domingo, 12 de abril de 2026

NOIVA TRAÍDA, DÍVIDA VENCIDA






Lorena Miranda Santos Barreiros


 “Álvaro Cruz, você está certo do que irá fazer? Espero que não esteja se precipitando, 

meu filho!” 


 As palavras de Maria Helena, sua mãe, ressoavam firmemente na cabeça de Álvaro 

na manhã daquela segunda-feira, 28 de novembro de 2016.  Ainda tomava o seu café quando 

a campainha de sua casa tocou. Além da porta da entrada, fitava-o o rosto entediado de um 

oficial de justiça, que, após sussurrar um “bom dia”, procedeu à leitura do mandado de 

citação que trazia consigo, entregando a Álvaro a contrafé e colhendo dele o recibo na via 

do documento que permaneceu em poder do oficial. Mecanicamente, Álvaro a tudo 

assentiu, muito embora quase nada houvesse realmente ouvido, de fato.  


 Não havia necessidade. Desde o momento em que autorizara a subida do oficial de 

justiça cuja presença na portaria fora anunciada no interfone do seu apartamento, Álvaro já 

estava convicto do que lhe reservava aquela visita. “Tereza”, pensou. E estava certo.  

 Embora sequer houvesse a necessidade daquele contato com o oficial de justiça, já 

que o mandado de citação poderia ter sido validamente entregue ao funcionário da 

portaria do seu condomínio edilício responsável pelo recebimento da correspondência, 

Álvaro desejava receber o mandado diretamente. Talvez fosse um modo de encarar o 

problema de uma vez. 


 Portava agora em suas mãos um mandado de citação, penhora e avaliação referente a 

um procedimento executivo fundado em título extrajudicial contra ele proposto por Tereza 

Lacerda. Sem emoção, Álvaro percorreu com os olhos todo o conteúdo daquele documento, 

detendo-se no campo indicativo do valor devido:  


 - Duzentos e vinte e um mil reais??? 


 Álvaro empalideceu. A indiferença inicial converteu-se em um misto de 

incredulidade, surpresa, raiva e medo. Onde encontraria, afinal, uma soma tão vultosa de 

dinheiro para pagar aquela dívida que lhe era imputada? 


Tereza Lacerda não era uma credora qualquer. Era sua ex-noiva, com quem poderia 

ter se casado há apenas dois dias, se o tórrido romance por ambos vivido ao longo de um ano 

e meio não tivesse se acabado de modo constrangedor há pouco mais de um mês. “Ironia do 

destino” – pensou Álvaro. “Estivesse eu casado com Tereza, não estaria sendo executado 

judicialmente. Aliás, sequer poderia ser citado em processo cível algum nos três dias 

seguintes ao meu casamento, salvo para evitar perecimento do direito!”. 


Seu pensamento o fez rir. Bacharel em Direito por formação, Álvaro abdicara de sua 

natural vocação para dedicar-se aos negócios da família. Com o falecimento de Armando, 

seu pai, ocorrido logo após a sua formatura, assumiu a administração da fábrica de velas que 

aquele possuía desde antes de se casar com Maria Helena e que ambos – Maria Helena e 

Álvaro – herdaram. Além desse bem, Álvaro apenas possuía seu imóvel residencial, que com 

muito esforço e trabalho conquistara há cerca de dois anos e no qual morava com sua mãe. 


Sempre que podia, Álvaro permitia-se contato com a área jurídica. Estudar o Direito 

tornara-se um de seus passatempos prediletos. Conhecera Tereza em maio/2015, durante 

uma viagem ao Rio de Janeiro, para participar de um congresso jurídico realizado naquela 

cidade. Ao término do evento, Álvaro e Tereza já estavam namorando e nem a distância que 

os separava (ela morava no Rio de Janeiro e ele, em Belo Horizonte) impediu que dessem 

prosseguimento ao romance. 


