terça-feira, 10 de junho de 2014

O Plantonista


O Plantonista

Devemos fazer pelos outros o que gostaríamos que fizessem por nós

Por Jeane Vidal

Era uma noite comum no hospital.
O dr. Raul havia acabado de chegar para dar o seu plantão.
No corredor, alguns pacientes aguardavam atendimento. Ninguém em estado grave. Nenhuma emergência. Graças a Deus, tudo parecia tranquilo.
Médico ortopedista, o dr. Raul é um daqueles médicos admirados por todos e muito procurado. Gentil, prestativo, solidário e extremamente profissional.
Embora atenda a maior parte do seu tempo em um hospital particular, ele não abre mão de dar plantão todas às sextas-feiras no hospital municipal, pois sabe da carência de profissionais na rede pública, e por isso faz questão de dar sua contribuição.
Escolheu a medicina por vocação. Tem verdadeira paixão pela vida humana. O seu maior prazer é zelar por ela.
Estava atendendo o quinto paciente da noite quando ouviu uma movimentação estranha na recepção. Ao sair da sala se deparou com vários enfermeiros correndo de um lado para outro, atônitos.
Ainda sem entender o que estava acontecendo, aproximou-se de um deles e perguntou: "Porque esse alvoroço todo?"
O enfermeiro - tomando fôlego - respondeu: "Houve um acidente grave aqui nas proximidades e as vítimas estão sendo trazidas para cá, mas nós não temos estrutura para recebê-las. Não há leitos suficientes para todos. Recebemos a informação de que são aproximadamente dez pessoas - a maioria em estado grave -, e temos apenas seis leitos disponíveis."
Percebendo a seriedade da situação, o dr. Raul decidiu agir rápido.  Era preciso tomar algumas providências para que essas vítimas pudessem ser atendidas em tempo. Qualquer demora podia significar a perda de uma vida, ou de várias.
As ambulâncias começaram a chegar. Uma. Depois outra e mais outra. Na primeira, uma criança de apenas 5 anos com fratura exposta no braço direito. Os pais também gravemente feridos.
Na segunda, quatro jovens, três deles menores de idade.  O quarto, em estado ainda mais grave, não portava documentos, e por isso não pôde ser identificado. Segundo informações dos policiais que atenderam a ocorrência, o veículo em que eles estavam foi o que provocara o acidente. Estavam em alta velocidade e ultrapassaram o farol vermelho, se chocando com uma Van que levava seis passageiros.
A terceira ambulância trazia mais três vítimas, essas, entretanto, com ferimentos leves. Foram atendidas, medicadas e pouco tempo depois receberam alta.
Das sete pessoas gravemente feridas, felizmente, seis puderam ser atendidas e direcionadas para a UTI.
Mais ainda faltava o quarto jovem. Preocupado, o dr. Raul resolveu contatar alguns hospitais. Não havia vagas.
De repente, um fio de esperança. Veio à sua memória um amigo de faculdade que havia montado uma clínica particular e que dispunha de uma UTI com equipamentos de última geração. Era um médico bem-sucedido, também ortopedista, muito conceituado. Contudo, o perfil de seus pacientes era bem diferente dos que o dr. Raul costumava receber em seu plantão - pessoas de baixa renda, que não tinham condições de pagar por um bom convênio e menos ainda por uma consulta particular. Enquanto o seu colega tinha como pacientes pessoas de alto poder aquisitivo, que não se importavam - e tinham condições - de pagar 500 reais por uma consulta.
Mas era uma emergência e ele não ia se negar a prestar socorro, pensou. Além disso, acima de questões financeiras e pessoais está o compromisso com a vida humana.
