quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Perdão




Rodolfo Pamplona Filho

Desculpe por não ter imaginado sua dor
Desculpe por ter te causado horror
Desculpe por ter sido tão insensível
Desculpe por ter sido tão horrível
Desculpe por pensar que atos somem


Desculpe por ter sido tão homem

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ATMOSFERA




Jorge da Rosa
⁠⁠⁠⁠

Encontro dos pássaros
Crepúsculo adiante
O rio e seus traços
Flora dignificante

Uma atmosfera
Com várias belezas
Longe das feras
E das incertezas

Feras estas
Que devoram o país
Déspotas
O povo clama por luz

Répteis rastejantes
Engolem uns aos outros
O trabalhador é insignificante
Para estes monstros.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Apenas um dia ruim




Rodolfo Pamplona Filho

Cuidado com
os dias ruins...
Não tome decisões
em dias ruins...

Por vezes, só o que
é necessário é
apenas um dia ruim

Há momentos em que
tudo é despertado por
apenas um dia ruim

Todo o amor
Toda uma vida
Tudo que se acredita
desvanece por
apenas um dia ruim

Se tudo que é sólido
desmancha no ar,
não há efetiva diferença
entre loucura e sanidade,
se você se apega à realidade
acreditando em
uma só verdade.

O que faz ser
o que você é?
O que dá sentido
ao que você faz
ou diz
ou quer fazer
ou diz que quer fazer?



apenas um dia ruim...

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Grazia



Lea Oliveira

Alguns não a conheciam
Isso eu tenho a lamentar
Pois você é exemplo
Alguém para se espelhar

Com seu jeito reservado,
vi devagarinho, a nossa amizade brotar
E assim reunimos
Muito carinho num só lugar

Vocacionada
Comprometida
Você dedicou sua vida
A árdua tarefa de julgar

Incansável e minuciosa
Você foi preciosa
Diligente e cuidadosa
Com cada causa a apreciar

No descanso da aposentadoria
Você estava radiante
Esbanjava alegria
Com o mundo novo que se abria

Agora, amiga querida,
Que partiu precocemente
Fica a lembrança florida
De quem terá você sempre em mente

domingo, 13 de agosto de 2017

O Canto do Cisne





Rodolfo Pamplona Filho

A proximidade da despedida
faz com que a melodia
mais encantadora
seja continuamente entoada,
como a forçosamente lembrar
os momentos de fascinação
que ficaram no passado
e que nunca voltarão...
Assim, sai de cena o Cisne,
dando lugar, no palco da vida,
a quem viverá o futuro...

Madrid, 06 de outubro de 2012.


sábado, 12 de agosto de 2017

O Som do Silêncio



Danielle Santos Gaspar Dórea

Atente-se para o silêncio a sua volta.
Costuma falar mais que imagina.
Descreve, na ausência ,sua revolta.
Cala a dor que dentro desatina.
Já as palavras, frágeis , nada são.
E olhe a importância que recebem!
Tentam conter o incabível , em vão.
Omitem tudo o que não descrevem.
Emudeça-se como o sábio poeta
Cujo texto ao leitor se faz bonito.
Mais que escritor, tem como meta
Fazer ouvir também o não-dito.
Pois no silêncio tudo e nada cabem,
É uma lacuna a ser preenchida.
É aquilo que as palavras não sabem,

E que pelo silêncio, cria vida.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Conquista em Ciudad Real





Rodolfo Pamplona Filho


Vini, vidi et vici.
O sabor da conquista
é maravilhoso e inesquecível.
Realizar em tempo recorde
aquilo que outros
não conseguem fazer
em toda uma vida
é uma satisfação
que não se quer abrir mão...
Sentir-me como meu amado
Esquadrão de Aço,
buscando mais um...
mais um título de glória
é uma felicidade comparável
a escrever um livro,
plantar uma árvore
ou ter um filho:
é preciso viver para sentir!
E tudo que fica
é a sensação
e a vontade de dizer:
Para o alto e avante!


