quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Pré-história




Murilo Mendes



Mamãe vestida de rendas

Tocava piano no caos.

Uma noite abriu as asas

Cansada de tanto som,

Equilibrou-se no azul,

De tonta não mais olhou

Para mim, para ninguém!

Cai no álbum de retratos.

 


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Sozinho na Multidão




Rodolfo Pamplona Filho


A pior solidão é

ficar sozinho na multidão,

esperando em pé

um pouco de atenção

de quem compartilha a fé

ou a promessa do coração.


Não sei se é trágico

ou simplesmente irônico,

mas é quase mágico,

diria icônico,

quando sua presença é reclamada,

mas, na verdade, ignorada...


Um dia, eu gritarei

e ouça quem quiser.

Direi tudo que sei

sobre a tristeza que vier:

não há dor maior ou lama

que ser ignorado por quem se ama.


Salvador, 06 de outubro de 2010.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Canção do Exílio

 



Murilo Mendes


Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

 

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!



In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Nudez



Rodolfo Pamplona Filho


Sabe o que descobri?

Você é o único que

consegue me enxergar...

O amor verdadeiro remove as

membranas que fecham os olhos

e apenas você...

consegue me ver nua...

e que nada mais pode me quebrar...


E me viu nua...

sem tirar uma peça sequer de roupa...

E me viu nua...

sem expor parte alguma de meu corpo...

E me viu nua...

no dia em que olhou em meus olhos...

e viu além de qualquer casca...

E me viu nua...

no dia em que conheceu minha alma

e soube exatamente quem eu era...

e permiti tão íntima ligação

por não carecer de resistência...

por não precisar mais me esconder...

por acreditar em nós...


E eu descubro em você

o que pensei

somente existir em sonhos...

mas sonhos somente são possíveis

se estamos vivos...

sonhos somente existem

se há vida e desejo...

sonhos somente se realizam

na nudez da alma...


São Paulo, 07 de outubro de 2010.

domingo, 26 de novembro de 2023

4o. Motivo da rosa

 



Cecília Meireles



Não te aflijas com a pétala que voa:

também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verá, só de cinzas franzida,

mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos

ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,

por desfolhar-me é que não tenho fim.

sábado, 25 de novembro de 2023

Medo dos Homens Justos

 




Rodolfo Pamplona Filho


O melhor mármore não faz

a mais bela estátua,

se for lapidado

por um escultor medíocre.


As melhores intenções

não se tornam boas obras,

se feitas sem provas,

mas só com convicções.


Quem ponderará

contra a truculência palpável

dos que se acham justos?


Quem nos salvará

do fascismo inevitável

dos homens bons?



12 de outubro de 2016, no voo para São Paulo.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

 



Cecília Meireles



No desequilíbrio dos mares,

as proas giram sozinhas...

Numa das naves que afundaram

é que certamente tu vinhas.


Eu te esperei todos os séculos

sem desespero e sem desgosto,

e morri de infinitas mortes

guardando sempre o mesmo rosto


Quando as ondas te carregaram

meu olhos, entre águas e areias,

cegaram como os das estátuas,

a tudo quanto existe alheias.


Minhas mãos pararam sobre o ar

e endureceram junto ao vento,

e perderam a cor que tinham

e a lembrança do movimento.


E o sorriso que eu te levava

desprendeu-se e caiu de mim:

e só talvez ele ainda viva

dentro destas águas sem fim.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Bênçãos e Maldições

 


 Rodolfo Pamplona Filho


Nem tudo permanece...

Na verdade, tudo muda

nem sempre para melhor!

Assim, o que é criado para libertar 

pode ser usado para escravizar.

Quando se esquece 

o sentido de cada ato,

todo importante ritual

apenas massifica 

o que devia ser individual...

Quando não se particulariza,

todos se tornam 

rostos sem nome 

e sem história,

invisibilizando 

em vez de simplesmente ver,

compactua-se

com a coadjuvância,

em vez de tornar protagonista...

Com isso, impessoaliza-se,

reiifica-se, coisifica-se,

mas nunca se envolve.

Sem saber, 

ver ou tocar,

o toque

não há como

não se degenerar...

pois até Bençãos 

podem se transformar

em Maldições


Salvador, 13 de maio de 2018.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Murmúrio

 



Cecília Meireles



Traze-me um pouco das sombras serenas

que as nuvens transportam por cima do dia!

Um pouco de sombra, apenas,

- vê que nem te peço alegria.



Traze-me um pouco da alvura dos luares

que a noite sustenta no teu coração!

A alvura, apenas, dos ares:

- vê que nem te peço ilusão.



Traze-me um pouco da tua lembrança,

aroma perdido, saudade da flor!

- Vê que nem te digo - esperança!

- Vê que nem sequer sonho - amor!

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Afinidade

 


 

Rodolfo Pamplona Filho


Afinidade é uma palavra que define

o sentimento de proximidade

entre quem nem sequer se conhece direito,

mas tem a sensação de que, no peito,

já acolheu quem recebeu,

abraçou quem se perdeu

e revelou seu verdadeiro eu.


