quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Gratidão

 




 Rodolfo Pamplona Filho







Gratidão não se exige,


não se pede, nem se espera...


É presente de um coração puro,


que não vê outra forma de agir,


na memória da marca do passado


e do alívio do auxílio no desespero...








Por isso, a ingratidão machuca


como punhaladas nas costas,


como um tapa no rosto,


como uma dor fatal no peito...








O ingrato merece mais do que repúdio:


é pena de morte no coração,


que se fecha em uma ferida purulenta,


cujos bálsamos somente são


o ostracismo ou a ressurreição do perdão...








Reconhecer-se grato é o exercício da verdadeira humildade,


que é saber que, sozinho, não se consegue nada,


pois conquistas isoladas são vitórias de Pirro,


em que obter o resultado não significa necessariamente desfrutá-lo...








Gratidão é a resposta sincera


que o afeto exige por coerência!




É a marca que renova a esperança,


que não é a última que morre, posto imortal,


mas, sim, a certeza de que


ainda se pode ter fé na humanidade








Maceió, 03 de setembro de 2010


terça-feira, 29 de setembro de 2026

Cinzas

 




Heitor Lima






A última brasa ardeu na cinza adusta:


Tudo passou, tudo se fez em poeira...


E na minha alma, que o abandono assusta,


Morre a luz da esperança derradeira.




O amor mais casto, a aspiração mais justa


Têm a desilusão para fronteira...


Um momento de sonho às vezes custa


O sacrifício da existência inteira!






Chama efêmera, o amor! Baldado surto,


A glória! Ah! coração mesquinho e raso...


Ah! pensamento presumido e curto...






E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,


— Tudo se perderá no mesmo ocaso


E se confundirá na mesma ruína.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Muzuá, Puçá e Caçuá





 Rodolfo Pamplona Filho







Muzuá é a armadilha,


que espera sua vítima 


ou decora uma casa;




Puçá é a rede 


que impede o siri 


de se desvencilhar;




Caçuá é o cesto


que transporta a cangalha 


no lombo de um jegue:




Muzuá, Puçá e Caçuá,


três formas de entrelaçar 


o que o destino proporcionar.








Salvador, 02  de novembro de 2020


domingo, 27 de setembro de 2026

Lembrança

 


 Oswald Barroso



A lua te recordará


a branca noite


em que ela se despiu


e, vermelha,


se fez cúmplice


do nosso amor.




O mar te lembrará


nosso costume


de caminhar nas tardes


até o horizonte,


pois que o mar


também é cúmplice


dos namorados distantes.








E quando vires, amor,


num vão de céu


uma estrela,


tu não chorarás,


porque, então,


aprenderás o meu caminho.








Mas, quando o povo


andar triste pelos becos,


tu saberás do meu luto


e sentirás a dor


da dura separação.






Porém, se a multidão


ensaiar um canto,


tu saberás do meu riso


e nela me encontrarás.


sábado, 26 de setembro de 2026

O Ocaso

 




 Rodolfo Pamplona Filho



Dos dias

Do calor

Das vidas

Do amor

De nada

De tudo

Do nada

Do mundo



Bogotá, 05 de outubro de 2013, em conexão para o Brasil, olhando o entardecer...


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

RETROSPECTO




Humberto de Campos


Vinte e seis anos, trinta amores: trinta


vezes a alma de sonhos fatigada.


e, ao fim de tudo, como ao fim de cada


amor, a alma de amor sempre faminta!


 


Ó mocidade que foges! brada


aos  meus ouvidos teu futuro, e pinta


aos meus olhos mortais, com toda a tinta,


os remorsos da vida dissipada!


 


Derramo os olhos por mim mesmo... 


E, nesta muda consulta ao coração cansado,


que é que vejo? que sinto?  que me resta?


 


Nada: ao fim do caminho percorrido,


o ódio de trinta vezes ter jurado


e o horror de trinta vezes ter mentido!


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Má Vontade





 Rodolfo Pamplona Filho



Má vontade é tudo de ruim!



É muito difícil lidar 


com quem se acha com razão 


e não dá espaço 


para fazer outra programação








Má vontade é uma droga!


Não há como conversar 


com quem não admite repensar 


a atitude tempestuosa


que somente tem o dom de perturbar 








Má vontade é uma praga!


Só dá mesmo para lamentar 


a empáfia de quem tem certeza 


de que todo erro é alheio


e todo mau resultado não é sua culpa.








Má vontade é uma merda, viu? 








Salvador, 05  de novembro de 2020 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

SONETO




Rubem Braga








E quando nós saímos era a Lua,


Era o vento caído e o mar sereno


Azul e cinza-azul anoitecendo


A tarde ruiva das amendoeiras.




E respiramos, livres das ardências


Do sol, que nos levara à sombra cauta


Tangidos pelo canto das cigarras


Dentro e fora de nós exasperadas.




Andamos em silêncio pela praia.


Nos corpos leves e lavados ia


O sentimento do prazer cumprido.




Se mágoa me ficou na despedida


Não fez mal que ficasse, nem doesse –


Era bem doce, perto das antigas.