Quando o dr. Sandro atendeu ao telefone, o dr. Raul foi direto ao assunto: "Temos uma emergência aqui no hospital e não temos estrutura para atender a todos. Preciso que você receba na sua clínica um jovem gravemente ferido em um acidente de trânsito, pois não temos mais leitos."
"E quem irá se responsabilizar pelas despesas?" Foi a primeira pergunta do dr. Sandro.  "Não temos tempo para resolver isso agora, o rapaz precisa de socorro imediato, o tempo está passando e a cada minuto diminuem suas chances de sobrevivência", enfatizou o dr. Raul.
Irredutível, o médico continuou: "Só recebo em minha clínica se alguém se responsabilizar pelas despesas. Minha clínica não é uma entidade filantrópica", ironizou.
Não vendo alternativa e pensando na integridade física do jovem e no seu compromisso com a vida, se comprometeu a arcar com as despesas caso a família da vítima - ainda não identificada - não tivesse condições de pagar.
Como ele ia pagar, ainda não sabia. O que ele sabia era que faria o que estivesse ao seu alcance para salvar uma vida, ainda que de um desconhecido.
Pensou nos pais daquele jovem, que nem imaginavam que o filho, naquele momento, estava agonizando no corredor de um hospital, aguardando atendimento e com a vida por um fio. Pensou no filho. Aquele rapaz devia ter a mesma idade dele. E se fosse ele no lugar daquele rapaz?  Não, ele não podia ficar indiferente. Ia fazer por aquele rapaz o que ele gostaria que fizessem pelo filho dele.
Já na ambulância, sentado ao lado do jovem inconsciente, o dr. Raul pensava na frieza do dr. Sandro. Infelizmente, ele era o retrato da sociedade moderna - que supervaloriza o dinheiro e o poder em detrimento da vida.
Na Clínica, o dr. Sandro aguardava juntamente com sua equipe para atender o rapaz.  A UTI já estava preparada para recebê-lo.
Chega a ambulância trazendo o jovem. Começa a corrida pela vida.  Já na sala de cirurgia, o paciente é preparado para passar por um procedimento cirúrgico. 
Os dois médicos se cumprimentam e seguem lado a lado para a sala de cirurgia, onde o rapaz será assistido.
Ao abrir a porta e se deparar com aquele rapaz, o dr. Sandro fica paralisado. Não podia ser. Aquilo só podia ser uma brincadeira. Mas não era. O coração fica apertado e a consciência o acusa. Ali, diante dos seus olhos, estava o seu único filho. Não conseguindo conter as lágrimas, retirou-se da sala.
Vendo que o colega não tinha condições de conduzir a cirurgia - nem é recomendado em situações como essa -, o dr. Raul assumiu a equipe médica e deu início ao procedimento.
Enquanto isso, do lado de fora, o dr. Sandro, introspectivo, reavaliava os seus valores e sua conduta. O que poderia ter acontecido com seu filho se o dr. Raul não tivesse assumido a responsabilidade pelas despesas da clínica para convencê-lo a prestar socorro ao seu próprio filho? Como pôde ser tão mesquinho? Não fosse a compaixão e amor ao próximo do colega - que ao contrário dele priorizou a vida de um desconhecido -, seu filho não sobreviveria.
Sentia-se envergonhado.
Permaneceu ali sentado por horas, esperando o término da cirurgia, até que, finalmente, o dr. Raul saiu da sala e informou que a cirurgia fora um sucesso. O rapaz estava fora de perigo.
Aliviado, o pai do jovem abraçou o amigo, agradeceu e lhe pediu perdão pela sua má postura, como profissional da medicina e como ser humano.
E comunicou a sua decisão: a partir daquele dia também daria plantão naquele mesmo hospital público para onde o filho havia sido levado. E, a exemplo do amigo, não mediria esforços para salvar uma vida.
Havia aprendido a lição.

"Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas." (Mt. 7:12).

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Vida Morna


Vida Morna

Rodolfo Pamplona Filho
Nem quente, nem frio...
Apenas morno...
Sem novas sensações
ou quaisquer emoções...
Em que um presente
de aniversario
é difícil demais de ser concedido,
mesmo que seja apenas
alguns momentos de seu tempo...
Mas nada disso importa...
É tudo sensibilidade exacerbada
como se bater à porta
fosse fazer nada...
E a vida segue igual...


São Paulo, 23 de junho de 2013.

domingo, 8 de junho de 2014

A Pausa de Clara.
                                                                                        Eu sou a pausa entre duas notas....
                                                                                                              Rainer Maria Rilke

          Quão bela é Bollenstreeck, coberta por tapeçarias de vivas flores   trançadas entre Leiden e Haarlen. Toda região, encantadora, abre-se para o espanto de estar vivo. Lírios, jacintos, íris, dálias, narcisos, orquídeas. As grandiosas plantações de tulipas são um espetáculo à parte. Soberanas, emolduram  os campos com um fulgurante colorido. As tonalidades  se alteram conforme a luz  cintila .
       A primavera é a primavera . E dela emerge uma beleza que predispõe o amor.
       Delicia-me despertar mais tarde  entre cobertas macias. Carícias derramadas.            O amor iluminado  por amanheceres prateados.
      Entardecer acetinado. A flor. A seiva.  A fonte. Deito-me na relva umedecida.   Caminho à beira dos antigos canais de Leiden. Os raios oblíquos do sol poente a refletir nas águas. As pedras seculares  de onde Rembrandt nasceu. A praça ornada pelas copas das árvores.  Esses dias possuem uma delicada  harmonia .  Brisa envolvente sussurrando canções .  Pausa entre as notas. Doce e indolente.
       A tarde se encerra a esperar o  aclarado, luzes das cidades.
      Uma voz me leva  à   libertação.  Conservo-me  ausente do outrora invasivo. Faces mascaradas. Todas aos pedestais. Fantasmas imersos em impérios   acinzentados. A deterioração  das criaturas, aos servos, não causa vergonha. Sendo os servos, bem distintos, dos só pobres serviçais. Soberba teatral. Personagens em  meios às plumas. Estardalham. Submissos a bajular, regalias.  Encenação vulgar. Aplausos. Vitoriosa hipocrisia. Tal loucura dos fantoches!   Cada um se encarregando de  sugar o outro. Rivalidades: pequenas falhas, venenos mortais. Não há vícios entre os apaniguados  que não encontram  silêncios complacentes. Um frio penetrante escorre pelas vísceras  desses.  Lobos se enredam no torpe cenário  de poder, no torpe cenário de glória. Farejam  o fresco sangue. Áspides sombrias.                  
       Eu sinto um deleite secreto, fruído às escondidas, ao  escapar das escadarias.  Crivadas  de pedras. Roubadas dos templos.     
    Consinto  que lamentem o meu destino banal , não  descubram o meu prazer, inundado de mim.
     Na procura por ternura pura, o azul profundo de tantos oceanos , o verde das trilhas  sinuosas entre íngremes penhascos, o branco nas geleiras esculpidas,  o rubro fulgurante dos roseirais, as  luzes, as sombras, a água límpida que lampeja nos lodaçais, em meus dias.
    Mesmo que procurassem, não encontrariam a vida que transborda pelos poros. Não saberiam decifrar os sinais dessa linguagem tão íntima. Não sentiriam o assombro das flamas nas velas instáveis.  A alegria do homem  que  lavra a terra   sem ser servil.   
   Tão afastada  estou desses  corpos sáfaros por veias ressecadas. As cores desabrocham em meu ser como os bulbos das tulipas.  Mantenho janelas e portas abertas aos mares, às montanhas desalinhadas, aos céus e às suas variantes solares- enevoadas-estreladas.
   O murmúrio das melodias queridas  aquece  o coração. A chuva escorrendo pelos telhados. O sibilo do  vento. O tilintar das taças. O badalar dos sinos. O cântico dos pássaros. Os feixes de lenha que tremulam. A sinfonia dos corpos amantes.
     A contemplação das coisas ao redor  aviva  a alma.  A bandeja de prata. A chaleira de porcelana. A toalha de renda.  Os jarros flóreos. Os retratos nos aparadores de nogueira. Os livros espalhados pelos cantos e recantos. O rubi do vinho na mesa posta para o jantar.    
     Os aromas  enraízam  na  memória. O pão e o vinho.  A terra banhada.  O solo adubado. A fragrância dos jasmins e das lavandas. O odor único  do homem amado.
     Recosto-me ao tronco das cerejeiras em flor. Devaneio observando a dança das pétalas onduladas  ao vento.  O espanto da pausa conduz ao voo esperado.
    Existe um tempo de pausa onde não fazer coisa alguma confere  o sentido de plenitude.

  Cláudia Reina

  15 de Junho de 2013.

sábado, 7 de junho de 2014

Idioma Materno

Idioma Materno

Rodolfo Pamplona Filho
Quero sugar o leite do seio
e beijar o lindo umbigo
do idioma materno...
Idioma terno,
Idioma eterno,
que penetra suavemente
no reino das palavras,
invadindo as brechas
e sentindo a língua
que roça delicadamente
o mais sensível
órgão do corpo:
o cérebro...


