domingo, 18 de agosto de 2019

Amor sem promessas



Rodolfo Pamplona Filho

Quando se ama,
fazem-se promessas,
como se houvesse necessidade
de verbalizar
que se pode fazer tudo
por amor

Mas prometer gera expectativas
que, quando não realizadas,
causam uma frustração,
como se o amor perdesse força
por uma promessa não cumprida.

É olhar uma parte pelo todo,
o acessório pelo principal,
o detalhe pelo conjunto,
o universo por um lugar
a vida por um dia

Amar não exige promessas
Amar exige amar
Amar sem promessas
Amar, simplesmente amar.

Salvador, 06 de julho de 2018.

sábado, 17 de agosto de 2019

Leveza



Cecília Meireles

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A Alma Doente



Rodolfo Pamplona Filho

O corpo dói
e pede ajuda
a quem sequer sentiu
a força da dor na alma.

A cabeça lateja
e reclama
de quem não viveu
a intensidade da alma.

O espírito fraqueja
e rasteja
por não conhecer
a cura da doença da alma.


Praia do Forte, 24 de junho de 2018.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Primeiro Motivo da Rosa




Cecília Meireles

Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.

Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.

Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho… E frágil.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Diferenças



Rodolfo Pamplona Filho

Há uma diferença
entre ser discreto
e esconder segredo

Há uma diferença
entre ser sincero
e agredir verbalmente

Há uma diferença
entre ser verdadeiro
e expressar ódio

Há uma diferença
entre ser livre
e abusar do poder.

Orlando, 03 de janeiro de 2019.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Quem pisou o mesmo chão




César Faria

Quem pisou o mesmo chão,
Quem bebeu a mesma água,
Quem respirou os mesmos ares,
Quem abriu os olhos e também chorou como um bebê,
Quem ao fechar de outros olhos também não conteve o choro da saudade,
Quem enxergou os mesmos campos e as mesmas praias,
Quem se banhou nos mesmos rios e nos mesmos mares,
Não importa se tem o mesmo sangue,
É da mesma família!
É da mesma cidade!

Fiz agora no correr da pena,
Em um minuto,
Este poema,
Dedicado aos amigos de Entre Rios!


16/06/2019.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Ela com A, Ela do B



Rodolfo Pamplona Filho

Ela com A
Ela com Afeto,
Amor e Admiração

Ela do B
Ela do Barraco,
Briga e Batida de frente

Ela com A
Ela com Amizade,
Abraço e Ação

Ela do B
Ela com Birra,
Bolacha e Batalhas

Ela com A
A mulher que sonhei
para mim

Ela com B
O pesadelo que
sempre temi

Ela com A
Ela do B
Duas pessoas
em um mesmo ser.

Salvador, 18 de outubro de 2018.

domingo, 11 de agosto de 2019

Amar





Carlos Drummond de Andrade

Opções
Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.

sábado, 10 de agosto de 2019

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Você precisa me conhecer


Negra Luz

De fato.
Você precisa me conhecer!
Entender as linhas na minha face
As entrelinhas no meu íntimo do ser

De fato.
Não é fácil prestar-se a ser
A companhia de um estranho ser:
Eu

De fato.
É pagar pra ver
Eu tenho meu tempo
Não você?

De fato.
Só há escolher:
Ficar nas bordas e não me ter
Mergulhar fundo
Um dia talvez...
Ouvir: Te amo.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Mudando para você



Rodolfo Pamplona Filho

Vou mudar
minha cara,
minha casa,
minha fala

Vou mudar
meu endereço,
meu adereço
minha composição

Vou mudar
a minha postura.
a minha estrutura,
o meu caminhar

Vou mudar
tudo em mim
para poder
ser o mesmo para você.

Salvador, 14 de outubro de 2018.


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O dia em que o recife fui eu


Negra Luz

Eu que pensava ser Mirante.
Farol no mar.
Viajante.
Navio, meu delírio punjante...

Splash!

 E eu lá...

Surpreendida por estar
Embevecida pelo mar:
Metamorfose,
Pelo oceano em coluio com o ar.