 


Salvador, 22 de outubro de 2023, papeando com Chico Gomes

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Sou Negro

 



Solano Trindade



Sou negro

meus avós foram queimados

pelo sol da África

minh`alma recebeu o batismo dos tambores

atabaques, gongôs e agogôs


Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda

como mercadoria de baixo preço

plantaram cana pro senhor de engenho novo

e fundaram o primeiro Maracatu

Depois meu avô brigou como um danado

nas terras de Zumbi

Era valente como quê

Na capoeira ou na faca

escreveu não leu

o pau comeu

Não foi um pai João

humilde e manso


Mesmo vovó

não foi de brincadeira

Na guerra dos Malês

ela se destacou

Na minh`alma ficou

o samba

o batuque

o bamboleio

e o desejo de libertação

domingo, 19 de novembro de 2023

Boas-Vindas




 Boas-Vindas


 de Rodolfo Pamplona Filho


 


Mi casa, Su Casa

Minha casa é sua casa

Este é um espaço

para sair do quadrado!

Deixe do lado de fora

tudo que é pesado

Levante a cabeça

Abra um sorriso

Esqueça o juízo

e seja feliz!


 Sente-se à mesa

Sirva-se de uma taça

Repita a sobremesa

Mostre a sua raça

Divida o prato com alguém


Pense adiante (e além!)

Brinde a vida com alegria

Não deixe para outro dia

Aqui é o lugar da felicidade

para ser quem se é de verdade

O momento é agora

e o caminho é para frente!

 


Salvador, hoje e sempre!

sábado, 18 de novembro de 2023

Retrato


 



Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.



Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.



Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Julgando…




Rodolfo Pamplona Filho 


Quem julga quem julga

não sabe julgar

a solidão de quem reflete

sobre o que compromete

o fato do passado,

o reflexo no presente

e a potencialidade para o futuro.


Se não houver razão, morreria de inanição,

Se não houver poesia, enlouqueceria

Se não houver tensão, não haveria tesão

Se não houver paz, seria caro demais…


Conhecer a vida

Compreender as razões

Determinar destinos

é tarefa que exige responsabilidade,

mas decidir de verdade

importa na consciência

de nunca saber a essência

do que ocorreu na realidade.


 


Salvador, 22 de outubro de 2023, papeando com Chico Gomes.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Balada das dez bailarinas do cassino

 



Cecília Meireles



 


Dez bailarinas deslizam

por um chão de espelho.

Têm corpos egípcios com placas douradas,

pálpebras azuis e dedos vermelhos.

Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,

e dobram amarelos joelhos.



Andam as dez bailarinas

sem voz, em redor das mesas.

Há mãos sobre facas, dentes sobre flores

e com os charutos toldam as luzes acesas.

Entre a música e a dança escorre

uma sedosa escada de vileza.



As dez bailarinas avançam

como gafanhotos perdidos.

Avançam, recuam, na sala compacta,

empurrando olhares e arranhando o ruído.

Tão nuas se sentem que já vão cobertas

de imaginários, chorosos vestidos.



A dez bailarinas escondem

nos cílios verdes as pupilas.

Em seus quadris fosforescentes,

passa uma faixa de morte tranqüila.

Como quem leva para a terra um filho morto,

levam seu próprio corpo, que baila e cintila.



Os homens gordos olham com um tédio enorme

as dez bailarinas tão frias.

Pobres serpentes sem luxúria,

que são crianças, durante o dia.

Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,

embalsamados de melancolia.



Vão perpassando como dez múmias,

as bailarinas fatigadas.

Ramo de nardos inclinando flores

azuis, brancas, verdes, douradas.

Dez mães chorariam, se vissem

as bailarinas de mãos dadas.

 


(in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.)


quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Primeiro Contato





Rodolfo Pamplona Filho


A primeira vez

O primeiro olhar

A primeira palavra

A primeira conversa

O primeiro encantamento

O primeiro dia

do resto de nossas vidas...




Gramado, 18 de outubro de 2012, descobrindo uma nova amizade.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados

 



Álvaro de Campos


 

Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados 

O esplendor do sentido nenhum da vida... 

Toquem num arraial a marcha fúnebre minha! 

Quero cessar sem conseqüências... 

Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.


segunda-feira, 13 de novembro de 2023

domingo, 12 de novembro de 2023

Depus a Máscara

 



Álvaro de Campos

 


 

 

    Depus a máscara e vi-me ao espelho. — 

    Era a criança de há quantos anos. 

    Não tinha mudado nada... 

    É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 

    É-se sempre a criança, 

    O passado que foi 

    A criança. 

    Depus a máscara, e tornei a pô-la. 

    Assim é melhor, 

    Assim sem a máscara. 

    E volto à personalidade como a um términus de linha.

sábado, 11 de novembro de 2023

Sonhos Mudam



 

Rodolfo Pamplona Filho


Sonhos Mudam

de verdade

Sonhos Mudam

com a idade

Sonhos Mudam

na realidade

Sonhos Mudam

para a eternidade 



Rhodes, 26 de setembro de 2012.