Ciudad Real, 04 de outubro de 2012

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ser/Estar Amor



Danielle Santos Gaspar Dórea

O amor virou o meu estado.
Hoje, mais tua que minha.
Sou transbordante, ao seu lado.
Sou incompleta, sozinha.

É estranho me perceber
Quando não mais me basto.
És pedacinho do meu ser
Da minha bandeira, o mastro.

Desejo um reciproco amor
Duas partes de uma mesma estrada.
Quero , no frio, seu calor.
Quero meu coração sua morada.

Que queira Deus,
Que queira você
Eu quis.

Ser meu e seu,
Tornar meu o seu,
E ser um só, feliz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Aprisionado



Rodolfo Pamplona Filho


A vida além das grades
não passa de uma lembrança
de um sonho longínquo
e a esperança da liberdade
é um sussuro em meio
a um violento tornado...
E, neste fio quase invisível,
busca-se um poder sobrenatural
de adentrar o coração das trevas
sem medo e sem ser incomodado,
para salvar sua vida
das ignonímias infernais
sofridas neste purgatório...
O que será esta força?
A certeza de que é melhor
morrer em pé do que de joelhos...

No trem de Pamplona para Madrid, 03 de outubro de 2012.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

SANGRANDO


António Lafayette

Intensidade morta
Mortificação da sobrevivência
A voz que não nos revela
Mas que sangra o olhar
A moral que reprime (des)amparados
Lança-nos no viver ausente
Encontramo-nos na origem imaginária
O utópico real, o lugar do desejo não permitido
Pertence-se ao inexistente
Inexistência do viver, do desejo
Os olhos sangram, a voz mente
Manifestação inautêntica
Tempo e representação
Intensidade sangrando

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Voltar a Viver




Rodolfo Pamplona Filho


Meu Deus...
Quanto tempo desperdiçado...
podendo estar ao seu lado...
meus olhos se perdem
e se confundem
com o verde do mar...
e trazem a lembrança
que me faz sonhar...
que você é real
e que quero te abraçar...

Mas este mesmo Deus
permitiu-nos o reencontro...
para o qual finalmente
estávamos prontos...
o que talvez, na verdade,
não fosse possível no passado...
pela intensidade e maturidade
do puro amor revelado...

E a cada momento vivido,
que, para muitos, seria incompreensível
é cada dia mais bonito...
é cada dia mais incrível...
e me concede a certeza
de ser um presente da natureza
com uma indescritível beleza...

E não tenha dúvida de que algo nasceu
com animus de definitividade,
o que prova que serei sempre seu
e que voltar a viver não tem idade...

Salvador, 05 de outubro de 2010.

domingo, 6 de agosto de 2017

Sabedoria, Idade e Vida







Israel Correia






Precoce cansaço do assédio dos fracos

E dos agudos latidos em torno da caravana

Cometo crime sensato buscando o nirvana

Abandonando de vez a loucura dos palcos



Nada a ser provado.  Pois na solidão existo.

Sabedoria chega quando o calvário ferra

Necessária é a dor da coroa de espinhos

Ao judeu despercebido do que ela revela



Assim, idade perfeita estes trinta e três

Tenho anos nesta vida pela última vez

Nunca fui o fruto duma só semente



Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente

Povo que doravante não vê, não ouve, não fala

Massa inanimada, só consente e cala!

sábado, 5 de agosto de 2017

Olhando os Campos da Espanha




Rodolfo Pamplona Filho

Olhando os Campos da Espanha,
pensei em toda minha existência,
a caminho de Pamplona,
origem e destino fundidos,
sem saber o que o futuro reserva
para cada momento a viver,
cada desafio a enfrentar
e cada decisão a tomar...

Sentado horas no trem,
entretido com imagens na janela
e ouvindo meu amigo Daniel a cantar
no music player do celular,
satisfeito com o passado construído,
revi cada instante vivido,
cada batalha vencida
e cada resolução assumida...

