segunda-feira, 6 de julho de 2026

Soneto do Cão Guia



 Rodolfo Pamplona Filho



Em ruas densas de rumor e movimento,


surge o fiel condutor da travessia;


guiando passos com sereno alento,


converte sombra hostil em harmonia.


 


Percebe o risco oculto ao caminhar,


desvia abismos, grades, multidão;


ensina o mundo inteiro a enxergar


que há dignidade em cada direção.


 


Não é somente auxílio em locomoção,


mas liberdade viva e verdadeira;


é ponte erguida contra a exclusão.


 


Seu trote firme rompe a fronteira


que separava acesso e condição,


convertendo a companhia em inclusão.


 


Salvador, 09 de maio de 2026.

domingo, 5 de julho de 2026

Seja e esteja Feliz!






Paulo Basílio - 01/08/2020






Hoje, quero mais é ser,


Ser humano,


Ser pessoa.


Importar menos com coisa.






Cansado que querer


Ter e continuar a manter


Mesmo que só na aparência,


Tranquilidade na sobrevivência.






Ser e estar.


Não tem melhor solução.


Ser feliz e estar contente.






Ter isto na mente


E no nosso coração.


Sempre seja e esteja.









sábado, 4 de julho de 2026

Desanimado, Desequilibrado e Desconfiado


 




Rodolfo Pamplona Filho



Quer-se viver


uma convivência Dez


mas o que mais se tem


é um relacionamento Des:


Desanimado,


Desequilibrado,


Desconfiado…


 


E é assim:


Descontrolado


Desesperado


Desesperado


que se vai sobrevivendo…


 


Falta a base


para a construção


de uma real intimidade,


a vivência no giro do ciclo da vida


 


O valor dessa intimidade


tende a prevalecer


na medida em que o tempo passa


 


Pois tudo pesa


A confiança pesa


O sexo pesa


O social pesa


 


E não há o que fazer…


O que é somente de uma parte


não pode ser tratado por terceiros


 


Por mais que seja fiel


Por mais que seja amoroso


Por mais que seja receptivo


 


Por mais que seja animado,


equilibrado e confiável,


não se pode mudar


o que não depende


verdadeiramente de si.


 


Macapá, 21 de maio de 2026.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O que me atrai





 (Negra Luz)






Olhos... que não me acuam em padrões, 


Que me enxergam inteira,


Que me desnudam vestida.


Viril!








Boca... que não deprecia ninguém,


Que dialoga com paz,


Que beija como vento.


Lindo!








Mãos... que não violentam,


Que trabalham e buscam sonhos,


Que abraçam me acolhendo.


Gostoso!








Ombros... que não me oprimem,


Que estejam ao lado,


Que estejam disponíveis pertinho de mim.


Safado!








Peitos... que não inflem, subjugando-me,


Que compartilhem suas vitórias,


Que construam comigo as trilhas de si.


Muralha!








Barriga... que não se esqueça o que é vida,


Que não conte as minhas estrias,


Que entenda as entrelinhas em mim.


Sedutor!








Falo... que não ande por aí desprotegido,


Que quando esteja comigo,


Que seja entrega de dois.


Voraz!








Bumbum... que não sente e espere,


Que não me pare, nem me acelere,


Que deixe no meu ritmo seguir.


Sagaz!








Pernas... que não chutem-se o balde, me esquecendo,


Que sejam fortes e parceiras,


Que ergam corpo e sonhos.


Perspicaz!








Pés... que não se percam em qualquer vento,


Que sigam suas próprias rotas,


Que também confluam para mim,


Próspero.








Esse é o homem que eu desejo inteiro,


Que, inteira, miro os seus beijos,


Que quero na vida, na cama,


Ao lado de mim!






quinta-feira, 2 de julho de 2026

Soneto sobre a Lei Maria da Penha

 


Rodolfo Pamplona Filho



Do brado outrora imerso em mudez,


ergue-se norma firme a proteger;


rompe-se o ciclo vil de insensatez


e se afirma o direito de viver.


 


Não só a força bruta em sua vez,


mas toda forma que possa ofender


encontra na lei pronta altivez,


para coibir, punir e conter.


 


Medidas céleres trazem proteção


e impõem ao agressor limitação,


em defesa da vítima atingida.


 


Mas garantir real transformação


exige ação além da previsão,


com justiça concreta e efetiva.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Oásis




(Negra Luz)








Quando a minha sede não encontrava os olhos d’água 


Que sempre saciavam meu coração


Ou tão secas as almas


Sem que houvesse ninguém 


Para a dança da chuva aventurar


Ou se, só, quisesse ouvir A Banda e passar


Sem me olharem como um disco velho que nunca emplacou


Era você que se apresentava


Toda a seca, por um instante, se convertia em ilusão


Havia coqueiros


Rio fluindo


Roupa encharcada


Eu na beira do mar


Acalmava-se meu furacão


Nimbus se dissipavam


Enxergava outras estradas


Em vicinais, achava bicas onde molhava o rosto


Bebia um gole d’agua fazendo de concha a mão 


E muito do que me faltava 


Por você, poesia, me fartava 


Um oásis para minha emoção


terça-feira, 30 de junho de 2026

Contraditório e Ampla Defesa


 

 






 


No texto magno, em cláusula consagrada,


ergue-se a tutela da dialeticidade,


Bilateralidade plena assegurada,


com paridade de armas na processualidade.


