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sábado, 19 de setembro de 2026

Noite morta

 


 Manuel Bandeira



Junto ao poste de iluminação

Os sapos engolem mosquitos.



Ninguém passa na estrada.

Nem um bêbado.




No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.

Sombras de todos os que passaram.

Os que ainda vivem e os que já morreram.



O córrego chora.


A voz da noite . . .



(Não desta noite, mas de outra maior.)



Petrópolis, 1921


domingo, 6 de setembro de 2026

Frustração



 


Como lidar

com a frustração

quando mal se dá conta

de si próprio?


O desejo é ilimitado

e os recursos

da realidade

são finitos…


Assim, se percebe

a inevitabilidade

do sentimento;

a força

do constrangimento;

a imperatividade

do sofrimento.



Salvador, 02 de junho de 2023.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Deserto




Paulo de Toledo


minha sombra caminha

adiante de mim


sigo-a sequioso

com meu séquito de sonhos


lá atrás o sol

ao traduzir-me desola-se


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Frustração

 



 

Rodolfo Pamplona Filho

 


Como lidar

com a frustração

quando mal se dá conta

de si próprio?



O desejo é ilimitado

e os recursos

da realidade

são finitos…


Assim, se percebe

a inevitabilidade

do sentimento;

a força

do constrangimento;

a imperatividade

do sofrimento.


 

Salvador, 02 de junho de 2023.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Fui Eu



 


Poema de Fernando Py (1935-2020)



Fui eu esse menino que me espia

– melancólico olhar, sereno rosto,

postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.



abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)





sábado, 4 de abril de 2026

Fui eu esse menino que me espia



  


Poema de Fernando Py (1935-2020)


– melancólico olhar, sereno rosto,


postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.


abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)

segunda-feira, 23 de março de 2026

Alegria em Doses Homeopáticas

 






Rodolfo Pamplona Filho




É difícil sorrir

com receio de consequências

É difícil fluir

com medo das intermitências

É difícil respirar

com receio das armadilhas

É difícil se entregar

com certeza da desconfiança

É difícil amar

tendo perdido a esperança

É difícil sobreviver

com dificuldades burocráticas

É difícil viver

a alegria em doses homeopáticas



Praia do Forte, 31 de dezembro de 2022.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Julgando…





Rodolfo Pamplona Filho 




Quem julga quem julga

não sabe julgar

a solidão de quem reflete

sobre o que compromete

o fato do passado,

o reflexo no presente

e a potencialidade para o futuro.


Se não houver razão, morreria de inanição,

Se não houver poesia, enlouqueceria

Se não houver tensão, não haveria tesão

Se não houver paz, seria caro demais…


Conhecer a vida

Compreender as razões

Determinar destinos

é tarefa que exige responsabilidade,

mas decidir de verdade

importa na consciência

de nunca saber a essência

do que ocorreu na realidade.



Salvador, 22 de outubro de 2023, papeando com Chico Gomes.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Sozinho na Multidão

 






Rodolfo Pamplona Filho




A pior solidão é

ficar sozinho na multidão,

esperando em pé

um pouco de atenção

de quem compartilha a fé

ou a promessa do coração.


Não sei se é trágico

ou simplesmente irônico,

mas é quase mágico,

diria icônico,

quando sua presença é reclamada,

mas, na verdade, ignorada...


Um dia, eu gritarei

e ouça quem quiser.

Direi tudo que sei

sobre a tristeza que vier:

não há dor maior ou lama

que ser ignorado por quem se ama.


Salvador, 06 de outubro de 2010.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Deserto



  


Paulo de Toledo



 minha sombra caminha

adiante de mim



sigo-a sequioso

com meu séquito de sonhos



lá atrás o sol

ao traduzir-me desola-se

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Vazio de amor




 (Negra Luz)



A gaveta após a transferência

A catedral em geladeira

A lixeira depois das 10

A primeira faxina na casa

Vazios


As férias escolares

O cinema desativado

O picadeiro sem palhaços

O tablado antes do primeiro ato

Tudo vazios


A vida que não vingou

O corpo que se violentou

O coração depois de uma grande dor

As ruas quando o Mundo se isolou

O Tempo em que não se amou

Profundos vazios


Acomodar-se com o que está desenhado

As estrofes descrevem os espaços

Lacunas que tenho negado

E mesmo ouvindo almas ao meu lado

O silêncio me chama ao vazio:

Um imenso vazio de amor.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Fui Eu

 









Fui eu esse menino que me espia

– melancólico olhar, sereno rosto,

postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.


abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)


Poema de Fernando Py (1935-2020)

sábado, 7 de junho de 2025

Fui eu esse menino que me espia





Poema de Fernando Py (1935-2020)


 – melancólico olhar, sereno rosto,


postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.


abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)



domingo, 25 de maio de 2025

Eu preciso aprender a viver só






Rodolfo Pamplona Filho



Eu preciso aprender

a viver só

e saber que o mundo

não existe por minha causa.


