segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Foco







Rodolfo Pamplona Filho



É preciso ter foco!

Mas como ter

se amar me faz perder?

Se Amar tira o meu foco,

não precisa tirar o seu

e nem precisa tirar de ninguém,

pois não é o amor que tira o foco,

mas, sim, o foco que se dá

ao amor e à vida!

Onde está o seu amor?

Ali estará o seu foco...


Salvador, 09 de junho de 2012.

domingo, 8 de setembro de 2024

CONTO DE FADAS

 





Florbela Espanca, em "Charneca em Flor"


Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...

Trago no nome as letras de uma flor...

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é d'oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!

- Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A Princesa do conto: “Era uma vez...”



sábado, 7 de setembro de 2024

Mágoas

 






Rodolfo Pamplona Filho



Há quem prefira

vender uma amizade

por um cachê artístico;

desprezar um amor puro

por ouvir a opinião de uma prima;

desprestigiar o trabalho alheio

para tentar se auto-afirmar;

esquecer uma fraternidade solidária

para soar de vítima da situação;

humilhar com ar de superioridade

a efetivamente investigar o ocorrido;

tripudiar a imagem de colegas

para posar de voz da maioria;

blefar descaradamente e sem pudor

do que aceitar ajuda desinteressada;

ignorar a presença e o cumprimento

em vez de tentar um diálogo honesto;

fazer troça da desgraça alheia

para se sentir aceito no grupo;

perseguir incansavelmente

por não tolerar o diferente;

jogar fora a chance de fazer o Bem,

para se deleitar com seu veneno...


Isso só gera mágoa,

que vira raiva,

até se converter,

se houver o remédio

do esquecimento,

em profunda indiferença,

mesmo sendo cicatriz,

que não se apaga,

para ensinar

em quem vale confiar...


Pamplona, 03 de outubro de 2012, pensando sobre o passado...

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Miliciana da poesia

 




Negra Luz


Sem receio anuncio:

Uma miliciana me tornei!

O crime para mim permitido

É extorquir do meu Português

Amplificadores da minha alma

Para as emoções dar voz e vez


Associada a outras

Que muito antes de mim

Se aperfeiçoaram no iter

Sobre rimas de festim

Festejo a minha escolha

Quando a este delito aderi


Mais fácil seria o Mundo

Se todos pudessem desferir

As rimas certeiras e cortantes

Que passei a redigir

Encriminando minh'alma

Certeza, nada errado cometi.


Se há dor, a palavra consola

Quando, raiva, na estrofe deságua

O temor a poesia apreende

E, no outro dia,

O máximo que o jornal anuncia

A notícia arrepia: Ela sorri!'


Pacificada no meu sentir

Tributos ti imponho, quando leres a mim

Sentir-se leve... Quiçá! Feliz.

Guardando provas: indícios do que cometi

Crimes que compensam

Assim eu os assumi.



quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Todo mundo é vítima

 







Rodolfo Pamplona Filho



Todo mundo é vítima

e ninguém assume a culpa

Todo mundo é vítima

e se pode fugir da luta

Todo mundo é vítima

e se empurra a responsabilidade

Todo mundo é vítima

e não se muda nada de verdade

Todo mundo é vítima

e há argumento para tudo

Todo mundo é vítima

e punir é um absurdo

Todo mundo é vítima


No Trem de Madrid para Pamplona, 02 de outubro de 2012.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Sigo




Negra Luz


Gratuidades


Eu vivo de gratuidades

Sim, gratuidades.

Elas estão para você e pra mim


Amanheço.

E logo o sol a iluminar meu dia

Logo mais, de graça, entardeceria.


Respiro.

Profundo. E me pergunto:

Pelo ar a quem pagaria para ver?


Sigo.

Há saúde no meu caminhar!

Alguma anistia? Franquia a cobrar?


Adianto.

No café recebo sorrisos e beijos

Amealhando- os todos os dias, enriqueço.


Penso.

A liberdade interna me fortalecia

Valor haveria pela minha evolução?


Saio.

Vários caminhos se alinham

A escolha: só minha, e se paga é por opção.


No Mundo,

Ainda me arrepio

Vejo a linha do horizonte: fronteira entre céu e mar


As dores

Se vem ou se percebo

Permitem entender que viver também é superar.


Justiça.

Gratidão haverei de espalhar.

É "free", "all inclusive", "de grátis" o essencial para viver e sonhar.


O preço.

Nada a quitar.

E se cobrassem, seguro, iria pagar.


Gratuidades

Que só valoraremos a falta

Se alguma delas passarem a limitar.





terça-feira, 3 de setembro de 2024

Soneto da Sintonia Infalível

 





Rodolfo Pamplona Filho


Ainda que divididos pelo Atlântico

e por fusos horários incompatíveis,

o que um sente de um lado,

o outro automaticamente responde.


Se um levanta assustado,

encontrará o outro conectado,

como se a energia gerada

fosse automaticamente repassada.


É realmente impressionante,

como tudo surge em um instante,

permitindo a imediata compreensão


pois o que, para muitos, é acaso,

para mim, é o mais evidente traço

de uma sintonia infalível de paixão.


Pamplona/Espanha, 03 de outubro de 2012.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O apanhador de desperdícios

 







Manoel de Barros



Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato

de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.



domingo, 1 de setembro de 2024

VOCÊ NUNCA VAI VER OS BURACOS DAS RUAS DE NOVA YORK



 

Maria Maroca


Ao Álvaro

existem redes de solidariedade

que não se desfazem

entre pessoas que passaram, juntas, sede raiva amor miséria alegria Injustiça ódio tempo muito tempo: juntas - amor e dor, alegria e luto, que pensaram e sentiram juntas.

