sábado, 29 de abril de 2017

Desejos



Rodolfo Pamplona Filho 

Quero alguém
para junto envelhecer,
mas não quero
ficar velho.

Quero alguém
para me amarrar,
mas não quero
perder minha liberdade.

Quero alguém
para realizar o sonho
de viver
uma nova realidade.

Cusco, 13 de abril de 2017.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Vou-me Embora pra Pasárgada


Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Incompletudes e Idiossincrasias


Rodolfo Pamplona Filho 

Mulher sem ciúme
Homem sem barriga
Criança sem sorriso
Festa sem bebida
Férias sem viagem
Casamento sem DR
Menstruação sem TPM
Emprego sem patrão
Trabalho sem produção
Poeta sem musa
Poesia sem inspiração
Alegria sem você

Cusco, 15 de abril de 2017                
                   
                 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Via Láctea



(Olavo Bilac)

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

terça-feira, 25 de abril de 2017

Maltratado



Rodolfo Pamplona Filho

Apanhar quando se espera carinho
Ser acusado quando se queria um beijo
Explicar o que já foi entendido
Desculpar-se pelo que não fez
Um choro calado
pela surpresa da reação
Uma tristeza profunda
pela incompreensão
Uma saudade incontida
de um simples abraço
Uma lembrança bendita
de que ainda existe esperança.



Cusco, 15 de abril de 2017.

domingo, 23 de abril de 2017

Trava-Línguas


Rodolfo Pamplona Filho


Quando contar contos, conte quantos contos conta
e pergunte qual é o doce mais doce que o doce de batata-doce,
pois se o rato roeu a roupa do rei de roma
e o sabiá não sabia que a sabiá sabia assobiar;
se a aranha arranha a rã
e a gaivota, voando em volta, voava e virava de volta;
se o tempo perguntou pro tempo quanto tempo o tempo tem,
tendo o tempo respondido pro tempo que o tempo tem o todo tempo que o tempo tem;
se mesmo que três traças tracem três trajes sem trégua
e entreguem três pratos de trigo para três tigres tristes;
por que o único verdadeiro trava-línguas é Treblebes?

Salvador, 15 de agosto de 2010

sábado, 22 de abril de 2017

Timidez


Cecília Meireles 

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.




sexta-feira, 21 de abril de 2017

Livre como um Pássaro


Rodolfo Pamplona Filho

Você sabe
que não estou acostumada
com regras ou ordens
Sempre fui livre
e se tentam
me impor algo,
reajo de forma rebelde...
Sou felizmente condenada
à minha própria liberdade,
em que o único sentido
da minha existência e vida
é simplesmente ser e viver...


Salvador, 02 de abril de 2017.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Eu escrevi um poema triste


Mario Quintana

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza…
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel…
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Hoje Eu Quero Sair Só



Lenine

Se você quer me seguir, não é seguro
Você não quer me trancar, num quarto escuro
Às vezes parece até, Que a gente deu um nó
Hoje eu quero sair só

Você não vai me acertar, À queima-roupa
Vem cá, me deixa fugir, me beija a boca
Às vezes parece até que a gente deu um nó
Hoje eu quero sair só
Não demora eu tô de volta...

Vai ver se eu tô lá na esquina, devo estar...
Já deu minha hora e eu não posso ficar...
A lua me chama, Eu tenho que ir pra rua...
A lua me chama, Eu tenho que ir pra rua

Hoje eu quero sair só
Hoje eu quero sair só
Hoje eu quero sair só

Você não vai me acertar, À queima-roupa
Vem cá, me deixa fugir, me beija a boca
Às vezes parece até que a gente deu um nó
Hoje eu quero sair só
Não demora eu tô de volta...

Vai ver se eu tô lá na esquina, devo estar...
A lua me chama, Eu tenho que ir pra rua...
A lua me chama, Eu tenho que ir pra rua...