 


Audi alteram partem rege o iter procedimental,


vedando surpresa na formação decisória.


Impõe-se debate técnico, racional,


com influência efetiva na trajetória.


 


Ampla defesa transcende mera formalidade,


abrange meios lícitos de argumentação,


desde prova pericial à instrumentalidade,


viabilizando robusta fundamentação.


 


Se há cerceamento, rompe-se a legitimidade,


maculando o ato por vício insanável,


pois, sem contraditório, não há juridicidade,


nem provimento válido, justo e confiável.


 


Salvador, 04 de maio de 2026.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Ironia ou faceta





(Negra Luz)



Não há surpresa!


O homem agoniza o que a sua mãe vem agonizando...


Falta-se oxigênio no Pulmão do Mundo.


O povo amazonense é mais um filho deste Pulmão.

Agoniza o que já é agonia para Amazônia: 


Nas matas, o fogo, a seca, levou fauna, levou flora, secou córrego, obriga indígena a sair do seu lugar.


Há fotografias dessa triste realidade,


Que muitos querem camuflar.


Gasta-se milhões para encomendar novo satélite,


Economiza-se com a fiscalização. 


Paradoxos ou faces da mesma moeda...


Uma alimentada pela outra.


Agora é a vida humana que está a agonizar...


Exaurimento de um crime complexo,


Anunciado por cada metro quadrado de mata que foi...


Vidas seguem arfando pelo Oxigênio 


O povo caboclo importa!


Mas são parte de um ecossistema maior: Amazônia. 


E ela é Brasil! 


E ela é Mundo!


E ela é nosso Pulmão!


E nela o nosso Oxigênio!

domingo, 28 de junho de 2026

Soneto sobre Licitações



Rodolfo Pamplona Filho

 


No trato público de contratar,


impõe-se norma de isenta feição,


para que todos possam disputar,


com lisura e plena condição.


 


Editais regem o ato de ajustar,


com transparência e justa seleção;


Afasta-se o arbítrio, ao deliberar,


guardando a ética na condução.


 


Vence não só quem oferta menor,


mas quem demonstra probidade e valor,


em fiel observância à missão do Estado,


 


pois gerir bens com rigor e pudor


exige zelo, critério e primor,


para que o justo, ao final, seja alcançado.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

sábado, 27 de junho de 2026

Desclassificando as cores



(Negra Luz)



Quis ser primária,


E secundária também fui.


Quis estar no topo.


E fui a mais TOP.


Como fui!


O sol vibrante.


O fogo Ardente.


E um mar de amor


Mais ao poente,


Presenteei-me de ametiste


E, ao jequitibá, avistei a luz.


Eram secundárias as cores ali presentes 


E a beleza...


Tão maior!


Tão igual!


E, num instante angelical,


As cores não tinham classe.


Tinham valor igual.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Confissão e Justiça Penal








Rodolfo Pamplona Filho e Nestor Távora


 


O Estado pede que confesse, apresentando todo o alicerce.


Dizem: “é só uma medida alternativa!”


mas pode acabar com uma vida


 


Quem confessa, por medo, a todos suplica,


por temer as incertezas da Justiça e da vida.


 


Aceita qualquer acordo ou negociação,


por medo do processo e sua repercussão,


 


pois lhe negam o direito mais básico:


ser ouvido por um juiz democrático,


 


que queira saber o que, de fato, ocorreu,


e não que o que o Sistema lhe deu.


 


Entre calar-se e vir a narrar,


prevalece o direito de não se incriminar;


Nem toda fala há de se aceitar,


se nasce viciada ao declarar.


 


Confissão não se pode impor ou forjar,


sob pena grave de se invalidar;


Justiça exige livre manifestar,


sem coação que a venha macular.


 


Prova legítima é fruto da razão,


aliada firme à verificação,


distante sempre de indução indevida,


 


pois decidir com reta convicção


requer cautela na apreciação,


para que a verdade seja erigida.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Pretos e pretas também sabem




(Negra Luz)



Pretos e pretas também sabem…


Sabem de sentimento, de dengo.


Sabem de chamego,


Alforriar-se dos próprios medos,


Entregar-se


E viver o amor.




Pretos e pretas também sabem…


Sabem de alegria e de festa.


Sabem de beijo na testa,


Namorar com delicadezas,


Acarinhar-se


E trazer rosas na mão.




As cicatrizes, ainda espessas, sangram


E, para muitos e muitas, é ferida recente!


Fruto de prática perversa...


Retintam o preto e a preta,


Nutrem a idéia de que preto e preta tem couraça,


De que vida de preto e de preta é ciclo sem fim de dor.




Das tintas impostas retiramos tudo,


Pretos e pretas são pretos e pretas 


E nossa pele não é couro.


