quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Aula de Economia

Veja só que matemática interessante:

Numa cidade, os habitantes, endividados, estão vivendo às custas de crédito.
Por sorte chega um gringo e entra no único hotel.
O gringo saca uma nota de R$100,00, põe no balcão e pede para ver um quarto.
Enquanto o gringo vê o quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de R$100,00 e vai até o açougue pagar suas dívidas com o açougueiro.
O açougueiro, pega a nota e vai até um criador de suínos a quem deve e paga tudo.
O criador, por sua vez, pega também a nota e corre ao veterinário para liquidar sua dívida.
O veterinário, com a nota de R$100,00 em mãos, vai até à zona pagar o que devia a uma prostituta (em tempos de crise essa classe também trabalha a crédito).
A prostituta sai com o dinheiro em direção ao hotel, lugar onde levava seus clientes; e como ultimamente não havia pago pelas acomodações, paga a conta de R$100,00.
Nesse momento, o gringo chega novamente ao balcão, pede sua nota de R$100,00 de volta, agradece e diz não ser o que esperava e sai do hotel e da cidade.

Ninguém ganhou um vintém, porém agora todos saldaram suas dívidas e começam a ver o futuro com confiança!


Moral da história: Quando o dinheiro circula, não há crise !!!

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Escuridão

Rodolfo Pamplona Filho

Há quem
tenha medo
da escuridão!
Eu, não!
A escuridão não me assusta,
pois você é meu farol
em toda bruma
que me encontro...
pois eu te amo...

nenhuma escuridao
vai minar
o meu amor por você,
pois, mesmo nela,
eu enxergo sua alma...
nem a escuridao que,
por vezes, maltrata
e assola nossos pensamentos
vai vencer o que sinto...
pois eu te amo muito...

Nenhuma escuridão
é forte o bastante
para sufocar
o grito da alma...
o clamor do amor...
a intensidade da canção
que vem do coração....
pois eu te amo para sempre....

Salvador, 08 de janeiro de 2011.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A louca

Augusto dos Anjos








A Dias Paredes


Quando ela passa: - a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.

Eu sei a sua história. - Em seu passado
Houve um drama d’amor misterioso
- O segredo d’um peito torturado -

E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça - coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Cheiro


Rodolfo Pamplona Filho

Seu cheiro em minha roupa
é a prova mais louca
de um amor real
mas, para muitos, imoral...

Guardo seu cheiro na memória
na esperança que o inesperado
possa mudar a nossa história
e nos dar a esperada vitória

....de um amor pleno,
que, sempre a contento,
cresce e se fortalece....

...de um sentimento sincero,
que, um dia, espero,
possa ser tão público quanto seu perfume.

Praia do Forte, 23 de janeiro de 2011.

sábado, 19 de dezembro de 2015

As coisas, de Jorge Luis Borges



A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas  a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que  partimos em um momento.

Jorge Luis Borges  (Obras Completas Volume II-página  394)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Desmascarando o Canalha

Rodolfo Pamplona Filho
Você se diz infinito,
acreditando que
seu poder é ilimitado,
mas está errado!

Você não passa de
um acidente da natureza,
um câncer da criação,
um tumor com ilusões de grandeza...

É hora de extirpá-lo...
jogando-o no lixo, que é o seu lugar,
para que eu dance sobre seu caixão
e escarre em sua sepultura...

Apenas mais irritantes que
as trombetas da moralidade alheia
(pois a própria não vale nada...)
só os sepulcros caiados
que posam de vestais nas cerimônias,
sem pudor da sua podridão interior...