São Paulo, 23 de junho de 2013, no Museu da Língua Portuguesa...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Analfabeto Político

O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o obtuso que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado e, o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais".

Bertolt Brecht

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Cadáver Vivo

Cadáver Vivo

Rodolfo Pamplona Filho
Acordar, comer
Banhar-se, vestir
Trabalhar, beber
Deslocar-se, dormir
Não saber o que mais fazer?
Quem sabe, talvez, viver?
Ver que um dia passa
sem, de nada, achar graça
é finalmente perguntar:
será que morri e
me esqueceram de enterrar?


Salvador, 13 de junho de 2013, após uma sessão de analise junguiana.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Estou ficando tortamente endireitada

De: Debora Garcia Tavares [mailto:deboragarciatavares@yahoo.com.br]
Enviada em: domingo, 23 de junho de 2013 14:21
Para: rpamplonafilho@uol.com.br
Assunto: POESIA


Estou ficando tortamente
 endireitada.
É,
 torta sem gozo nem gosto.
Direito individualizado.
Direito desapropriado.
Direito obrigado.
Direito represado.
Direito indiviso.
Direito repetido.
Direito junto e separado.
Direito do trabalho
à língua tesa e presa,
cheia de defesa.
Direito de penas,
não de galinha,
mas de cupim.
Ah, tantos quantos bastem
para desapropriação
e venda do meu corpo
por preço muito baixo,
mas o tributo elevado
quem paga a carne tem
charqueada.
É,
 direito falido.
Direito tão certo
quanto desafeto,
só isto eu sei.
Ponham as algemas
das afetadas palavras,
das vincadas fardas,
doutores, sentido!
Este é o direito de rei. 

http://rasgandoabismo.blogspot.com.br/2011/09/do-direito-debora-tavares.html

terça-feira, 3 de junho de 2014

A Visão mais Linda do Mundo

A Visão mais Linda do Mundo

Rodolfo Pamplona Filho
De olhos fechados,
não sei bem se estou
acordado ou dormindo...
Mas ouço uma voz:
- Pai, você está bem?
De repente, a luz invade
a tela outrora vazia
e vejo a imagem mais linda
de todo o universo e existência:
o sorriso de Rodolfinho...


Praia do Forte, 30 de maio de 2013.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Cara Valente


Cara Valente

(Marcelo Camelo, na voz de Maria Rita)

Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir...
Foi escolher o mal-me-quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
Ele não pôde se entregar
E agora vai ter de pagar
Com o coração
Olha lá!
Ele não é feliz
Sempre diz
Que é do tipo Cara Valente
Mas veja só
A gente sabe...
Esse humor
É coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás
Da cara de vilão
Então, não faz assim rapaz
Não bota esse cartaz
A gente não cai não...
Ê! Ê!
Ele não é de nada
Oiá!!!
Essa cara amarrada
É só!
Um jeito de viver na pior
Ê! Ê!
Ele não é de nada
Oiá!!!
Essa cara amarrada
É só!
Um jeito de viver
Nesse mundo de mágoas...

domingo, 1 de junho de 2014

Wunderlust

Wunderlust

Rodolfo Pamplona Filho
Wanderlust
Wunderbar
Wundervoll
Wunderschön
Wunderlust


São Paulo, 26 de junho de 2013, pensando em alemão...

sábado, 31 de maio de 2014

Cultura



Cultura

Arnaldo Antunes

O girino é o peixinho do sapo
O silêncio é o começo do papo
O bigode é a antena do gato
O cavalo é pasto do carrapato
O cabrito é o cordeiro da cabra
O pecoço é a barriga da cobra
O leitão é um porquinho mais novo
A galinha é um pouquinho do ovo
O desejo é o começo do corpo
Engordar é a tarefa do porco
A cegonha é a girafa do ganso
O cachorro é um lobo mais manso
O escuro é a metade da zebra
As raízes são as veias da seiva
O camelo é um cavalo sem sede
Tartaruga por dentro é parede
O potrinho é o bezerro da égua
A batalha é o começo da trégua
Papagaio é um dragão miniatura
Bactérias num meio é cultura

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O Som e a Dor (A Canção)


O Som e a Dor (A Canção)


Eu ouço o mar cantando
nas ondas que quebram na praia
e sinto a melodia
em ferida que não sara...