(1947)


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Ritmo da Vida





 Rodolfo Pamplona Filho


Não é o ritmo da vida

que me incomoda:

é o corte abrupto no final.



Praia do Forte, 03 de agosto de 2013, lendo Calvin...


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Vaidade

 


 Florbela Espanca

                                    


Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade !



Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo ! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade !

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a Terra anda curvada !


E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Livro de mágoas (1919)


domingo, 20 de setembro de 2026

Momentos Felizes





 Rodolfo Pamplona Filho







Quando estamos tristes,


lembranças felizes 


nos fazem seguir,


mesmo que não saibamos


para onde vamos.








Quando estamos para baixo,


memórias felizes


nos fazem sorrir,


mesmo sem muito tempo


para respirar 








Quando estamos depressivos,


momentos felizes 


despertam a sensação 


de que, em algum lugar do passado,


já houve esperança de um futuro melhor.








Terça-feira, 10 de novembro de 2020


sábado, 19 de setembro de 2026

Noite morta

 


 Manuel Bandeira



Junto ao poste de iluminação

Os sapos engolem mosquitos.



Ninguém passa na estrada.

Nem um bêbado.




No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.

Sombras de todos os que passaram.

Os que ainda vivem e os que já morreram.



O córrego chora.


A voz da noite . . .



(Não desta noite, mas de outra maior.)



Petrópolis, 1921


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Musicando a Tristeza

 




 Rodolfo Pamplona Filho











Musiquemos a sensação...


A tristeza é inspiração...


O que machuca também ensina


e o sofrimento não precisa


ser uma eterna sina...


Somos movidos  a amor


e - porque não dizer? - a dor...


Somos o Som e a Dor...








Brasília, 14 de março de 2013.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Lembrança





Cláudia Barral


Te amo como a moça que arde em febre e não dorme


Por longos corredores desertos


Antes mesmo de te amar


Como a um filho


Como a um irmão


Como alguém partindo em breve


Como é o consentir


Como o momento em que acaba a missão de esperar


Como o sol nos pátios dos sanatórios, dos presídios e


            [entre rostos de vidro dos santos das catedrais


Como se sua voz fosse a luz


Como alguém que acabou de dar-se conta que é feito


                                              [somente de lembranças

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

18 anos de Rodolfinho



 





 


Meu querido Rodolfinho,


 


Hoje você completa 18 anos de vida


E eu não poderia estar mais feliz


Por ter visto você crescer e se tornar


Um jovem forte, corajoso e capaz


 


Lembro-me dos seus primeiros passos


E das suas primeiras palavras


E agora vejo você pronto para voar


E conquistar o mundo com suas asas


 


Você é um filho amado e especial


E eu tenho muito orgulho de você


Por tudo o que já fez e ainda fará


E por ser um exemplo de amor e fé


 


Que a vida lhe traga muitas alegrias


E que você siga sempre em frente


Com determinação, sabedoria e bondade


E que Deus lhe abençoe eternamente


 


Parabéns, meu filho querido


Que este dia seja repleto de amor


E que você saiba que sempre estarei aqui


Para apoiá-lo em cada novo caminho e sabor.


 


Salvador, 03 de junho de 2023.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Versos Íntimos

  


(Augusto dos Anjos)


Vês?! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera


Toma um fósforo, acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro.

A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se alguém causa ainda pena a tua chaga

Apedreja essa mão vil que te afaga.

Escarra nessa boca que te beija!

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Amor de Irmão




Rodolfo Pamplona Filho


Amigo


Eu não tenho dinheiro para dar


nem tenho como as coisas mudar,


mas sei que, quando a coisa apertar,


vou pegar a tua mão


 


Amigo


Não consigo resolver teus problemas


Nem sei como desvendar teus esquemas


mas sei que, em todos os dilemas,


serei sempre teu Irmão


 


Na saúde ou na doença


No vazio ou na crença


No mar ou na terra


Na paz ou na guerra


“Só posso dizer que te amo


e que estou ao teu lado”,


Irmão


 


Salvador, 06 de agosto de 2023.


domingo, 13 de setembro de 2026

Timidez




 (Cecília Meireles)


Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…– mas só esse eu não farei.Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…– palavra que não direi.Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,– que amargamente inventei.E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…– e um dia me acabarei.

sábado, 12 de setembro de 2026

Boteco

 



Rodolfo Pamplona Filho 


O que tem em um boteco?

Encontros e Música

Amigos e Barulho

Risada e Conversa

Sorrisos e Delícias


Garçom, traz à mesa

Comidinhas e Gentileza

Bebidas e Beleza

e um Sorvete de sobremesa

Na calçada ou varandão


 


Salvador, 20 de julho de 2023.


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Amor

 



(Álvares de Azevedo)


Amemos! Quero de amor

Viver no teu coração!

Sofrer e amar essa dor

Que desmaia de paixão!Na tu’alma, em teus encantos

E na tua palidez

E nos teus ardentes prantos

Suspirar de languidez!


Quero em teus lábios beber

Os teus amores do céu,

Quero em teu seio morrer

No enlevo do seio teu!Quero viver d’esperança,

Quero tremer e sentir!