Praia do Forte, 09 de março de 2011.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

BORGES

BORGES 

                       j.l.rocha do nascimento

penetrei intricados labirintos
cruzei infinitas câmaras
e antes que minhas retinas mourejassem
fiz concessões
de que me envergonhei depois
e
não me perdi

na saída
vi um jardim de tulipas negras
um rio circular
em cujas águas purifiquei o corpo
quando emergi e me pus em terra firme
desfiz-me em grãos de areia
tornei-me infinitesimal
ainda assim
senti frio

fui varrido pelo tempo
busquei abrigo
nas  mil e uma noites
[imaginei que ali encontraria o sentido de tudo]
aqueci-me
mas aí veio a febre
numa delas
sonhei
que dormia como um justo
nos braços de Sherazade

toquei com o dedo a lâmina do espelho
vi vários de mim
multiplicados
sem fim
como naquele jogo que inventastes
sonhos tigres punhais

hoje são teus olhos
[Deus irônico!
engolidos pelo breu da noite]
guias opacos
que me arrastam
como a tua sombra
pelos corredores da biblioteca hexagonal

eu li [tu dissestes]
não há nada que é
ou que será
que [eu] já não tenha sido

agora sei do outro
[que é] o mesmo
ser Borges
duplo de si mesmo

eu sei você vai saber

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Incompatibilidade de Vidas

Rodolfo Pamplona Filho
Ele ainda quer paixão
Ela só pensa em comprar o pão
Ele quer uma nova chance
Ela nem lembra mais o lance

Ele quer sexo selvagem
Ela quer voltar da viagem
Ele busca romance no olhar
Ela só sabe reclamar

Ele quer experimentar novos sabores
Ela fotografa as mesmas flores
Ele quer dançar no meio da rua
Ela reprime quem olha para mulher nua

Ele busca nova diretriz
Ela se preocupa com o café
Ele ainda sonha em ser feliz
Ela tem certeza que é...

Ele.já desistiu de insistir
Ela ainda não percebeu
Ele já decidiu desistir
Ela pergunta se o erro foi seu?

Ele ainda a ama
E ela o ama também
mas suas vidas mudaram na cama,
na rotina e no que mais têm

e deixaram de ser casais
para virar sócios materiais,
espirituais e emocionais
de um passado que não volta mais...

Orlando, 27 de fevereiro de 2011

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A esperança


 Augusto dos Anjos






A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Eu digo Não!

Eu digo Não!

Eu digo não a quem faz corrupção
Eu digo não a quem aumenta o feijão
Eu digo não a quem faz parte do Centrão
Eu digo não a político ladrão
Eu digo não a quem faz nada no Senado
Eu digo não a seu nobre Deputado
Eu digo não ao governador do Estado
Eu digo não a quem põe povo de lado
Eu digo não à União Ruralista
Eu digo não ao Partido Comunista
Eu digo não ao homem do decreto-lei
Eu digo não ao presidente José Sarney

Eu digo não à perda da inocência
Eu digo não a viver em violência
Eu digo não ao rombo da previdência
Eu digo não a esta falta de decência
Eu digo não a quem só sabe mandar
Eu digo não a quem vive a torturar
Eu digo não a quem mata para calar
Eu digo não à ditadura militar

(1987)
Letra: Rodolfo Pamplona Filho
Música: Rodolfo Pamplona Filho, Cedric Romano e Jorge Pigeard

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Visão de Verão

Olga Amorim






A gata galga o muro
reclama o cão escuro.

A romã pintalga.
o calor perdura.

A romã estala.
O calor perdura.

Voeja o beija-flor.
O calor perdura.

Abelha ronda o aroma
da goiaba madura.

O calor perdura.
Bem-te-vi te-vi te-vi
na antena de televisão.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Soneto da Musa Passante

Soneto da Musa Passante

Rodolfo Pamplona Filho

Você é, para mim, "a mulher que passa"...
Surge em minha vida como um perfume que inebria...
Desperta meu encanto como uma palavra lapidada
Encanta o meu desejo como um sonho que se realiza...

Deixe eu amar como se fosse a primeira vez,
mesmo que isso soe como um clichê,
pois quero deixá-la plena, da alma à tez,
descobrindo o prazer em você...

A musa é muito mais que inspiração...
É, da alma, a mais pura renovação,
que impulsiona o poeta a novos desafios

A musa é conforto e calor,
paixão incandescente e amor,
que preenche o que estava vazio.

Salvador, 09 de agosto de 2011.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O sítio

André Carvalheira





Em cada canto da casa,

teu cheiro felino

Em tudo reluz

Nas folhas, teus cabelos embaraçam

No vento, teu som-só sopra prazeres

N'água, teu corpo escorre segredos

Nas pedras, teus pés nus-húmidos gozam

Em cada canto de mim, teu cheiro felino

Em tudo reluz

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Humor


Humor

Rodolfo Pamplona Filho
A vida sem humor
não tem graça...
Literalmente...
É um critério perfeito
para escolher amigos:
Quem nao sabe rir de si
não merece rir de nós!

