segunda-feira, 23 de março de 2026

Alegria em Doses Homeopáticas

 






Rodolfo Pamplona Filho




É difícil sorrir

com receio de consequências

É difícil fluir

com medo das intermitências

É difícil respirar

com receio das armadilhas

É difícil se entregar

com certeza da desconfiança

É difícil amar

tendo perdido a esperança

É difícil sobreviver

com dificuldades burocráticas

É difícil viver

a alegria em doses homeopáticas



Praia do Forte, 31 de dezembro de 2022.

domingo, 22 de março de 2026

E não pode esperar o coração

 



Jaci Bezerra 



Toda a lua e claridade

assim te quero, assim te vejo

e se te vejo o amor invade

meu corpo inteiro e o deixa aceso

e se te vejo o amor em mim

é um cheiro morno de jardim

A tua dor doendo em mim

é um rio latejando aceso

sou um cantareiro no jardim

do sonho em que te quero e vejo

primaveras de claridade

na primavera que me invade


Toda nua és um rio aceso

de primavera e claridade

mas quero mais do que o que vejo

sentindo a angústia que me invade

esse amor que doendo em mim

arde em silêncio no jardim


Extinta a angústia que me invade

te sinto perto e junto a mim

mais do que amar a claridade

amo teu cheiro de jardim

por isso à noite durmo aceso

no dia em que te sinto e vejo.


Teu coração é um jardim

tremulando na claridade

mesmo quando doendo em mim

também é a angústia que me invade

porque no dia em que te vejo

teu corpo dorme em mim aceso


No fundo dos teus olhos vejo

longe da angústia que me invade

como o amor doendo aceso

é uma trança de claridade

o coração dentro de mim

dorme abrasado em teu jardim.

sábado, 21 de março de 2026

Empréstimo

 




 


Rodolfo Pamplona Filho



Vou te emprestar

meus olhos

para veres

a coisa linda que vejo

quando sorris.


Vou deixar contigo

a minha pele

para sentires

a doçura

do teu toque.


Vou esquecer em tuas mãos

o meu coração

para teres a certeza

de que ele pulsa

por ti.



Salvador, 22 de janeiro de 2023.

sexta-feira, 20 de março de 2026

As folhas do crepúsculo





Janete Fonseca


Cai a primeira folha, 

A segunda também. 

Mais outra... e outras mais, 

Centenas delas caem 

Das árvores centenárias 

Apenas sopra o vento, 

No alaranjado crepúsculo 



E à tarde primaveril, 

Quando o olhar se embaça 

Ao sol da memória, 

Voltam todas, 

Molhando os caminhos 

Em longas cabeleiras 

Em galhos silentes, 

Pingando cores 



Também do coração, 

Onde brotam as ilusões, 

Uma por uma vai tombando, 

Descendo ladeiras 

Em fortes enxurradas 

Por esse mundo fora 

Como tombam as folhas das árvores centenárias 



No mar azul da infância, 

Olhar suspiroso e 

Imaginação solta 

Voam...Mas às copas as folhas voltam, 

E elas ao coração não voltam jamais, 

Levadas pelas águas de março 




(PARÁFRASE DO POEMA DE RAIMUNDO CORREA  "AS POMBAS")

quinta-feira, 19 de março de 2026

Olhares



 


Rodolfo Pamplona Filho



O que diz um olhar?

Mais do que palavras

O que ensina um olhar?

Mais do que muitas lições

O que mostra um olhar?

Mais do que mil exposições

O que prende um olhar?

Mais do que prisões

O que mata um olhar?

A dor fatal das repressões

 




Buzios, 13 de janeiro de 2023.

quarta-feira, 18 de março de 2026

O Depósito

 






Clivia Filgueiras




Do contrato sou um tipo

Me assento na confiança plena

Referente a custódia ou guarda de coisa alheia

Pode ser ela grande ou pequena.