 Aos seis meses de namoro, decidiram ficar noivos e marcaram a data do casamento 

para dali a um ano, precisamente para o dia 26 de novembro de 2016. No início de dezembro 

de 2015, passando por graves dificuldades financeiras, Álvaro foi convencido por Tereza a 

aceitar dela um empréstimo no valor de cento e setenta mil reais, montante suficiente ao 

pagamento de suas dívidas. 


 Embora noivos estivessem, a prudência recomendava – e assim foi feito – que 

assinassem um contrato de mútuo, estabelecendo-se como prazo de pagamento o dia 20 de 

outubro de 2016. Orgulhoso, Álvaro não pretendia iniciar a vida conjugal na condição de 

devedor de sua futura esposa. Mas não poderia recusar a ajuda que lhe garantiria a 

reestruturação de suas finanças. 


O relacionamento, no entanto, não durou até a data de vencimento da dívida. No 

caminho estaria o fatídico sábado, 15 de outubro de 2016, quando Álvaro, ao decidir 

presentear-se com uma despedida de solteiro, fora flagrado por Tereza, que, sentindo-se 

traída, pôs fim sumariamente ao romance, sem respeito ao princípio do contraditório.  

 A passagem dos minutos daquela manhã interminável de segunda-feira, 28 de 

novembro de 2016, conduzia Álvaro a uma situação de progressiva consciência da situação 

em que se envolvera. Mal rompera-se o vínculo entre o casal, Tereza apenas aguardou o 

vencimento da dívida para cobrá-la. A execução fora proposta no dia 21 de outubro de 2016, 

sexta-feira. “Ainda sob o efeito da raiva”, pensou Álvaro.  


 Novamente a advertência de sua mãe lhe veio à cabeça. Fora precipitado aceitar o 

empréstimo de alguém que conhecera há pouco mais de seis meses. Fora precipitado pensar 

em casamento. Mas, agora, só lhe restaria enfrentar o processo de execução. 


 Não havia dúvidas de que o contrato de mútuo celebrado com Tereza era um título 

executivo extrajudicial. Tratava-se de documento particular assinado por ele, devedor, e 

por duas testemunhas – por sinal, seus quase padrinhos de casamento – e consignava 

obrigação certa, líquida e exigível. Ao se lembrar de que todos os seus bens presentes e 

futuros responderiam pelo cumprimento da obrigação, Álvaro estremeceu. “Pelo menos, 

meu apartamento está resguardado, bendita regra de impenhorabilidade do bem de 

família!”. No momento, dentre os bens seus não sujeitos à penhora, aquele era o que mais 

importava. 


 O montante de duzentos e vinte e um mil reais abrangia, além do valor devido 

atualizado e acrescido de juros, os honorários advocatícios de dez por cento fixados de 

plano pelo juiz ao despachar a petição inicial da execução. O mandado noticiava a Álvaro – 

como se notícia boa fosse, verdadeira sanção premial – que o pagamento integral da dívida, 

no prazo de 03 (três) dias, conduziria à redução do valor dos honorários pela metade. “Ora, 

como se fosse fácil obter duzentos e vinte e um mil reais em três dias!” 


O impulso jurídico de vasculhar uma saída para o problema o conduziu a examinar a 

petição inicial da execução. Bem elaborada, fora devidamente instruída com o título 

executivo extrajudicial e o demonstrativo do débito atualizado até a data da propositura da 

demanda e indicava, em seu teor, tratar-se de execução por quantia certa contra devedor 

solvente (será?), fazendo menção aos nomes completos da exequente e do executado e seus 

números de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas. O demonstrativo do débito era 

detalhado e indicava o índice de correção monetária adotado, a taxa de juros aplicada e os 

termos inicial e final de incidência da correção e dos juros. 


Ao final, uma singela indicação de bem suscetível de penhora... 


 - NÃO! 


