segunda-feira, 6 de julho de 2026

Soneto do Cão Guia



 Rodolfo Pamplona Filho



Em ruas densas de rumor e movimento,


surge o fiel condutor da travessia;


guiando passos com sereno alento,


converte sombra hostil em harmonia.


 


Percebe o risco oculto ao caminhar,


desvia abismos, grades, multidão;


ensina o mundo inteiro a enxergar


que há dignidade em cada direção.


 


Não é somente auxílio em locomoção,


mas liberdade viva e verdadeira;


é ponte erguida contra a exclusão.


 


Seu trote firme rompe a fronteira


que separava acesso e condição,


convertendo a companhia em inclusão.


 


Salvador, 09 de maio de 2026.

domingo, 5 de julho de 2026

Seja e esteja Feliz!






Paulo Basílio - 01/08/2020






Hoje, quero mais é ser,


Ser humano,


Ser pessoa.


Importar menos com coisa.






Cansado que querer


Ter e continuar a manter


Mesmo que só na aparência,


Tranquilidade na sobrevivência.






Ser e estar.


Não tem melhor solução.


Ser feliz e estar contente.






Ter isto na mente


E no nosso coração.


Sempre seja e esteja.









sábado, 4 de julho de 2026

Desanimado, Desequilibrado e Desconfiado


 




Rodolfo Pamplona Filho



Quer-se viver


uma convivência Dez


mas o que mais se tem


é um relacionamento Des:


Desanimado,


Desequilibrado,


Desconfiado…


 


E é assim:


Descontrolado


Desesperado


Desesperado


que se vai sobrevivendo…


 


Falta a base


para a construção


de uma real intimidade,


a vivência no giro do ciclo da vida


 


O valor dessa intimidade


tende a prevalecer


na medida em que o tempo passa


 


Pois tudo pesa


A confiança pesa


O sexo pesa


O social pesa


 


E não há o que fazer…


O que é somente de uma parte


não pode ser tratado por terceiros


 


Por mais que seja fiel


Por mais que seja amoroso


Por mais que seja receptivo


 


Por mais que seja animado,


equilibrado e confiável,


não se pode mudar


o que não depende


verdadeiramente de si.


 


Macapá, 21 de maio de 2026.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O que me atrai





 (Negra Luz)






Olhos... que não me acuam em padrões, 


Que me enxergam inteira,


Que me desnudam vestida.


Viril!








Boca... que não deprecia ninguém,


Que dialoga com paz,


Que beija como vento.


Lindo!








Mãos... que não violentam,


Que trabalham e buscam sonhos,


Que abraçam me acolhendo.


Gostoso!








Ombros... que não me oprimem,


Que estejam ao lado,


Que estejam disponíveis pertinho de mim.


Safado!








Peitos... que não inflem, subjugando-me,


Que compartilhem suas vitórias,


Que construam comigo as trilhas de si.


Muralha!








Barriga... que não se esqueça o que é vida,


Que não conte as minhas estrias,


Que entenda as entrelinhas em mim.


Sedutor!








Falo... que não ande por aí desprotegido,


Que quando esteja comigo,


Que seja entrega de dois.


Voraz!








Bumbum... que não sente e espere,


Que não me pare, nem me acelere,


Que deixe no meu ritmo seguir.


Sagaz!








Pernas... que não chutem-se o balde, me esquecendo,


Que sejam fortes e parceiras,


Que ergam corpo e sonhos.


Perspicaz!








Pés... que não se percam em qualquer vento,


Que sigam suas próprias rotas,


Que também confluam para mim,


Próspero.








Esse é o homem que eu desejo inteiro,


Que, inteira, miro os seus beijos,


Que quero na vida, na cama,


Ao lado de mim!






quinta-feira, 2 de julho de 2026

Soneto sobre a Lei Maria da Penha

 


Rodolfo Pamplona Filho



Do brado outrora imerso em mudez,


ergue-se norma firme a proteger;


rompe-se o ciclo vil de insensatez


e se afirma o direito de viver.


 


Não só a força bruta em sua vez,


mas toda forma que possa ofender


encontra na lei pronta altivez,


para coibir, punir e conter.


