quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Agonia (Soneto pelo avesso)



Rodolfo Pamplona Filho


Agonia


Angústia


Tensão




Stress


Impotência


Confusão




Vontade de sumir


e nunca mais aparecer...


Desejo sincero


de nunca mais acontecer...




Pensar se há alternativa


para o que não se soluciona


com toda a fé na medicina


em questão que não se equaciona




Salvador, 26 de fevereiro de 2012.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Amor sem promessas





Rodolfo Pamplona Filho




Quando se ama,


fazem-se promessas,


como se houvesse necessidade


de verbalizar


que se pode fazer tudo


por amor




Mas prometer gera expectativas


que, quando não realizadas,


causam uma frustração,


como se o amor perdesse força


por uma promessa não cumprida.




É olhar uma parte pelo todo,


o acessório pelo principal,


o detalhe pelo conjunto,


o universo por um lugar


a vida por um dia




Amar não exige promessas


Amar exige amar


Amar sem promessas


Amar, simplesmente amar.




Salvador, 06 de julho de 2018.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Aquarela do Brasil






Ary Barroso




Brasil


Meu Brasil brasileiro


Meu mulato inzoneiro


Vou cantar-te nos meus versos


Ô Brasil, samba que dá


Bamboleio, que faz gingá


Ô Brasil do meu amor


Terra de Nosso Senhor


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Ô, abre a cortina do passado


Tira a Mãe Preta do serrado


Bota o Rei Congo no congado


Brasil! Brasil!


Deixa cantar de novo o trovador


À merencória luz da lua


Toda canção do meu amor


Quero ver a “Sá Dona” caminhando


Pelos salões arrastando


O seu vestido rendado


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Brasil


terra boa e gostosa


Da morena sestrosa


De olhar indiscreto


Ô Brasil, verde que dá


Para o mundo se admirá


Ô Brasil do meu amor


Terra de Nosso Senhor


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Ô, esse coqueiro que dá côco


Oi, onde amarro a minha rêde


Nas noites claras de luar


Brasil! Brasil!


Ah, ouve essas fontes murmurantes


Aonde eu mato a minha sede


E onde a lua vem brincá


Ah, este Brasil lindo e trigueiro


É o meu Brasil brasileiro


Terra de samba e pandeiro


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…


domingo, 16 de agosto de 2026

Amor é (quase) tudo





Rodolfo Pamplona Filho


Amor é quase tudo,

mas o quase não é irrelevante

O que falta ao amor

para ser impactante?

Talvez um pouco de cuidado

Talvez um carinho inesperado

Talvez uma torcida explícita

Talvez uma entrega sem retorno


Amor é quase tudo,

mas o quase não é irrelevante

O que falta ao amor

para ser incessante?

Talvez uma dose de mistério

Talvez um suspiro no espelho

Talvez um choro em desabafo

Talvez um frio na barriga no encontro


Amor é quase tudo,

mas o quase não é irrelevante

O que falta ao amor

para ser acachapante?

Talvez um bilhete inesperado

Talvez uma surpresa no acordar

Talvez dormir agarrado

Talvez nunca parar de sonhar



Salvador, 27 de outubro de 2018.


sábado, 15 de agosto de 2026

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Tomando Consciência

 




 Rodolfo Pamplona Filho




Eu não sinto falta de você,


mas do amor que eu sentia


 


Eu não sinto vontade de voltar,


mas saudade da companhia


 


Eu não suportaria reviver as brigas,


mas me agradaria lembrar as risadas


 


Eu não aguentaria reviver o que vivi,


mas não posso dizer que me arrependi


 


Eu tomei consciência do que sofri


e, por isto, nunca mais seguirei este caminho.


 


Em 16 de setembro de 2023, no voo de Campinas para Salvador.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Equilíbrio fluente

 




 



Maria da Paz R. Dantas




A Ilya Prigogine



Escalando a serra nevada

ou o monte roraima

em minhas retinas

estou hoje a um certo dia de maio


                            no topo 2000


da montanha do século.

Um não-sei-quê


                    me amanhece


para o teu abraço


                    e descubro que


não mais me tentam


vícios de estrutura.


Um corpo leve (o meu)


me atrai me leva


no rumo de um equilíbrio fluente.


Viajar me importa.


                                    Quero


meu desejo além


                      da gravidade


Reconhecer-te


no abismo das quedas


que não chegam ao fundo.