O que foi chicoteado e sangrado foi o nosso escudo.


Ele é ancestral… Segue.


Os que não sobreviveram se integraram a ele,


Os sobreviventes foram mais fortalecidos,


 E, assim,


Pretos e pretas seguem….


E sabem


Amar!


Amar suas mulheres 


Seus maridos,


Seus filhos e filhas,


Suas famílias,


Seus amigos e amigas...




Talvez seja este o nosso maior ato de resistência:


Pretos e pretas saberem amar.


Saberem sorrir,


Saberem viver com alegria.


Saberem viver o amor.


E sabe por quê?


Na essência,


A nossa alma é alforriada!


Subjugaram, historicamente, os nossos corpos,


Mas, ainda que tenham investido na total desumanização de pretos e pretas,


Não alcançaram integralmente a liberdade


Do nosso coração,


Do nosso pensar,


Do nosso sentir.


E, assim,


Resistimos!


E, assim, a nossa resistência:


Pretos e pretas sabem


AMAR.


quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sim, tudo




(Negra Luz)






Tudo estalo.


Tudo audiência.


Tudo click.


Tudo emoji.


Tudo Bauman.


Tudo calefação.


Tudo João!


Tudo George!


Tudo Miguel!


Tudo triste.


Tudo “migué”.


Tudo RACISMO.








terça-feira, 5 de maio de 2026

Herança Digital



Rodolfo Pamplona Filho

 


Nos cofres da nuvem, em byte e protocolo,


Armazena-se a vida em código e memória;


Metadados narram, em silêncio e sem dolo,


Fragmentos de afeto em cifra transitória.


 


Perfis persistentes, sob gestão contratual,


Entre termos de uso e cláusula restritiva,


Guardam traços do eu em domínio virtual,


Na arquitetura lógica de herança ativa.


 


Há chaves privadas, senhas, autenticação,


Criptografia assimétrica em cofre selado;


Sem o devido acesso ou legitimação,


O acervo digital resta inacessado.


 


Testamento eletrônico, diretiva antecipada,


Define a sucessão de ativos intangíveis;


Entre direito e ética, a fronteira é traçada


Por regimes jurídicos ainda sensíveis.


 


E assim, na interface entre morte e sistema,


Subsiste a presença em dado estruturado;


Na persistência algorítmica de um teorema,


O legado humano segue virtualizado.


 


Salvador, 04 de maio de 2026.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Desnuda




 (Negra Luz)


A poesia não me permite conter me em segredos.


Ela sussurra, através dos meus versos, o que não escrevi:


Traduz em onomatopeias meus sentimentos,


Cochicha pelas entrelinhas, expõe me nos acentos,


Quando findo uma estrofe, ela ainda fala por mim.


Um delatora camuflada por metáforas e rimas,


Revela a métrica do que escrevo e, quando menos espero,


Me vejo desnuda diante de ti:


Meu leitor, minha leitora.


domingo, 3 de maio de 2026

Licença Parental

 



Rodolfo Pamplona Filho



No labor suspenso, nasce um direito essencial,


Amparo jurídico à chegada da existência,


Entre afeto e norma, vínculo inicial,


Protege-se o cuidado com digna consistência.


 


Não só genitora, tampouco apenas genitor,


Mas quem assume o encargo da formação,


Partilha-se o tempo, fortalece-se o amor,


Sob guarida legal da corresponsabilização.


 


No berço se firma o primeiro laço social,


Com presença contínua, zelo estruturante,


Desenvolvimento pleno, substrato vital,


Num convívio próximo, terno, edificante.


 


Licença que transcende previsão normativa,


Traduz humanidade na ordem instituída,


Pois cada instante em convivência afetiva


Consolida direitos na aurora da vida.


 


Salvador, 05 de maio de 2026.

sábado, 2 de maio de 2026

Pré-história




Murilo Mendes




Mamãe vestida de rendas


Tocava piano no caos.


Uma noite abriu as asas


Cansada de tanto som,


Equilibrou-se no azul,


De tonta não mais olhou


Para mim, para ninguém!


Cai no álbum de retratos.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Pessoa com Deficiência e Convenção de Nova York



 

Rodolfo Pamplona Filho

 


À luz da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, enfim se proclama


que a limitação não define o existir;


pois é na barreira hostil que se inflama


o peso cruel de impedir e excluir.


 


Não basta o diagnóstico frio e restrito,


nem laudo encerrado em linguagem severa;


há muros erguidos no espaço infinito


da mente que nega, despreza e impera.


 


Se a urbe não abre caminhos decentes,


se faltam acesso, respeito e guarida,


transformam-se corpos, outrora potentes,


em alvos da sombra social instituída.


 


Por isso, a inclusão não traduz caridade,


nem gesto piedoso de falsa emoção;


é norma fundada em justiça e igualdade,


é força de cidadania em ação.


 


E, assim cada voz, sem temor, se levanta,


reivindica presença, trabalho e valor;


pois toda pessoa, em essência, é santa


na livre grandeza de seu próprio labor.