Uma forte dor de perda
é esperar quem não virá:
o pai que nega o filho,
pescador perdido no mar...

a mãe que nunca dorme
na espera de quem não irá
receber seu doce beijo...

É a cicatriz eterna
do som que é lembrança
e confunde o desejo...

O Som...

O choque de água nas pedras
marca o compasso da canção,
na força do choro de eras
que provoca a emoção

no lamento impossível
de somente esquecer
a nota quase inaudível

no momento de anoitecer,
somente perceptível
por quem conhece o sofrer...

A Dor...

Viver é uma aventura
sem perder a ternura
de não deixar de recordar...

O Som, O Mar, A  Dor
O Tom e O Sonhador
Eu sou O Som e a Dor

O Som e a Dor que deságuam
no oceano do amor...
O Sonhador e a lágrima
no oceano do amor...

lá-ri-ri-lá-lá-lá-lá-lá-lá...

Letra: Rodolfo Pamplona Filho
Música: Luciano Calazans 

Brasília, 11 de março de 2013.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O PÃO DO POVO


O PÃO DO POVO
Bertold Brecht

A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.

Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem amor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.

Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.

Sim, mesmo várias vezes ao dia.
De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
No trabalho que é prazer.
Nos tempos duros e nos felizes
O povo necessita de pão diário
Da justiça, bastante e saudável.

Sendo o pão da justiça tão importante
Quem, amigos, deve prepará-lo?

Quem prepara o outro pão?

Assim como o outro pão
Deve o pão da justiça
Ser preparado pelo povo.

Bastante, saudável, diário.

(Poemas -1913-1956 Editora 34 -Seleção e tradução de Paulo César
deSouza - página 322)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Com a cabeça quente...


Com a cabeça quente...

Rodolfo Pamplona Filho
Quando a cabeça esquenta
e o sangue ferve...
Quando o ar falta
e a raiva assume...
Quando a tristeza domina
e a frustração comanda...
Quando se sente traído
ou emocionalmente usado...
Deixemos Cronos resolver isso...


09/04, em Salvador/Bahia, e 01/05, em MannHein/Alemanha, em um papo virtual pelo what's up com um amigo incrivelmente talentoso e complexo...

terça-feira, 27 de maio de 2014

Sensações

Esses dias intermináveis, as horas não passam, consigo perceber cada minuto, segundo no relógio que até parece uma eternidade.Tenho a dor e o medo dentro de mim, que caminham lado-a-lado.Na espera incansável por algo que não tem cor, nem cheiro e nem forma. Tenho em mim a angustia de estar presa entre quatro paredes, olho pela janela e vejo um mundo enorme lá fora, uma noite sem lua, uma rua nua. Sinto-me com um nó na garganta com gosto de sangue que corre entre minhas veias, todos dormem, dormem, só ouço o ruído do vento.
Preciso da liberdade dos passáros, eles sim, são livres e tem o privilégio de não pensar. Carrego dentro de mim algo inconstante, que vai e volta, que é livre.
E a noite continua silenciosa, e, como toda noite é uma boa conselheira, ouço apenas o silêncio.A vida é o embalar de uma música, você só precisa pegar o ritmo dela.Quantas noites precisarão passar para que eu encontre o meu caminho?

Carla Luiza de Almeida Cerqueira

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Despedida do Psicopata

A Despedida do Psicopata

Rodolfo Pamplona Filho
É muito íntimo tirar
a vida de alguém...
É muito fácil matar
a esperança também...
Ser o último rosto
que vão ver...
É a ligação mais forte
que duas pessoas podem ter...