Vai ver se eu tô lá na esquina, devo estar...
Já deu minha hora e eu não posso ficar...
A lua me chama, Eu tenho que ir pra rua...
A lua me chama, chama

Hoje eu quero sair só
Hoje eu quero sair só
Hoje eu quero sair só
Hoje eu quero sair só


A lua me chama, Eu tenho que ir pra rua...
A lua me chama, Eu tenho que ir pra rua...
Hoje eu quero sair só
Hoje eu quero sair só
Hoje eu quero sair só
Hoje eu quero sair só

terça-feira, 18 de abril de 2017

Império Inca



Rodolfo Pamplona Filho 

O ouro já foi
o sangue
ou suor do sol
A prata seria
a lágrima da lua
em pleno dia
A riqueza de outrora
foi usurpada
como conquista
e a Glória do passado
somente ficará
na memória
dos livros de história.



Lima, 9 de abril de 2017.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Olhos Nos Olhos


Chico Buarque

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

domingo, 16 de abril de 2017

A Verdade vem à tona!


Rodolfo Pamplona Filho

Não há trancas suficientes
para aprisionar a verdade.


Salvador, 02 de abril de 2017.

sábado, 15 de abril de 2017

Para quê?!


Florbela Espanca 

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, esta canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos de amor! Pra quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Som do Silêncio



Rodolfo Pamplona Filho

Há diálogos que tem
mais reticências
do que palavras...

Salvador, 06 de abril de 2017.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Paciência


Lenine 

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
E o mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para (a vida não para não)

Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida é tão rara (a vida não para não... a vida não para)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Pessoas Procuradas



Rodolfo Pamplona Filho

Pessoas
hoje procuradas
já foram
em algum momento
apenas
pessoas perdidas



Lima, 10 de abril de 2017.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Ausência



Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Corrupção é inevitável?


Rodolfo Pamplona Filho 

Desde Cabral,
algo vai muito mal
no território nacional.

É a sensação
de que toda ação
precisa de um empurrão...

Não de impulso,
mas de um recurso
que nem todos têm...

É a decadência
que enfraquece a crença
e esgota a paciência...

Achar que é normal
ganhar algo a mais
para fazer o que faz...

Onde ser honesto
deixa de ser virtude
para virar defeito...

Onde fazer o certo
deixa de ser correto,
por achar não ter jeito.

Pare com isso
e grite bem alto:
eu não sou assim!

Pois viver de verdade
é saber que a esperança
nunca terá fim!

31 de março de 2017, no vôo para Recife...

domingo, 9 de abril de 2017

Epílogos



Gregório de Matos

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

sábado, 8 de abril de 2017

Passarinho Preso


Rodolfo Pamplona Filho
Passarinho Preso
Luta por liberdade
mesmo sem saber
de verdade
Contra o que
está lutando

Não consegue perceber
que o vidro impede
ultrapassar o limite
imposto pelas circunstâncias,
mas, mesmo assim,
ele se joga adiante...

E se machuca...
E se fere...
E se extenua...
Mas não desiste...

E, por vezes, o olhar do monstro
ou o susto do terror
não é um sinal da morte,
mas, sim, da renovação
da esperança da saída,
em que a dor e o medo
são o que nos impelem
a continuar tentando...
até o fim...
... qualquer que seja ele...


Salvador, 24 de novembro de 2013, na rede da varanda da casa...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Contando Histórias: E Nem Verão Era


Ney Pimenta

Ao ver o filho no chão
Tanta juventude perdida
As pernas não aguentaram o próprio peso e se dobraram
Joelhos no asfalto, braços abertos, olhos escancarados, fitava o nada.
A boca se abriu como antes nenhuma outra
Nenhuma outra jamais
E dela saiu um grito que não se descreve
Porque quem criou as palavras não imaginou um sofrimento assim
E foi tão alto que nenhum pássaro cantou
Nenhum homem falou
Nenhum cão latiu
Apenas uma cigarra
Num canto tão triste...
E nem verão era.

Fonte: http://neypimenta.blogspot.com.br/

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Brigadeiro de Colher

Brigadeiro de Colher (soneto)

Rodolfo Pamplona Filho
Como é bom se sentir criança
lambendo os beiços para aproveitar
o gosto que traz a lembrança
de quando nada havia a preocupar...