 Álvaro não conseguiu conter o desespero. A exequente – por instantes esquecera-se 

de que um dia fora ela sua noiva – indicara à penhora as quotas que Álvaro possuía na 

fábrica de velas que herdara de seu pai! Sentiu uma dor verdadeiramente física, como se um 

golpe houvesse sido desferido em seu rosto. E, à revelação, veio a raiva. 


 A petição inicial era subscrita por Gastão Antunes, um antigo namorado de Tereza 

que Álvaro tivera o desprazer de conhecer. Embora Tereza jamais houvesse manifestado 

interesse remanescente pelo ex–affair, era nítido que ele não a havia esquecido. O processo 

seria ainda mais difícil do que Álvaro imaginava. 


 Buscando restabelecer seu equilíbrio emocional, Álvaro centrou suas atenções nos 

três dias que possuiria para efetuar o pagamento do débito. “Impossível”, pensou. Nos 

últimos meses, havia contraído diversas outras dívidas em decorrência do casamento que se  

aproximava e sua intenção, em verdade, era adimplir a sua dívida dando à Tereza, em 

pagamento, parte de seu imóvel, bem do qual se tornariam coproprietários. Mas, agora, com 

o término da relação, essa solução afigurava-se impossível. E não havia como pagar a dívida. 

 Álvaro sabia que a penhora seria inevitável. Em três dias, não conseguiria reunir o 

valor devido e, fatalmente, o oficial de justiça retornaria, de posse daquela via do mandado 

de citação, penhora e avaliação na qual ele firmara seu recibo, procedendo-se à penhora de 

suas quotas sociais. Restaria a Álvaro, obviamente, a indicação de outros bens passíveis de 

penhora, com a comprovação de que a sua opção ser-lhe-ia menos onerosa e não traria 

prejuízo a Tereza. Mas a verdade é que não possuía outros bens que pudesse indicar à 

penhora, especialmente em razão do valor executado. 


 Nos três dias que se seguiram, Álvaro mal se comunicou com sua mãe, Maria Helena, 

em casa. Não tinha coragem de lhe contar o que estaria prestes a ocorrer. A fábrica de velas 

de seu pai sairia das mãos da família Cruz, onde permanecia desde sua criação. Passo a 

passo, Álvaro tentou buscar uma das saídas que o ordenamento jurídico estabelecia, 

justamente com a preocupação de preservação da sociedade, constituída que fora intuitu 

personae. 


 Álvaro sabia que, uma vez penhoradas as suas quotas sociais, o juiz assinaria à 

sociedade prazo de até três meses para que fosse apresentado balanço especial, intervalo 

no qual essas quotas seriam oferecidas aos demais sócios (no caso, sua mãe, que ele sabia 

não teria dinheiro para adquiri-las) ou poderiam ser adquiridas pela própria sociedade, 

para manutenção em sua tesouraria, desde que não fosse reduzido seu capital social e 

fossem utilizadas reservas da sociedade. Esta opção também estaria descartada. 


Nem mesmo a liquidação de quotas sociais seria possível, uma vez que o pagamento 

delas pela sociedade ser-lhe-ia excessivamente oneroso. Restaria, apenas, o leilão judicial 

das quotas. A fábrica de velas Cruz deixaria de ser apenas dos Cruz. 


*** 


 O silêncio de Álvaro era eloquente para Maria Helena. Acontecera o que ela temia 

desde que se consumou o término do romance de seu filho com Tereza: ela cumprira a 

promessa de transformar a vida dele em um inferno e já atentara contra a sua parte mais 

sensível. Não, não se tratava do bolso. Cuidava-se do bem mais precioso que Álvaro possuía, 

o elo que o fazia sentir a presença firme de seu pai em sua vida. 

 Ao contrário de Álvaro, Maria Helena não possuía conhecimentos jurídicos. Mas, ao  

ver o comportamento estranho de seu filho, deduziu que algo inquietante acontecera e, no 

interior da gaveta da mesa de trabalho de Álvaro, obteve a resposta. A mensagem contida 

naquele documento dispensava tradução: pague ou perca seu bem mais precioso. “Como 

você perdeu o seu, Tereza”, pensou Maria Helena. 


