sexta-feira, 7 de agosto de 2015

CICLO



Constrito nesta cela provisória
A vagar pelo ciclo do destino
Pressinto desde os tempos de menino
A falta de sentido para a história.

Das câmaras sombrias da memória
Ressuscitam lembranças que abomino
Desse ciclo macabro que defino
Como a prisão de toda luta inglória

Que o homem, a cismar por este espaço,
Teima em lutar, imaginando que
Conseguirá fugir ao seu fracasso.

O fim da história é sempre abominável
Mas todo homem finge que não o vê
Ignorando seu ciclo miserável.

No ar, 12 de julho de 2011

Alexandre Roque

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Luto e Luta

Rodolfo Pamplona Filho



Luto ferozmente
contra a melancolia,
o vazio, o medo
de não ter você...

Luto diuturnamente
para não entristecer,
pra seguir vivendo
de cabeça erguida.

Luto tenazmente
para a maldita culpa
e a terrível solidão
não me consumirem.

Luto pela luta
Luto sem luto
Luto por tudo
Luto por você...

Salvador, 23 de janeiro de 2014

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ser sempre chique

Nunca o termo "chique" foi tão usado para qualificar pessoas como nos dias de hoje.

A verdade é que ninguém é chique por decreto. E algumas boas coisas da vida, infelizmente, não estão à venda. Elegância é uma delas.

Assim, para ser chique é preciso muito mais que um guarda-roupa ou closet recheado de grifes famosas e importadas. Muito mais que um belo carro Italiano.

O que faz uma pessoa chique, não é o que essa pessoa tem, mas a forma como ela se comporta perante a vida.

Chique mesmo é ser discreto.

Quem não procura chamar atenção com suas risadas muito altas, nem por seus imensos decotes e nem precisa contar vantagens, mesmo quando estas são verdadeiras.

Chique é atrair, mesmo sem querer, todos os olhares, porque se tem brilho próprio.

Chique mesmo é ser discreto, não fazer perguntas ou insinuaçõe inoportunas, nem procurar saber o que não é da sua conta.

É evitar se deixar levar pela mania nacional de jogar lixo na rua.

Chique mesmo é dar bom dia ao porteiro do seu prédio e às pessoas que estão no elevador.
É lembrar-se do aniversário dos amigos.

Chique mesmo é não se exceder jamais!
Nem na bebida, nem na comida, nem na maneira de se vestir.

Chique mesmo é olhar nos olhos do seu interlocutor.

É "desligar o radar", "o telefone", quando estiver sentado à mesa do restaurante, prestar verdadeira atenção a sua companhia.

Chique mesmo é honrar a sua palavra, ser grato a quem o ajuda, correto com quem você se relaciona e honesto nos seus negócios.

Chique mesmo é não fazer a menor questão de aparecer, ainda que você seja o homenageado da noite!

Chique do chique é não se iludir com "trocentas" plásticas do físico... quando se pretende corrigir o caráter: não há plástica que salve grosseria, incompetência, mentira, fraude, agressão,
intolerância, ateísmo...falsidade.

Mas, para ser chique, chique mesmo, você tem, antes de tudo, de se lembrar sempre de o quão breve é a vida e de que, ao final e ao cabo, vamos todos terminar da mesma maneira, mortos sem levar nada material deste mundo.


Portanto, não gaste sua energia com o que não tem valor, não desperdice as pessoas interessantes com quem se encontrar e não aceite, em hipótese alguma, fazer qualquer coisa que não lhe faça bem, que não seja correta.

Lembre-se: o diabo parece chique, mas o inferno não tem qualquer glamour!

Porque, no final das contas, chique mesmo é Crer em Deus!

Investir em conhecimento pode nos tornar sábios... mas, Amor e Fé nos tornam humanos!

GLÓRIA KALLIL

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Perdão



Rodolfo Pamplona Filho

O Perdão
começa
em um único lugar:
a pessoa que você vê
no espelho...

Salvador, 19/03/2014

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Doação do seu eu

Doação do seu eu
Rodolfo Pamplona Filho



É preciso aprender
a doar não somente
o que se tem,
mas, principalmente,
o que se é...
Dar de si
sem pensar em si...
Quem não vive para servir
não serve para viver...
Quem não entrega
seu próprio eu
não sabe o motivo
pelo qual viveu...

Salvador, 16 de janeiro de 2014, pensando...

domingo, 2 de agosto de 2015

Da arte de engolir sapos



Certa vez, a imprensa toda noticiou, Fernando Henrique declarou que a política é a arte de engolir sapos. E isso é verdade, na medida em que os políticos, quando estão com raiva, dissimulam, dissimulam, e ninguém pode saber se, quando brigam entre si, estão, na verdade, brigando, ou apenas para brasileiro ver.