Brasília, 14 de março de 2013.

domingo, 29 de novembro de 2015

O Parto

Nauro Machado





Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.

sábado, 28 de novembro de 2015

Saudades...

Saudades...

Rodolfo Pamplona Filho
Saudades...
Sinto saudades...
Saudades
de teu carinho,
de teu beijo,
de teu corpo,
de teu sexo,
de tudo que te faz só ti,
de tudo que te faz só minha,
de tudo que me faz só teu...


Praia do Forte, 30 de maio de 2013.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Tietê

Ieda Estergilda





No caldo grosso do rio
derramei lágrimas de tristeza e mágoa
pela águas urbanas, paulistanas, devastadas.



Ontem peixes e barcos, hoje leito fedido
na capital
esse rio vive além da lama
dos cadáveres encalhados
dos esgotos que desembocam nele
esse rio em que acredito
pois salvar é coisa dos homens
mesmo que tarde.

Um rio
é uma beleza, um ser
o Tietê é uma beleza ferida
uma ferida que brilha

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Testamento


Testamento
Rodolfo Pamplona Filho

Como seria bom poder controlar
os rumos da vida depois do meu passar,
em uma extensão pós-morte do querer,
como se houvesse luz após o anoitecer.

Ensinaria tudo que não deu tempo de falar...
Protegeria todos aqueles que aprendi a amar...
Apagaria os rastros dos meus erros no caminho...
Confortaria todos que ficaram sem carinho...

Pediria perdão a quem eu magoei...
Explicaria o que sentia quando chorei...
Mostraria o que é o fracasso e a glória...
Tentaria dar um sentido à minha história...

O registro autêntico da minha vontade
A declaração antecipada (e inútil) da minha saudade
A eternização da vida em um único momento
A força simbólica de meu testamento.

Salvador, 23 de maio de 2010

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Tântalos

Inácio Raposo






Não pode ter de certo os olhos sempre enxutos

Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:

Sedento — vê debalde um córrego infinito;

Faminto — vê debalde os floridos produtos!...







Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,

Leve talvez pareça um bárbaro delito!...

Foge sempre a torrente ao mísero precito

E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!





Há Tântalos também na vida transitória:

Querem estes a lympha e os pomos do talento,

E morrem no hospital para viver na história.





Desditosos que são... no malogrado intento!...

Longe de haverem ganho os loiros da vitória,

Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Children of the Streets

Children of the Streets

They were born with no shelter,
Lived day by day!!!
They are the ones who know better
The real meaning of pain...

And when comes the night
And it’s dark the sky
They get ready to fight,
They get ready to die...

There’s no laughter in the city
When you find a child’s body
There’s no joke ‘n’ no pity
In the killer’s hours of glory

So, do you know what it means
To sleep out in the cold?
There’s no trouble that seems
Like your mind losing control.

There’s no smile in their faces
There’s no hope in their lifes
‘cause there’s no more places
Where they can live without lies...

As the sands of time grow old
And surviving turns to be a last chance
You’ll find: history has been already told
By the tears of children of the streets

(1991)
Letra: Rodolfo Pamplona Filho
Música: Flávio Maranhão

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Cinzas

Heitor Lima





A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.



O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!


Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso...
Ah! pensamento presumido e curto...


E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
— Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.

domingo, 22 de novembro de 2015

Soneto da Despedida do Apaixonado

Soneto da Despedida do Apaixonado

Rodolfo Pamplona Filho
Toques delicados e sorrisos leves,
sob a brisa do mar, ao anoitecer,
e os lábios sabem exatamente o que querem
quando o adeus tem que ocorrer

Preste atenção nos meus olhos:
eles brilham feito ouro
pois desejam, como poucos,
o teu amor sem decoro.

É difícil esquecer teu gosto
e ter que aceitar novos beijos
para manter nossos postos....

