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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

José




(Carlos Drummond de Andrade)


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?E agora, José?

sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, – e agora?Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Canção do Exílio

 







(Gonçalves Dias)


Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Aquarela do Brasil






Ary Barroso




Brasil


Meu Brasil brasileiro


Meu mulato inzoneiro


Vou cantar-te nos meus versos


Ô Brasil, samba que dá


Bamboleio, que faz gingá


Ô Brasil do meu amor


Terra de Nosso Senhor


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Ô, abre a cortina do passado


Tira a Mãe Preta do serrado


Bota o Rei Congo no congado


Brasil! Brasil!


Deixa cantar de novo o trovador


À merencória luz da lua


Toda canção do meu amor


Quero ver a “Sá Dona” caminhando


Pelos salões arrastando


O seu vestido rendado


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Brasil


terra boa e gostosa


Da morena sestrosa


De olhar indiscreto


Ô Brasil, verde que dá


Para o mundo se admirá


Ô Brasil do meu amor


Terra de Nosso Senhor


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Ô, esse coqueiro que dá côco


Oi, onde amarro a minha rêde


Nas noites claras de luar


Brasil! Brasil!


Ah, ouve essas fontes murmurantes


Aonde eu mato a minha sede


E onde a lua vem brincá


Ah, este Brasil lindo e trigueiro


É o meu Brasil brasileiro


Terra de samba e pandeiro


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…


segunda-feira, 29 de junho de 2026

Ironia ou faceta





(Negra Luz)



Não há surpresa!


O homem agoniza o que a sua mãe vem agonizando...


Falta-se oxigênio no Pulmão do Mundo.


O povo amazonense é mais um filho deste Pulmão.

Agoniza o que já é agonia para Amazônia: 


Nas matas, o fogo, a seca, levou fauna, levou flora, secou córrego, obriga indígena a sair do seu lugar.


Há fotografias dessa triste realidade,


Que muitos querem camuflar.


Gasta-se milhões para encomendar novo satélite,


Economiza-se com a fiscalização. 


Paradoxos ou faces da mesma moeda...


Uma alimentada pela outra.


Agora é a vida humana que está a agonizar...


Exaurimento de um crime complexo,


Anunciado por cada metro quadrado de mata que foi...


Vidas seguem arfando pelo Oxigênio 


O povo caboclo importa!


Mas são parte de um ecossistema maior: Amazônia. 


E ela é Brasil! 


E ela é Mundo!


E ela é nosso Pulmão!


E nela o nosso Oxigênio!

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Pretos e pretas também sabem




(Negra Luz)



Pretos e pretas também sabem…


Sabem de sentimento, de dengo.


Sabem de chamego,


Alforriar-se dos próprios medos,


Entregar-se


E viver o amor.




Pretos e pretas também sabem…


Sabem de alegria e de festa.


Sabem de beijo na testa,


Namorar com delicadezas,


Acarinhar-se


E trazer rosas na mão.




As cicatrizes, ainda espessas, sangram


E, para muitos e muitas, é ferida recente!


Fruto de prática perversa...


Retintam o preto e a preta,


Nutrem a idéia de que preto e preta tem couraça,


De que vida de preto e de preta é ciclo sem fim de dor.




Das tintas impostas retiramos tudo,


Pretos e pretas são pretos e pretas 


E nossa pele não é couro.


O que foi chicoteado e sangrado foi o nosso escudo.


Ele é ancestral… Segue.


Os que não sobreviveram se integraram a ele,


Os sobreviventes foram mais fortalecidos,


 E, assim,


Pretos e pretas seguem….


E sabem


Amar!


Amar suas mulheres 


Seus maridos,


Seus filhos e filhas,


Suas famílias,


Seus amigos e amigas...




Talvez seja este o nosso maior ato de resistência:


Pretos e pretas saberem amar.


Saberem sorrir,


Saberem viver com alegria.


Saberem viver o amor.


E sabe por quê?


Na essência,


A nossa alma é alforriada!


Subjugaram, historicamente, os nossos corpos,


Mas, ainda que tenham investido na total desumanização de pretos e pretas,


Não alcançaram integralmente a liberdade


Do nosso coração,


Do nosso pensar,


Do nosso sentir.