Na tua cheirosa trança

Quero sonhar e dormir!


Vem, anjo, minha donzela,

Minha’alma, meu coração!

Que noite, que noite bela!

Como é doce a viração!E entre os suspiros do vento

Da noite ao mole frescor,

Quero viver um momento,

Morrer contigo de amor!

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Comunhão



Rodolfo Pamplona Filho


Com quem há prazer

em convidar para a mesa?

Na fartura

ou na carência,

só se compartilha,

com certeza,

com quem se tem comunhão,

com quem se divide o pão,

com quem mora em seu coração.



Salvador, 10 de junho de 2022.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

José




(Carlos Drummond de Andrade)


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?E agora, José?

sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, – e agora?Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Eu não gosto de paredes brancas

 




Rodolfo Pamplona Filho

 


Eu não gosto de paredes brancas

Elas me trazem uma sensação de limpeza

parecendo um ambiente de hospital

incompatível com a vida real

impossível no mundo normal


 Eu não gosto de paredes brancas


Elas parecem uma tela em branco

em que não se pode escrever,

como um manto imaculado a esconder

uma vida proibida de viver


Eu não gosto de paredes brancas


Elas soam como a água ideal:

Inodora, incolor e insípida!

Eu só gosto de paredes brancas

como um convite para novas criações!



Salvador, 10 de junho de 2022.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Canção do Exílio

 







(Gonçalves Dias)


Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

domingo, 6 de setembro de 2026

Frustração



 


Como lidar

com a frustração

quando mal se dá conta

de si próprio?


O desejo é ilimitado

e os recursos

da realidade

são finitos…


Assim, se percebe

a inevitabilidade

do sentimento;

a força

do constrangimento;

a imperatividade

do sofrimento.



Salvador, 02 de junho de 2023.


sábado, 5 de setembro de 2026

Ora direis ouvir estrelas




(Olavo Bilac)


Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…E conversamos toda a noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Minha matilha é a cara da diversidade - 2



 

 Rodolfo Pamplona Filho


8 indivíduos


Tamanhos diferentes


Idades diferentes


Cada um com sua cor, em paleta de cores


Paridade (4 machos e 4 fêmeas)


4 duplas


2 de porte pequeno, 4 de porte médio e 2 de porte grande


2 mais velhos (Camille e Tchutchucão)


2 irmãos de sangue (Hans e Hannah) em uma família socioafetiva


2 grandões estabanados (Carlos e Joana)


2 baixinhos invocados (Buck e Simone)


1 feminista (Camille)


1 gordo (Tchuchucão)


1 troglodita convertido (Hans)


1 homo (Hannah)


1 hiperativo (Carlos)


1 periguete (Joana)


1 mauricinho (Buck)


1 com deficiência (Simone)


 


Mas todos amados sem qualquer restrição.


 


Salvador, 01 de agosto de 2023.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Soneto de Fidelidade




 (Vinicius de Moraes)


De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem amaEu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Rompendo




Rodolfo Pamplona Filho




E, de repente, o silêncio!!!

E o que era unidade

virou dois corpos abraçados

(mas não era a mesma coisa!)

E o silêncio persiste!!!

Palavras são emitidas,

mas parece não haver som

Confesso: estou com medo

(ela também!)

Medo de quê???

Medo de perdê-la

e nunca mais tê-la...

... de volta ... em meus braços

O rádio está ligado,

mas o silêncio continua... (insuportável!!!)

Fala-se sobre qualquer coisa,

mas o silêncio continua...

Será o fim?

Ou será apenas a explosão de outra neurose?

Enquanto escrevo,

meu corpo sua e treme!

Será febre?

Será medo?

Será que vou conseguir encontrar

alguém que eu goste de abraçar

alguém com quem eu possa conversar

alguém que eu possa amar,

sem ser você, amiga?

Acho difícil,

Acho impossível,

acho insuportável!

Mas, então, por que, meu Deus, por que?

Por que meu coração está confuso desse jeito?


Se eu a amo,

por que hesito?

Se não a amo,

por que existo?

Vejo seus olhos marejados

Sinto que ela vai chorar.

Se tenho vontade, por que não grito logo que a quero?

que a amo?

que a desejo?

Porque...

... sou imaturo

... sou um idiota

... sou influenciado por palavras que não vem da minha boca

nem da minha alma

nem do meu coração.

Mas, mesmo assim,

e por isso mesmo,

eu hesito quando

quando tudo seria bem mais fácil

e bem mais simples

se eu (mente, alma e coração)

apenas dissesse:


Meu amor, quero ficar contigo o resto de minha vida!


(11.10.92)

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Amar, nunca me coube




(Mario Quintana)


Mas sempre transbordou

O rio de lembranças

Que um dia me afogou



E nesta correnteza

Fiquei a navegar

Embora, com certeza,

Não possa me salvar



Amar nunca me trouxe

Completo esquecimento

Mas antes me somou

Ao antigo tormento



E assim, cada vez mais,

Me prendo neste nó

E cada grito meu

Parece ser maior