A sensação gustativa da memória
que o sabor do doce lança
faz acender a própria história
que é maior que encher a pança,

pois significa simplesmente reviver
a primeira manifestação de prazer,
muito antes de ser homem ou mulher,

pois, antes de qualquer orgasmo,
o seu primeiro grande espasmo
foi provar um brigadeiro de colher.


São Paulo, 09 de junho de 2013.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Com alegria completa...


Aldílio Tostes Malta 

Com alegria completa,
Registro neste papel:
- além de advogado é poeta
José Alberto Maciel

Mas quero dizer também
Que é um amigo fiel
Que agrada como ninguém,
José Alberto Maciel

As qualidades que tem
A amigos dá em granel,
Exemplo de querer-bem,
José Alberto Maciel.

Por isso seus versos são
Valiosos como um laurel,
Guardados no coração,
José Alberto Maciel.

Que tenha glória bem alta
Esse poeta bacharel
E pense no TOSTES MALTA,
José Alberto Maciel.



quinta-feira, 30 de março de 2017

Ilhas Subterrâneas



Rodolfo Pamplona Filho 

O mundo tem muito mais
do que alcança sua visão.
O oculto guarda surpresas
além da imaginação.
Um navio pode submergir
pelo choque com o invisível,
mas que sempre esteve lá,
à espera do "impossível",
como mais uma opção
para quem não teme o desconhecido.

Orlando, 27 de janeiro de 2017

quarta-feira, 29 de março de 2017

ROSA DO MEU SERTÃO


(Eduardo de Paula) 

Deus fez todas as flores​
Com diversos aromas e cores​
Flor-de-lis, orquídeas e até cansanção​
Mas, de todas, a mais bonita é a ​
Rosa do Meu Sertão.

Branca-cor-de-neve, duas gotas de um verde cristalino​
De dia, se aquece com o sol,​
À noite traz um brilho repentino.

Na mocidade, desabrocha com alegria​
Desejava voar e conhecer o mundo​
Mas sua Mãe-Natureza sempre dizia:

Voar é um desafio imenso​
Dúvidas irão te atormentar​
Para que não tenhas lamento​
Em minhas raízes conforto terá.

Esta noite é um momento sublime​
E da responsabilidade não posso me furtar​
Confesso, tirei, a flor do seu caule​
E a trouxe para este altar.

As incertezas da vida, admito,​
Não tenho como evitar​
Mas prometo à Mãe-Natureza,
amor não irá lhe faltar.

Regarei esta flor de noite e de dia,​
Com água viva e sagrada,​
Adubarei com carinho e amor, ​
O jardim desta flor amada.

Como eu disse, Deus fez todas as flores,​
Mas quem me vê, hoje, não mais se engana,​
Ele guardou para mim a mais especial,​
A Flor do Meu Sertão, Rosana.


João Dourado, 04/03/2017

terça-feira, 28 de março de 2017

Dessintonias


Rodolfo Pamplona Filho 

Dessincronização

Desequilíbrio
Desimpedido
De
Desamor:
Desespero
Desanimador
Diante
Do
Demônio
Devastador
Da
Desesperança
Destruidora
De
Destinos
Desarmados
De
Desarmonia

Praia do Forte, 28 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 27 de março de 2017

PÁSSARO ABSTINENTE


                                   Zéu Palmeira
Já não escuto a tua voz
Hiatos, silêncios e nós 
O vazio do espaço distante
ocupa a minh’alma no instante

Finjo tê-la inteira ao meu lado
Sinto-me como um amante alado
A sobrevoar o Éden de ilusões
E a olvidar um oceano de emoções

Exalo o teu cheiro em meu jardim
Cheiro doce e intenso de jasmim
A incendiar o meu desalento
E a embriagar-me o sentimento

Pulsam-me as marcas da história
Te devasso nos escombros da memória
Encontro-te  nas veredas do passado
Versado, cantado e valsado 