E, assim,


Resistimos!


E, assim, a nossa resistência:


Pretos e pretas sabem


AMAR.


quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sim, tudo




(Negra Luz)






Tudo estalo.


Tudo audiência.


Tudo click.


Tudo emoji.


Tudo Bauman.


Tudo calefação.


Tudo João!


Tudo George!


Tudo Miguel!


Tudo triste.


Tudo “migué”.


Tudo RACISMO.








quinta-feira, 30 de abril de 2026

Canção do Exílio





Murilo Mendes



Minha terra tem macieiras da Califórnia


onde cantam gaturamos de Veneza.


Os poetas da minha terra


são pretos que vivem em torres de ametista,


os sargentos do exército são monistas, cubistas,


os filósofos são polacos vendendo a prestações.


A gente não pode dormir


com os oradores e os pernilongos.


Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.


Eu morro sufocado


em terra estrangeira.


Nossas flores são mais bonitas


nossas frutas mais gostosas


mas custam cem mil réis a dúzia.






Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade


e ouvir um sabiá com certidão de idade!




In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

domingo, 5 de abril de 2026

Fake News na Pandemia





Rodolfo Pamplona Filho


A Internet

deu voz

a quem não tem

o que dizer

e que acaba

dizendo

o que não consegue esconder:

a sua própria raiva,

ódio e ignorância,

misturados com a insegurança

de simplesmente

antipatizar

quem virou alvo

do seu difamar,

como se seu mal querer

pudesse justificar

ou verdade tornar

o fel que escorre

no íntimo do seu ser.


 


Salvador, 25 de julho de 2020

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Canção do Exílio

 

 







Murilo Mendes




Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.



Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!


In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959


sábado, 15 de novembro de 2025

Sim, tudo








(Negra Luz)



Tudo estalo.

Tudo audiência.

Tudo click.

Tudo emoji.

Tudo Bauman.

Tudo calefação.

Tudo João!

Tudo George!

Tudo Miguel!

Tudo triste.

Tudo “migué”.

Tudo RACISMO.





sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Ironia ou faceta



 






(Negra Luz)




Não há surpresa!


O homem agoniza o que a sua mãe vem agonizando...


Falta-se oxigênio no Pulmão do Mundo.


O povo amazonense é mais um filho deste Pulmão.


Agoniza o que já é agonia para Amazônia: 


Nas matas, o fogo, a seca, levou fauna, levou flora, secou córrego, obriga indígena a sair do seu lugar.


Há fotografias dessa triste realidade,


Que muitos querem camuflar.


Gasta-se milhões para encomendar novo satélite,


Economiza-se com a fiscalização. 


Paradoxos ou faces da mesma moeda...


Uma alimentada pela outra.


Agora é a vida humana que está a agonizar...


Exaurimento de um crime complexo,


Anunciado por cada metro quadrado de mata que foi...


Vidas seguem arfando pelo Oxigênio 


O povo caboclo importa!


Mas são parte de um ecossistema maior: Amazônia. 


E ela é Brasil! 


E ela é Mundo!


E ela é nosso Pulmão!


E nela o nosso Oxigênio!

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Fake News na Pandemia



 


Rodolfo Pamplona Filho



A Internet

deu voz

a quem não tem

o que dizer

e que acaba

dizendo

o que não consegue esconder:

a sua própria raiva,

ódio e ignorância,

misturados com a insegurança

de simplesmente

antipatizar

quem virou alvo

do seu difamar,

como se seu mal querer

pudesse justificar

ou verdade tornar

o fel que escorre

no íntimo do seu ser.



Salvador, 25 de julho de 2020

sábado, 1 de novembro de 2025

Pretos e pretas também sabem

 



(Negra Luz)




Pretos e pretas também sabem…

Sabem de sentimento, de dengo.

Sabem de chamego,

Alforriar-se dos próprios medos,

Entregar-se

E viver o amor.


Pretos e pretas também sabem…

Sabem de alegria e de festa.

Sabem de beijo na testa,

Namorar com delicadezas,

Acarinhar-se

E trazer rosas na mão.