Esperando o tempo passar,
vi-me menino carente e homem feito,
com desejos ainda a saciar
e a nutrir esperanças de voltar
a acreditar em algo a encantar
cada segundo que resta da lida,
cada tarefa a ser perseguida
e cada mudança nos rumos da vida...

Olhando os Campos da Espanha...

No trem de Madrid para Pamplona, 02 de outubro de 2012.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Meu poema de chuva




Ildásio Tavares



Meu poema não visita a antologia
Dos momentos que a chuva salpicou
Nem se curva ao tip-top na janela
Onde sem mais querer
A chuva semissente se instalou, —
Ele se esgueira, calmo e contemplado,
Até a intimidade sem recursos da gota mais minúscula,
E em uniliquescência permanece;
E assim, as palavras feitas chuva
Se escorrem lá pra baixo da ladeira e
São sorvidas sem serem pressentidas
Pela terra,
Pelo lago,
Ou pelas tradicionais bocas de lobo.


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Sabedoria em Efésios 5, 15-21




Rodolfo Pamplona Filho


Sabedoria é mais do que
algo de tudo conhecer...
é saber lidar com o tempo,
a vontade e os desejos...
pois não saber dominar o tempo
é se tornar escravo dele...
pois não admnistrar a vontade
é ser dominado por ela...
pois não depurar seus desejos
é se entregar a eles...

O controle do tempo não significa
conseguir fazer tudo na vida,
mas, sim, saber o que se prioriza
e o que nem entra na lista...
A vontade não pode se resumir
ao que dá certo,
mas sim a intenção
que se leva no coração...
Saber qual é o seu desejo
não é negar a própria satisfação,
mas ter plena e efetiva consciência
do que é vital para a sobrevivência.

Salvador, 21 de outubro de 2012, refletindo sobre a palavra do Pastor Afa Neto...

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pedreira




Francisco Inácio Peixoto





Dependurados no espaço
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.


Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A Mulher que mais amo na vida




Rodolfo Pamplona Filho

Há uma mulher que eu amo:
não há sensação melhor
do que colocá-la para dormir
e esperar seu despertar...

Há uma mulher que eu amo muito:
não houve dia mais feliz
do que o dia em que ela surgiu em minha vida,
dando sabor ao que era insípido,
dando cor ao que era apagado,
dando luz ao que era trevas...

Há uma mulher que eu amo demais:
cada ato por ela praticado,
cada palavra por ela dita,
cada ar que ela respira
aumenta a minha alegria infinita

Há uma mulher que eu amo bastante:
se o amor é inesgotável,
para ela, é o suficiente,
pois tudo que sou somente fez sentido
por, um dia, tê-la, nos meus braços, recebido.

Há uma mulher que eu amo loucamente:
por ela, mato e morro;
luto e não desisto; choro e rio;
no sol, chuva, calor ou frio.

Há uma mulher que eu amo...
É a mulher que eu amo mais na vida!
A mulher que eu amo mais na vida
é você, minha filha!

Praia do Forte, 10 de outubro de 2010.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Recado




Fagundes de Oliveira



Demonstra com doçura o teu amor,
Num gesto apenas, sem falar, só pensa
O quanto o sentimento é uma presença
Que adorna a vida e a encanta em seu valor.


O orvalho da manhã tem um sabor
De vida nova e uma esperança imensa.
O tempo vai passando e a recompensa\
É igual a um beijo dado com calor.


Procura ser feliz - a vida é leve
Não pára e não dá tempo à indecisão;
É um vento que acalenta enquanto é breve.


O sonho vai passando e na verdade
É uma janela aberta à imensidão
Com gosto de esperança e de saudade.

domingo, 30 de julho de 2017

Mágoas




Rodolfo Pamplona Filho

Há quem prefira
vender uma amizade
por um cachê artístico;
desprezar um amor puro
por ouvir a opinião de uma prima;
desprestigiar o trabalho alheio
para tentar se auto-afirmar;
esquecer uma fraternidade solidária
para soar de vítima da situação;
humilhar com ar de superioridade
a efetivamente investigar o ocorrido;
tripudiar a imagem de colegas
para posar de voz da maioria;
blefar descaradamente e sem pudor
do que aceitar ajuda desinteressada;
ignorar a presença e o cumprimento
em vez de tentar um diálogo honesto;
fazer troça da desgraça alheia
para se sentir aceito no grupo;
perseguir incansavelmente
por não tolerar o diferente;
jogar fora a chance de fazer o Bem,
para se deleitar com seu veneno...