                                   E no


enquanto de abraço


ou ar que nos enlaça


eu te sonho tu me sonhas


de modo tão descontínuo


                                  e livre


que nos sorrimos compreendidos


                            sem medo


de colisão no escuro


ou na sala


                                       civil


dos sistemas


fechados.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Advocacia Feminina


 






 Rodolfo Pamplona Filho




Com coragem e inteligência,


empenhadas em garantir a equidade,


lutam pelo Direito com eficiência,


com sua sabedoria e sensibilidade.


 


Na tribuna, brilham com eloquência,


com argumentos precisos e profundos,


mostrando ao mundo sua competência


em cada argumento, em cada segundo.


 


Elas quebram barreiras e preconceitos,


com sua força e perseverança!


Inspiram outras mulheres a a outros feitos


e a buscar a igualdade com esperança!


 


E, assim, a advocacia feminina desponta,


com amor pela profissão e tenacidade,


em que sua voz poderosa aponta


o caminho da Justiça para a sociedade.


 


Balneário Camboriú, 25 de agosto de 2023.


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Prece de um Pecador

 



Miguel Carneiro




Meu Senhor fui negligente

E agora estou doente

Por conta de minha transgressão

Não amar só a ti

Diante de tanta farra e profanação


Meu Senhor estou convalescente

E busco o vosso perdão

Meu Deus

Não me abandones

Sou apenas um pobre grão

Pecando nesse pobre chão


Meu Senhor fui descuidado

E agora estou ferrado

Diante de tanta violação

Abrande minha pena

Diante do vosso Tribunal de Apelação


Pequei, Senhor!

Tenha piedade de mim

na hora de minha condenação.


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O que não me pertence

 


Rodolfo Pamplona Filho

 


O inconsciente

A insegurança

A paranoia

A desconfiança

A incerteza

A inconstância


Eu preciso aprender finalmente

a lidar conscientemente

com o que não me pertence

para saber definitivamente

quem sou

o que faço

e para onde vou.

 


Salvador, 01 de setembro de 2023.

domingo, 9 de agosto de 2026

Como?

 


Como conviver

com alguém que

não sabe a diferença

entre amar e sofrer?


Como manter a sanidade

se tudo que te faz mal

é o que mundo

chama de normal?


Como tentar sobreviver

se o que deseja

é o que te mata

lentamente?



Salvador, madrugada de 02 de setembro de 2023.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Deserto




Paulo de Toledo


minha sombra caminha

adiante de mim


sigo-a sequioso

com meu séquito de sonhos


lá atrás o sol

ao traduzir-me desola-se


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

No Coração e no Sovaco




Eu te amo

no coração e no sovaco,

até mesmo quando

você não tiver saco

de aguentar minha sensibilidade


Eu te amo

no coração e no sovaco,

até mesmo quando

o tempo estiver opaco

e buscar o sol seja uma necessidade


Eu te amo

no coração e no sovaco,

morando em castelo

ou vivendo em barraco,

pois riqueza não vence a lealdade


Eu te amo

no coração e no sovaco,

e, definitivamente, não deixarei

que fiquem dando pitaco

em nossa cumplicidade


Eu te amo

no coração e no sovaco,

e, com você, tudo enfrentarei,

sem medo de cair em buraco

para matar nossa saudade


Eu te amo

no coração e no sovaco,

e, para sempre, serei

o seu animado macaco,

mesmo tendo chegado a maturidade


Eu te amo

no coração e no sovaco!

Com você, conquistei a liberdade

de vestir o meu casaco

e amar alguém de verdade

 


São Paulo, 19 de agosto de 2023.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Frustração

 



 

Rodolfo Pamplona Filho

 


Como lidar

com a frustração

quando mal se dá conta

de si próprio?



O desejo é ilimitado

e os recursos

da realidade

são finitos…


Assim, se percebe

a inevitabilidade

do sentimento;

a força

do constrangimento;

a imperatividade

do sofrimento.