As cicatrizes, ainda espessas, sangram

E, para muitos e muitas, é ferida recente!

Fruto de prática perversa...

Retintam o preto e a preta,

Nutrem a idéia de que preto e preta tem couraça,

De que vida de preto e de preta é ciclo sem fim de dor.


Das tintas impostas retiramos tudo,

Pretos e pretas são pretos e pretas 

E nossa pele não é couro.

O que foi chicoteado e sangrado foi o nosso escudo.

Ele é ancestral… Segue.

Os que não sobreviveram se integraram a ele,

Os sobreviventes foram mais fortalecidos,

 E, assim,

Pretos e pretas seguem….

E sabem

Amar!

Amar suas mulheres 

Seus maridos,

Seus filhos e filhas,

Suas famílias,

Seus amigos e amigas...


Talvez seja este o nosso maior ato de resistência:

Pretos e pretas saberem amar.

Saberem sorrir,

Saberem viver com alegria.

Saberem viver o amor.

E sabe por quê?

Na essência,

A nossa alma é alforriada!

Subjugaram, historicamente, os nossos corpos,

Mas, ainda que tenham investido na total desumanização de pretos e pretas,

Não alcançaram integralmente a liberdade

Do nosso coração,

Do nosso pensar,

Do nosso sentir.

E, assim,

Resistimos!

E, assim, a nossa resistência:

Pretos e pretas sabem

AMAR.

domingo, 5 de outubro de 2025

Ironia ou faceta







(Negra Luz)




Não há surpresa!


O homem agoniza o que a sua mãe vem agonizando...


Falta-se oxigênio no Pulmão do Mundo.


O povo amazonense é mais um filho deste Pulmão.


Agoniza o que já é agonia para Amazônia: 


Nas matas, o fogo, a seca, levou fauna, levou flora, secou córrego, obriga indígena a sair do seu lugar.


Há fotografias dessa triste realidade,


Que muitos querem camuflar.


Gasta-se milhões para encomendar novo satélite,


Economiza-se com a fiscalização. 


Paradoxos ou faces da mesma moeda...


Uma alimentada pela outra.


Agora é a vida humana que está a agonizar...


Exaurimento de um crime complexo,


Anunciado por cada metro quadrado de mata que foi...


Vidas seguem arfando pelo Oxigênio 


O povo caboclo importa!


Mas são parte de um ecossistema maior: Amazônia. 


E ela é Brasil! 


E ela é Mundo!


E ela é nosso Pulmão!


E nela o nosso Oxigênio!





quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Aquarela do Brasil

 



Ary Barroso




Brasil


Meu Brasil brasileiro


Meu mulato inzoneiro


Vou cantar-te nos meus versos


Ô Brasil, samba que dá


Bamboleio, que faz gingá


Ô Brasil do meu amor


Terra de Nosso Senhor


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Ô, abre a cortina do passado


Tira a Mãe Preta do serrado


Bota o Rei Congo no congado


Brasil! Brasil!


Deixa cantar de novo o trovador


À merencória luz da lua


Toda canção do meu amor


Quero ver a “Sá Dona” caminhando


Pelos salões arrastando


O seu vestido rendado


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Brasil


terra boa e gostosa


Da morena sestrosa


De olhar indiscreto


Ô Brasil, verde que dá


Para o mundo se admirá


Ô Brasil do meu amor


Terra de Nosso Senhor


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…




Ô, esse coqueiro que dá côco


Oi, onde amarro a minha rêde


Nas noites claras de luar


Brasil! Brasil!


Ah, ouve essas fontes murmurantes


Aonde eu mato a minha sede


E onde a lua vem brincá


Ah, este Brasil lindo e trigueiro


É o meu Brasil brasileiro


Terra de samba e pandeiro


Brasil! Brasil!


Prá mim… prá mim…


domingo, 3 de agosto de 2025

Sim, tudo.







(Negra Luz)



Tudo estalo.

Tudo audiência.

Tudo click.

Tudo emoji.

Tudo Bauman.

Tudo calefação.

Tudo João!

Tudo George!

Tudo Miguel!

Tudo triste.