Mesmo que não se vejam mais.

Ainda que não pensem como antes.

Se me chamam, não questiono.

Estou.






sábado, 31 de agosto de 2024

Nunca Mais Outra Vez




Rodolfo Pamplona Filho


 Há atos e vivências,

sensações e experiências,

em que a razão

impõe dizer não,

mas o coração

demanda repetição


Quando se vive de verdade,

todos compartilham a realidade

de aproveitar cada momento,

não parando a todo lamento

e finalmente sabendo

o que se quer, mesmo “não querendo”…


A vida vale a pena

para quem não se apequena

e não tem pressa,

pois sempre se interessa

mais em ser amoroso

do que estar certo e rigoroso


E é por isso que a gente

precisa tanto da vida presente!

É por isso que todo mundo precisa

de música, paz e brisa,

amizades, filhos e amores,

poesia, jardins e flores.



Fortaleza, 17 de maio de 2024.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

XXX

 





Olavo Bilac


Ao coração que sofre, separado

Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,

Não basta o afeto simples e sagrado

Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,

Nem só desejo o teu amor: desejo

Ter nos braços teu corpo delicado,

Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem

Não me envergonham: pois maior baixeza

Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem

Ser de homem sempre e, na maior pureza,

Ficar na terra e humanamente amar.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Atalhos Místicos

 




Rodolfo Pamplona Filho


Usar o atalho místico

Para poupar de usar

e poupar

Do esforço

Do caminho pessoal


Entre as tentativas

e a tentação,

essa é particularmente

Atrativa


A ditadura

é mais eficiente

Pelo menos

Para os imaturas


Buscar o controle

ou ser controlado

É mais conveniente

Do que aprender

A ser diferente



Salvador, 02 de maio de 2024.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

MINHA MISSÃO!






Nenen Patriota


Sinto orgulho por ser um brasileiro

O país é meu chão, meu céu, meu brilho

Desde o índio nativo ao cativeiro

Onde o negro cantou seu estribilho!


Sou escravo da luta, guerrilheiro

Sem fugir um segundo do meu trilho

Nordestino, matuto verdadeiro

Sou da pátria zeloso como filho


Ninguém venha querer me converter

Meu caminho não posso reverter

Por não ter o perfil dos corrompidos...


Minha vida se faz com ideal

Na batalha bravia e desigual

De morrer defendendo os excluídos!

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Na Busca da Vida

 


 


Rodolfo Pamplona Filho




É uma alegria estar escondido,

mas um desastre não ser encontrado

Um afago no ego eu não nego

ou parar de cantar para decantar

Na busca da vida,

em busca de vida

para ser menos busca

e mais vida…


 

Salvador, 06 de junho de 2024.


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A Cor da Tua Alma

 





Juan Ramón Jiménez


Enquanto eu te beijo, o seu rumor

nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro

que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro

da árvore que é a árvore de meu amor.   


Não é fulgor, não é ardor, não é primor

o que me dá de ti o que te adoro,

com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,

é o ouro feito sombra: a tua cor.


A cor de tua alma; pois teus olhos

vão-se tornando nela, e à medida

que o sol troca por seus rubros seus ouros,

e tu te fazes pálida e fundida,

sai o ouro feito tu de teus dois olhos

que me são paz, fé, sol: a minha vida!

domingo, 25 de agosto de 2024

Na Força do Ódio

 


 


Rodolfo Pamplona Filho


Na Força do Ódio,

enfrento meus desafios,

encaro meus problemas,

cumpro minhas tarefas


Na Força do Ódio,

entrego o que prometi,

realizo o que planejei

mostro ao mundo que não morri


Na Força do Ódio,

trabalho contra a vontade

sou produtivo de verdade

descubro o peso da idade


Na Força do Ódio

faço o que devo

quando não quero

pois não estar a fim

não desculpa falta de esmero

e tiro nota dez

mesmo com ânimo zero.

 


Salvador, 27 de abril de 2024.

sábado, 24 de agosto de 2024

A DÉCIMA É O ESTILO!

 





Nenen Patriota


Ver justiça social

Sem engodo e desenganos

Ver os direitos humanos

Brotando de forma igual

Ver juiz imparcial

Sem perseguições banais

Ver iguais e desiguais

Conviver na diferença

É parte da minha crença

Que constrói meus ideais!!!

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

O Gozo do Desprazer

 

 




Rodolfo Pamplona Filho


Afago na infelicidade

reclamar como necessidade

Carícia negativa

é o anseio de sentir

Abusar até pedir

para apanhar

para conseguir

um pouco de atenção

Urgência em estragar

o que está bom

como se o mundo

existisse para conspirar

contra toda alegria

que o destino proporcionar,

como se sua sina

fosse eternamente sofrer

o inescondivel desejo

pelo gozo do desprazer.


 


Salvador, 18 de julho de 2024.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

O ESTILO É A DÉCIMA!






Nenen Patriota


Eu aceito divergência

E a crítica construtiva

Minha postura cativa

O bom senso, a coerência!

Só não tenho paciência

Nem o dever de aturar

Alienação sem par

Da mais triste ignorância:

Defender com arrogância

Intervenção Militar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Pontuações Poéticas

 


 



Rodolfo Pamplona Filho



Gosto muito de reticências

Gosto de usa-las sem moderação

Tenho uma tara por advertências,

seja uma vírgula ou uma exclamação

Delicio-me com inconfidências

e não desprezo uma interrogação

Mas o meu ponto fraco

é chegar a um hiato

entre todo bem e todo mal:

como é difícil,

muitas vezes impossível,

chegar a um ponto final.


 


Salvador, 25 de julho de 2024.