Meu coração está no abismo
e anuncia, a cada esquina, sem cinismo,
que a direção pode mudar..
Salvador, 29 de outubro de 2010.

sábado, 21 de novembro de 2015

Lembrança

Oswald Barroso






A lua te recordará

a branca noite

em que ela se despiu

e, vermelha,

se fez cúmplice

do nosso amor.







O mar te lembrará

nosso costume

de caminhar nas tardes

até o horizonte,

pois que o mar

também é cúmplice

dos namorados distantes.





E quando vires, amor,

num vão de céu

uma estrela,

tu não chorarás,

porque, então,

aprenderás o meu caminho.





Mas, quando o povo

andar triste pelos becos,

tu saberás do meu luto

e sentirás a dor

da dura separação.





Porém, se a multidão

ensaiar um canto,

tu saberás do meu riso

e nela me encontrarás.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Vou morrer...

Vou morrer...

Rodolfo Pamplona Filho
Vou morrer...
De saudade...
De desejo...
De vontade...
De desespero...
Dor que só um remédio cura:
o amor mais puro
e lindo do universo


Salvador, 16 de setembro de 2013.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

RETROSPECTO

Humberto de Campos

 


Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
e, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!
 
Ó mocidade que foges! brada
aos  meus ouvidos teu futuro, e pinta
aos meus olhos mortais, com toda a tinta,
os remorsos da vida dissipada!
 
Derramo os olhos por mim mesmo... E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto?  que me resta?
 
Nada: ao fim do caminho percorrido,
o ódio de trinta vezes ter jurado
e o horror de trinta vezes ter mentido!

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Fantasia Fugaz

Rodolfo Pamplona Filho








Vôos e Cascatas
Alegrias e decepções
Pássaros ariscos
Raízes de ilusões
Homem e natureza
Insofismável relação
Paralelas que se encontram
No infinito da razão

Crepúsculo, céu em chamas
São doces sonhos, fantasias
As mudanças de lágrimas para risos
Têm a complexidade de da noite para o dia
... da noite para o dia

Vida, margens duma porção,
Um todo preenchendo metade,
O ciclo da dualidade!
Natural e urbano
Distinguem-se na feição,
Mas são frágeis correntes entrelaçadas
numa mesma...
... canção!

Letra: Rodolfo Pamplona Filho
Música: Jorge Pigeard
(1989)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

SONETO

Rubem Braga




E quando nós saímos era a Lua,
Era o vento caído e o mar sereno
Azul e cinza-azul anoitecendo
A tarde ruiva das amendoeiras.

E respiramos, livres das ardências
Do sol, que nos levara à sombra cauta
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.

Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.

Se mágoa me ficou na despedida
Não fez mal que ficasse, nem doesse –
Era bem doce, perto das antigas.
(1947)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Planejamento Sucessório

Rodolfo Pamplona Filho




Quando, um dia, terminar
a minha jornada terrena,
quero apenas encontrar
a paz em minha pequena

estrada de férteis encontros,
alguns triunfos e acertos,
mas também de desencontros,
reencontros, derrotas e apertos...







Não quero que os que deixo
disputem os poucos bens
que, com muita luta, conquistei,

mas, sim, que encontrem o eixo
da concórdia e harmonia,
não chorando de barriga vazia,

nem tendo a amarga sensação
de desamparo e solidão,
sabendo que eu tive o cuidado
de deixar tudo organizado,

na consciência de minha finitude,
fazendo tudo que eu pude
para, seguindo minha verdade,
distribuir segundo a necessidade

e justiça de uma partilha em vida
de um patrimônio que perece e rui
pois o que é realmente importante

é herdar o orgulho e a saudade doída
somente de quem, em essência, fui,
não do que eu tive na estante.


Salvador, 08 de dezembro de 2013, tendo dobrar um soneto...

domingo, 15 de novembro de 2015

Vaidade

 Florbela Espanca





                                          A um grande poeta de Portugal



Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !


Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada !


E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...


Livro de mágoas (1919)

sábado, 14 de novembro de 2015

Filosofando em Alemão

Rodolfo Pamplona Filho






Nós somente podemos filosofar em alemão.
Quem disse que "sol" é masculino?
Quem disse que "lua" é feminino?
Por que nós identificamos a natureza?
Por que nós damos à natureza um determinado gênero?
O Sol, El Sol, Le Soleil, Il Sole ...
A Lua, La Luna, La Lune, La Luna ...
Se for para atribuir gênero, quem dá vida é sol e a lua é o guardião ...