Isso só gera mágoa,
que vira raiva,
até se converter,
se houver o remédio
do esquecimento,
em profunda indiferença,
mesmo sendo cicatriz,
que não se apaga,
para ensinar
em quem vale confiar...

Pamplona, 03 de outubro de 2012, pensando sobre o passado...
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

sábado, 29 de julho de 2017

Os Pastos da Razão





Chico Settineri





Deboche delírio fêmea...
Piratas especialistas
de naus
do Descobrimento.
Diâmicos, cruéis, polivalentes
cruzamos juntos, tontos e doentes
os passos (tentem!)
da paixão.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A Palavra




Rodolfo Pamplona Filho

A palavra encanta
e provoca a reflexão
Se a imagem diz muito,
a palavra diz tudo,
para sábios e incultos,
na medida do seu alcance...

Madrid, 01 de outubro de 2012.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A vida





Camilo Martins Neto




Mergulho no rio 
Correnteza à baixo
Nadando de frente
Ora de lado
Outras de costas
Enfrentando tudo
Basculhos, pedras
Cortantes folhas,
Águas turvas,
Peixes vorazes,
Cobras venenosas,
Peçonhentos tantos
A desanimar a lida.
Mas, nado, e, nada
Me impede a ida
Quero chegar ao
Outro lado da vida.
Canso, descanso
E no remanso fico
A boiar na água
Mansa do meu rio.
Rio que vai e nunca
Mais volta, tal como
Eu que nado, nado...
E vou, pra nunca
Mais voltar à mesma
Água que se foi.
É assim, braços
Cansados, pernas
Cansadas, corpo
Cansado, o tempo
Que também se foi...
Estou quase chegando
Ao outro lado do rio
Nado e nada me
Impede de pisar
Em solo firme
E vem lembranças
Da travessia 
Quanta luta e o
Suor se misturando
Com a água do rio,
As lágrimas a
Aumentarem-lhe
O volume e juntar-se
À água salgada
Do velho mar.
Falta pouco e
Nesse pouco
Vejo o quanto
Foi importante
Nadar e não
Deixar que nada
Impedissem as
Sagradas braçadas
Que além das
Forças, minhas e
Do rio, foram
Vencendo cada
Obstáculo quase
Intransponíveis
Da travessia do rio.
E continuo nadando
E dando tudo de
Mim para vencer
A correnteza final
E chegar e sorrir
E chorar de alegria
E descansar afinal
Merecidamente
Eternamente, pois
Assim é a vida.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Todo mundo é vítima




Rodolfo Pamplona Filho

Todo mundo é vítima
e ninguém assume a culpa
Todo mundo é vítima
e se pode fugir da luta
Todo mundo é vítima
e se empurra a responsabilidade
Todo mundo é vítima
e não se muda nada de verdade
Todo mundo é vítima
e há argumento para tudo
Todo mundo é vítima
e punir é um absurdo
Todo mundo é vítima

No Trem de Madrid para Pamplona, 02 de outubro de 2012.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Dia




Adélia Prado




As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral -
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Soneto da Sintonia Infalível





Rodolfo Pamplona Filho

Ainda que divididos pelo Atlântico
e por fusos horários incompatíveis,
o que um sente de um lado,
o outro automaticamente responde.

Se um levanta assustado,
encontrará o outro conectado,
como se a energia gerada
fosse automaticamente repassada.

É realmente impressionante,
como tudo surge em um instante,
permitindo a imediata compreensão

pois o que, para muitos, é acaso,
para mim, é o mais evidente traço
de uma sintonia infalível de paixão.