Eu preciso aprender

a viver só

e aprender que o silêncio

é melhor do que

o ruído incompreensível


Eu preciso aprender

a viver só

é enxugar cada lágrima

sem a ajuda

de quem quer que seja.


Eu preciso aprender

a viver só!

E só!





Miami, 29 de dezembro de 2017

domingo, 4 de maio de 2025

Caminhante

 


 








Janete Fonseca




 Como peregrino de fé, sem adeptos, 


 Prossigo, 


 Sangrando os pés nas pedras do caminho 


 Sem fim, 


 Sem direção, 


 Buscador da trilha verde 


 Do regresso, 


 Um dia 




 


 Continuo na jornada 


 Solitária 


 Rotineira 


 Pelas veredas do acaso, 


 Sorrindo quase em prantos, 


 Filtrando velhas mágoas, 


 No remanso das águas 


 Do dourado amanhã 






 Alegro-me por nada 


 E nada me alegra. 


 Silencio com todos 


 E comparto tudo 


 Com todos. 




 Assim 


 Descanso o amargor 


 Do passado, 


 Na relva macia do esquecimento 


 Até confundir-me,


 Um dia,


 Na poeira atômica 


 Do rio principal. 

sábado, 3 de maio de 2025

Aprendendo com as Ondas

 


 






Rodolfo Pamplona Filho




A onda passa


impassível


Nada que se faça


a torna flexível


e a grande graça


é enfrentar sozinho


a enorme massa


d’água no vazio


 


A onda permite


que se surfe nela


ou, indiferente, agride


quem se afoga por ela


A onda não muda,


quem tenta ser dela


que, inocente, se iluda


ou componha com ela


 


pois não há relação


onde não há movimento;


não há entrega,


onde não há sentimento;


não há emoção,


se não há bilateralidade;


a boa onda é sempre


a próxima, de verdade…


 


Salvador, 20 de janeiro de 2023.


sábado, 22 de março de 2025

Alegria em Doses Homeopáticas





 



Rodolfo Pamplona Filho






É difícil sorrir


com receio de consequências


É difícil fluir


com medo das intermitências


É difícil respirar


com receio das armadilhas


É difícil se entregar


com certeza da desconfiança


É difícil amar


tendo perdido a esperança


É difícil sobreviver


com dificuldades burocráticas


É difícil viver


a alegria em doses homeopáticas


 


Praia do Forte, 31 de dezembro de 2022.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Eu preciso aprender a viver só

 




Rodolfo Pamplona Filho




Eu preciso aprender

a viver só

e saber que o mundo

não existe por minha causa.


Eu preciso aprender

a viver só

e aprender que o silêncio

é melhor do que

o ruído incompreensível


Eu preciso aprender

a viver só

é enxugar cada lágrima

sem a ajuda

de quem quer que seja.


Eu preciso aprender

a viver só!

E só!



Miami, 29 de dezembro de 2017


sábado, 30 de março de 2024

Um alentejano sozinho...






Rodolfo Pamplona Filho 


Um alentejano sozinho

é mais do que

o desfrute de uma boa bebida:

é a prova inequívoca

de um coração

inquilino da solidão...


Salvador, 08 de março de 2017, uma quarta-feira solitária...⁠⁠⁠⁠

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Sozinho na Multidão




Rodolfo Pamplona Filho


A pior solidão é

ficar sozinho na multidão,

esperando em pé

um pouco de atenção

de quem compartilha a fé

ou a promessa do coração.


Não sei se é trágico

ou simplesmente irônico,

mas é quase mágico,

diria icônico,

quando sua presença é reclamada,

mas, na verdade, ignorada...


Um dia, eu gritarei

e ouça quem quiser.

Direi tudo que sei

sobre a tristeza que vier:

não há dor maior ou lama

que ser ignorado por quem se ama.


Salvador, 06 de outubro de 2010.