 

Salvador, 02 de junho de 2023.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Minha matilha é a cara da diversidade - 2

 


 


Rodolfo Pamplona Filho


 


8 indivíduos

Tamanhos diferentes

Idades diferentes

Cada um com sua cor, em paleta de cores

Paridade (4 machos e 4 fêmeas)

4 duplas

2 de porte pequeno, 4 de porte médio e 2 de porte grande

2 mais velhos (Camille e Tchutchucão)

2 irmãos de sangue (Hans e Hannah) em uma família socioafetiva

2 grandões estabanados (Carlos e Joana)

2 baixinhos invocados (Buck e Simone)

1 feminista (Camille)

1 gordo (Tchuchucão)

1 troglodita convertido (Hans)

1 homo (Hannah)

1 hiperativo (Carlos)

1 periguete (Joana)

1 mauricinho (Buck)

1 com deficiência (Simone)


 

Mas todos amados sem qualquer restrição.


 

Salvador, 01 de agosto de 2023.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Rompendo





Rodolfo Pamplona Filho



E, de repente, o silêncio!!!

E o que era unidade

virou dois corpos abraçados

(mas não era a mesma coisa!)

E o silêncio persiste!!!

Palavras são emitidas,

mas parece não haver som

Confesso: estou com medo

(ela também!)

Medo de quê???

Medo de perdê-la

e nunca mais tê-la...

... de volta ... em meus braços

O rádio está ligado,

mas o silêncio continua... (insuportável!!!)

Fala-se sobre qualquer coisa,

mas o silêncio continua...

Será o fim?

Ou será apenas a explosão de outra neurose?

Enquanto escrevo,

meu corpo sua e treme!

Será febre?

Será medo?

Será que vou conseguir encontrar

alguém que eu goste de abraçar

alguém com quem eu possa conversar

alguém que eu possa amar,

sem ser você, amiga?

Acho difícil,


Acho impossível,

acho insuportável!

Mas, então, por que, meu Deus, por que?

Por que meu coração está confuso desse jeito?


Se eu a amo,

por que hesito?

Se não a amo,

por que existo?

Vejo seus olhos marejados

Sinto que ela vai chorar.

Se tenho vontade, por que não grito logo que a quero?

que a amo?

que a desejo?

Porque...

... sou imaturo

... sou um idiota

... sou influenciado por palavras que não vem da minha boca

nem da minha alma

nem do meu coração.

Mas, mesmo assim,

e por isso mesmo,

eu hesito quando

quando tudo seria bem mais fácil

e bem mais simples

se eu (mente, alma e coração)

apenas dissesse:


Meu amor, quero ficar contigo o resto de minha vida!


(11.10.92)

domingo, 2 de agosto de 2026

Amar, nunca me coube




(Mario Quintana)


Mas sempre transbordou

O rio de lembranças

Que um dia me afogou



E nesta correnteza

Fiquei a navegar

Embora, com certeza,

Não possa me salvar



Amar nunca me trouxe

Completo esquecimento

Mas antes me somou

Ao antigo tormento


E assim, cada vez mais,

Me prendo neste nó

E cada grito meu

Parece ser maior





sábado, 1 de agosto de 2026

Sorrisos





Rodolfo Pamplona Filho




Todo sorriso é um enigma

mais difícil que o da esfinge

pois não há saída: ele nos devora,

seja alegre ou seja triste!


Cada dente exposto,

cada expressão no rosto

contém uma mensagem

Cada olhar brilhante,

cada riso vibrante

transmite uma imagem


Ela sorri para mim?

Ou ela sorri de mim?

Compreender é tão difícil

quanto se espera um “sim”!

Não se sabe se um sorriso

é um beijo ou uma ironia!

Não se sabe se um sorriso

emana sarcasmo ou poesia!


Por isso mesmo,

repito sempre o lugar comum:

“Sorria sempre, mesmo

que seja um sorriso triste!

Pois antes um sorriso triste

do que a tristeza

de não saber sorrir!”


(1991)


Musicado por Iuri Lemos Vieira em 2006


sexta-feira, 31 de julho de 2026

Coisa Amar

 





Manuel Alegre



Contar-te longamente as perigosas

coisas do mar. Contar-te o amor ardente

e as ilhas que só há no verbo amar.

Contar-te longamente longamente.



Amor ardente. Amor ardente. E mar.

Contar-te longamente as misteriosas

maravilhas do verbo navegar.

E mar. Amar: as coisas perigosas.



Contar-te longamente que já foi

num tempo doce coisa amar. E mar.

Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.



Contar-te o mar ardente e o verbo amar.

E longamente as coisas perigosas.


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Esperança




Rodolfo Pamplona Filho



O futuro há de ser melhor do que o presente

e infinitamente superior ao passado recente,

pois guarda em sim um querer

que se renova a cada alvorecer


Não é o amor que difere o homem dos outros animais...