Um recife em novo lugar.
Ondas em meu peito a arrebentar.
E eu sem poder me dominar
Fragmentam me as estruturas sem sangrar

A barra protegida pelo mar
Nova. A cada maré vivida
Meus contornos recontam, dão guarida
Aos corais: as flores pelos protagonistas consentidas
Beleza sobre a mesa da Vida.

Há quem olhe e diga:
Rocha perdida.
Eu, forte.
Plantada sobre o mar:
Força sorerguida.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A Única Certeza é a Esperança



Rodolfo Pamplona Filho

Não dá para saber
o que o futuro me reserva
Não adianta sofrer
pelo que não se enxerga
Só há sentido em viver
o dia em que se levanta
Há muito o que fazer
até chegar a sua dança.
Apenas não quero que
desvaneça minha esperança
enquanto espero pela certeza.

Salvador, 07 de setembro de 2018.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Poema em linha reta



Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa )

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
(…)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

domingo, 4 de agosto de 2019

Living on the edge


Rodolfo Pamplona Filho

Por vezes,
ando triste,
com mágoas e
sem esperanças.

Sofrendo por um amor,
quando amor
não deveria
causar sofrimento.

Uma simples reflexão
pode gerar nova conclusão:
Não é o amor
que faz sofrer!

É a sensação de impotência,
a angústia da imobilidade,
a covardia da letargia
e a tentação da acomodação.

Não viva no limite:
permita-se ultrapassá-lo,
pois o cabresto da falta de tentativa
é a prisão da alma de quem ousa sonhar.

São Paulo, 28 de setembro de 2017, no show do Aerosmith.

sábado, 3 de agosto de 2019

Das Utopias


Mario Quintana

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Lua Cheia



Rodolfo Pamplona Filho

Veja como
a lua está hoje...
Uivarei em sua lembrança
na esperança
de poder te tocar
sob a sua luz!
É no seu corpo
que o meu uivo
ganha força.
É nele que
encontra eco
para ser feliz.

Salvador, 30 de junho de 2018.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Amar é...



Albert Camus

Amar é...
sorrir por nada e ficar triste sem motivos
é sentir-se só no meio da multidão,
é o ciúme sem sentido,
o desejo de um carinho;
é abraçar com certeza e beijar com vontade,
é passear com a felicidade,
é ser feliz de verdade!

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Eu queria...



Rodolfo Pamplona Filho

Eu queria ter um pai,
que fosse presente e alegre,
que conversasse comigo
e me explicasse sobre a vida,
que respeitasse minha visão
e meus sentimentos,
mesmo quando
não concordasse com eles

Eu queria ter uma mãe,
que fosse sensível e empolgada,
que me colocasse no colo
e me fizesse cafuné,
que me abraçasse com carinho,
quando as palavras sumissem,
mesmo quando
nada parecesse fazer sentido.

Eu queria uma mulher,
que estivesse ao meu lado,
em cada momento de vida;
que levantasse minha bola
nos momentos de tristeza
e transpirasse alegria
nas horas de animação;
que me ouvisse
e me entendesse
na hora da depressão.

Mas hoje é hoje
e nem sempre
se pode ter
o que se quer...
e estou sozinho...
chorando pelo que não vivi
e pelo que nunca tive...

Brasília, 09 de outubro de 2018.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Estrela da manhã





Manuel Bandeira

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Sobre a Medicina



Rodolfo Pamplona Filho

Entre a investigação
e a medicação,
há muito mais
do que se pensava atrás:
antes do diagnóstico,
aquém do prognóstico,
há um campo em que a razão
convive com a pura emoção
de ultrapassar a observação:
respeito é atenção,
verdadeira dedicação
não somente ao que se tem,
mas no aceitar de onde vem,
para onde vai ou crê no além.
Afinal, cuidar e informar
são dois lados de um espelho
em que a autonomia é o reflexo
do direito de ser o que se quer,
o que se ama e o que se é.

No vôo para Vitória/ES, 06 de junho de 2019.

domingo, 28 de julho de 2019

Retrato



Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

sábado, 27 de julho de 2019

Clareza



Rodolfo Pamplona Filho

Clareza é sempre um “posterius”:
nunca um “prius” na interpretação
Todos carregamos pré-compreensões,
algumas controláveis; outras não.