E vem o sono, o sonho e o abraço
Tua mão aplaca o meu cansaço
Tua voz embala o meu sonhar
Tudo acaba quando o dia despertar

E ao amanhecer me vejo novamente
O diurnal pássaro do sono abstinente
Inquieto para abraçar a noite com ardor
E sonhar para manter a chama desse amor. 

domingo, 26 de março de 2017

Ilhas Subterrâneas



Rodolfo Pamplona Filho 

O mundo tem muito mais
do que alcança sua visão.
O oculto guarda surpresas
além da imaginação.
Um navio pode submergir
pelo choque com o invisível,
mas que sempre esteve lá,
à espera do "impossível",
como mais uma opção
para quem não teme o desconhecido.

Orlando, 27 de janeiro de 2017

sábado, 25 de março de 2017

Cor-respondência


Elisa Lucinda

Remeta-me os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito
ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Quero Dormir



Rodolfo Pamplona Filho 

Quero Dormir
Ainda que isso signifique
a perda de uma chance
ou de uma noite.

Quero Dormir
Mesmo que isso importe
no fim de um momento
ou de um relacionamento.

Quero Dormir
Pois meu sono é mais importante
do que a sede de viver
ou chance de amar.

Quero Dormir
Nada mais me importa
senão o prazer indizível
de estar só em meu colchão.

Praia do Forte, 28 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 23 de março de 2017

Hope and Darkness



Letra: Rodolfo Pamplona Filho 
Música: Flávio Maranhão 

Sometimes
I feel like
I don't
have an answer

Sometimes
I feel like
I speak
always alone...

The question is not "if", but "when"!
When the sun will rise again?

Sometimes
I feel like
I get afraid
of darkness

Sometimes
I feel like
there's no space
for hope

The question is not "if", but "when"!
When the sun will rise again?

quarta-feira, 22 de março de 2017

Crepúsculo


Rodolfo Pamplona Filho

Nunca esqueci:
o sol se pondo aqui
e meu coração
sentindo frio
só porque não vê...
Mas tudo tem resposta,
pois, de repente, volta
o meu corpo a aquecer:
basta pensar em você.

Praia do Forte, 24 de fevereiro de 2017.

terça-feira, 21 de março de 2017

Rapte-me Camaleoa



Caetano Veloso 

Rapte-me camaleoa
Adapte-me a uma cama boa
Capte-me uma mensagem à-toa
De um quasar pulsando lower
Interestelar canoa
Leitos perfeitos
Seus peitos direitos me olham assim
Fino menino me inclino pro lado do sim

Rapte-me, adapte-me, capte-me
It's up to me
Coração
Ser, querer ser, merecer ser um camaleão
Rapte-me camaleoa
Adapte-me ao seu
Ne me quitte pas

segunda-feira, 20 de março de 2017

Serviço Mal Feito


Rodolfo Pamplona Filho

Cabo desencaixado
Trabalho sujo
Peças faltando
Garantias vazias
Parafusos soltos
Pregos frouxos
Informação incompleta
Serviço Mal Feito

Orlando, 27 de janeiro de 2017  

domingo, 19 de março de 2017

O Amor Antigo



Carlos Drummond de Andrade 

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige, nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

sábado, 18 de março de 2017

Foco, Consolo e Esperança


Rodolfo Pamplona Filho 

Direcionar esforços
para realizar
o que não se tem
e que outros acreditam
que não se terá.
Esse é o Foco

Saber que o pior arrependimento
é de quem nem tenta
e que conhecimento,
adquirido com esforço,
nunca se perde.
Esse é o Consolo.

Ter a consciência de que nada muda,
se permanecer a letargia,
e que toda estrada é construída
com cada passo que se dá,
ainda que na direção do desconhecido.
Essa é a Esperança!

Essa é a tríade
que renova a sede de viver,
o gozo de cada novo dia,
o gosto de continuar respirando:
esse é o foco, o consolo e a esperança!