 


Eunápolis, 11 de maio de 2026.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Canção do Exílio





Murilo Mendes



Minha terra tem macieiras da Califórnia


onde cantam gaturamos de Veneza.


Os poetas da minha terra


são pretos que vivem em torres de ametista,


os sargentos do exército são monistas, cubistas,


os filósofos são polacos vendendo a prestações.


A gente não pode dormir


com os oradores e os pernilongos.


Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.


Eu morro sufocado


em terra estrangeira.


Nossas flores são mais bonitas


nossas frutas mais gostosas


mas custam cem mil réis a dúzia.






Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade


e ouvir um sabiá com certidão de idade!




In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Sobre Estímulos e Freios


 




Rodolfo Pamplona Filho



 


A liberdade de expressão


implica em assumir


as consequências do que se diz,


mesmo quando se fala coisas


sem saber do que está falando


 


O que se pretende


ser um estímulo


vira um freio abrupto


do desejo de viver


 


Desistir para não sofrer?


Esquecer para não chorar?


Nada disso traz paz…


Afinal, antes viver


a sensação de lutar


e ser derrotado


do que a de nem sequer tentar…


 


Marabá, 21 de maio de 2026.

terça-feira, 28 de abril de 2026

4º. Motivo da rosa

 










Cecília Meireles








Não te aflijas com a pétala que voa:


também é ser, deixar de ser assim.




Rosas verá, só de cinzas franzida,


mortas, intactas pelo teu jardim.




Eu deixo aroma até nos meus espinhos


ao longe, o vento vai falando de mim.




E por perder-me é que vão me lembrando,


por desfolhar-me é que não tenho fim.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Soneto da Justiça Criminal Defensiva




Rodolfo Pamplona Filho

 


Se o medo orienta o julgar prudente,


a balança inclina-se sem razão;


pune-se antes, de modo recorrente,


para evitar suposta omissão.


 


A pressão social, voz insistente,


influi por vezes na decisão;


e o juiz, temendo agir displicente,


afasta-se da justa direção.


 


Mas julgar exige firmeza e critério,


não se submete ao clamor etéreo,


nem ao receio de eventual falha,


 


pois o Direito, em seu magistério,


busca o equilíbrio sério e austero,


onde a Justiça jamais se embaralha.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

domingo, 26 de abril de 2026

Canção





Cecília Meireles






No desequilíbrio dos mares,


as proas giram sozinhas...


Numa das naves que afundaram


é que certamente tu vinhas.




Eu te esperei todos os séculos


sem desespero e sem desgosto,


e morri de infinitas mortes


guardando sempre o mesmo rosto




Quando as ondas te carregaram


meu olhos, entre águas e areias,


cegaram como os das estátuas,


a tudo quanto existe alheias.




Minhas mãos pararam sobre o ar


e endureceram junto ao vento,


e perderam a cor que tinham


e a lembrança do movimento.




E o sorriso que eu te levava


desprendeu-se e caiu de mim:


e só talvez ele ainda viva


dentro destas águas sem fim.

sábado, 25 de abril de 2026

Soneto da Violência Espiritual


 



Rodolfo Pamplona Filho 


Sob o véu sacro de elevada crença,


ergue-se, às vezes, oculta opressão;


verbo que fere, em tênue aparência,


cinge a alma em dor e submissão.


 


Invoca o medo com falsa prudência,


tolhe o pensar, subjuga a razão;


faz da esperança amarga dependência,


e enclausura o ser na frágil ilusão.


 


Mas fé legítima não aprisiona,


nem se alimenta de culpa ou temor;


antes liberta e ao bem se inclina,


 


pois luz autêntica jamais abandona,


conduz à vida com justo fervor


e, em liberdade, a essência ilumina.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Murmúrio








Cecília Meireles




Traze-me um pouco das sombras serenas


que as nuvens transportam por cima do dia!


Um pouco de sombra, apenas,


- vê que nem te peço alegria.






Traze-me um pouco da alvura dos luares


que a noite sustenta no teu coração!


A alvura, apenas, dos ares:


- vê que nem te peço ilusão.






Traze-me um pouco da tua lembrança,


aroma perdido, saudade da flor!


- Vê que nem te digo - esperança!


- Vê que nem sequer sonho - amor!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Apenas um dia ruim







Rodolfo Pamplona Filho


Cuidado com

os dias ruins...

Não tome decisões

em dias ruins...


Por vezes, só o que

é necessário é

apenas um dia ruim


Há momentos em que

tudo é despertado por

apenas um dia ruim


Todo o amor

Toda uma vida

Tudo que se acredita

desvanece por

apenas um dia ruim


Se tudo que é sólido

desmancha no ar,

não há efetiva diferença

entre loucura e sanidade,

se você se apega à realidade

acreditando em

uma só verdade.


O que faz ser

o que você é?