Salvador, 20 de outubro de 2018.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Se o meu pai fosse meu filho...





Adriano Deiró


Quando vejo tudo nos trilhos, me pergunto como teria sido, se o meu pai fosse meu filho...

Como partido, ele haveria tido um avô amoroso e bem estabelecido...

Uma avó cheia de alegria, que dá cambalhota e faz estripulia...

Uma mamãe 'molinha', que sorri, acaricia e conta historinha...

Isso tudo me faz pensar, amar e entendê-lo, sem condicionar...

Como teria sido a sua história? Guardo em memoria, gratidão à sua improvável vitória.
 
Não teria apanhado...e talvez tivesse jogado em muitos outros gramados...

Teria sido criança, teria feito lambança, sem ter tido de si roubada a infância...

Não teria passado fome, andado desconfiado, ou tido algum dia, seu samba discriminado...

Tido seu próprio sapato, não seria jamais emprestado, sobretudo calçado apertado.

Questioná-lo, ficou no passado!

Por este calo, todo o meu apreço, recompensa que nunca me esqueço...
A que me permite ser pai de um guri, tal qual o meu nunca teve pra si.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Toda dor passa




Rodolfo Pamplona Filho

Toda dor passa
A única coisa que fica na vida
são as lembranças de bons momentos
Então tente ter
mais momentos bons
do que ruins

Salvador, 18 de julho de 2018.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

A Arte Grita



Adriano Deiró

A arte grita em tempos sombrios
E o que fazer, senão ser garganta...
que gritando se agiganta,
e causa até arrepios,
contra seres tão vazios,
contra o mal que se levanta?

Me junto ao povo que grita,
à menina que anda aflita
por ser apenas quem é.
Já que a mais ninguém interessa,
se ela é Maria ou se é José.

A cada esquina um extinto
e templos cheios demais.
Fossem cristãos, só um quinto,
sem máscaras teatrais,
não haveria um faminto.
Viveríamos em paz

São missionários de índio,
só vivem em busca de mais.
Marginalizam o cachimbo
e o constrangem desde o início
a negar os seus ancestrais.

Vendem caro o perdão
E só lhe têm compaixão
Ou só lhe entregam o pão
da divina comunhão
se houver a confissão:
O seu deus é mais!!

Mas a arte é audaz
Resgata até capataz
e nem sempre passeata é capaz
Sigo garganta e levanto o cartaz...
Preconceito, jamais!

terça-feira, 23 de julho de 2019

Medo de Viver



Rodolfo Pamplona Filho

A vida pode estar te esperando
em algum beco no caminho
e o sofrimento sempre fará parte
em qualquer trilha que decida seguir:
ou você se junta a ele e se acomoda
ou luta para sobreviver,
pois, maior do que qualquer dor,
é o medo paralisante de viver!
Lembre-se:
A vida pode estar te esperando

Salvador, 29 de julho de 2018.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O teu riso



Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

domingo, 21 de julho de 2019

Complacente



Rodolfo Pamplona Filho

Nem tudo que parece é
Nem toda afirmação
é uma resposta
a uma pergunta.
O mundo é muito mais complexo
do que se busca o nexo
de posturas que se espera.
Por vezes, tudo não passa
de uma estranha pirraça
de nossos próprios corpos.
Afinal, o que se busca
não é o renovar de cada dia?
Então, solução melhor não haveria
do que o prazer recorrente
de um hímen complacente.

Salvador, 27 de julho de 2018.

sábado, 20 de julho de 2019

Sentimento de Belo Horizonte




Bruno Terra Dias


Belo Horizonte não é só cidade,
é verso que falseia o tempo
de que não esqueço.

A distância se mede por ventos de saudade
que flagelam sua lembrança de mim
e me tornam cada vez mais dolorido.

Imortal poente
de numinosas palavras
é Belo Horizonte.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Clareza



Rodolfo Pamplona Filho

Clareza é sempre um “posterius”:
nunca um “prius” na interpretação
Todos carregamos pré-compreensões,
algumas controláveis; outras não.