Maria Helena respeitou o silêncio de Álvaro e fingiu não perceber a sua súbita 

mudança de comportamento. Mas, precavida, fez contato com Claudio Silva, advogado 

amigo de infância de Álvaro e que fora seu colega de faculdade, pedindo-lhe que entrasse 

em contato com seu filho e buscasse ajudá-lo, no que foi prontamente atendida. 


*** 


 Os três dias mais longos da vida de Álvaro transcorreram sem que a dívida fosse 

paga. Conjuntamente com Claudio Silva – que, por coincidência, entrara em contato consigo 

justamente na noite daquela fatídica segunda-feira, 28 de novembro de 2016 –, Álvaro 

decidiu não opor embargos à execução. Simplesmente não encontrara matéria passível de 

alegação em sede de embargos. Nem queria brigar com Tereza, havia decidido. 


 Efetuada a penhora de suas quotas, arrastou-se o prazo de dois meses que o juiz 

estabeleceu para que a fábrica de velas apresentasse seu balanço especial. “Poderiam ter sido 

três meses”, pensou Álvaro, lembrando-se do prazo máximo disposto na legislação 

processual. Mas afastou a ideia de sua mente. Era estranho, mas, apesar de tudo, aquele 

processo era o que o mantinha ligado a Tereza. E a cada dia essa ideia se tornava mais 

persistente em sua cabeça. 


 O valor apurado das quotas, de cento e oitenta mil reais, não era suficiente para o 

integral pagamento da dívida. Diante dessa circunstância, ao ser avisado por Claudio Silva 

da existência de uma petição protocolizada por Tereza nos autos da execução, Álvaro logo 

deduziu tratar-se de um pedido de ampliação da penhora. Só não entendeu a insistência do 

amigo em que o encontrasse pessoalmente para conversarem. 


 - Tereza requereu a adjudicação das quotas para ela, Álvaro. – Claudio Silva foi direto 

ao ponto assim que sentaram ambos no bar situado quase em frente à casa de Álvaro – E o 

mais estranho: embora o Código de Processo Civil assegure à exequente a possibilidade de 

adjudicação por preço não inferior ao da avaliação e apesar de Tereza saber que Maria 

Helena não exerceria o direito de preferência dela, Tereza ofereceu pelo bem valor que 

corresponde ao da dívida atualizada e acrescida das custas e de honorários advocatícios de 

vinte por cento, o que parece ter sido feito em razão da possibilidade de majoração do 

percentual, mesmo sem que você tenha embargado à execução, levando-se em conta o 

trabalho realizado por Gastão Antunes, advogado dela. 


 - Não vou me opor – limitou-se a responder Álvaro. 

 - Está louco, amigo? – perguntou, incrédulo, Claudio Silva. Esta mulher permanecerá 

em sua vida para sempre desse jeito! Será sócia de sua mãe na fábrica que era de seu pai! 

 - Que assim seja, Claudio – Álvaro parecia irresolúvel – Nunca quis dever a Tereza. 

Teria dado minha casa a ela em pagamento, se tudo houvesse acontecido como havíamos 

pensado. Não o faço hoje porque minha mãe e eu não teríamos onde morar.  

 - Mas Álvaro... 

 - O maior valor que meu pai me ensinou foi a honestidade, Claudio. Meu erro foi ter 

aceitado aquela proposta de despedida de solteiro às vésperas do meu casamento. Disso é 

que mais me arrependo na vida: de ter perdido a Tereza. 

De súbito, a conversa foi interrompida por uma familiar voz feminina... 

 - Era esse meu maior pagamento, Álvaro. Ouvir de você uma confissão sincera de 

arrependimento. Não há prova de amor maior do que esta que acabo de receber. 