Pamplona/Espanha, 03 de outubro de 2012.



domingo, 23 de julho de 2017

A Vida





Adão José Pereira




A vida é um poema mui lindo

Que o Pai Celeste assinou,

E com habilidade infinda

Afeto e ternura expressou.



Porém ela é veloz e passageira,

Corre tão rapidamente!

E qual uma águia ligeira,

Passa e nos leva de repente.



Ma enquanto existe há esperança

De que melhores dias virão!

Trazendo paz, amor e bonança,

Fartura, prosperidade e realização.

sábado, 22 de julho de 2017

Necessidade de Reclamar




Rodolfo Pamplona Filho


Há indivíduos que
mal comem feijão com arroz
e querem questionar
a qualidade do champagne...
Pessoas que não sabem distinguir
um idioma de um dialeto,
um prato de um lanche
ou uma casa de um lar
e querem posar para a sociedade
como sacerdotes do culto,
vestais do templo
ou oráculos da verdade...
Pobres diabos,
eles não sabem
o que fazem, pois
sua vontade de viver
se confunde com
sua necessidade de reclamar...

Pamplona/Espanha, 03 de outubro de 2012.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Paratodos




Chico Buarque de Holanda

               

O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro
Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista

O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Soneto da Dissonância Cognitiva




Rodolfo Pamplona Filho

Contrastar uma crença básica
em oposição diametral à outra.
Viver uma vida antropofágica,
devorando o que está à solta.

Declarar-se algo
que se sabe que não se é...
pois tudo que conquistou
foi baseado em um temor

que deixou de existir,
passando a viver
somente para repetir

o que nem mais se crê,
em  uma forma de auto-punir,
ao impor a si mesmo um sofrer...

Mikonos, 24 de setembro de 2012.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Formosa

Maciel Monteiro






Formosa, qual pincel em tela fina

Debuxar jamais pode ou nunca ousara;

Formosa, qual jamais desabrochara

Na primavera a rosa purpurina;





Formosa, qual se a própria mão divina

Lhe alinhara o contorno e a forma rara;

Formosa, qual jamais no céu brilhara

Astro gentil, estrela peregrina;





Formosa, qual se a natureza e a arte,

Dando as mãos em seus dons, em seus lavores

jamais soube imitar no todo ou parte;





Mulher celeste, oh! anjo de primores!

Quem pode ver-te, sem querer amar-te?

Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

terça-feira, 18 de julho de 2017

Medicina




Rodolfo Pamplona Filho


É no Santuário de Sculapio,
em que Hipócrates separou
o Logos da Cega Crença,
que se depositam as esperanças
de quem ainda crê em salvação,
não da alma perdida ou maltratada,
mas, sim, do corpo massacrado,
entregue às intempéries da saudade,
no sofrimento da enfermidade.
Não se sabe quem cura:
se Deus ou a mão do homem...
Isto pouco importa para quem busca
a retomada do vigor,
o reencontro do calor
e a superação do torpor
do sofrimento e da dor.

Atenas/Grécia, 29 de setembro de 2012, pensando no Templo de Sculapio.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Esquiva




Garcia Rosa





Quando passas altiva e desdenhosa,
Como uma deusa em mármore esculpida,
Lembras-me a Grécia antiga e luminosa
E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.


Toda a força do amor misteriosa
Trazes soberbamente refletida
Na perfeição da plástica mimosa
E na graça do andar, indefinida...


Mas quando te acompanho na esperança
De penetrar os íntimos refolhos
Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,


Volves em torno, distraída, os olhos,
Na pertinácia vã de uma esquivança
Que semeia ilusões em vez de abrolhos.

domingo, 16 de julho de 2017

Sagapo






Rodolfo Pamplona Filho

Kalimera,
agapi mou!
Giassou,
minha Athenea!
Deixe-me ser seu Colosso,
parakalo,
procurar suas curvas
e cavernas de Santorini...
Fugirei para Patmos,
pregarei em Éfeso
e sonharei em Mikonos.
Quero ser sua Acrópole,
matando o minotauro em Creta
seemera et avrio.
Seja a minha forma clássica:
dórica, jônica ou korinthia...
Sagapo, meu Parthenon!
Se me fascinam
as mulheres de Atenas,
da vida, eu quero
somente você apenas.