Salvador, 20 de outubro de 2018.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

IMPARCIAL


Jorge da Rosa

Amor verdadeiro
verdade jurídica
doar-se por inteiro
não importando-se com a crítica

Verdade dói
às vezes custa
também constrói
decisão mais justa

Justiça feita
linda verdade
o juiz que interpreta
julga com imparcialidade

A mais bela sentença
é acompanhada pela verdade
para o réu a esperança
é viver em liberdade

A verdade deve acompanhar
nós seres humanos
não podemos é acabar
com uma vida cheia de planos.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Nem tudo tem preço



Rodolfo Pamplona Filho

Nem tudo tem preço
Dignidade não tem
Amor não tem
Felicidade de verdade
também não

Nem tudo tem preço
e o que você me pede
não tem como ser aceito
sem tirar um pedaço de mim.

Nem tudo tem preço
e, se você fizer
o que me violenta
vai finalmente aprender:
Nem tudo tem preço,
mas tudo tem troco

Salvador, 08 de dezembro de 2018.

terça-feira, 16 de julho de 2019

A estrada II



Negra Luz

Eu não sei dessa estrada
Se ela passa, se ela fica, se ela para.
Eu não sei a quem pertence
Se do Brasil, se de Salvador, se da gente

Eu não sei dessa via
Se estou nela, se sigo ela ou se ela é minha
Eu não sei como seria
Sem a estrada, sem a minha via, sem o meu guia

Penso que por ter a minha estrada
Sigo segura na caminhada
Ao compreender a minha jornada
Minha missão cumpriria

Posso até dar umas paradas
Acostar-me na estrada
Atrapalhar-me com a georreferência indicada
Mas ao ser ajustada, minha estrada brilharia

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Complacente




Rodolfo Pamplona Filho

Nem tudo que parece é
Nem toda afirmação
é uma resposta
a uma pergunta.
O mundo é muito mais complexo
do que se busca o nexo
de posturas que se espera.
Por vezes, tudo não passa
de uma estranha pirraça
de nossos próprios corpos.
Afinal, o que se busca
não é o renovar de cada dia?
Então, solução melhor não haveria
do que o prazer recorrente
de um hímen complacente.

Salvador, 27 de julho de 2018.

domingo, 14 de julho de 2019

Amor junino



Negra Luz

Foi diante da fogueira
Que entreguei meu coração
Crepitou, em labaredas,
O amor que pela vida inteira
Estará em tuas mãos

Foi diante da fogueira
Que aguardei teu sim,  nunca um não
Sabia não ser paixão passageira
Ao sentir tua alma catingueira
Afagar meu coração

Foi diante da figueira
Que selamos nossos destinos, quase uma oração
Afirmamos pela vinda inteira:
Amor que cruzaria fronteiras
Indo além do infinito
Encontro em qualquer dimensão.

sábado, 13 de julho de 2019

Companhia ou Companheiro



Rodolfo Pamplona Filho

Companhia
é estar do lado,
preenchendo
um espaço
Companheiro
é viver ao lado,
mesmo quando
não se está presente

Companhia
é ir ao cinema,
ao bar ou
às compras
Companheiro
é não importar o lugar,
pois, em todos,
se deve estar.

Companhia
é presenciar momentos
especiais ou do dia-a-dia.
Companheiro
é dividir o prato,
o choro ou a alegria.

Companhia
é estar junto
Companheiro
é estar junto
para o que der e vier

Salvador, 04 de julho de 2018.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

THOMAS HOBBES



Jorge da Rosa

Os homens todos juntos
Sem o Estado presente
Geram tumultos
Caos e estado de guerra, certamente

O homem transferindo
Sua legitimidade ao Estado
Do estado de guerra estará saindo
Ficando o Estado legitimado

Desde que o Estado
Garanta a paz
Hobbes, ao ser estudado
Este entendimento nos traz

Sem legitimidade
O Estado é maior
Este terá a responsabilidade
De não causar o pior.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Desilusão



Rodolfo Pamplona Filho

Eu já devia estar acostumado
com as pancadas da vida...
mas ainda dói.