 Álvaro levantou-se de um salto: ali estava, diante de si, Tereza, olhos marejados com 

a confissão que acabara de escutar. Em choque, Álvaro mal conseguia falar. Nem sequer 

percebeu a presença de Maria Helena, um pouco mais distanciada, que a tudo assistia, 

avisada que tinha sido por Claudio de que o filho receberia uma notícia difícil de suportar. 

Álvaro e Tereza reconciliaram-se ali mesmo. Nem Claudio nem Maria Helena falaram nada. 

Não era o momento para qualquer intervenção de terceiro. 

  

*** 


Não houve adjudicação do bem penhorado; tampouco foi necessária a sua venda em 

leilão judicial. Álvaro pagou sua dívida do modo como sempre desejou: transferindo a 

Tereza parte de seu imóvel residencial. E ambos transferiram, um ao outro, parte de suas 

vidas. Casaram-se, como havia de ser. 


Os honorários advocatícios de Gastão Antunes foram pagos pela própria Tereza. O 

pagamento que ele efetivamente desejava, jamais recebeu: o amor de Tereza sempre fora, 

desde que conhecera Álvaro, bem fora do comércio. 


Maria Helena decidiu morar sozinha e aceitou vender a participação na sociedade 

para adquirir um imóvel próprio. A adquirente dessas quotas foi uma distinta senhora, de 

nome Tereza Lacerda Cruz. Desnecessário dizer que os instrumentos jurídicos conducentes à  

concretização desses negócios foram elaborados por Claudio Silva, agora advogado 

contratado da Fábrica, que está em plena expansão. 


Como Tereza chegou no bar, justamente a tempo de ouvir a confissão de Álvaro? Este 

é um daqueles mistérios que só a vida faz acontecer. 


E a Fábrica de Velas Cruz continua sendo dos Cruz. 



10 de janeiro de 2017 


sábado, 11 de abril de 2026

Triste Fim?

 




Rodolfo Pamplona Filho


Será o fim?

Triste fim...

Na verdade, tudo muda...

Só não muda a mudança...

Tudo muda...

As mudas voltarão a florescer...

e os mudos e os mundos também...

Por aí...

Os exemplos vão ficar

e os trilhos voltarão a se encaixar...

depois...


Salvador, 24 de agosto de 2013, batendo papo com Bernardo Lima no What's up..

sexta-feira, 10 de abril de 2026

SINO DE CARRANCAS





Helena Maria De Oliveira Siqueira


Não te vejo ...

mas te escuto ...

te escuto na calada da noite ...

te escuto na aurora ...

no correr do dia ...

te escuto quando chove ...

quando desperta os pássaros e me desperta também ...

Te escuto quando você eleva sua voz aos céus e me presenteia com a Ave Maria ...

Te escuto até mesmo quando alongas minhas noites e diminuis os meus dias ...

quando aceleras ou retardas os meus passos ...

Te escuto quando és o mensageiro de boas e de más notícias ...

Não te vejo ...

mas o nosso diálogo é harmonioso ...

você fala ...

eu te escuto ...

e nossa relação é de vida eterna ...

Te escuto quando só você me vê ...

Te escuto ainda quando não me vês porque estas meu coração  ...

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Cadáver Vivo

 





Rodolfo Pamplona Filho



Acordar, comer

Banhar-se, vestir

Trabalhar, beber

Deslocar-se, dormir

Não saber o que mais fazer?

Quem sabe, talvez, viver?

Ver que um dia passa

sem, de nada, achar graça

é finalmente perguntar:

será que morri e

me esqueceram de enterrar?



Salvador, 13 de junho de 2013, após uma sessão de analise junguiana.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Velho E A Flor

 





Vinicius de Moraes


Por céus e mares eu andei,

Vi um poeta e vi um rei

Na esperança de saber

O que é o amor.


Ninguém sabia me dizer,

Eu já queria até morrer

Quando um velhinho

Com uma flor assim falou:


O amor é o carinho,

É o espinho que não se vê em cada flor.