 


Medidas céleres trazem proteção


e impõem ao agressor limitação,


em defesa da vítima atingida.


 


Mas garantir real transformação


exige ação além da previsão,


com justiça concreta e efetiva.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Oásis




(Negra Luz)








Quando a minha sede não encontrava os olhos d’água 


Que sempre saciavam meu coração


Ou tão secas as almas


Sem que houvesse ninguém 


Para a dança da chuva aventurar


Ou se, só, quisesse ouvir A Banda e passar


Sem me olharem como um disco velho que nunca emplacou


Era você que se apresentava


Toda a seca, por um instante, se convertia em ilusão


Havia coqueiros


Rio fluindo


Roupa encharcada


Eu na beira do mar


Acalmava-se meu furacão


Nimbus se dissipavam


Enxergava outras estradas


Em vicinais, achava bicas onde molhava o rosto


Bebia um gole d’agua fazendo de concha a mão 


E muito do que me faltava 


Por você, poesia, me fartava 


Um oásis para minha emoção


terça-feira, 30 de junho de 2026

Contraditório e Ampla Defesa


 

 






 


No texto magno, em cláusula consagrada,


ergue-se a tutela da dialeticidade,


Bilateralidade plena assegurada,


com paridade de armas na processualidade.


 


Audi alteram partem rege o iter procedimental,


vedando surpresa na formação decisória.


Impõe-se debate técnico, racional,


com influência efetiva na trajetória.


 


Ampla defesa transcende mera formalidade,


abrange meios lícitos de argumentação,


desde prova pericial à instrumentalidade,


viabilizando robusta fundamentação.


 


Se há cerceamento, rompe-se a legitimidade,


maculando o ato por vício insanável,


pois, sem contraditório, não há juridicidade,


nem provimento válido, justo e confiável.


 


Salvador, 04 de maio de 2026.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Ironia ou faceta





(Negra Luz)



Não há surpresa!


O homem agoniza o que a sua mãe vem agonizando...


Falta-se oxigênio no Pulmão do Mundo.


O povo amazonense é mais um filho deste Pulmão.

Agoniza o que já é agonia para Amazônia: 


Nas matas, o fogo, a seca, levou fauna, levou flora, secou córrego, obriga indígena a sair do seu lugar.


Há fotografias dessa triste realidade,


Que muitos querem camuflar.


Gasta-se milhões para encomendar novo satélite,


Economiza-se com a fiscalização. 


Paradoxos ou faces da mesma moeda...


Uma alimentada pela outra.


Agora é a vida humana que está a agonizar...


Exaurimento de um crime complexo,


Anunciado por cada metro quadrado de mata que foi...


Vidas seguem arfando pelo Oxigênio 


O povo caboclo importa!


Mas são parte de um ecossistema maior: Amazônia. 


E ela é Brasil! 


E ela é Mundo!


E ela é nosso Pulmão!


E nela o nosso Oxigênio!

domingo, 28 de junho de 2026

Soneto sobre Licitações



Rodolfo Pamplona Filho

 


No trato público de contratar,


impõe-se norma de isenta feição,


para que todos possam disputar,


com lisura e plena condição.


 


Editais regem o ato de ajustar,


com transparência e justa seleção;


Afasta-se o arbítrio, ao deliberar,


guardando a ética na condução.


 


Vence não só quem oferta menor,


mas quem demonstra probidade e valor,


em fiel observância à missão do Estado,


 


pois gerir bens com rigor e pudor


exige zelo, critério e primor,


para que o justo, ao final, seja alcançado.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

sábado, 27 de junho de 2026

Desclassificando as cores



(Negra Luz)



Quis ser primária,


E secundária também fui.


Quis estar no topo.


E fui a mais TOP.


Como fui!


O sol vibrante.


O fogo Ardente.


E um mar de amor


Mais ao poente,


Presenteei-me de ametiste


E, ao jequitibá, avistei a luz.


Eram secundárias as cores ali presentes 


E a beleza...


Tão maior!


Tão igual!


E, num instante angelical,


As cores não tinham classe.