Salvador, 14 de fevereiro de 2017.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Solitário



Augusto dos Anjos

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-Velho caixão a carregar destroços-

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

quinta-feira, 16 de março de 2017

Discurso de Posse como Presidente da Academia de Letras Jurídicas da Bahia Gestão 2017-2018




Excelentíssimo Senhor Acadêmico Professor Dr. César Faria Júnior, a quem eu tenho a honra de suceder na Presidência da Academia de Letras Jurídicas da Bahia, em nome de quem saúdo todos os demais membros da mesa diretora desta sessão;
Senhores confrades, acadêmicos, magistrados, procuradores, advogados, professores, servidores, estudantes, meus parentes e amigos;

Toda cerimônia de posse de uma nova Diretoria de um sodalício tem um ritual.
E, tradicionalmente, o ritual se encerra com um pronunciamento do porta-voz do novo colegiado que a dirigirá.
Assim é e será a presente solenidade.
Todavia, a maior parte dos senhores conhece suficientemente este interlocutor a ponto de saber (ou esperar) que algo de diferente seja feito...
Se há uma característica da minha personalidade que tem sido reconhecida com frequência – além da loucura ou ousadia, que, em verdade, é uma “persona” para respeitar a minha essência... – é a pluralidade.
Não sou afeto a guetos, grupos ou panelas.
Gosto de conviver com iguais e com diferentes.
Gosto de circular entre juristas e músicos, jovens e idosos, doutos e incultos, cys e trans, crentes e ateus, árabes e judeus...
Gosto das interfaces do Direito e da Arte.
Gosto de fazer diversas atividades simultaneamente, estando em mais de um lugar ao mesmo tempo, exercitando uma ubiquidade que me permite, estranhamente, me sentir mais humano...
E, por isso, esse discurso também não se limitará aos tradicionais chavões que costumeiramente são vislumbrados...
É claro que a gratidão deve ser sempre verbalizada.
Ninguém chega em lugar algum absolutamente sozinho.
E é por isso que, normalmente, toda manifestação traz sempre alguns registros que, se forem aqui omitidos, seriam interpretados como uma gafe ou coisa pior.
O que é subversivo, de minha parte, é que os agradecimentos e dedicatórias normalmente são no final...
Mas eu quero começar com eles, pois o registro público é a prova inequívoca de um coração grato e coerente.
Meu irmão e confrade Pablo Stolze Gagliano, que nos prestigia imensamente com sua presença nesse evento, me passou um “trote” hoje de manhã, dizendo que estava impossibilitado de comparecer... Depois disse que era brincadeira... Mas, com ele, tenho sempre o lembrete constante de que toda obra e toda atividade devem ser dedicadas a Deus, independentemente de qual seja o credo de cada um, nas múltiplas possibilidades da crença no espiritual, que inclui até a total ausência de crença...
Também não se pode deixar de registrar o agradecimento à minha família, que convive diuturnamente com (e tenta compreender) alguém que não consegue ficar parado... A Emilia, misto de esposa e mãe; Marina, dublê de filha e “parceira de aventuras”, e Rodolfinho, filho que carrega meu nome e que é meu padawan do treinamento Jedi de como controlar a “Força”, ofertarei sempre meu sincero amor paternal. Eu sou o “catador de bolas” de vocês...
Claro que, comumente, invoca-se também a memória daqueles que já se foram... E, por todos eles, devo lembrar de meus pais, Rodolfo, que nunca escondia o orgulho de me ter como seu “projeto de filho perfeito”, e de Maria de Lourdes, que nos deixou recentemente, depois de enfrentar quatro anos de um martírio, no qual estive, durante todo o tempo, ao seu lado, jamais desamparando-a.
E, naturalmente, preciso agradecer a cada um dos confrades, que sufragaram maciçamente nossos nomes para compor a nova Diretoria, dando-nos a legitimidade para atuar para o bem dos propósitos que acreditamos. É um “bordão” dizer, em qualquer ato público de posse, que “quiseram os amigos que eu estivesse aqui...”. Bem, no caso concreto, tenho a convicção de que muitos dos senhores deixaram, há muito, de ser apenas colegas e confrades, tornando-se destinatários do meu mais sincero afeto, do amor que se devota a amigos que se tornam família.
Se é certo que o meu reconhecimento será eterno, mais certo ainda é que é necessário passar para outra parte do discurso...
Hoje, 15 de março de 2017, assumo, com muita honra, a Presidência da Academia de Letras Jurídicas da Bahia.
A data deste evento foi escolhida momentos após a apuração dos votos da nova Diretoria, a pedido do agora empossado Vice-Presidente Fredie Didier Jr., de forma que pudesse conciliar com sua agenda e viabilizar o seu comparecimento.
Todavia, quis o destino, esta inexplicável e incontrolável entidade que nos apronta surpresas a cada passo ou encruzilhada, que algumas coincidências saltassem aos olhos.
No dia de ontem, comemorou-se o aniversário de 170 anos de nascimento de um dos mais fascinantes poetas brasileiros, o baiano Antônio Frederico de Castro Alves, que viveu apenas 24 anos (nascido em 14 de março de 1847 e falecido em 06 de julho de 1871), mas que deixou versos e ideias que continuam sendo reproduzidos por gerações de cultores das letras, das palavras e da poesia.
No dia de hoje, boa parte da população decide ir às ruas para protestar contra propostas de modificação da disciplina jurídica de seu presente e de seu futuro...
E não é que Castro Alves, um jovem poeta, com formação jurídica (ainda que incompleta), já recitava há mais de cem anos:
“A praça, a praça é do Povo!
Como o céu é do Condor!
É antro onde a liberdade
Cria a águia ao seu calor!”