É a vida quando

Chega sangrando aberta

em pétalas de amor.


terça-feira, 7 de abril de 2026

Não ir


 


Rodolfo Pamplona Filho



Não ir

não é

necessariamente

perder

Não ir

pode ser

esperar

para ganhar,

refletir

para entender,

aguardar

para vencer

 


Salvador, 23 de setembro de 2020.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

O crivo do não saber da falsa esperança





Vitor Henrique


A vida  criva o agrado da falsa esperança em um fardo pesado, que nem  alça de uma calça que não laça. 

A impostora, a  mentirosa,  a farsante ou hipócrita falsa esperança.  

A ânsia do ancorar no Lar que leva a um destoar. 

Um aborrecimento, uma mentira ou tirania. Eis o crivo do livro vivo que construímos em uma falsa esperança do não saber.



Que guiado e liderado  pelo o sonhar que nos criva. 

Da incógnita cotidiana  do sonhar ou não sonhar? 

Acreditar ou não acreditar, para o  medo de nós arranhar e nos ferir no ir. 



Não vamos ancorar se não sonharmos. 

Não vamos acompanhar o marchar da maré. 

Não vamos nem ao menos ter lido o livro do não saber

Mas se for um houver do muro sem lucro. 

Das  as alegrias… 

das  alegorias das falácias que não devem ser cogitadas, digitadas, lidas e escritas. 

Das idas às ideias inobsoletas das Borboletas das letras da falsa esperança.

 


Mas, se não sonhar não teremos vivido o livro.  

Do amada do nada. 

Do rechear do cheirar do lar 

Do avistar até aterrar em uma terra do além mar

Para que o amarrar do amar, se torne lar. Eis, o livro do não saber do escrito, digitado ou cogitado.



O que fizeram, o que eu fiz e para onde fui. 

É foda, a cabeça lota em quotas de devaneio. 

Sujeira que me jogaram, amarraram e me deixaram em uma mar uivante de Abrantes.  

Não se iluda com a forma lúdica da localidade airosa, porque não existe rosas sem espinhos, nem que se for no pinho do seu ninho. 

Não importa a forma, a sonata está perdida em uma ida sem partida, mas com chegada aonada mais me consola.  



As solas nem estão gastas em lascas. Mas já sei que não há nada mais. 

Porque não há? 

Porque eu já disse, me sujaram, amarraram e me jogaram no meio do nada e eu não sei nadar, nem ao menos andar no desconhecido. 

Não sei que lugar é esse, 

Não sei se tenhas o nobre e o pobre, e se eles se importam em ouvir os meus pensamentos confusos tontos pela… a maré.   

A porta parece  torta,  cheias de discursos  de nenhures. Porque, donde eu veio pelos devaneios, não conheci achar meios a abrir. 



A cabeça tida madura, já sabe que a vida  é assim, dura igual uma pedra, que  que  esmurra em uma algazarra de sentimentos. 

Uma verdadeira surra de  momentos e tormentos em só lamentos. 

Não se engane ou encane, dizem que é apenas uma pane no sistema. 

Urge então a necessidade de saber, para não beber na fonte da ignorância, porque a ânsia em uma direção de uma ação, que nasce naquela  idade.

Naquela idade, em que você não vê as coisas do jeito que antes via. 

Você de per si, sabe que  a vida é assim, no sim ou no não, sempre serei o anão da pirâmide. 



Ahhh, se eu pudesse ja ter descobre está chave mestra para concertar ou atar os nós do que já se foi. 

Aos  amigos que você tem que não ligam, 

o  sinal de pane aparece e você não amanhece 

É, no verso da canção, no abrir da chave, que a ave ligeira já sabe antes  que você, que é só ela e mais nada. 

Não existe amor no clamor da dor de um sociedade doente. 

Quem fala que sim mente, pela  simples mediocridade que transforma a terra em letra de funeral. 

Não existe compaixão, nem paixão. 