Não é a falta de guerra que garante a paz...

Não é a pesquisa lógica que impulsiona à solução...

Não é o remédio que traz calma ao coração...


É a força que move o doente à cura...

É o que faz a alma se manter pura...

É o que se sente no sorriso da criança...

É a mais clara forma de fé: a esperança!


Viver é o exercício da persistência

em um mundo que mina sua resistência

com armadilhas dolorosas nos pontos mais sensíveis,

criando obstáculos cada dia mais terríveis...


Mas nada disso realmente importa

quando a sensação que bate à nossa porta

é uma confiança inexplicável no amanhã

com um renascer da vontade a cada manhã...



Salvador, 23 de maio de 2010


Para Micael...

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Me marcou





(Negra Luz)


Com o melhor cheiro que já senti,

Com a comida mais gostosa que comi,

Com o banho mais bem tomado que tomei ,

Com o sermão mais pujante que ouvi


Também, com o melhor conselho,

Com a palavra mais sábia,

Com o provérbio mais significativo,

Com a frase que ficou


E, assim era, com o mais inebriante sorriso,

Com o olhar mais profundo,

Com o abraço que mais me aqueceu,

Com o beijo de mais abnegado amor


Minha mãe me marcou com tudo, 

Que traduzia seu amor.

Eu sigo e, nas marcas em mim,




Reencontro tudo de bom que Mainha deixou!

terça-feira, 28 de julho de 2026

A Banalização da Morte




Rodolfo Pamplona Filho


A TV divulga, a rádio anuncia,

o jornal comunica

o saldo das mortes do final de semana...

o trânsito, o acidente doméstico

ou a costumeira e pontual queima de arquivo...


Normal...


Ouvimos impassíveis,

tomando o café nosso de cada dia,

no meio das notícias políticas

ou da alegria ou tristeza com

o resultado do jogo do nosso time...


Normal...


Não há espaço para indignação,

nem mesmo há tempo para isso...

A informação passa por

nossos olhos e ouvidos

como uma brisa imperceptível...


Normal...


O sangue escorre das imagens,

do som e dos papéis...

mas não se sente nada...

Anestesia coletiva, difusa e impessoal...

A apatia e a indiferença

não fazem acepção de pessoas...


Normal...


Normal?



Salvador, 16 de agosto de 2010, uma segunda-feira sangrenta...

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Tempo Rei






Gilberto Gil



Não me iludo

Tudo permanecerá

Do jeito que tem sido

Transcorrendo

Transformando

Tempo e espaço navegando

Todos os sentidos...



Pães de Açúcar

Corcovados

Fustigados pela chuva

E pelo eterno vento...



Água mole

Pedra dura

Tanto bate

Que não restará

Nem pensamento...



Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Transformai

As velhas formas do viver

Ensinai-me

Oh Pai!

O que eu, ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo

Socorrei!...



Pensamento!

Mesmo o fundamento

Singular do ser humano

De um momento, para o outro

Poderá não mais fundar

Nem gregos, nem baianos...



Mães zelosas

Pais corujas

Vejam como as águas

De repente ficam sujas...



Não se iludam

Não me iludo

Tudo agora mesmo

Pode estar por um segundo...



Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Transformai

As velhas formas do viver

Ensinai-me

Oh Pai!

O que eu, ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo

Socorrei!...


domingo, 26 de julho de 2026

Morrer é Doce!





Rodolfo Pamplona Filho



Quando em meu peito, romper-se a corrente

Que a alma me prende à dor de viver

Não quero por mim, nem uma lágrima,

Nem um suspiro, nem um sofrer...

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu passamento.

Não quero que um sorriso

Se apague pelo fim do meu triste tormento!


Viver foi peregrinar no deserto,

Procurando achar o que não estava escondido,

viver foi submergir no tédio,

Tentando encontrar o que já estava perdido

Quando se esgotar o meu suspiro,

Não desfolhe por mim sequer uma flor!

Não tornai outro ente matéria inútil.

Sozinho, da morte, deixai-me o torpor!


No meu epitáfio, escrevas:

Foi homem e, pela vida, passou

Como nas horas de um pesadelo

Que só, com a bela senhora, acordou


Descansem meu leito solitário

À sombra de um triste cipreste,

Numa floresta há muito esquecida

Onde não usurpem o que ainda me reste.