É com Direito e Poesia que pretendo conduzir a Academia.
Acredito realmente que a Arte é um dos caminhos para a elevação da alma e um dos consolos para o renovar da esperança...
Costumo dizer publicamente que “o único Direito verdadeiramente inalienável é o Direito de ter esperança...”
Com o aniversariante Castro Alves:
“Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança”

E uma das formas que acredito de transformar a esperança, de ideia para ação, é através do trabalho.
Se sou conhecido como um homem de palavras, também o sou como um homem de ações.
Não esperem os senhores que venha eu para a Presidência simplesmente para cumprir uma etapa de uma carreira, naquela sensação de que, agora, chegou a minha vez de dar a minha contribuição...
Se os senhores me convocaram para essa tarefa, têm consciência de que um dos lemas que mais uso não é tirado de qualquer livro de Direito, mas, sim, do filme “Tropa de Elite”: “missão dada é missão cumprida”!
A ideia é dar continuidade, sim, a todos grandes projetos encampados pelas diretorias anteriores, notadamente aquela cujo mandato se encerrou e que eu tive a honra de participar da diretoria, exercendo o cargo de secretário geral, atribuição essa que cumpri, aliás, durante três gestões, sendo uma do Presidente César Faria Jr. e dois mandatos da nossa maravilhosa musa Alice Gonzalez Borges. Isso sem contar minha colaboração espontânea em reuniões de diretorias anteriores em que, mesmo sem fazer parte formalmente da direção, participei ativamente de diversos projetos, prática essa que gostaria de estimular em todos os confrades.
Tudo isto continuará a ser feito, para o que conto, inclusive, com o apoio de todos os ex-presidentes, de todos os confrades e de todos aqueles que se propõem a apoiar a cultura jurídica na Bahia.
Esta nova diretoria tem, porém, um desafio hercúleo: buscar ombrear-se ao trabalho fantástico de todas as Presidências anteriores.
A proposta é simples: continuar dando vida à Academia, ampliando o reconhecimento de que é ela o espaço democrático e o locus privilegiado da cultura jurídica da Bahia.
Pretendemos manter o projeto das Quintas Culturais, a Revista da Academia e a sua participação na Federação das Academias de Letras Jurídicas do Brasil.
Otimizaremos as formas de comunicação no âmbito acadêmico, seja revitalizando e otimizando seu Boletim, seja ampliando a visibilidade da Academia nas redes sociais.
Continuaremos com a Revista da Academia (finalmente com ISSN!!!), buscando aperfeiçoar seus mecanismos de publicação e qualificação.
Organizaremos o 2º Congresso da Academia de Letras Jurídicas da Bahia, convocando, desde já, cada um dos acadêmicos para comparecer, assistindo, presidindo ou palestrando.
Planejamos estabelecer convênio com o Instituto Baiano de Direito do Trabalho, recentemente revitalizado, para que possamos realizar sessões específicas nesse maravilhoso espaço que é o salão principal da Academia. A proposta é que essa mesma diretriz seja feita com todo e qualquer curso de Direito ou instituição jurídica que pretenda fomentar debates e estudos, finalidade primordial de uma Academia de Letras.
Há muito mais projetos a elaborar e a executar.
Esse é o desafio da nova Diretoria.
Uma Diretoria que, se examinada com cuidado, tem uma característica peculiar.
Pela primeira vez na história da nossa Academia, a direção será conduzida por uma maioria nascida a partir dos anos 70.
Se a diversidade e o respeito mútuo impõem sempre a troca de experiências entre gerações, o fato é que assumimos em um mundo completamente diferente daquele no qual a Academia foi concebida.
E precisamos sempre nos adaptar a este mundo, pois a Academia deve ser sempre um local de renovação do amor ao Direito e às Letras.
“Amemos, porque o amor é um santo escudo”, diria o aqui multicitado Castro Alves.