Não existe nada além dessa vida, porque na ida, você sabe que  somos meros passageiros prestes a partir. 

Desligue os castelos do tetris, que moldam quem está certo ou errado na peça de encaixe, desligue a máquina, desligue a cina.  

Porque nada importa, nem a forma, nem o como e o porque.



O Turbilhão em um bilhão de reações. 

A falta de quem  não tem alta, por um amor verdadeiro, sincero, companheiro na jornada da vida, nem que se for para uma ida sem partida.

Incógnita que Incomoda, quase coca, roça a aguça por resposta. 

O meu eu tosta, queima, chamusca a sina da mina  da ocitocina com a dopamina. 

Não hesita, nessa usina de toxina a saber. 

Mas, quem me  dera saber a resposta para essa incógnita que me habita que não hesita. 



Quem me dera  as respostas, se nem sei quais são as perguntas, que me perfazem. 

É nessa usina, que ser zem não me fazem ir além do óbvio. 

Mas que me dera saber o que meu corpo quer beber? Se é nessa usina de ocitocina com dopamina que eu vivo até ir ao além, nem se for sem ou com a resposta. 

A incógnita nitra o que sei lá eu sou, só sei que zem eu não sou, nem com serotonina eu sou. 

Sou eu, um bilhão de reações sem lições de moralidade e eticidade.  

Sou eu quem caminha nessa mina de toxina e paixão em uma mansão sem uma lição a te dar.

Nem mandar a onde andar, porem a quem lhe vem apenas excitar o meu eu até onde for, nem que se for sem alem a algo que nem existe.

Sou eu turbilhão em um bilhão de reações com ações, sem lições, mas com desejos e medos.






domingo, 5 de abril de 2026

Fake News na Pandemia





Rodolfo Pamplona Filho


A Internet

deu voz

a quem não tem

o que dizer

e que acaba

dizendo

o que não consegue esconder:

a sua própria raiva,

ódio e ignorância,

misturados com a insegurança

de simplesmente

antipatizar

quem virou alvo

do seu difamar,

como se seu mal querer

pudesse justificar

ou verdade tornar

o fel que escorre

no íntimo do seu ser.


 


Salvador, 25 de julho de 2020

sábado, 4 de abril de 2026

Fui eu esse menino que me espia



  


Poema de Fernando Py (1935-2020)


– melancólico olhar, sereno rosto,


postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.


abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Estourando os Limites da Paciência

 



Rodolfo Pamplona Filho


A inteligência é limitada, 

a ignorância é infinita; 

a compreensão é bem ampla, 

a burrice extremamente restrita 

a tolerância é apaziguadora 

a idiotice procura confusão  

O respeito acalma  

A afronta acende pavios  

a paciência tem limites, 

que, se estourados, não voltam mais... 


 


Salvador, 25 de janeiro de 2021. 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A água em você

 






Negra Luz




Me diga que não precisa pensar na vida.

Me diga que não precisa pensar em você.

Se a resposta certa é o que espero,

Então me diga que pensa na água,

Ela está em você.


A água está em em mim

Está em você.

Sem ela, a fonte da vida é rio que seca.

Ressecam-se a fauna e a flora

E todo viver. 


Oxum e Yemanjá tem seus filhos

E abençoam com água

Salgada ou doce,

Abençoam o nosso viver.


Se tens fé nas Águas,

Da água deve cuidar,

Pensar nas nascente, 

Nos mares 

E nas suas vidas.

Em não poluir, revitalizar,

Proteger o que temos

Rever desperdícios e perdas ajudam a resolver.


Se já bebeu água com sede,

Sabe o que é não ter...

Por um segundo e urgimos sem ela.

Imagine o pior dos mundos sem a ter!


Me diga que não precisa pensar na vida.

Me diga que não precisa pensar em você,

Se a resposta certa é o que espero,

Então me diga que pensa na água,

Ela está em você.




quarta-feira, 1 de abril de 2026

Relacionamento



 



Rodolfo Pamplona Filho



Vou embora! 

