sábado, 14 de janeiro de 2017

A chuva.



Moisés Dantas  

Anunciou-se em barulho vindo de longe
Rufando telhados trazidos a mim
Caminhou com pés rápidos em visão turva
Até se fez chuva a tudo cobrir

Correu pra molhar cruzando vetores
Brincou de ser mar com ondas de vento
Calou com sua música milhões de motores
Em câmera lenta, ao chão sedento

Aplaudiu o espetáculo que ali se via
Com milhares de mãos invisíveis no ar
Guarda-chuvas se abriram pra não lhe conter
No seu vício incessante de se derramar

Voava lânguida e só a nuvem triste
No fim de uma manhã cinza e crua
A terra molhada ergueu o seu cheiro
Como uma linda mulher que corre na rua.

13-01-03

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Encontro



Joana Ferraz

Desde a primeira vez que ganhei aquele abraço, eu sabia. Sabia que iria precisar dele mais vezes, que sentiria de longe a lembrança do momento me encostando.  Foi na varanda, ao vento das árvores grandes que cercam o primeiro rio. O rio que por causa dele estou aqui, estávamos ali. E há muito imaginava o momento, pintando cenas no corpo do desejo. Quais cores fariam presença? Espiei o quarto, vi as telas, achei estranhas. Ou não entendi muito bem. Deve ser porque o sorriso doce também traz confusão. “Agora te conheço mais”.  Depois as mãos pesadas me seguraram as costas e o abraço tocou todas as partes do meu corpo. Era como se estivesse em uma torre cercada de lua e de nada, onde ao longe eu via a mesma cena comum das minhas janelas.  Minha cidade então se transformou num sítio gigante, vazio e afastado, porque o beijo era bom. Porque a língua brincou nas esquinas da minha boca e a vontade reencontrou as florestas que já existiram.

O vestido solto só podia ser de propósito, a roupa desses encontros são as peles.

Amores Possíveis



Rodolfo Pamplona Filho

O rei e a rainha sempre ficarão juntos
em qualquer lugar da existência:
Mesmo em casas separadas?
Mesmo em continentes separados?
Mesmo em planetas diferentes?
Nenhuma distância separa
o que nasceu para ser um do outro.


Salvador, 20 de dezembro de 2016.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Utopia


Rodolfo Pamplona  


A Utopia é
o cruzeiro do sul,
a estrela polar,
o Norte magnético.

A Utopia é
o mundo sem crime,
todo pecado punido,
todo sonho realizado.

A Utopia permite
corrigir o real,
transformar o concreto,
desejar o impossível.

A Utopia é
o inatingível,
o inalcançável,
o irrealizável.

A Utopia é
indispensável,
imprescindível,
simplesmente essencial.


Ilhéus, 27 de dezembro de 2016, mas pensando em tempos antes.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Uma voz ganha corpo



Luciana Pimenta
Eu, mulher, uma voz aguda
silencio para ouvir
Eu mulher, escrevendo o silêncio
a história muda
o passado porvir
Eu, mulher, uma voz ganha corpo
para incorporar as vozes
caladas da noite.
Eu, mulher, violenta língua
violenta história
via lenta à míngua
Eu, mulher, soprano grave
Um sopro de dignidade.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A Mulher que habita em mim


Rodolfo Pamplona 

A Mulher que habita em mim
nunca teve medo
de andar sozinha
em uma rua escura

A Mulher que habita em mim
não ficou horas deitada
chorando
com cólica menstrual

A Mulher que habita em mim
nunca precisou sorrir
diante de um gracejo
ou cantada agressiva

 A Mulher que habita em mim
não precisa provar
que consegue trabalhar mais
e melhor, "apesar de ser mulher".

A Mulher que habita em mim
nunca se sentiu agredida
com um olhar,
uma palavra
 ou um gesto de condescendência.

A Mulher que habita em mim
é insensível.

A Mulher que habita em mim
é um homem.


27 de dezembro de 2016, em direção a Ilhéus.