Amemos realmente.
Amemos o Direito.
Amemos o magistério.
Amemos as letras jurídicas.
Amemos os livros que foram escritos antes de nós e os que ainda estão por ser produzidos.
Amemos aqueles que semeiam o saber...

“Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!”

Renovemos a alma e façamos juntos a construção de novos mares...
Muito obrigado!

quarta-feira, 15 de março de 2017

A Duas Flores



Castro Alves

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

terça-feira, 14 de março de 2017

Poético e Brasileiro


Rodolfo Pamplona Filho  

Poético e Brasileiro
é sonoro.
Poético e Brasileiro
é visceral.
Poético e Brasileiro
é o objetivo.
Poético e Brasileiro
é essencial.
Poético e Brasileiro
é chiquérrimo.
Poético e Brasileiro
é sensacional.
Poético e Brasileiro
é a alma.
Poético e Brasileiro
é fundamental.

Praia do Forte, 26 de fevereiro de 2017.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Velha História



Mário Quintana 

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!...Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado...

domingo, 12 de março de 2017

Selfie


Rodolfo Pamplona Filho

Passou tanto tempo
tirando fotos
que perdeu a vista
do que estava ao seu lado...

Orlando, 27 de janeiro de 2017.

sábado, 11 de março de 2017

A Vida


Florbela Espanca

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés d'alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo donde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia...
A gente esquece sempre o bem dum dia.


Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!...

sexta-feira, 10 de março de 2017

Confissões


Rodolfo Pamplona Filho 

Eu não quero
te perder
Eu vejo teu rosto
em todos os lugares
Eu não consigo
esquecer o teu sorriso...
tua boca... teu olhar...
teu corpo mexendo
com a música no ar...
Eu não quero viver
longe do teu abraço.
Chego a achar
que estou enlouquecendo...
e talvez esteja mesmo,
mas de amor...

Salvador, 30 de janeiro de 2017.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Psiu, gostosa...


Luiza Passarin    

Psiu, gostosa
Vem aqui
Ô linda
Foge não
Vadia
Nojenta
Vagabunda
Piranha
Bruxa
Lixo

Ô mocinha
Toma um banho
Limpa teu sangue
Eu prefiro limpa, assim
Limpa esse chão
Limpa essa louça aqui
Quero teu corpo limpo

Ô querida
Tão nervosa
Não precisa
É louca
É neurótica
Fica quietinha
Fecha a perninha
Sente como menininha

É tão frágil
É cristal
Mimo meu
Na minha estante
Calada
Muda
Silenciada

Ei, mulher
Eu tenho uma flor
Feliz dia
Sorria
Eu salvei o dia

Toma, boneca
Uma promoção de perfume
Maquiagem mais em conta
Lingerie na promoção
É teu dia, bonita!