Eu já devia estar preparado
para nunca ser satisfeito...
mas ainda sinto falta.

Eu já devia estar calejado
pela frustração de não ser feliz...
mas ainda cultivo a esperança.

A desilusão me derruba
principalmente quando acho
que tudo poderia mudar.

Salvador, 28 de fevereiro de 2018.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

O que me faz voar



Negra Luz

Sorrisos... de crianças em especial
A onda do mar  quebrando no litoral
Respingos surpreendem sobre mim
Não há outro caminho: sorrir.

Aplausos... de um só, antes da hora
Quando todos esperavam o sinal
E agora? O eco ouvido quase "infernal"
Expulsava  em mim riso com astral

Olhares... Revelando por mim desejos
Mas a Lua não é de queijo
E eu viajando no meu mental
Correspondo com riso normal: Monalisa pareço igual

Abraços... Que não prendem, nem são correntes
Revelam paixão por mim: "caliente",
Não me queimam,
Mas sei: estão ali

E se junto todos esses atos
É que não sou de ignorar os fatos
E planando um sorriso na versão exposta
Reverencio tudo que de ti senti
Negra Luz
No meu tempo

Ensina-me, Tempo
Porque "Tempo é tempo"
Há tempo de plantar e de colher

E pode parar?
Não. "Não para não, não para."
Pois "Quem não deixa passar, não passa!"

Ficar nessa passagem parada?
No tempo da minha avó?
O passado já é Pretérito
Tempo Presente é o viver junto ou só

Modernos são os novos tempos
Bicudos para mim e você
O tempo é menos que fumaça:
Líquido: Bauman filosifou

Não perder-se no tempo ou o tempo
É gramática ou sintática
Que só no devido tempo
Em mim equacionou.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Desejo morrer



Desejo morrer
por não poder
fazer mais do que
fiz para você,
na ilusão de que controlaria
onde o Sol um dia se poria.

Desejo morrer
por não conseguir
fazer você afinal sorrir
depois de uma vida
de luta, dor e lamento
como se sua sina fosse o sofrimento.

Desejo morrer
por não consumar o
tudo que sonhei realizar,
sentindo-me preso
a uma vida sem sabor
onde nunca terei o fogo do amor.

Salvador, 16 de junho de 2018.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

JOHN LOCKE



Jorge da Rosa

Direito de legalidade
Liberdade de expressão
Direito de propriedade
E sua regulação

Com limitação
O pacto social
É uma forma de regulação
Da sociedade em geral

A sociedade e sua organização
Das leis depende
É forma de manifestação
Locke assim entende

Por nossos representantes
As leis são criadas
No legislativo atuantes
Deputados e deputadas.

domingo, 7 de julho de 2019

Amor é (quase) tudo



Rodolfo Pamplona Filho

Amor é quase tudo,
mas o quase não é irrelevante
O que falta ao amor
para ser impactante?
Talvez um pouco de cuidado
Talvez um carinho inesperado
Talvez uma torcida explícita
Talvez uma entrega sem retorno

Amor é quase tudo,
mas o quase não é irrelevante
O que falta ao amor
para ser incessante?
Talvez uma dose de mistério
Talvez um suspiro no espelho
Talvez um choro em desabafo
Talvez um frio na barriga no encontro

Amor é quase tudo,
mas o quase não é irrelevante
O que falta ao amor
para ser acachapante?
Talvez um bilhete inesperado
Talvez uma surpresa no acordar
Talvez dormir agarrado
Talvez nunca parar de sonhar

Salvador, 27 de outubro de 2018.

sábado, 6 de julho de 2019

Imparcial




Jorge da Rosa 
Amor verdadeiro
verdade jurídica
doar-se por inteiro
não importando-se com a crítica

Verdade dói
às vezes custa
também constrói
decisão mais justa

Justiça feita
linda verdade
o juiz que interpreta
julga com imparcialidade

A mais bela sentença
é acompanhada pela verdade
para o réu a esperança
é viver em liberdade

A verdade deve acompanhar
nós seres humanos
não podemos é acabar
com uma vida cheia de planos.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Concurso



Rodolfo Pamplona Filho


Chance, oportunidade,
um sonho concreto...
Mistura de vontade,
luta diária e projeto.
Submeter-se a uma prova
é fazer uma aposta de vida:
esperança que se renova,
na busca de nova guarida...