Atenas/Grécia, 29 de setembro de 2012.

sábado, 15 de julho de 2017

Noturno



Leal de Souza





As luzes de ouro da cidade
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina ?


Fria a vontade e o peito ardente,
De bens e males sob os rastros,
O homem aos sonhos ergue a mente
E não levanta o olhar aos astros.


Por essas luzes atraídos,
Filhos do vale e da planura,
De longe vieram, atrevidos,
Bater às portas da ventura ...


As luzes de ouro da cidade
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina?...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Reconstruindo a História



Rodolfo Pamplona Filho


Desde a supressão
de um personagem
em Guerras Secretas
até a retirada de fotos
de um mural institucional,
passando pela defesa
da concepção imaculada
(e da permanência virginal,
mesmo após o parto
e com a continuidade
da vida conjugal...),
tudo pode ser visto
ou revisto,
sob a ótica,
a filosofia
e a ideologia
de quem conta
a história...
Assim, fica fácil
falar dos mistérios da fé
ou de eleições com
votos de sangue
ou 100% de aprovação...
E quando se percebe
a profunda manipulação,
surge a reforma,
a contra-reforma,
a marcha de protesto
ou a primavera árabe,
em que quem
não está acostumado
a ser sequer contestado
tem de ser confrontado
com sua situação
de ditador de plantão,
mesmo sem clara intenção
de se tornar seu próprio
objeto de adoração.

Madrid, 01 de outubro de 2012.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Superados

Birão Santana




O sol,

o céu

a música,

pássaros

e o verde

estavam presentes,

palpáveis

em mim.

Você

distante,

mas presente,

se interpondo

ao sol,

ao céu,

à música,

aos pássaros,

ao verde,

a mim,

reinava.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Diretiva da Vergonha




Rodolfo Pamplona Filho

Fui detido
- não acredito! –
Em um Campo de Concentração,
Digo, um Centro de Detenção

Fui detido
Sem crime cometer
Sem matar, nem roubar
Ou a ninguém prejudicar

Fui detido
Sem direito de defesa
Como se estar sem documento
Fosse um bilhete direto para o inferno

Fui detido
Pelo crime de ter esperança
De buscar um novo horizonte
Para mim e minha família

Fui detido
Pelo pecado de sonhar
Por uma nova vida enfrentar
Com disposição para trabalhar

Diretiva
Diretriz
Direção
Que eu não quis...

Retorno
Resolvo
Revolto
Expulsão...

Ilegais são atos, não pessoas.
Indignos são preconceitos escondidos
Em um revival de tempos idos
Em que se separava as pessoas pela origem

Fui detido
- é certo! –
Não pelo que fiz ou faria
Mas pelo crime de SER HUMANO

Ciudad Real, 28 de setembro de 2009


terça-feira, 11 de julho de 2017

Envelhecer

Bastos tigre





Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glória, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores
Mas lavra ainda e planta o teu eirado
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde!
Luta contra as tibiezas da vontade!

Que a neve caia! o teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Mulher Ideal




Rodolfo Pamplona Filho

O que é uma mulher ideal?
Definitivamente, não é
alguém que não envelhece,
mas, sim, alguém para quem
o tempo não afeta o humor...
Não é alguém sem defeitos,
mas que aprende a sublimá-los
ou que acostumamos com eles...
E, ainda que brigue de vez em quando,
faça as pazes de forma tão gostosa,
que apague qualquer ressentimento...
Não precisa concordar com tudo,
mas tenha uma sintonia tal,
que saiba seu pensamento
antes de verbalizá-lo...
Esta é a minha mulher ideal!

Atenas, 29 de setembro de 2012.


domingo, 9 de julho de 2017

Haicai

Neusa Peçanha






Começa a ventar:

o velho apanha o casaco,

o menino, a pipa.