O que dá sentido

ao que você faz

ou diz

ou quer fazer

ou diz que quer fazer?




apenas um dia ruim...

quarta-feira, 22 de abril de 2026

ATMOSFERA







Jorge da Rosa

⁠⁠⁠⁠


Encontro dos pássaros

Crepúsculo adiante

O rio e seus traços

Flora dignificante


Uma atmosfera

Com várias belezas

Longe das feras

E das incertezas


Feras estas

Que devoram o país

Déspotas

O povo clama por luz


Répteis rastejantes

Engolem uns aos outros

O trabalhador é insignificante

Para estes monstros.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Perdão







Rodolfo Pamplona Filho


Desculpe por não ter imaginado sua dor

Desculpe por ter te causado horror

Desculpe por ter sido tão insensível

Desculpe por ter sido tão horrível

Desculpe por pensar que atos somem



Desculpe por ter sido tão homem

segunda-feira, 20 de abril de 2026

CONFLITOS SANGRENTOS







Jorge da Rosa

 

Brilha a aurora

Refletida pelo mar

Visão do agora

No futuro a pensar


Azul do infinito

Amarelo do amanhecer

Amor bonito

Para jamais esquecer


Diversos pensamentos

Razão e coração

Conflitos sangrentos

Pobre da nação


Sol nascente

Aqueça o trabalhador

Vítima de delinquentes

E de um terrível ditador.

domingo, 19 de abril de 2026

Porto Seguro

 





Rodolfo Pamplona Filho


Naveguei por tantos mares,

conheci muitos lugares,

mas, em seu colo, achei

o local para aportar.


Andei por muitas terras,

vivi diversas eras,

mas, em seus olhos, vi

o farol para me guiar.


A vida inteira, eu procurei

e, agora que encontrei,

poderei sempre esperar

cada vez que se afastar

e não estarei mais triste

porque sei que existe

e tenho o meu porto seguro.


No voo para Salvador, 18 de junho de 2017.

sábado, 18 de abril de 2026

Que amor é esse?







Lea Oliveira


Que amor é esse?

Que enche o peito

Que falta o ar

Que vira música no seu olhar


Que vira noite

Que vira dia

Que passam as horas

E é alegria


Que amor é esse que hipnotiza?

Que faz de mim poeta

É você, minha princesa, Luísa

Que é mais que brincar de boneca


E não bastasse esse sonho, meu Deus,

Você transbordou os meus dias e me deu meu pequeno Mateus!

sexta-feira, 17 de abril de 2026

É melhor não irmos além disso

 





Rodolfo Pamplona Filho


É melhor não irmos além disso,

antes que não seja possível

manter nossa sanidade mental.


É melhor não irmos além disso,

antes que os que nos amam

machuquem-se mais do que o normal.


É melhor não irmos além disso,

antes que alguém reaja

com violência animal.


É melhor não irmos além disso,

antes que nosso sofrimento

seja maior que o habitual.


É melhor não irmos além disso,

antes que um lindo romance

vire atração fatal.


É melhor não irmos além disso,

antes que nosso amor casto

torne-se meramente carnal.


É melhor não irmos além disso,

antes que o gosto doce da sua boca

vire amargo fel e sal.


É melhor não irmos além disso,

antes que o que só nos faz bem,

de repente, nos faça só mal...


É melhor não irmos além disso,

pois continuarei te amando sempre,

independentemente de qualquer final.


É melhor não irmos além disso...

É melhor não irmos além disso...


Salvador, 04 de outubro de 2010.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Poesias no Lençol







Letra e Música: Ricardo Guerra

Arranjo: Ricardo Guerra, Adelmo Schindler, Fabio Rocha e Cassio Brasil


Quero ser feliz

perto do meu bem querer!

É segredo, sim,

nosso jeito de viver!

Quero ser seu giz,

meio triste, meio sol,

e escrever em par

poesias no lençol!


Quero vê-la assim

numa nuvem de algodão:

engenheira, atriz,

dona do meu coração!

Quero ser seu giz,

meio triste, meio sol,

e escrever em par

poesias no lençol!


Eu quero ser o vento

que leva o tempo

que é arquiteto

a conduzir nosso balão:

Vamos pro norte,

pra marte,

vamos pra china,

vamos além dessa esquina,

que é feita de papelão!


quarta-feira, 15 de abril de 2026

O Ocaso






Rodolfo Pamplona Filho


Dos dias

Do calor

Das vidas

Do amor

De nada

De tudo

Do nada

Do mundo





Bogotá, 05 de outubro de 2013, em conexão para o Brasil, olhando o entardecer...

terça-feira, 14 de abril de 2026

O sol...



Birão Santana


 O sol,

o céu

a música,

pássaros

 e o verde

estavam presentes,

 palpáveis

em mim.

Você

distante,

mas presente,

se interpondo

 ao sol,

ao céu,

à música,

aos pássaros,

ao verde,

 a mim,

reinava.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Vou morrer...

 






Rodolfo Pamplona Filho

Vou morrer...

De saudade...

De desejo...

De vontade...

De desespero...

Dor que só um remédio cura:

o amor mais puro

e lindo do universo



Salvador, 16 de setembro de 2013.

domingo, 12 de abril de 2026

NOIVA TRAÍDA, DÍVIDA VENCIDA






Lorena Miranda Santos Barreiros


 “Álvaro Cruz, você está certo do que irá fazer? Espero que não esteja se precipitando, 

meu filho!” 