No vôo de Lisboa para Frankfurt, 28 de abril de 2013.

domingo, 25 de maio de 2014

TEMPO DE QUARESMA



                                                      TEMPO DE QUARESMA

            Quaresma. Tempo de recolhimento. Tempo de silenciar. Tempo de espera. Tempo de encontro e reencontro. Tempo de lançarmo-nos no mais profundo de nossa alma e lá, com olhar microscópico, tentar encontrar em nós o que há de bom e o que há de ser repensado, reparado. É especialmente tempo de faxina. Não daquela que só retira a poeira da superfície do móvel, mas daquela que, com a espátula, arranca as crostas que nos corroem a alma, e nos fazem endurecer diante da beleza da vida! Faxina com “F” maiúsculo! É dessa faxina que preciso. Eu preciso. E exatamente assim! Para retirar as crostas que deixei que se sedimentassem em mim, tomando o lugar da leveza e deixando tudo brutalizado, endurecido, ríspido! Não é fácil! É tempo em que se precisa estar preparado porque, se for de verdade esta jornada a que nos propomos ela vai doer! Vai revelar o que insistimos não enxergar. Vai desnudar o que fazemos questão de cobrir! Vai mexer no que se estagnou em nós, e nos acostumou a pensarmos e sentirmos pequeno! Coragem! Será preciso coragem! Não sei se a terei, mas o primeiro passo é o querer, e ela surge em mim com uma urgência urgentíssima. Estou no limite de minha humanidade! Pequenina e frágil humanidade. De uma coisa tenho certeza, há Aquele que me acompanhará incondicionalmente nessa aventura de Ressurreição. Sim, de Ressurreição. Presença presente, ausente aos olhos, mas concreta na jornada. O próprio CRISTO! Guia para a verdadeira travessia. Aquele que nos mostrará a outra margem! O outro lado! O lado bom de todos nós. A luz na escuridão e a calmaria na tempestade. Enfim, o que realmente pretendemos neste tempo especial é atravessaremos o deserto quaresmal para estarmos Nele mesmo. Fim maior, Supremo Bem. Onde sempre estaremos adequados, ajustados, equilibrados, leves, felizes, em paz. Nele, Ágape! Salvação, plenitude, vitória certa! Ele, o Cristo que nos limpará da lepra a que nos acostumamos. A lepra do egoísmo, da falta de perdão, do julgamento, da intolerância, da falta de valores, da prostituição do corpo e da alma, das guerras desmedidas e injustificáveis, de tudo, tudo que se opõe ao puro amor! A Ele, em quem devemos estar mergulhados como nossa eterna Quaresma! Que o próprio Espírito Santo nos fortaleça na busca quaresmal de nosso lugar em Jesus Cristo. Nosso Senhor! Meu Senhor! Meu amor! Vamos todos viver essa “aventura” salvífica que é o próprio Cristo! CORAGEM!!!  Ele mesmo, que nos amam desesperadamente, nos ajudará!!! Amém
                                                                                                                                 Andréia

            

sábado, 24 de maio de 2014

O Canto da Chuva

O Canto da Chuva

Rodolfo Pamplona Filho
Escutar
o canto da chuva
é um bom tema
para um poema

Conhecer
a melodia
dos pingos que surgem
em poças de nuvens

Descobrir
a harmonia
da lágrima e da água
que limpa toda mágoa

Solfejar
uma linda linha
que será a trilha sonora
da mudança de uma hora.

MannHein, 29 de abril de 2013,

pensando em um papo via What's up em 20/04/2013.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um texto de Adrian Rogers, (1931)

Um professor de economia, numa universidade do Texas, disse que ele nunca havia reprovado um só aluno antes mas, uma vez, tinha reprovado uma classe inteira.

Essa classe em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e justo.

O professor então disse, "Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas."

Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam justas. Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém seria reprovado. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um "A"...

Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam "B". Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.

Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos - eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média das provas foi "D".

Ninguém gostou.

Depois da terceira prova, a média geral foi um "F".

As notas não voltaram a patamares mais altos mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe.

A busca por 'justiça' dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma.

No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala.

Portanto, todos os alunos repetiram o ano... para sua total surpresa.

O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes.

Preguiça e mágoas foi seu resultado.

Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado.

"Quando a recompensa é grande", ele disse, "o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós.

Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável."

"É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade.

Para cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber.

O governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro alguém.

Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.

É impossível multiplicar riqueza dividindo-a."

Adrian Rogers, 1931


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Morangos Mofados

Morangos Mofados

Rodolfo Pamplona Filho
De que adianta ter
e não desfrutar?
Vinhos viram vinagre
Morangos mofam
Amores morrem


MannHein, 01 de maio de 2013.