Este parece ser meu desejo final

Neste esperado momento de verdade nua.

Eis-me pronto para beijar a bela senhora

E ver como a morte é doce e crua!


(1989)


sábado, 25 de julho de 2026

Busque Amor novas artes, novo engenho






Luís de Camões



Busque Amor novas artes, novo engenho

Pera matar-me, e novas esquivanças,

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.



Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.


Mas, enquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê,



Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como e dói não sei porquê.




sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Dia

 



Rodolfo Pamplona Filho




É hoje o dia!

E o sangue dá nova pulsada

como um atleta de corrida...

Será que, antes da chegada,

já será despedida?


É hoje o dia!

E a ansiedade

toma todo o corpo,

como se a vontade

aproximasse o porto...


É hoje o dia!

Mas que desespero!

A cada minuto de espera,

tenho um pesadelo

de que serei esquecido na terra...


É hoje o dia!

Tenho a esperança

de que tudo vai dar certo

toda vez que vem a lembrança

de que o momento está perto!


É hoje o dia!

Recebi a confirmação

de que não houve desistência,

o que faz meu coração

renovar sua resistência!


É hoje o dia!

É agora a hora!

Por isso, sem demora,

farei o que sempre quis:

apenas ser feliz.




Salvador, 26 de agosto de 2011.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Apoteose



 Tavares Bastos



Senhora, estes meus versos eram cheios

De tenebrosos, místicos pecados,

Porém já foram todos comungados

Com a hóstia santa dos teus níveos seios!



E assim por essa luz iluminados

Apagaram-se os tristes devaneios

Que os maculavam de cruéis anseios,

Brumando-os de negrores mascarados!...



E já que os leste, minha santa amada,

Rasga-os agora: quero estrangulada

Minh'alma ver em tuas mãos de neve!...


E então, que este prazer ainda eu goze,

Erguendo novamente uma ara leve



Para fazer-te nova Apoteose!...


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Poliamorismo







Rodolfo Pamplona Filho


Por que não se pode

amar mais de uma pessoa

ao mesmo tempo?

Por que o ato de amar

exige uma exclusividade artificial,

como se o coração pudesse

ser controlado como

um bicho de estimação?


Para alguém ser completo,

é possível que haja mais de uma peça

para formar um todo,

que não é um quebra-cabeça,

mas, sim, um complexo prisma,

cujas faces são complementares,

não havendo verdade ou mentira,

pois tudo dependerá do ângulo que se mira...


Eu quero amar você eternamente,

mas não quero deixar de amar ninguém...

Eu quero ficar com você o resto da vida,

mas isso não significa viver só a dois...

Meu amor não é uma cabine simples,

com apenas dois lugares:

é um mar com vários ecossistemas,

uma galáxia com diversas estrelas...


Eu não quero a clandestinidade

de viver um amor marginal...

Quero uma relação de maturidade

em que haja entrega total,

sem a ilusão da única cara metade,

vivendo o múltiplo afeto da vida real.


San Francisco, 28 de setembro de 2010.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Mate-nos de vez



 Negra Luz




Mata-me de vez!

Não a pequenos golpes.

Não a bateias de mercúrio.

Contamina de vez os meus rios!

Destrói todas as matas!


Mata-me de vez!

Não unha a unha.

Não a contrabandos em feiras.

Extingue todas as espécies!

Fauna! Flora! Tudo!


Mata-me de vez!

Não a cotidianas torturas.

Não a lixo no ar... no mar...

Derrete as geleiras de Norte a Sul!

Detona todas as bombas que criou!


Mata-me de vez!

Não a queimadas de pasto.

Não a indígenas desabrigados.

Faz-me letra morta!

Revoga todos os meus direitos em lei!



Mate-me assim...

De vez!

Eu, Meio Ambiente, peço.

Mas lembre-se:

Você não é as baratas!









segunda-feira, 20 de julho de 2026

Desanimado, Desequilibrado e Desconfiado


 


Rodolfo Pamplona Filho

 

Quer-se viver

uma convivência Dez

mas o que mais se tem

é um relacionamento Des:

Desanimado,

Desequilibrado,

Desconfiado…

 

E é assim:

Descontrolado

Desesperado

Desesperado

que se vai sobrevivendo…

 

Falta a base

para a construção

de uma real intimidade,

a vivência no giro do ciclo da vida

 

O valor dessa intimidade

tende a prevalecer

na medida em que o tempo passa

 

Pois tudo pesa

A confiança pesa

O sexo pesa

O social pesa

 

E não há o que fazer…

O que é somente de uma parte

não pode ser tratado por terceiros

 

Por mais que seja fiel

Por mais que seja amoroso

Por mais que seja receptivo

 

Por mais que seja animado,

equilibrado e confiável,

não se pode mudar

o que não depende

verdadeiramente de si.