O bonde da praça,

entre balanços vadios,

é brinquedo triste.

sábado, 8 de julho de 2017

Gerúndio




Rodolfo Pamplona Filho

Eu não quero ser
um projeto acabado.
Eu estou a viver.
Eu estou vivendo.
Hoje e Sempre...

Atenas, 29 de setembro de 2012.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Manhã no Meu Jardim



Jansen Filho


Ha festas nas campo, ânsias que crescem
Sob a cortina verde da ramagem,
Enquanto as samambaias estremecem
Aos beijos brandos da sublime aragem!

Uns retalhos de sol sobre a folhagem
Tremeluzindo, das alturas, descem
E no fundo azulado da paisagem,
De várias cores, um tapete tecem . . .

Ha mensagens de olências nos canteiros !
Chovem pétalas brancas, perfumadas,
Da fronde angelical dos jasmineiros . . .

E a manhã, como uma águia de marfim ,
Desce dos chapadões das madrugadas
E abre as asas de luz no meu jardim!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Pontualidade



Rodolfo Pamplona Filho




Achar natural
que outros esperem,
ainda que alguns segundos,
fazer algo que
só interessa a você
é o cúmulo da cara-de-pau
com a falta de noção...
E o pior de tudo
é quando se pede
que tenham consciência
para respeitar
o que só lhe interessa,
seja o embarque
(ou desembarque)
de alguém
ou mesmo
que algo ocorra
como se fosse
a mais importante
de todo o universo.
Como não se irritar
com as desculpas
ou justificativas
para seu atraso?
Ver rostos contritos,
olhos de gato de botas
ou um ar indignado
de quem foi vítima,
e não a causa
do irritante atraso
que prejudica todo mundo,
até mesmo a si...
E quem ousa reclamar,
deixando o silêncio conveniente,
para ser descrito
como um sujeito paranóico,
estressado ou simplesmente chato,
que fica inventando caso
ou querendo aparecer...
Pontualidade é respeito
ao tempo alheio!
E ponto!

Atenas, 29 de setembro de 2012.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Escravas Sagradas de Korinthio




Rodolfo Pamplona Filho


No encontro entre o Egeu e o Jônico
e de dois portos importantes,
encontra-se a cidade
que não conhecia o amor

No culto à Afrodite,
entregam-se mais do que primícias,
pois é o próprio corpo o objeto
do contato, do negócio e do prazer,

proporcionando conforto e alento
a quem vem de muito longe
e não sente há muito mais

o contato com a pele aveludada
em que o sentimento é nada,
mas a entrega e satisfação totais.

Na estrada de Korinthio para Atenas, 29 de setembro de 2012.
:

terça-feira, 4 de julho de 2017

A Vida no Cárcere



Oswald Barroso






A vida no cárcere é limitada.

Nosso corredor é bem estreito.

Apenas no sábado

temos visita.

Dela saímos

exaustos de tanto viver

a semana em poucas horas.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Saudade





Rodolfo Pamplona Filho


Parece doença...
Parece tristeza...
Parece dor no peito...
Parece desespero...
Parece depressão,
mas é só saudade...

Gramado, 18 de outubro de 2012.
Postado por Rodolfo Pamplona Filho às 05:30 Nenhum comentário:
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domingo, 2 de julho de 2017

Eu

Paulo Leminski







eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

sábado, 1 de julho de 2017

Equinócio



Rodolfo Pamplona Filho

Março ou setembro:
não importa se me lembro
qual é realmente
o semestre presente
ou a estação do ano!
O fundamental, sem engano,
é aproveitar o momento
em que cessa todo lamento
para apenas presenciar o Sol,
quando ele está mais iminente,
sentindo-se, de novo, gente
e nunca mais se sentir só...


Quito, 03 de outubro de 2013.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Repouso



Adalgisa Nery


Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.


De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O Ocaso




Rodolfo Pamplona Filho

Dos dias
Do calor
Das vidas
Do amor
De nada
De tudo
Do nada
Do mundo


Bogotá, 05 de outubro de 2013, em conexão para o Brasil, olhando o entardecer...