Tinham valor igual.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Confissão e Justiça Penal








Rodolfo Pamplona Filho e Nestor Távora


 


O Estado pede que confesse, apresentando todo o alicerce.


Dizem: “é só uma medida alternativa!”


mas pode acabar com uma vida


 


Quem confessa, por medo, a todos suplica,


por temer as incertezas da Justiça e da vida.


 


Aceita qualquer acordo ou negociação,


por medo do processo e sua repercussão,


 


pois lhe negam o direito mais básico:


ser ouvido por um juiz democrático,


 


que queira saber o que, de fato, ocorreu,


e não que o que o Sistema lhe deu.


 


Entre calar-se e vir a narrar,


prevalece o direito de não se incriminar;


Nem toda fala há de se aceitar,


se nasce viciada ao declarar.


 


Confissão não se pode impor ou forjar,


sob pena grave de se invalidar;


Justiça exige livre manifestar,


sem coação que a venha macular.


 


Prova legítima é fruto da razão,


aliada firme à verificação,


distante sempre de indução indevida,


 


pois decidir com reta convicção


requer cautela na apreciação,


para que a verdade seja erigida.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Pretos e pretas também sabem




(Negra Luz)



Pretos e pretas também sabem…


Sabem de sentimento, de dengo.


Sabem de chamego,


Alforriar-se dos próprios medos,


Entregar-se


E viver o amor.




Pretos e pretas também sabem…


Sabem de alegria e de festa.


Sabem de beijo na testa,


Namorar com delicadezas,


Acarinhar-se


E trazer rosas na mão.




As cicatrizes, ainda espessas, sangram


E, para muitos e muitas, é ferida recente!


Fruto de prática perversa...


Retintam o preto e a preta,


Nutrem a idéia de que preto e preta tem couraça,


De que vida de preto e de preta é ciclo sem fim de dor.




Das tintas impostas retiramos tudo,


Pretos e pretas são pretos e pretas 


E nossa pele não é couro.


O que foi chicoteado e sangrado foi o nosso escudo.


Ele é ancestral… Segue.


Os que não sobreviveram se integraram a ele,


Os sobreviventes foram mais fortalecidos,


 E, assim,


Pretos e pretas seguem….


E sabem


Amar!


Amar suas mulheres 


Seus maridos,


Seus filhos e filhas,


Suas famílias,


Seus amigos e amigas...




Talvez seja este o nosso maior ato de resistência:


Pretos e pretas saberem amar.


Saberem sorrir,


Saberem viver com alegria.


Saberem viver o amor.


E sabe por quê?


Na essência,


A nossa alma é alforriada!


Subjugaram, historicamente, os nossos corpos,


Mas, ainda que tenham investido na total desumanização de pretos e pretas,


Não alcançaram integralmente a liberdade


Do nosso coração,


Do nosso pensar,


Do nosso sentir.


E, assim,


Resistimos!


E, assim, a nossa resistência:


Pretos e pretas sabem


AMAR.


quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sim, tudo




(Negra Luz)






Tudo estalo.


Tudo audiência.


Tudo click.


Tudo emoji.


Tudo Bauman.


Tudo calefação.


Tudo João!


Tudo George!


Tudo Miguel!


Tudo triste.


Tudo “migué”.


Tudo RACISMO.








terça-feira, 5 de maio de 2026

Herança Digital



Rodolfo Pamplona Filho

 


Nos cofres da nuvem, em byte e protocolo,


Armazena-se a vida em código e memória;


Metadados narram, em silêncio e sem dolo,


Fragmentos de afeto em cifra transitória.


 


Perfis persistentes, sob gestão contratual,


Entre termos de uso e cláusula restritiva,


Guardam traços do eu em domínio virtual,


Na arquitetura lógica de herança ativa.


 


Há chaves privadas, senhas, autenticação,


Criptografia assimétrica em cofre selado;


Sem o devido acesso ou legitimação,


O acervo digital resta inacessado.


 


Testamento eletrônico, diretiva antecipada,


Define a sucessão de ativos intangíveis;


Entre direito e ética, a fronteira é traçada


Por regimes jurídicos ainda sensíveis.