 

Macapá, 21 de maio de 2026.

domingo, 19 de julho de 2026

Receita de poema




Antonio Carlos Secchin.




Um poema que desaparecesse

à medida que fosse nascendo,

e que dele nada então restasse

senão o silêncio de estar não sendo.


Que nele apenas ecoasse

o som do vazio mais pleno.

E depois que tudo matasse

morresse do próprio veneno.


sábado, 18 de julho de 2026

Herança Digital

 




Rodolfo Pamplona Filho

 

Nos cofres da nuvem, em byte e protocolo,

Armazena-se a vida em código e memória;

Metadados narram, em silêncio e sem dolo,

Fragmentos de afeto em cifra transitória.

 

Perfis persistentes, sob gestão contratual,

Entre termos de uso e cláusula restritiva,

Guardam traços do eu em domínio virtual,

Na arquitetura lógica de herança ativa.

 

Há chaves privadas, senhas, autenticação,

Criptografia assimétrica em cofre selado;

Sem o devido acesso ou legitimação,

O acervo digital resta inacessado.

 

Testamento eletrônico, diretiva antecipada,

Define a sucessão de ativos intangíveis;

Entre direito e ética, a fronteira é traçada

Por regimes jurídicos ainda sensíveis.

 

E assim, na interface entre morte e sistema,

Subsiste a presença em dado estruturado;

Na persistência algorítmica de um teorema,

O legado humano segue virtualizado.

 

Salvador, 04 de maio de 2026.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Off price





Que a sorte me livre do mercado

e que me deixe

continuar fazendo (sem o saber)

fora de esquema

meu poema

inesperado



e que eu possa

cada vez mais desaprender

de pensar o pensado

e assim poder

reinventar o certo pelo errado


Ferreira Gullar. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Licença Parental

 


Rodolfo Pamplona Filho

 

No labor suspenso, nasce um direito essencial,

Amparo jurídico à chegada da existência,

Entre afeto e norma, vínculo inicial,

Protege-se o cuidado com digna consistência.

 

Não só genitora, tampouco apenas genitor,

Mas quem assume o encargo da formação,

Partilha-se o tempo, fortalece-se o amor,

Sob guarida legal da corresponsabilização.

 

No berço se firma o primeiro laço social,

Com presença contínua, zelo estruturante,

Desenvolvimento pleno, substrato vital,

Num convívio próximo, terno, edificante.

 

Licença que transcende previsão normativa,

Traduz humanidade na ordem instituída,

Pois cada instante em convivência afetiva

Consolida direitos na aurora da vida.

 

Salvador, 05 de maio de 2026.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Nicanor e seu Cavalo





Poema de Carlos Nejar (1939-)



Nunca vi ninguém olhar

com tal ternura um cavalo

e um cavalo navegar

nos seus olhos, desviá-lo

para dentro, onde é mar

e o mar, apenas cavalo.

Nunca vi ninguém olhar

nicanor naqueles olhos

que pareciam findar

onde os espaços se foram.

Nicanor sabia olhar

sem o menor intervalo

como lhe fosse apanhar

a toda brida, os andares.

E se podiam falar

num trote pequeno ou largo,

com rédea de muito amparo,

o corpo estando a montar

a eternidade cavalo.




terça-feira, 14 de julho de 2026

Pessoa com Deficiência e Convenção de Nova York

 




Rodolfo Pamplona Filho

 

À luz da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, enfim se proclama

que a limitação não define o existir;

pois é na barreira hostil que se inflama

o peso cruel de impedir e excluir.

 

Não basta o diagnóstico frio e restrito,

nem laudo encerrado em linguagem severa;

há muros erguidos no espaço infinito

da mente que nega, despreza e impera.

 

Se a urbe não abre caminhos decentes,

se faltam acesso, respeito e guarida,

transformam-se corpos, outrora potentes,

em alvos da sombra social instituída.

 

Por isso, a inclusão não traduz caridade,

nem gesto piedoso de falsa emoção;

é norma fundada em justiça e igualdade,

é força de cidadania em ação.

