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domingo, 24 de dezembro de 2023

Vaidade

 




Florbela Espanca


                                           A um grande poeta de Portugal

 


Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade !


Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo ! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade !

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a Terra anda curvada !



E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Livro de mágoas (1919)


 


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Envelhecer

 



Bastos Tigre


Entra pela velhice com cuidado,

Pé ante pé, sem provocar rumores

Que despertem lembranças do passado,

Sonhos de glória, ilusões de amores.


Do que tiveres no pomar plantado,

Apanha os frutos e recolhe as flores

Mas lavra ainda e planta o teu eirado

Que outros virão colher quando te fores.


Não te seja a velhice enfermidade!

Alimenta no espírito a saúde!

Luta contra as tibiezas da vontade!


Que a neve caia! o teu ardor não mude!

Mantém-te jovem, pouco importa a idade!

Tem cada idade a sua juventude.

sábado, 26 de novembro de 2022

Vaidade

 




Florbela Espanca



A um grande poeta de Portugal



Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade !



Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo ! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade !

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !



Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a Terra anda curvada !



E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Livro de mágoas (1919)


segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Vaidade

 Florbela Espanca



                                         

Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade !



Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo ! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade !

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !



Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a Terra anda curvada !



E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Livro de mágoas (1919)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Olha lá






Paula Yurie Abiko


Olha lá

Aquele indivíduo apontando dedo

Como se soubesse todo o enredo

Do que está por vir nesse mundo

Acha que o conhecimento do mundo

Cabe na sua cabeça apenas

Como a sua única verdade deveras

De acreditar ser o dono da verdade

Que vaidade!

Mal sabia que não conhecia

Metade do que dizia

Ou achava que conhecia

Contudo julgava os outros

Apontando-lhe os dedos frouxos

Como se todos estivessem sempre

Com seus ouvidos moucos

É absurdo

Querer sempre estar certo

Num mundo cada vez mais incompleto

Cheio de fissuras e agruras

E estes não percebiam

Que assim cada vez mais permaneciam

Fechados para explorar o entorno de mundo

Com tudo o que é mais visado

Que sarro

Até parece que quando sair desse mundo

Levará estampado em sua lápide

Todo o conhecimento e toda sua vaidade

O que vale mesmo está sendo jogado

Ao lado de tudo que nos é pautado

Para sermos na vida e almejar

De que vale suas certezas se irá agonizar

Na busca incessante do ego acreditar

Que era o único certo e sem pestanejar

O dono do mundo irá perceber

Que nessa vida só vale mesmo o que fizemos


Por merecer…


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Olha lá



Paula Yurie Abiko


Olha lá

Aquele indivíduo apontando dedo

Como se soubesse todo o enredo

Do que está por vir nesse mundo

Acha que o conhecimento do mundo

Cabe na sua cabeça apenas

Como a sua única verdade deveras

De acreditar ser o dono da verdade

Que vaidade!

Mal sabia que não conhecia

Metade do que dizia

Ou achava que conhecia

Contudo julgava os outros

Apontando-lhe os dedos frouxos

Como se todos estivessem sempre

Com seus ouvidos moucos

É absurdo

Querer sempre estar certo

Num mundo cada vez mais incompleto

Cheio de fissuras e agruras

E estes não percebiam

Que assim cada vez mais permaneciam

Fechados para explorar o entorno de mundo

Com tudo o que é mais visado

Que sarro

Até parece que quando sair desse mundo

Levará estampado em sua lápide

Todo o conhecimento e toda sua vaidade

O que vale mesmo está sendo jogado

Ao lado de tudo que nos é pautado

Para sermos na vida e almejar

De que vale suas certezas se irá agonizar

Na busca incessante do ego acreditar

Que era o único certo e sem pestanejar

O dono do mundo irá perceber

Que nessa vida só vale mesmo o que fizemos


Por merecer…


terça-feira, 11 de julho de 2017

Envelhecer

Bastos tigre





Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glória, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores
Mas lavra ainda e planta o teu eirado
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde!
Luta contra as tibiezas da vontade!

Que a neve caia! o teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude.

domingo, 15 de novembro de 2015

Vaidade

 Florbela Espanca





                                          A um grande poeta de Portugal



Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !


Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada !


E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...


Livro de mágoas (1919)