Duas pessoas de mim fazem parte

Uma entrega e a outra guarda o montante

Há uma relação de confiança

Entre o depositário e o depositante.


Quando entrego a coisa

Espero deveras a restituição – sigo confiante...

Se na ocasião ajustada dela não me fizer novamente dono

Uma Ação de Depósito proponho


Afinal, sou o depositante!


Eu recebo a coisa

Restituí-la-ei conforme o ajustado

Não sou o seu dono

Apenas depositário!


Como depositário tenho algumas obrigações:

Guardo a coisa alheia recebida mas dela não posso me servir...

Respondo por dolo ou culpa se a coisa perecer...

Ao depositante sou obrigado a restituir.


Se da coisa me apossar sem autorização

Receberei a devida sanção

O juiz decretará uma pena

Irei parar na prisão.


Como depositante as minhas obrigações vão além

Remunero quando sou oneroso

Mas posso ser gratuito também!


Posso também ter obrigações de fato real:

Reembolsar as despesas de meu interesse

Indenizar os prejuízos de vício real.


Contrato Irregular também posso ser

Posso usar e dispor da coisa depositada...

Restituir coisa de igual valor e quantidade...

Devolver não exatamente a que me foi confiada.


Posso ser Necessário, Legal, Hospedeiro ou Miserável

Os três primeiros com fundamento ou exigência legal

O último quando em guerra...terremoto e coisa e tal.


Para concluir:

Antes da coisa entregar

É preciso no depositário confiar

Pois sou baseado numa relação de boa-fé

De Depósito devem me chamar. 

terça-feira, 17 de março de 2026

Aceitando o que é possível

 




 



Rodolfo Pamplona Filho




Sonhar não custa nada,

mas alcançar o que se deseja

não é fácil

e, muitas vezes,

só se pode

se confirmar com o que se tem,

suspirar pelo que não vem,

lamentar o irrealizável

e aceitar o que é possível.


Salvador, 16 de dezembro de 2022.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Canção

 




 

 


Cecília Meireles



Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar



Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.



O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...



Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.



Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

domingo, 15 de março de 2026

Meus Cachorros

 






Rodolfo Pamplona Filho




Meus cachorros têm marcas

decorrentes das pauladas

e das porradas

que a vida proporcionou



Meus cachorros têm traumas

potencialmente insuperáveis,

frutos amargos da árvore

de mal-tratos que sofreram



Meus cachorros têm Cicatrizes

no corpo e na alma,

marcas do que passaram

nas mãos cruéis do destino



Meus cachorros têm um Amor

simplesmente inexplicável,

potencialmente infindável

e naturalmente adorável



Meus cachorros me representam

Eles são meu espelho,

meu esteio e meu sentido

Eles são eu e

Eu sou eles



Salvador, 10 de dezembro de 2022

sábado, 14 de março de 2026

Madrugada em Meu Jardim

 






Jansen Filho




Um divino clarão vem do nascente

E sobre o meu jardim calmo resvala!

Na graça deste quadro reluzente,

A aragem fria os meus rosais embala! 



Tudo desperta misteriosamente!

E a luz cresce e se expande em doce escala,

Avivando o lençol resplandecente

Da brancura dos lírios cor de opala! 



E o sol, doirando as franjas do horizonte,

Celebra a missa do romper da aurora

Na doce Eucaristia do levante! 



Da passarada escuta-se o clarim !

E a madrugada estende-se sonora,

Na aleluia de luz do meu jardim ! 

sexta-feira, 13 de março de 2026

As Vozes da Minha Cabeça

 


 



Rodolfo Pamplona Filho




Não preciso de estudo

Não preciso de história

Não preciso de lógica

Não preciso de ciência

Não preciso de fontes

Não preciso de provas

Só preciso da minha convicção

e das vozes da minha cabeça.



Oceano Atlântico, 12 de janeiro de 2023.

quinta-feira, 12 de março de 2026

ETERNO APAIXONADO

 



 Barros Alves


Viver o amor é cometer loucuras,

É apaixonar-se desabridamente.