Tá com frescura, gatinha?
Volta aqui
Vamos conversar
Eu não queria ter de te machucar
Vai dar jogo pro azar?
Bruxa
Vagabunda
Filha da puta

Eita, coitadinha
Tão novinha
Quis dar
Não soube se cuidar
Agora nada de abortar
Engula essa tua culpa
Mamãe
Trancada
Forçada
Quem mandou?

Ah, mas isso é fase
Hoje não quer ser mãe
Quando encontrar homem bom
Espera só, querida
Toda mulher nasce pra isso
É vocação
Questão de tempo
Espera só


Dupla jornada
Balela de louca
Eu sou um fofo
Estou aqui com sua pensão
Sua vocação
Não minha

Olha, putinha
Quer abortar?
Teu nome tá em sangue
Lá no chão da favela
1 milhão por ano
Clandestinas
É Gabriela?
Cravo ou Canela?
Não tem chá
Não tem pai
Não tem saúde
Não tem
Não

Não pode descuidar
Tem que tomar
A pílula
Engula
Um pouquinho a cada dia
Trombofílica
Hipertensa
Cancerígena
Mas descuidar não pode
Pode suas asas

Olha ali, tá gordinha
Desleixou
Tá descuidada
Desse jeito acaba sozinha
Mas tem rosto tão bonito
Não se cuida
Questão de saúde, sabe?
Me preocupo
Juro que não é padrão

Filme de terror
É rua escura
Passo próximo
Respiração ritmada
Pensou era demônio
Era homem
Ali
Sozinha
Suja
Pintando a sarjeta de sangue
Por hora são onze

Vocês querem falar sobre flores? Eu não quero nem vê-las. A bizarrice poética desse dia é fruto da dor das nossas mulheres: estupradas, silenciadas, subestimadas, impedidas, mutiladas, espancadas, violentadas, exploradas, forçadas.
Todos. Os. Dias.

8 de março é dia de luta.
(08.03.2016)

                   

quarta-feira, 8 de março de 2017

Minha Homenagem às Mulheres


Rodolfo Pamplona Filho


Se existe algo mais perfeito
do que a beleza da mulher
ganhará não só o meu respeito,
mas também minha adoração e fé,

pois somente uma obra divina,
que deve ser reverenciada,
pode ter mais perfeita sina
do que o encanto da mulher amada.

O fascínio feminino importa
muito mais que um físico atrativo:
é o conjunto completo de uma obra,
que deixa qualquer um cativo!

A inteligência, a perspicácia,
a sutileza, o instinto,
a elegância, a espontaneidade,
o sorriso, o carinho.

Todas as mulheres são lindas!
Embora algumas não expressem
toda a delicadeza
de sua infinita grandeza.

Todas as mulheres são lindas!
Falta a muitos homens
a efetiva sensibilidade
para perceber sua complexidade.

Dizem que, atrás de um grande homem,
há sempre uma grande mulher...
Isto é um engano monumental,
pois ela nunca estará no final,

mas, sim, o caminho inspirando
ou espiritualmente comandando
o passo a ser dado ou verbo a ser dito,
a ação cantada ou verso a ser escrito...

pois nada do que o homem tentar
será feito para seu próprio prazer:
haverá sempre uma musa a encantar
as etapas de seu íntimo querer.

terça-feira, 7 de março de 2017

Amor bastante


Paulo Leminski


Quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

segunda-feira, 6 de março de 2017

Casar e Separar



Rodolfo Pamplona Filho 


Quando casar é uma loteria 
e separar uma aposentadoria,
o amor é um amuleto 
da sorte das esperanças vazias...

Orlando, 26 de janeiro de 2017.

domingo, 5 de março de 2017

Retrato



Cecília Meireles 

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?