 

E, assim cada voz, sem temor, se levanta,

reivindica presença, trabalho e valor;

pois toda pessoa, em essência, é santa

na livre grandeza de seu próprio labor.

 

Eunápolis, 11 de maio de 2026.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Mãe

 

 









Poema de Adriano Espínola,


in: Praia provisória, 2006








De terra a tua voz,


de terra os teus gestos,


de terra a tua bênção,


de terra a tua mágoa,


de terra os teus restos


agora enraizados:


árvore crescendo


às avessas - lá onde


tudo começa e finda:


no silêncio do sangue


que me dói ainda.





domingo, 12 de julho de 2026

Sobre Estímulos e Freios

 



Rodolfo Pamplona Filho

 

A liberdade de expressão

implica em assumir

as consequências do que se diz,

mesmo quando se fala coisas

sem saber do que está falando

 

O que se pretende

ser um estímulo

vira um freio abrupto

do desejo de viver

 

Desistir para não sofrer?

Esquecer para não chorar?

Nada disso traz paz…

Afinal, antes viver

a sensação de lutar

e ser derrotado

do que a de nem sequer tentar…

 

Marabá, 21 de maio de 2026.

sábado, 11 de julho de 2026

Soneto






Sânzio de Azevedo



Há muito tempo, muito tempo mesmo,

sentisse uma tristeza ou uma alegria,

brotavam-me da pena, às tontas, a esmo,

rastros de poema, cacos de poesia...

É claro que nem tudo que me vinha

com maior ou menor facilidade,

ao fim e ao cabo, na verdade tinha

a mesma altura, a mesma qualidade.

Mas escrevia. Hoje, bem mais distante

ficou aquilo que era minha meta.

Somente a inspiração rara e inconstante

é que me diz que ainda sou poeta.

Já nem sei bem o que daria agora

para escrever poemas como outrora.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Soneto da Justiça Criminal Defensiva

 




Rodolfo Pamplona Filho

 

Se o medo orienta o julgar prudente,

a balança inclina-se sem razão;

pune-se antes, de modo recorrente,

para evitar suposta omissão.

 

A pressão social, voz insistente,

influi por vezes na decisão;

e o juiz, temendo agir displicente,

afasta-se da justa direção.

 

Mas julgar exige firmeza e critério,

não se submete ao clamor etéreo,

nem ao receio de eventual falha,

 

pois o Direito, em seu magistério,

busca o equilíbrio sério e austero,

onde a Justiça jamais se embaralha.

 

Brasília, 03 de maio de 2026.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Fui Eu



 


Poema de Fernando Py (1935-2020)



Fui eu esse menino que me espia

– melancólico olhar, sereno rosto,

postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.



abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)





quarta-feira, 8 de julho de 2026

Soneto da Violência Espiritual

 




Rodolfo Pamplona Filho

 

Sob o véu sacro de elevada crença,

ergue-se, às vezes, oculta opressão;

verbo que fere, em tênue aparência,

cinge a alma em dor e submissão.

 

Invoca o medo com falsa prudência,

tolhe o pensar, subjuga a razão;

faz da esperança amarga dependência,

e enclausura o ser na frágil ilusão.

 

Mas fé legítima não aprisiona,

nem se alimenta de culpa ou temor;

antes liberta e ao bem se inclina,

 

pois luz autêntica jamais abandona,

conduz à vida com justo fervor

e, em liberdade, a essência ilumina.

 

Brasília, 03 de maio de 2026.

terça-feira, 7 de julho de 2026

O fim e a glória





Rogério Medeiros



Fim de mandato.

Não foi fácil

Presidir um tribunal eleitoral.



Muitas aflições.

Pandemia do coronavírus,

A pior delas.



Problemas internos,

Pressões externas.

O poder é sempre solitário.



Decidir, eis o desafio.

Coragem e integridade,

Sempre.



Já dizia Einstein:

Uma hora namorando,

Parece um minuto;

Um minuto,

Sentado sobre um formigueiro,

Parece uma hora...



Fiquei durante um ano

Sentado sobre um formigueiro.

Pareceu-me uma eternidade.



Fiz o que pude e

Creio que fiz bem.

Não fui perfeito, ninguém é.