É morrer de prazer e, de repente,

Esquecer pundonores e posturas.


Muito amar é perder a compostura

Ante as normas que essa pobre gente

Quer-nos impingir hipocritamente,

Mas, o amante a rechaça com bravura.


Pois se amar loucamente é vil pecado,

Que nos deixa do céu ao desabrigo,

Pobre de mim! Sou louco apaixonado.


Desde o ventre materno condenado

Da vida levarei para o jazigo

O jugo desse amor desesperado.


quarta-feira, 11 de março de 2026

Dinheiro

 

 



Rodolfo Pamplona Filho

 

Dinheiro não é um problema;

Sua falta é que pode ser…

Já desperdicei

Já perdi,

Esbanjei e Torrei

Já gastei a mais

Já fui até enganado

Mas nunca lamento

Por ter gasto

Com algo

Que me trouxe um sorriso,

Uma lembrança,

Uma sensação de bem estar!

Dinheiro não é

Um fim em si mesmo,

Mas um apoio para viver

Os momentos alegres

Que trazem felicidade e paz.


Cartagena, madrugada de 14 de janeiro de 2024.

terça-feira, 10 de março de 2026

A UM MENDIGO


 


Barros Alves


Hoje eu senti a dor que abrasa os entes

Exposta em face exangue e mui sofrida;

Eu vi a dor que dilacera a vida,

Olhar de angústia, magras mãos trementes.


Vi de perto a miséria dos viventes

Sem pão, sem teto; alma combalida

A transportar a vida mal vivida

Dos desgraçados. Miseráveis gentes!


Acercou-se de mim. Pobre mendigo!

Mão estendida, triste olhar pedinte

Como se nem mais Deus lhe fosse ouvinte.


Desventura voz! Eu não consigo

Esquecê-la jamais. Voz que consome:

- Uma esmola, senhor, pois tenho fome...


segunda-feira, 9 de março de 2026

Pacto de um Ano

 


 


 Rodolfo Pamplona Filho



Pacto de um ano

Pacto de humanos

Compromisso firmado

Pacto selado

Assunção da missão

de busca da comunhão

de corpos e de almas

para, em salva de palmas,

consumar no papel

o que já foi acertado no céu.


San Andres, 18 de janeiro de 2024.

domingo, 8 de março de 2026

Apagar-me


 


Paulo Leminski



Apagar-me

diluir-me

desmanchar-me

até que depois

de mim

de nós

de tudo

não reste mais

que o charme.

sábado, 7 de março de 2026

O fim do diálogo




Rodolfo Pamplona Filho


 “Não quero falar!

Minha cabeça está cheia demais!

Cuido de todo mundo, 

mas a prioridade agora sou eu!”

Este é o momento 

em que todo diálogo morreu.


Salvador, 28 de dezembro de 2019.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Bem no Fundo





Paulo Leminski


No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,

a gente gostaria

de ver nossos problemas

resolvidos por decreto


a partir desta data,

aquela mágoa sem remédio

é considerada nula

e sobre ela — silêncio perpétuo


extinto por lei todo o remorso,

maldito seja que olhas pra trás,

lá pra trás não há nada,

e nada mais


mas problemas não se resolvem,

problemas têm família grande,

e aos domingos saem todos a passear

o problema, sua senhora

e outros pequenos probleminhas.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Felicidade




Rodolfo Pamplona Filho


Felicidade não é meta: 

é a forma como se vive; 

não é objeto, é o caminho; 

não é aquilo que te falta e sim saber aproveitar aquilo que já se tem!




Orlando, 10 de janeiro de 2020.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Eu

 


 Paulo Leminski


eu

quando olho nos olhos

sei quando uma pessoa

está por dentro

ou está por fora


quem está por fora

não segura

um olhar que demora


de dentro de meu centro

este poema me olha