos merecerei.

Os sinos de que antes zombei,

agora tocam pelo meu silêncio

e eu nem sabia que era possível

sofrer depois do espírito liberto

de um corpo sem álibi sequer para morrer.

sábado, 7 de julho de 2018

Paz


Caio Lima

A paz reside na mente, não no mundo.
O mundo nunca estará em paz, mas a nossa consciência pode estar, desde que nunca deixemos de lutar pela paz no mundo.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

ARTIGO 58, §2º DA CLT




Jorge da Rosa 

Tempo disposto ao empregador

Observaremos os fatos

Porque o legislador

Fechou os olhos para os atos



Atos anteriores

Praticado pelo empregado

Nos arredores

Onde o empregador está locado



A manobra do motorista

O ligar de um fogão

O trabalho do jurista

Há antes toda uma preocupação



Energia empreendida

Processo de produção

Caminhada ardida

Até a grande plantação.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Será possível um final feliz?




Rodolfo Pamplona Filho

Um dia descobri que
homens perfeitos existem!
Eu, que já havia desistido de procurar,
fui surpreendida pela vida...
Ele sempre esteve tão perto,
mas era tão distante...
No dia que desisti,
ele apareceu como nunca
havia se mostrado antes...
Percebi que tudo
que eu tinha como verdade
apenas eram experiências
que não deram certo...
Ele era tudo o que eu sempre quis:
Me apaixonei;
Aprendi a amar;
Mas por ser tão perfeito,
alguém o havia descoberto antes...
Como isso acaba?
Ainda não sei...

Salvador, 23 de janeiro de 2018.