 As palavras de Maria Helena, sua mãe, ressoavam firmemente na cabeça de Álvaro 

na manhã daquela segunda-feira, 28 de novembro de 2016.  Ainda tomava o seu café quando 

a campainha de sua casa tocou. Além da porta da entrada, fitava-o o rosto entediado de um 

oficial de justiça, que, após sussurrar um “bom dia”, procedeu à leitura do mandado de 

citação que trazia consigo, entregando a Álvaro a contrafé e colhendo dele o recibo na via 

do documento que permaneceu em poder do oficial. Mecanicamente, Álvaro a tudo 

assentiu, muito embora quase nada houvesse realmente ouvido, de fato.  


 Não havia necessidade. Desde o momento em que autorizara a subida do oficial de 

justiça cuja presença na portaria fora anunciada no interfone do seu apartamento, Álvaro já 

estava convicto do que lhe reservava aquela visita. “Tereza”, pensou. E estava certo.  

 Embora sequer houvesse a necessidade daquele contato com o oficial de justiça, já 

que o mandado de citação poderia ter sido validamente entregue ao funcionário da 

portaria do seu condomínio edilício responsável pelo recebimento da correspondência, 

Álvaro desejava receber o mandado diretamente. Talvez fosse um modo de encarar o 

problema de uma vez. 


 Portava agora em suas mãos um mandado de citação, penhora e avaliação referente a 

um procedimento executivo fundado em título extrajudicial contra ele proposto por Tereza 

Lacerda. Sem emoção, Álvaro percorreu com os olhos todo o conteúdo daquele documento, 

detendo-se no campo indicativo do valor devido:  


 - Duzentos e vinte e um mil reais??? 


 Álvaro empalideceu. A indiferença inicial converteu-se em um misto de 

incredulidade, surpresa, raiva e medo. Onde encontraria, afinal, uma soma tão vultosa de 

dinheiro para pagar aquela dívida que lhe era imputada? 


Tereza Lacerda não era uma credora qualquer. Era sua ex-noiva, com quem poderia 

ter se casado há apenas dois dias, se o tórrido romance por ambos vivido ao longo de um ano 

e meio não tivesse se acabado de modo constrangedor há pouco mais de um mês. “Ironia do 

destino” – pensou Álvaro. “Estivesse eu casado com Tereza, não estaria sendo executado 

judicialmente. Aliás, sequer poderia ser citado em processo cível algum nos três dias 

seguintes ao meu casamento, salvo para evitar perecimento do direito!”. 


Seu pensamento o fez rir. Bacharel em Direito por formação, Álvaro abdicara de sua 

natural vocação para dedicar-se aos negócios da família. Com o falecimento de Armando, 

seu pai, ocorrido logo após a sua formatura, assumiu a administração da fábrica de velas que 

aquele possuía desde antes de se casar com Maria Helena e que ambos – Maria Helena e 

Álvaro – herdaram. Além desse bem, Álvaro apenas possuía seu imóvel residencial, que com 

muito esforço e trabalho conquistara há cerca de dois anos e no qual morava com sua mãe. 


Sempre que podia, Álvaro permitia-se contato com a área jurídica. Estudar o Direito 

tornara-se um de seus passatempos prediletos. Conhecera Tereza em maio/2015, durante 

uma viagem ao Rio de Janeiro, para participar de um congresso jurídico realizado naquela 

cidade. Ao término do evento, Álvaro e Tereza já estavam namorando e nem a distância que 

os separava (ela morava no Rio de Janeiro e ele, em Belo Horizonte) impediu que dessem 

prosseguimento ao romance. 


 Aos seis meses de namoro, decidiram ficar noivos e marcaram a data do casamento 

para dali a um ano, precisamente para o dia 26 de novembro de 2016. No início de dezembro 

de 2015, passando por graves dificuldades financeiras, Álvaro foi convencido por Tereza a 

aceitar dela um empréstimo no valor de cento e setenta mil reais, montante suficiente ao 

pagamento de suas dívidas. 


 Embora noivos estivessem, a prudência recomendava – e assim foi feito – que 

assinassem um contrato de mútuo, estabelecendo-se como prazo de pagamento o dia 20 de 

outubro de 2016. Orgulhoso, Álvaro não pretendia iniciar a vida conjugal na condição de 

devedor de sua futura esposa. Mas não poderia recusar a ajuda que lhe garantiria a 

reestruturação de suas finanças. 


O relacionamento, no entanto, não durou até a data de vencimento da dívida. No 

caminho estaria o fatídico sábado, 15 de outubro de 2016, quando Álvaro, ao decidir 

presentear-se com uma despedida de solteiro, fora flagrado por Tereza, que, sentindo-se 

traída, pôs fim sumariamente ao romance, sem respeito ao princípio do contraditório.  