Tudo “migué”.

Tudo RACISMO.




quinta-feira, 31 de julho de 2025

“Cidadão não. Engenheiro civil, formado. Melhor do que você"




Rodolfo Pamplona Filho


“Cidadão não.”

Desde quando

a profissão

é melhor

do que a satisfação

de ser tratado

com a dignidade

de ser parte da cidade?


“Engenheiro civil, formado.”

Desde quando

alguém pode ostentar

uma qualificação

sem ter sequer

a sua graduação?


“Melhor do que você"

Desde quando

a obtenção

de uma formação

torna um ser humano

melhor do que outro?


Tempos difíceis

em que os preconceitos

saíram das mentes abjetas

para se tornar parte

de algumas metas....


Tempos complicados

em que a discriminação

soa como ostentação

de desprezar a simpatia,

ignorar a empatia,

desconhecer a alteridade

e rir da solidariedade.


Salvador, 05 de julho de 2020, uma segunda-feira de perplexidade...

terça-feira, 22 de julho de 2025

Memórias da minha tradição

 





Negra Luz




A flores em crepom na mesa.

No teto, as bandeirolas.

No xote, chamegos.

No xaxado, estórias.

Baião ou sertanejo.

Quentão mandingueiro.

O povo da roça saindo à chita,

Dançando quadrilha em busca de glória.

Na mesa, a fartura:

Canjica, milho cozido,

Bolo de carimã e de aipim.

Amendoim,nem te conto, farinha para mim.

Sou nordestina.

Junina de coração.

Os fogos, que em mim acendem,

Formam fogueiras de emoção.

Giro o Mundo, nada esqueço.

Essa a minha tradição.

Era janeiro!

Era verão!

O sol altaneiro!

Tudo memórias!

Tudo saudade de meu São João!

terça-feira, 15 de julho de 2025

Arrogância na Pandemia

 




Rodolfo Pamplona Filho



“Sabe com quem

você está falando?

Não entende bem

quem está no comando?”


Arrogância

Espírito mau

Petulância

Cara de pau

Dizer: não fiz nada!

Tripudiar

Dar carteirada

Humilhar

Ter a habilidade

de incomodar

autoridades

para livrar

a própria cara

e mandar colocar

no seu devido lugar

quem está

apenas a cumprir

o seu dever

de servir...


E toda essa empáfia

de desfazer do trabalho alheio:

Jogando as multas na cara

de quem mexeu no vespeiro

é somente para arrotar

a sua condição especial

de cidadão exemplar

que defende o social

e que, por isso, é vítima,

e não agressor...

em uma farsa ilegítima,

um verdadeiro complô,

envolvido em um esquema

decorrente do sistema

do que se joga no ventilador...


Salvador, 19 de julho de 2020.

terça-feira, 17 de junho de 2025

 






Chico Buarque de Holanda

       


O meu pai era paulista

Meu avô, pernambucano

O meu bisavô, mineiro

Meu tataravô, baiano

Meu maestro soberano

Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro

Quem soprou esta toada

Que cobri de redondilhas

Pra seguir minha jornada

E com a vista enevoada

Ver o inferno e maravilhas


Nessas tortuosas trilhas

A viola me redime

Creia, ilustre cavalheiro

Contra fel, moléstia, crime

Use Dorival Caymmi

Vá de Jackson do Pandeiro


Vi cidades, vi dinheiro

Bandoleiros, vi hospícios

Moças feito passarinho

Avoando de edifícios

Fume Ari, cheire Vinícius

Beba Nelson Cavaquinho


Para um coração mesquinho

Contra a solidão agreste

Luiz Gonzaga é tiro certo

Pixinguinha é inconteste

Tome Noel, Cartola, Orestes

Caetano e João Gilberto


Viva Erasmo, Ben, Roberto

Gil e Hermeto, palmas para

Todos os instrumentistas

Salve Edu, Bituca, Nara

Gal, Bethania, Rita, Clara

Evoé, jovens a vista


O meu pai era paulista

Meu avô pernambucano

O meu bisavô, mineiro

Meu tataravô baiano

Vou na estrada há muitos anos

Sou um artista brasileiro