Agora, recordo Tom Jobim e

Vou viver a derradeira glória do ser humano:

Andar nas ruas,

Como um ilustre desconhecido.





segunda-feira, 6 de julho de 2026

Soneto do Cão Guia



 Rodolfo Pamplona Filho



Em ruas densas de rumor e movimento,


surge o fiel condutor da travessia;


guiando passos com sereno alento,


converte sombra hostil em harmonia.


 


Percebe o risco oculto ao caminhar,


desvia abismos, grades, multidão;


ensina o mundo inteiro a enxergar


que há dignidade em cada direção.


 


Não é somente auxílio em locomoção,


mas liberdade viva e verdadeira;


é ponte erguida contra a exclusão.


 


Seu trote firme rompe a fronteira


que separava acesso e condição,


convertendo a companhia em inclusão.


 


Salvador, 09 de maio de 2026.

domingo, 5 de julho de 2026

Seja e esteja Feliz!






Paulo Basílio - 01/08/2020






Hoje, quero mais é ser,


Ser humano,


Ser pessoa.


Importar menos com coisa.






Cansado que querer


Ter e continuar a manter


Mesmo que só na aparência,


Tranquilidade na sobrevivência.






Ser e estar.


Não tem melhor solução.


Ser feliz e estar contente.






Ter isto na mente


E no nosso coração.


Sempre seja e esteja.









sábado, 4 de julho de 2026

Desanimado, Desequilibrado e Desconfiado


 




Rodolfo Pamplona Filho



Quer-se viver


uma convivência Dez


mas o que mais se tem


é um relacionamento Des:


Desanimado,


Desequilibrado,


Desconfiado…


 


E é assim:


Descontrolado


Desesperado


Desesperado


que se vai sobrevivendo…


 


Falta a base


para a construção


de uma real intimidade,


a vivência no giro do ciclo da vida


 


O valor dessa intimidade


tende a prevalecer


na medida em que o tempo passa


 


Pois tudo pesa


A confiança pesa


O sexo pesa


O social pesa


 


E não há o que fazer…


O que é somente de uma parte


não pode ser tratado por terceiros


 


Por mais que seja fiel


Por mais que seja amoroso


Por mais que seja receptivo


 


Por mais que seja animado,


equilibrado e confiável,


não se pode mudar


o que não depende


verdadeiramente de si.


 


Macapá, 21 de maio de 2026.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O que me atrai





 (Negra Luz)






Olhos... que não me acuam em padrões, 


Que me enxergam inteira,


Que me desnudam vestida.


Viril!








Boca... que não deprecia ninguém,


Que dialoga com paz,


Que beija como vento.


Lindo!








Mãos... que não violentam,


Que trabalham e buscam sonhos,


Que abraçam me acolhendo.


Gostoso!








Ombros... que não me oprimem,


Que estejam ao lado,


Que estejam disponíveis pertinho de mim.


Safado!








Peitos... que não inflem, subjugando-me,


Que compartilhem suas vitórias,


Que construam comigo as trilhas de si.


Muralha!








Barriga... que não se esqueça o que é vida,


Que não conte as minhas estrias,


Que entenda as entrelinhas em mim.


Sedutor!








Falo... que não ande por aí desprotegido,


Que quando esteja comigo,


Que seja entrega de dois.


Voraz!








Bumbum... que não sente e espere,


Que não me pare, nem me acelere,


Que deixe no meu ritmo seguir.


Sagaz!








Pernas... que não chutem-se o balde, me esquecendo,


Que sejam fortes e parceiras,


Que ergam corpo e sonhos.


Perspicaz!








Pés... que não se percam em qualquer vento,


Que sigam suas próprias rotas,


Que também confluam para mim,


Próspero.








Esse é o homem que eu desejo inteiro,


Que, inteira, miro os seus beijos,


Que quero na vida, na cama,


Ao lado de mim!






quinta-feira, 2 de julho de 2026

Soneto sobre a Lei Maria da Penha

 


Rodolfo Pamplona Filho



Do brado outrora imerso em mudez,


ergue-se norma firme a proteger;


rompe-se o ciclo vil de insensatez


e se afirma o direito de viver.


 


Não só a força bruta em sua vez,


mas toda forma que possa ofender


encontra na lei pronta altivez,


para coibir, punir e conter.


 


Medidas céleres trazem proteção


e impõem ao agressor limitação,


em defesa da vítima atingida.


 


Mas garantir real transformação


exige ação além da previsão,


com justiça concreta e efetiva.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.