 A passagem dos minutos daquela manhã interminável de segunda-feira, 28 de 

novembro de 2016, conduzia Álvaro a uma situação de progressiva consciência da situação 

em que se envolvera. Mal rompera-se o vínculo entre o casal, Tereza apenas aguardou o 

vencimento da dívida para cobrá-la. A execução fora proposta no dia 21 de outubro de 2016, 

sexta-feira. “Ainda sob o efeito da raiva”, pensou Álvaro.  


 Novamente a advertência de sua mãe lhe veio à cabeça. Fora precipitado aceitar o 

empréstimo de alguém que conhecera há pouco mais de seis meses. Fora precipitado pensar 

em casamento. Mas, agora, só lhe restaria enfrentar o processo de execução. 


 Não havia dúvidas de que o contrato de mútuo celebrado com Tereza era um título 

executivo extrajudicial. Tratava-se de documento particular assinado por ele, devedor, e 

por duas testemunhas – por sinal, seus quase padrinhos de casamento – e consignava 

obrigação certa, líquida e exigível. Ao se lembrar de que todos os seus bens presentes e 

futuros responderiam pelo cumprimento da obrigação, Álvaro estremeceu. “Pelo menos, 

meu apartamento está resguardado, bendita regra de impenhorabilidade do bem de 

família!”. No momento, dentre os bens seus não sujeitos à penhora, aquele era o que mais 

importava. 


 O montante de duzentos e vinte e um mil reais abrangia, além do valor devido 

atualizado e acrescido de juros, os honorários advocatícios de dez por cento fixados de 

plano pelo juiz ao despachar a petição inicial da execução. O mandado noticiava a Álvaro – 

como se notícia boa fosse, verdadeira sanção premial – que o pagamento integral da dívida, 

no prazo de 03 (três) dias, conduziria à redução do valor dos honorários pela metade. “Ora, 

como se fosse fácil obter duzentos e vinte e um mil reais em três dias!” 


O impulso jurídico de vasculhar uma saída para o problema o conduziu a examinar a 

petição inicial da execução. Bem elaborada, fora devidamente instruída com o título 

executivo extrajudicial e o demonstrativo do débito atualizado até a data da propositura da 

demanda e indicava, em seu teor, tratar-se de execução por quantia certa contra devedor 

solvente (será?), fazendo menção aos nomes completos da exequente e do executado e seus 

números de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas. O demonstrativo do débito era 

detalhado e indicava o índice de correção monetária adotado, a taxa de juros aplicada e os 

termos inicial e final de incidência da correção e dos juros. 


Ao final, uma singela indicação de bem suscetível de penhora... 


 - NÃO! 


 Álvaro não conseguiu conter o desespero. A exequente – por instantes esquecera-se 

de que um dia fora ela sua noiva – indicara à penhora as quotas que Álvaro possuía na 

fábrica de velas que herdara de seu pai! Sentiu uma dor verdadeiramente física, como se um 

golpe houvesse sido desferido em seu rosto. E, à revelação, veio a raiva. 


 A petição inicial era subscrita por Gastão Antunes, um antigo namorado de Tereza 

que Álvaro tivera o desprazer de conhecer. Embora Tereza jamais houvesse manifestado 

interesse remanescente pelo ex–affair, era nítido que ele não a havia esquecido. O processo 

seria ainda mais difícil do que Álvaro imaginava. 


 Buscando restabelecer seu equilíbrio emocional, Álvaro centrou suas atenções nos 

três dias que possuiria para efetuar o pagamento do débito. “Impossível”, pensou. Nos 

últimos meses, havia contraído diversas outras dívidas em decorrência do casamento que se  

aproximava e sua intenção, em verdade, era adimplir a sua dívida dando à Tereza, em 

pagamento, parte de seu imóvel, bem do qual se tornariam coproprietários. Mas, agora, com 

o término da relação, essa solução afigurava-se impossível. E não havia como pagar a dívida. 

 Álvaro sabia que a penhora seria inevitável. Em três dias, não conseguiria reunir o 

valor devido e, fatalmente, o oficial de justiça retornaria, de posse daquela via do mandado 

de citação, penhora e avaliação na qual ele firmara seu recibo, procedendo-se à penhora de 

suas quotas sociais. Restaria a Álvaro, obviamente, a indicação de outros bens passíveis de 

penhora, com a comprovação de que a sua opção ser-lhe-ia menos onerosa e não traria 

prejuízo a Tereza. Mas a verdade é que não possuía outros bens que pudesse indicar à 

penhora, especialmente em razão do valor executado. 


 Nos três dias que se seguiram, Álvaro mal se comunicou com sua mãe, Maria Helena, 

em casa. Não tinha coragem de lhe contar o que estaria prestes a ocorrer. A fábrica de velas 

de seu pai sairia das mãos da família Cruz, onde permanecia desde sua criação. Passo a 

passo, Álvaro tentou buscar uma das saídas que o ordenamento jurídico estabelecia, 

justamente com a preocupação de preservação da sociedade, constituída que fora intuitu 

personae. 


