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sábado, 3 de outubro de 2026

Tietê

 


Ieda Estergilda



No caldo grosso do rio


derramei lágrimas de tristeza e mágoa


pela águas urbanas, paulistanas, devastadas.


Ontem peixes e barcos, hoje leito fedido


na capital


esse rio vive além da lama


dos cadáveres encalhados


dos esgotos que desembocam nele


esse rio em que acredito


pois salvar é coisa dos homens


mesmo que tarde.




Um rio


é uma beleza, um ser


o Tietê é uma beleza ferida


uma ferida que brilha


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Tântalos



 Inácio Raposo



Não pode ter de certo os olhos sempre enxutos


Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:


Sedento — vê debalde um córrego infinito;


Faminto — vê debalde os floridos produtos!...


Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,


Leve talvez pareça um bárbaro delito!...


Foge sempre a torrente ao mísero precito


E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!






Há Tântalos também na vida transitória:


Querem estes a lympha e os pomos do talento,


E morrem no hospital para viver na história.






Desditosos que são... no malogrado intento!...


Longe de haverem ganho os loiros da vitória,


Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!

domingo, 27 de setembro de 2026

Lembrança

 


 Oswald Barroso



A lua te recordará


a branca noite


em que ela se despiu


e, vermelha,


se fez cúmplice


do nosso amor.




O mar te lembrará


nosso costume


de caminhar nas tardes


até o horizonte,


pois que o mar


também é cúmplice


dos namorados distantes.








E quando vires, amor,


num vão de céu


uma estrela,


tu não chorarás,


porque, então,


aprenderás o meu caminho.








Mas, quando o povo


andar triste pelos becos,


tu saberás do meu luto


e sentirás a dor


da dura separação.






Porém, se a multidão


ensaiar um canto,


tu saberás do meu riso


e nela me encontrarás.


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

RETROSPECTO




Humberto de Campos


Vinte e seis anos, trinta amores: trinta


vezes a alma de sonhos fatigada.


e, ao fim de tudo, como ao fim de cada


amor, a alma de amor sempre faminta!


 


Ó mocidade que foges! brada


aos  meus ouvidos teu futuro, e pinta


aos meus olhos mortais, com toda a tinta,


os remorsos da vida dissipada!


 


Derramo os olhos por mim mesmo... 


E, nesta muda consulta ao coração cansado,


que é que vejo? que sinto?  que me resta?


 


Nada: ao fim do caminho percorrido,


o ódio de trinta vezes ter jurado


e o horror de trinta vezes ter mentido!


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Má Vontade





 Rodolfo Pamplona Filho



Má vontade é tudo de ruim!



É muito difícil lidar 


com quem se acha com razão 


e não dá espaço 


para fazer outra programação








Má vontade é uma droga!


Não há como conversar 


com quem não admite repensar 


a atitude tempestuosa


que somente tem o dom de perturbar 








Má vontade é uma praga!


Só dá mesmo para lamentar 


a empáfia de quem tem certeza 


de que todo erro é alheio


e todo mau resultado não é sua culpa.








Má vontade é uma merda, viu? 








Salvador, 05  de novembro de 2020 

domingo, 20 de setembro de 2026

Momentos Felizes





 Rodolfo Pamplona Filho







Quando estamos tristes,


lembranças felizes 


nos fazem seguir,


mesmo que não saibamos


para onde vamos.








Quando estamos para baixo,


memórias felizes


nos fazem sorrir,


mesmo sem muito tempo


para respirar 








Quando estamos depressivos,


momentos felizes 


despertam a sensação 


de que, em algum lugar do passado,


já houve esperança de um futuro melhor.








Terça-feira, 10 de novembro de 2020


terça-feira, 8 de setembro de 2026

Eu não gosto de paredes brancas

 




Rodolfo Pamplona Filho

 


Eu não gosto de paredes brancas

Elas me trazem uma sensação de limpeza

parecendo um ambiente de hospital

incompatível com a vida real

impossível no mundo normal


 Eu não gosto de paredes brancas


Elas parecem uma tela em branco

em que não se pode escrever,

como um manto imaculado a esconder

uma vida proibida de viver


Eu não gosto de paredes brancas


Elas soam como a água ideal:

Inodora, incolor e insípida!

Eu só gosto de paredes brancas

como um convite para novas criações!



Salvador, 10 de junho de 2022.


domingo, 6 de setembro de 2026

Frustração



 


Como lidar

com a frustração

quando mal se dá conta

de si próprio?


O desejo é ilimitado

e os recursos

da realidade

são finitos…


Assim, se percebe

a inevitabilidade

do sentimento;

a força

do constrangimento;

a imperatividade

do sofrimento.



