sábado, 3 de dezembro de 2016

Não há vagas


Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Frio em São Paulo




Fernanda Soares


Noite fria em São Paulo 
Calor humano 
Passos harmônicos na calçada 
Juízo de valor: intenso 
Coragem sem juízo 
Denso. 
Ah! Poesia 
Corre, flui, emana pelos poros 
Invade a terra 
Vai corajosa e sem pudor, sem medo 
Ecoa nos quatro cantos do mundo 
Para dizer que o mundo tem jeito 
Nós temos cura 
Vai, poesia! 
Invade e desenquadra os quatro cantos do mundo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Espelho


Luciana Pimenta

Eu não tinha estes olhos artesianos
Este aeroporto de palavras
E este mapa de esperanças vestidas
Que supostamente me conduz

Eu não tinha estas ágoras oitivas
Esta boca assim tão noturna
E esta trama caudalosa de meadas
Do rio que me banha e me desagua

Eu não tinha este rosto quase calmo
Este semblante quase límpido
E esta quase lucidez do retrato
Tão certo, tão simples, hoje anunciado.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Oportunidades


Rodolfo Pamplona Filho 

Oportunidades surgem
e despreza-las
é sintoma de empáfia

Oportunidades passam
e não aproveitá-las
é o início da depressão

Oportunidades vão embora
e perdê-las
é arrepender-se pelo resto da vida.

São Paulo, 20 de novembro de 2016.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Tenho tanto sentimento



Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

domingo, 27 de novembro de 2016

Migalhas de Carinho


Rodolfo Pamplona Filho

Eu mendigo
migalhas de seu carinho
como um cachorrinho
junto de sua mesa,
na esperança de, um dia,
encher minha barriga vazia
e meu coração sedento...

Salvador, 16 de janeiro de 2014