Salvador, 09 de setembro de 2011.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Noite morta

Manuel Bandeira




Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.


Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.


No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.


O córrego chora.
A voz da noite . . .


(Não desta noite, mas de outra maior.)


Petrópolis, 1921

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Diagnóstico: Rotina

Rodolfo Pamplona Filho








A rotina é inevitável
para qualquer pessoa,
mas adorá-la e desejá-la
rígida, imutável, chata...
soa patológico...

O que mata uma paixão
não é o fim do amor,
mas a falta de vibração
e de ânimo de quem
se busca amar...

A falta de vontade
de dançar, de beijar,
de fazer, de tudo,
um pouco, vivendo
pequenas loucuras...

A falta de encantamento
com a música, a cor e a poesia...
Vira falta de tesão
e de calor na alma,
na cama e no drama...

Salvador, 09 de janeiro de 2013.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Lembrança

Cláudia Barral




Te amo como a moça que arde em febre e não dorme
Por longos corredores desertos
Antes mesmo de te amar
Como a um filho
Como a um irmão
Como alguém partindo em breve
Como é o consentir
Como o momento em que acaba a missão de esperar
Como o sol nos pátios dos sanatórios, dos presídios e
            [entre rostos de vidro dos santos das catedrais
Como se sua voz fosse a luz
Como alguém que acabou de dar-se conta que é feito
                                              [somente de lembranças

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Soneto da Sintonia Infalível

Rodolfo Pamplona Filho






Ainda que divididos pelo Atlântico
e por fusos horários incompatíveis,
o que um sente de um lado,
o outro automaticamente responde.

Se um levanta assustado,
encontrará o outro conectado,
como se a energia gerada
fosse automaticamente repassada.

É realmente impressionante,
como tudo surge em um instante,
permitindo a imediata compreensão

pois o que, para muitos, é acaso,
para mim, é o mais evidente traço
de uma sintonia infalível de paixão.

Pamplona/Espanha, 03 de outubro de 2012.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Canção

Cecília Meireles








Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

domingo, 8 de novembro de 2015

Duplo Soneto Ao Melhor Amigo

Rodolfo Pamplona Filho





Perdoe-me se eu nunca disse antes,
mas eu te amo muito, meu amigo:
nada na minha vida é relevante,
se eu não puder contar contigo.

Acordei assustado de madrugada,
pois sonhei que tinhas ido embora,
Por isso, corri para, em palavras,
registrar o que senti agora:

se, por acaso, eu me for
antes da tua partida,
guardas bem esta despedida

pois significa o fim do torpor,
que aprisionava meu sentimento
para fazer este testamento:

na vida, fui, de tudo, um pouco:
sucesso e fracasso, médico e louco,
gozo e cansaço, perda e laço,
lágrima e amasso, soco e abraço.

Mas nada valeu mais a pena
do que descobrir a pequena
jóia que dois homens de verdade
podem fazer para a eternidade

saber que não importa a distância,
nem o choro incontido de criança,
ou o inevitável decurso do tempo,

O mundo jamais verá algo mais puro
do que a amizade que rompe muros
e dura mais do que o sopro do vento.

Buenos Aires, 21 de junho de 2011, 4:30 am.

sábado, 7 de novembro de 2015

Pranto Para Comover Jonathan

Adélia Prado







    Os diamantes são indestrutíveis?
    Mais é meu amor.
    O mar é imenso?
    Meu amor é maior,
    mais belo sem ornamentos
    do que um campo de flores.
    Mais triste do que a morte,
    mais desesperançado
    do que a onda batendo no rochedo,
    mais tenaz que o rochedo.
    Ama e nem sabe mais o que ama.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Mergulhando com Tubarões

Rodolfo Pamplona Filho




Ao enfrentar o mar bravio,
para encarar o desafio
de mergulhar com tubarões,
pergunto-me as razões
de fazer tudo isto!
Talvez seja um feitiço
ou mesmo uma loucura
buscar uma aventura
de pura adrenalina...