Mas a vida também exige a prática de engolir sapos. E algumas profissões mais do que as outras. Tirando os políticos, cuja vida é diversa da nossa, pobres mortais, todos, em maior ou menor grau, uma hora tem que dar a mão à palmatória e deixar de responder a algumas provocações, seja de quem for.

Os juízes, na audiência, devem ter uma paciência de Jó. Com advogados, com partes, com serventuários, com imprensa que, muitas vezes teima em aparecer, quando o caso é interessante, ou, melhor dizendo, rumoroso, e acha que pode fazer o que quiser porque é a imprensa: de repórteres, todos devem beijar a mão. E com as testemunhas mentirosas, então? Dessas nem é bom falar. Paciência de Jó é pouco.





Advogados precisam ter paciência de Jó com juízes irascíveis, que são muitos. Andam estressados com o trabalho extenuante e por qualquer manifestação menos inteligente do advogado – ninguém é inteligente em todos os minutos da vida – e já se irritam, tratam mal os clientes e lá se vai a paz da audiência. E quando o advogado é mais inteligente e mais erudito do que o juiz, então? É uma tragédia. Qual juiz admite que o advogado sabe mais do que ele? Lembro-me bem do que dizia Rodrigues Pinto, em suas aulas de Direito Processual do Trabalho na UFBA: o advogado deve saber mais do que o juiz, porque se o juiz errar, o advogado conserta, mas se o advogado errar, adeus, o cliente está perdido.

Mas eu sou o juiz! Bate no peito o prepotente!

Mães precisam ter paciência com os filhos e o marido. Interessante que das mães sempre se exige mais do que dos pais. Mesmo que a mãe tenha um trabalho difícil, cansativo, o cansaço do pai é sempre mais respeitado do que o da mãe. Ser mãe é sofrer no paraíso?

E os telefonemas das revistas, dos cartões de crédito, dos operadores de telemarketing? A senhora já foi assinante da Revista XPTO, não foi? Por que não é mais? E por que não quer? É? Mas não quer por que, minha senhora? Mas a revista tem uma promoção... Mesmo assim não quer? Por quê? Haja paciência.

Agora vêm os tais torpedos das operadoras de telefonia. A cada minuto, o celular dá a notícia de que há um torpedo. Você vai ver se é algum amigo, alguém da família ou colega, mas qual, é a operadora, oferecendo prêmios e mais prêmios pra você aderir a não sei mais quê. Penso que não fiquei rica ainda por não ter paciência com esse tipo de coisa.

Acho que eu não tenho a arte de engolir sapos. Nunca serviria para a política. Dissimulação passa longe de minhas pretensões. Tenho muita paciência com muita coisa, na audiência, então, no Tribunal da mesma forma, sempre fui um poço de compreensão, sem nenhuma dissimulação, mas engolir sapos, nunca. Adoeço. E, pior é que, quando não tenho paciência e respondo à mesma altura, sinto-me culpada. Adoeço também.

Os sapos que ando engolindo ultimamente, sem qualquer arte, fazem-me mal ao estômago. Esse é que é o problema. Eles descem e ficam a chacoalhar, ou coaxar, não sei, fazendo uma confusão dos infernos e meu estômago começa a doer, fogo puro,  minha boca é um estrago só, de aftas, minha língua fica dormente e assim vai.
É sapo de todos os lados. Todos andam estressados. Os engolidores de sapos são os que mais sofrem, se não são políticos. Esses, já se sabe, têm a arte. Não se irritam, atuam em qualquer área. Mas nós não somos os artistas da estirpe. E sofremos com esse mundo maluco.

O pior de tudo é que sou um caso perdido.  Não quero aprender essa arte. Prefiro queimações no estômago, língua ardendo e garganta em brasa. Minha prepotência, nesse aspecto, é irritante, e já se incorporou ao meu quotidiano e não há quem dê jeito. Não posso me conformar em ser saco de pancada. Mas tenho o interesse, o grande interesse, em deixar a pessoa falando sozinha: é minha vingança com os estressadinhos e desaforados. Urro de burro não chega ao céu, diria minha mãe. Por isso, calo-me, esperando que o desaforado fique sem graça e pare com a cantilena. Vingo, calando-me, mas sofro, como se tivesse despejado uma série de impropérios no interlocutor.
Não tenho, pois, a arte de engolir sapos.
Vou morrer assim. E ponto final.

Maria Francisca – março/2009.