 


E assim, na interface entre morte e sistema,


Subsiste a presença em dado estruturado;


Na persistência algorítmica de um teorema,


O legado humano segue virtualizado.


 


Salvador, 04 de maio de 2026.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Desnuda




 (Negra Luz)


A poesia não me permite conter me em segredos.


Ela sussurra, através dos meus versos, o que não escrevi:


Traduz em onomatopeias meus sentimentos,


Cochicha pelas entrelinhas, expõe me nos acentos,


Quando findo uma estrofe, ela ainda fala por mim.


Um delatora camuflada por metáforas e rimas,


Revela a métrica do que escrevo e, quando menos espero,


Me vejo desnuda diante de ti:


Meu leitor, minha leitora.


domingo, 3 de maio de 2026

Licença Parental

 



Rodolfo Pamplona Filho



No labor suspenso, nasce um direito essencial,


Amparo jurídico à chegada da existência,


Entre afeto e norma, vínculo inicial,


Protege-se o cuidado com digna consistência.


 


Não só genitora, tampouco apenas genitor,


Mas quem assume o encargo da formação,


Partilha-se o tempo, fortalece-se o amor,


Sob guarida legal da corresponsabilização.


 


No berço se firma o primeiro laço social,


Com presença contínua, zelo estruturante,


Desenvolvimento pleno, substrato vital,


Num convívio próximo, terno, edificante.


 


Licença que transcende previsão normativa,


Traduz humanidade na ordem instituída,


Pois cada instante em convivência afetiva


Consolida direitos na aurora da vida.


 


Salvador, 05 de maio de 2026.

sábado, 2 de maio de 2026

Pré-história




Murilo Mendes




Mamãe vestida de rendas


Tocava piano no caos.


Uma noite abriu as asas


Cansada de tanto som,


Equilibrou-se no azul,


De tonta não mais olhou


Para mim, para ninguém!


Cai no álbum de retratos.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Pessoa com Deficiência e Convenção de Nova York



 

Rodolfo Pamplona Filho

 


À luz da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, enfim se proclama


que a limitação não define o existir;


pois é na barreira hostil que se inflama


o peso cruel de impedir e excluir.


 


Não basta o diagnóstico frio e restrito,


nem laudo encerrado em linguagem severa;


há muros erguidos no espaço infinito


da mente que nega, despreza e impera.


 


Se a urbe não abre caminhos decentes,


se faltam acesso, respeito e guarida,


transformam-se corpos, outrora potentes,


em alvos da sombra social instituída.


 


Por isso, a inclusão não traduz caridade,


nem gesto piedoso de falsa emoção;


é norma fundada em justiça e igualdade,


é força de cidadania em ação.


 


E, assim cada voz, sem temor, se levanta,


reivindica presença, trabalho e valor;


pois toda pessoa, em essência, é santa


na livre grandeza de seu próprio labor.


 


Eunápolis, 11 de maio de 2026.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Canção do Exílio





Murilo Mendes



Minha terra tem macieiras da Califórnia


onde cantam gaturamos de Veneza.


Os poetas da minha terra


são pretos que vivem em torres de ametista,


os sargentos do exército são monistas, cubistas,


os filósofos são polacos vendendo a prestações.


A gente não pode dormir


com os oradores e os pernilongos.


Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.


Eu morro sufocado


em terra estrangeira.


Nossas flores são mais bonitas


nossas frutas mais gostosas


mas custam cem mil réis a dúzia.






Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade


e ouvir um sabiá com certidão de idade!




In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Sobre Estímulos e Freios


 




Rodolfo Pamplona Filho



 


A liberdade de expressão


implica em assumir


as consequências do que se diz,


mesmo quando se fala coisas


sem saber do que está falando


 


O que se pretende


ser um estímulo


vira um freio abrupto


do desejo de viver


 


Desistir para não sofrer?


Esquecer para não chorar?


Nada disso traz paz…


Afinal, antes viver


a sensação de lutar


e ser derrotado


do que a de nem sequer tentar…


 


Marabá, 21 de maio de 2026.