É que a vida ensina
que teoricamente bem faz
quem, em casa, fica em paz
e definitivamente não se arrisca,
nem tem a menor pista
do que é o medo superar.
É hora de prender o ar,
pois o barco parou
e, ato contínuo, vêm o temor
e a palpável tensão,
ao controlar a respiração,
para, nas águas, mergulhar
e ver o fundo do mar...




O momento chegou
e, com ele, o terror
de observar, sem zelo,
o seu pior pesadelo:
o grande tubarão branco!
Encosto-me no canto
da grade de proteção,
tentando controlar a emoção
e até mesmo uma dor no peito,
que não tem qualquer efeito
para frear o meu intento
de viver aquele momento!
O suspense é paralisante,
pois, a qualquer instante,
pode o monstro surgir de repente
e o faz, bem visível à sua frente,
chocando-se com o ferro,
em segundos que duram um século,
abocanhando a isca lançada,
como se toda força fosse nada,
para logo seguir adiante,
mas, para sempre, continuar pulsante
na memória de quem esqueceu o frio,
só para preencher o vazio
com a sensação de que é cativo:
a emoção de estar vivo!





Gansbaai, 14 de setembro de 2015 (complementada em Joanesburgo, 17 de setembro de 2015).

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A tesoura de Toledo

Murilo Mendes




Com seus elementos de Europa e África,
Seu corte, inscrição e esmalte,
A tesoura de Toledo
Alude às duas Espanhas.
Duas folhas que se encaixam,
Se abrem, se desajustam,
Medem as garras afiadas:
Finura e rudeza de Espanha,
Rigor atento ao real,
Silêncio espreitante, feroz,
Silêncio de metal agindo,
Aguda obstinação
Em situar o concreto,
Em abrir e fechar o espaço,
Talhando simultaneamente
Europa e África,
Vida e morte.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Desbravando o mar

Rodolfo Pamplona Filho




As ondas quebram,
espalhando-se abundantes
por todos os lados.
O barco balança
como um brinquedo
nas mãos de uma criança.
Em nada ajuda
saber que o mar é sepultura
de infindáveis criaturas.
Parece inevitável
sentir o gosto
da água salgada.
O enjôo vem
e se busca o controle
para não desabar.
O medo se mistura
com a maresia
em um sentimento único.
O tempo passa
e a esperança de pisar terra firme
é a bússola a orientar.
Até que vem a calmaria
e a paz volta a reinar
depois do desbravar do mar.

Gansbaai, 14 de setembro de 2015 (complementada em Joanesburgo, 17 de setembro de 2015, e finalizada em pleno vôo para São Paulo, 18 de setembro de 2015).

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O Tempo

Patricia Tenório




A grande verdade descortina em azul
E a cor dos teus olhos esvaece
No horizonte perdido dos meus dias
Sozinhos.

Na áurea da juventude esquecida
Nos poucos rubros que escondo
No rosto exposto que vejo
Na flor que murcha e se esquece.

E tudo o que fui me aparece
A tela pintada se agita
Vendo a distância construída
Na efêmera fumaça perdida.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Sempre tem alguém para reclamar

Rodolfo Pamplona Filho






Se não tem espelho no banheiro,
reclama da ausência;
Se tem, do modelo, tamanho ou qualidade;
Se sorteiam brindes,
reclama que nunca é vencedor:
Se recebe, acha mixaria;
Se uma medida é tomada, para evitar danos,
reclama de ter de abrir mão;
Se a medida não é tomada e o dano ocorre,
reclama por qual motivo não fizeram nada...
Se o líder contrata, é perdulário;
Se não, é omisso;
Se alguém cumprimenta alegre, é gaiato;
Se alguém cumprimenta triste, é mal-amado;
Se não cumprimenta, é boçal.
Se alguma coisa está boa,
alguém tem de achar algum mal.

No vôo de Joanesburgo para São Paulo, 18 de setembro de 2015.

sábado, 31 de outubro de 2015

Tem, mas acabou

Rodolfo Pamplona Filho





Ter, tem, mas acabou
Ter, tem, mas ainda não chegou
Ter, tem, mas ainda está com o fornecedor
Ter, tem, mas está em falta
Ter, tem,

São Paulo, 18 de setembro de 2015.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ah destino!