Salvador, 02 de junho de 2023.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Agonia (Soneto pelo avesso)



Rodolfo Pamplona Filho


Agonia


Angústia


Tensão




Stress


Impotência


Confusão




Vontade de sumir


e nunca mais aparecer...


Desejo sincero


de nunca mais acontecer...




Pensar se há alternativa


para o que não se soluciona


com toda a fé na medicina


em questão que não se equaciona




Salvador, 26 de fevereiro de 2012.


domingo, 9 de agosto de 2026

Como?

 


Como conviver

com alguém que

não sabe a diferença

entre amar e sofrer?


Como manter a sanidade

se tudo que te faz mal

é o que mundo

chama de normal?


Como tentar sobreviver

se o que deseja

é o que te mata

lentamente?



Salvador, madrugada de 02 de setembro de 2023.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Frustração

 



 

Rodolfo Pamplona Filho

 


Como lidar

com a frustração

quando mal se dá conta

de si próprio?



O desejo é ilimitado

e os recursos

da realidade

são finitos…


Assim, se percebe

a inevitabilidade

do sentimento;

a força

do constrangimento;

a imperatividade

do sofrimento.


 

Salvador, 02 de junho de 2023.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Fui Eu



 


Poema de Fernando Py (1935-2020)



Fui eu esse menino que me espia

– melancólico olhar, sereno rosto,

postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.



abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)





quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sim, tudo




(Negra Luz)






Tudo estalo.


Tudo audiência.


Tudo click.


Tudo emoji.


Tudo Bauman.


Tudo calefação.


Tudo João!


Tudo George!


Tudo Miguel!


Tudo triste.


Tudo “migué”.


Tudo RACISMO.








sábado, 4 de abril de 2026

Fui eu esse menino que me espia



  


Poema de Fernando Py (1935-2020)


– melancólico olhar, sereno rosto,


postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.


abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)

sábado, 15 de novembro de 2025

Sim, tudo








(Negra Luz)



Tudo estalo.

Tudo audiência.

Tudo click.

Tudo emoji.

Tudo Bauman.

Tudo calefação.

Tudo João!

Tudo George!

Tudo Miguel!

Tudo triste.

Tudo “migué”.

Tudo RACISMO.





domingo, 31 de agosto de 2025

Agonia (Soneto pelo avesso)


 







Rodolfo Pamplona Filho






Agonia


Angústia


Tensão




Stress


Impotência


Confusão




Vontade de sumir


e nunca mais aparecer...


Desejo sincero


de nunca mais acontecer...




Pensar se há alternativa


para o que não se soluciona


com toda a fé na medicina


em questão que não se equaciona




Salvador, 26 de fevereiro de 2012.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Como?



 




Rodolfo Pamplona Filho

 


Como conviver


com alguém que


não sabe a diferença


entre amar e sofrer?


 


Como manter a sanidade


se tudo que te faz mal


é o que mundo


chama de normal?


 


Como tentar sobreviver


se o que deseja


é o que te mata


lentamente?


 


Salvador, madrugada de 02 de setembro de 2023.

domingo, 3 de agosto de 2025

Sim, tudo.







(Negra Luz)



Tudo estalo.

Tudo audiência.

Tudo click.

Tudo emoji.

Tudo Bauman.

Tudo calefação.

Tudo João!

Tudo George!

Tudo Miguel!

Tudo triste.

Tudo “migué”.

Tudo RACISMO.




quinta-feira, 31 de julho de 2025

“Cidadão não. Engenheiro civil, formado. Melhor do que você"




Rodolfo Pamplona Filho


“Cidadão não.”

Desde quando

a profissão

é melhor

do que a satisfação

de ser tratado

com a dignidade

de ser parte da cidade?


“Engenheiro civil, formado.”

Desde quando

alguém pode ostentar

uma qualificação

sem ter sequer

a sua graduação?


“Melhor do que você"

Desde quando

a obtenção

de uma formação

torna um ser humano

melhor do que outro?


Tempos difíceis

em que os preconceitos

saíram das mentes abjetas

para se tornar parte

de algumas metas....


Tempos complicados

em que a discriminação

soa como ostentação

de desprezar a simpatia,

ignorar a empatia,

desconhecer a alteridade

e rir da solidariedade.


Salvador, 05 de julho de 2020, uma segunda-feira de perplexidade...

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Fui Eu

 









Fui eu esse menino que me espia

– melancólico olhar, sereno rosto,

postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.


abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)


Poema de Fernando Py (1935-2020)