Depósito do futuro
e das apreensões,
expectativas geradas
em novas canções...
A incerteza do sucesso
gera, em verdade, um novo curso
da construção do seu próprio universo:
tudo por causa de um concurso...

Salvador, 21 de maio de 2011.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Cão Sem Plumas



João Cabral de Melo Neto

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Viagem no Tempo




Rodolfo Pamplona Filho

O sol já foi embora,
mas ainda dá para ver...
Olhamos para o horizonte,
vendo o passado,
em um instante levado
além dos seus limites

Viajar no tempo
não é ir ao futuro
ou voltar ao passado,
mas, sim, ter mais tempo
para estar no presente
e apreciar a beleza
que fatalmente desaparecerá.

 Salvador, 14 de outubro de 2018.

terça-feira, 2 de julho de 2019

A Flor e a Náusea



Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Poliamorismo


Rodolfo Pamplona Filho

Por que não se pode
amar mais de uma pessoa
ao mesmo tempo?
Por que o ato de amar
exige uma exclusividade artificial,
como se o coração pudesse
ser controlado como
um bicho de estimação?

Para alguém ser completo,
é possível que haja mais de uma peça
para formar um todo,
que não é um quebra-cabeça,
mas, sim, um complexo prisma,
cujas faces são complementares,
não havendo verdade ou mentira,
pois tudo dependerá do ângulo que se mira...

Eu quero amar você eternamente,
mas não quero deixar de amar ninguém...
Eu quero ficar com você o resto da vida,
mas isso não significa viver só a dois...
Meu amor não é uma cabine simples,
com apenas dois lugares:
é um mar com vários ecossistemas,
uma galáxia com diversas estrelas...

Eu não quero a clandestinidade
de viver um amor marginal...
Quero uma relação de maturidade
em que haja entrega total,
sem a ilusão da única cara metade,
vivendo o múltiplo afeto da vida real.

San Francisco, 28 de setembro de 2010.

domingo, 30 de junho de 2019

O teu riso


Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

sábado, 29 de junho de 2019

Sobre o Medo da Morte



Rodolfo Pamplona Filho

O único jeito de aceitar a realidade
é parando de lutar.
Em vez de espantar o medo,
a solução é convidá-lo a andar ao lado... como parceiro, não inimigo.
A flor de lótus não cresce longe da lama
e não se vive sem dor.
Por isso, o jeito é aceitar o todo,
com seus lados bons e ruins,
amor e compaixão.
Não é possível se livrar do medo da morte, mas se pode aprender a conviver com ele.

Salvador, 29 de julho de 2018.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Chama e Fumo




Manuel Bandeira

Amor – chama, e, depois, fumaça…
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa…

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor – chama, e, depois, fumaça…

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimando o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa…

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor – chama, e, depois, fumaça…

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa…

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linha a arder!
Amor – chama, e, depois, fumaça…

Porquanto, mal se satisfaça
(Como te poderei dizer?…),
O fumo vem, a chama passa…

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas… tem de ser…
Amor?… – chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa…

Teresópolis, 1911

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Será possível um final feliz?



Rodolfo Pamplona Filho

Um dia descobri que
homens perfeitos existem!
Eu, que já havia desistido de procurar,
fui surpreendida pela vida...
Ele sempre esteve tão perto,
mas era tão distante...
No dia que desisti,
ele apareceu como nunca
havia se mostrado antes...
Percebi que tudo
que eu tinha como verdade
apenas eram experiências
que não deram certo...
Ele era tudo o que eu sempre quis:
Me apaixonei;
Aprendi a amar;
Mas por ser tão perfeito,
alguém o havia descoberto antes...
Como isso acaba?
Ainda não sei...

Salvador, 23 de janeiro de 2018.