Aíla Sampaio


enquanto te debulhas em marcar
o meu próximo passo,
um pássaro me oferta suas asas
e o sol arrefece seus raios
para me ver alçar vôo.

E quando penso que enfim driblei
a tua fúria, tu, agasalhado na
imponderável sina, não respeitas
o meu desejo de rasgar as distâncias.
Ris da minha pretensão de querer
arrebentar as amarras
e astuciosamente planejas a minha queda.

E tão bruscamente me fazes enxergar
que era de crepom o pássaro e inconsistentes
as asas, que esqueço de te condenar
e me censuro por sonhar tão alto.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Por que servir?

Rodolfo Pamplona Filho




Quem quer realmente servir
não deve tentar justificar
por causa do que faz ou foi feito,
mas pelo que essencialmente é!

Quando a verdade vira slogan,
perde-se o sentido da mensagem,
pois dedicação não é palavra vã
e, sim, entregar-se totalmente

não para ídolos reverenciar,
nem mostrar gratidão ou retribuição,
mas, de forma convincente,

buscar modelo e exemplo,
encontrando no próprio espelho
Santidade, Zelo e Fidelidade

Salvador, 20 de setembro de 2015.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O utopista

Murilo Mendes




Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Vino et Veritas

Rodolfo Pamplona Filho






In vino, veritas
In veritas... Vino!
Life's too short
to drink bad wine...
A vida é muito curta
para tomar um vinho qualquer...


Stellenbosch, 12 de setembro de 2015.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O inútil luar

Manuel Bandeira





É noite. A Lua, ardente e terna,
Verte na solidão sombria
A sua imensa, a sua eterna
Melancolia . . .
Dormem as sombras na alameda
Ao longo do ermo Piabanha.
E dele um ruído vem de seda
Que se amarfanha . . .


No largo, sob os jambolanos,
Procuro a sombra embalsamada.
(Noite, consolo dos humanos!
Sombra sagrada!)


Um velho senta-se ao meu lado.
Medita. Há no seu rosto uma ânsia . . .
Talvez se lembre aqui, coitado!
De sua infância.


Ei-lo que saca de um papel . . .
Dobra-o direito, ajusta as pontas,
E pensativo, a olhar o anel,
Faz umas contas . . .


Com outro moço que se cala,
Fala um de compleição raquítica.
Presto atenção ao que ele fala:
— É de política.


Adiante uma senhora magra,
Em ampla charpa que a modela,
Lembra uma estátua de Tanagra.
E, junto dela,


Outra a entretém, a conversar:
— "Mamãe não avisou se vinha.
Se ela vier, mando matar
Uma galinha."


E embalde a Lua, ardente e terna,
Verte na solidão sombria
A sua imensa, a sua eterna
Melancolia . . .


domingo, 25 de outubro de 2015

Sentir-se Fraude

Rodolfo Pamplona Filho



Às vezes, ás...
Às vezes, asno...
Saber que sabe mais
do que a média 
não é garantia 
de saber alguma coisa...
pois, por mais que se saiba,
todo conhecimento 
será sempre limitado,
enquanto não há 
limite para a ignorância...

Capetown, 08 de setembro de 2015.

sábado, 24 de outubro de 2015

Não tão simples assim

Trocarei de nome
No primeiro momento
Do nosso ultimo encontro
Pondo fim a mentira que acreditávamos
Unir as diferentes metades

Marcarei meu corpo e
Incendiarei as lembranças
Ainda que elas vagueiem nas notas
De uma canção que traga saudade
Em dado momento de solidão

- mas se o teu nome está definitivamente marcado na memória.
Então que seja perdoada a minha insanidade.
Pois ela é a única coisa que resta
A um homem refém de suas próprias lembranças
Alheias a realidade, porém escravas de um olhar.

Morrerei de fome!
(uma morte torpe),
e levarei às últimas instâncias.
Tudo aquilo que não acredito

Entre causas e consequências
O fim poderia ser os teus lábios
- mas não sei como acabará essa história.
(Não tão) simples assim.

Eduardo Lins e Luís Fellipe Pereira Siqueira