Não fico mais aqui! 

Estou arrumando as minhas coisas! 

Vou sair! 

Tchau 

(...) 


“Você não vai correr atrás de mim?” 

terça-feira, 31 de março de 2026

segunda-feira, 30 de março de 2026

Sobre Limites da Inteligência

 



Rodolfo Pamplona Filho


Há pessoas que 

realmente não aprendem: 

por mais que se ensine, 

por mais esforço que se faça, 

não adianta dar dicas, 

não servem os exemplos, 

não prestam os métodos, 

é inútil a pedagogia... 

toda vez que o indivíduo 

pode falhar, 

nisto não decepcionará, 

pois a inteligência tem limite, 

mas a ignorância é infinita... 


 


Salvador, 05 de janeiro de 2021. 

domingo, 29 de março de 2026

Desnuda

 





(Negra Luz)



A poesia não me permite conter me em segredos.

Ela sussurra, através dos meus versos, o que não escrevi:

Traduz em onomatopeias meus sentimentos,

Cochicha pelas entrelinhas, expõe me nos acentos,

Quando findo uma estrofe, ela ainda fala por mim.

Um delatora camuflada por metáforas e rimas,

Revela a métrica do que escrevo e, quando menos espero,

Me vejo desnuda diante de ti:

Meu leitor, minha leitora.

sábado, 28 de março de 2026

Sabe...

 



Rodolfo Pamplona Filho



Sabe ...  

por vezes, esperei  

uma reposta sua,  

mas não entendi  

que já respondera 

da forma mais pura... 



Sabe... 

Talvez não tenha  

tido ouvidos para  

ouvir o silêncio... 

sei que ele é música, 

por vezes ensurdecedora 

por vezes detentora 

de todos os sentidos... 

 


Sabe... 

Você me respondeu  

tantas vezes  

e eu não escutei... 

O vazio é uma reposta  

que também nos é imposta... 


Será a pandemia? 

Será o dia a dia? 

Será falta de razão? 

Ou foi o grande coração? 

Não sei,  

só sei  

é só você  

sabe... 

que você respondeu  

e eu não ouvia.  


 


Salvador, 5 de fevereiro de 2021.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Retrato

 



Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

a minha face?





quinta-feira, 26 de março de 2026

Peguete

 



Rodolfo Pamplona Filho



Peguete é prazer  

sem ter chateação; 

é aproveitar o corpo, 

o beijo 

e a companhia  

sem dar satisfação; 

é saber desfrutar  

o que a vida proporcionar, 

sem se preocupar  

com a conta a pagar  

ou ter de explicar 

o rumo a tomar  

ou a intenção a falar... 

é simplesmente viver o hoje 

sem pensar no amanhã... 



Salvador, 15 de janeiro de 2021. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

O Amor é assim

  





Márcio Berto Alexandrino de Oliveira


O Amor é assim,

quando menos se espera floresce, passa por percalços,

mas quando é verdadeiro nunca se acaba.

Apesar do tempo, da distância, das adversidades, das diferenças,

O Amor continua resplandecendo como o brilho da lua cheia, porque o amor verdadeiro não perece, não se vangloria, não guarda rancor,

O Amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.

O Amor não se cobra, não se acha nas vitrines, não tem valor pecuniário, é algo maior do que isso, é magnífico, é sublime.

É a mais pura manifestação de sentimento.

É obra de Deus.

É para sempre!





terça-feira, 24 de março de 2026

Comunicação

 




Rodolfo Pamplona Filho


A maior distância  

entre duas pessoas 

é o mal-entendido 


O maior abismo  

entre dois seres  

é não ser compreendido  


Meias palavras 

Frases não ditas 

Falta de diálogo  



Ausência de interação  

Gap de cognição  

Problemas de comunicação  


 


Salvador, 25 de janeiro de 2021.