 Álvaro sabia que, uma vez penhoradas as suas quotas sociais, o juiz assinaria à 

sociedade prazo de até três meses para que fosse apresentado balanço especial, intervalo 

no qual essas quotas seriam oferecidas aos demais sócios (no caso, sua mãe, que ele sabia 

não teria dinheiro para adquiri-las) ou poderiam ser adquiridas pela própria sociedade, 

para manutenção em sua tesouraria, desde que não fosse reduzido seu capital social e 

fossem utilizadas reservas da sociedade. Esta opção também estaria descartada. 


Nem mesmo a liquidação de quotas sociais seria possível, uma vez que o pagamento 

delas pela sociedade ser-lhe-ia excessivamente oneroso. Restaria, apenas, o leilão judicial 

das quotas. A fábrica de velas Cruz deixaria de ser apenas dos Cruz. 


*** 


 O silêncio de Álvaro era eloquente para Maria Helena. Acontecera o que ela temia 

desde que se consumou o término do romance de seu filho com Tereza: ela cumprira a 

promessa de transformar a vida dele em um inferno e já atentara contra a sua parte mais 

sensível. Não, não se tratava do bolso. Cuidava-se do bem mais precioso que Álvaro possuía, 

o elo que o fazia sentir a presença firme de seu pai em sua vida. 

 Ao contrário de Álvaro, Maria Helena não possuía conhecimentos jurídicos. Mas, ao  

ver o comportamento estranho de seu filho, deduziu que algo inquietante acontecera e, no 

interior da gaveta da mesa de trabalho de Álvaro, obteve a resposta. A mensagem contida 

naquele documento dispensava tradução: pague ou perca seu bem mais precioso. “Como 

você perdeu o seu, Tereza”, pensou Maria Helena. 


Maria Helena respeitou o silêncio de Álvaro e fingiu não perceber a sua súbita 

mudança de comportamento. Mas, precavida, fez contato com Claudio Silva, advogado 

amigo de infância de Álvaro e que fora seu colega de faculdade, pedindo-lhe que entrasse 

em contato com seu filho e buscasse ajudá-lo, no que foi prontamente atendida. 


*** 


 Os três dias mais longos da vida de Álvaro transcorreram sem que a dívida fosse 

paga. Conjuntamente com Claudio Silva – que, por coincidência, entrara em contato consigo 

justamente na noite daquela fatídica segunda-feira, 28 de novembro de 2016 –, Álvaro 

decidiu não opor embargos à execução. Simplesmente não encontrara matéria passível de 

alegação em sede de embargos. Nem queria brigar com Tereza, havia decidido. 


 Efetuada a penhora de suas quotas, arrastou-se o prazo de dois meses que o juiz 

estabeleceu para que a fábrica de velas apresentasse seu balanço especial. “Poderiam ter sido 

três meses”, pensou Álvaro, lembrando-se do prazo máximo disposto na legislação 

processual. Mas afastou a ideia de sua mente. Era estranho, mas, apesar de tudo, aquele 

processo era o que o mantinha ligado a Tereza. E a cada dia essa ideia se tornava mais 

persistente em sua cabeça. 


 O valor apurado das quotas, de cento e oitenta mil reais, não era suficiente para o 

integral pagamento da dívida. Diante dessa circunstância, ao ser avisado por Claudio Silva 

da existência de uma petição protocolizada por Tereza nos autos da execução, Álvaro logo 

deduziu tratar-se de um pedido de ampliação da penhora. Só não entendeu a insistência do 

amigo em que o encontrasse pessoalmente para conversarem. 


 - Tereza requereu a adjudicação das quotas para ela, Álvaro. – Claudio Silva foi direto 

ao ponto assim que sentaram ambos no bar situado quase em frente à casa de Álvaro – E o 

mais estranho: embora o Código de Processo Civil assegure à exequente a possibilidade de 

adjudicação por preço não inferior ao da avaliação e apesar de Tereza saber que Maria 

Helena não exerceria o direito de preferência dela, Tereza ofereceu pelo bem valor que 

corresponde ao da dívida atualizada e acrescida das custas e de honorários advocatícios de 

vinte por cento, o que parece ter sido feito em razão da possibilidade de majoração do 

percentual, mesmo sem que você tenha embargado à execução, levando-se em conta o 

trabalho realizado por Gastão Antunes, advogado dela. 


 - Não vou me opor – limitou-se a responder Álvaro. 

 - Está louco, amigo? – perguntou, incrédulo, Claudio Silva. Esta mulher permanecerá 

em sua vida para sempre desse jeito! Será sócia de sua mãe na fábrica que era de seu pai! 

 - Que assim seja, Claudio – Álvaro parecia irresolúvel – Nunca quis dever a Tereza. 

Teria dado minha casa a ela em pagamento, se tudo houvesse acontecido como havíamos 

pensado. Não o faço hoje porque minha mãe e eu não teríamos onde morar.  

 - Mas Álvaro... 

 - O maior valor que meu pai me ensinou foi a honestidade, Claudio. Meu erro foi ter 

aceitado aquela proposta de despedida de solteiro às vésperas do meu casamento. Disso é 

que mais me arrependo na vida: de ter perdido a Tereza. 

De súbito, a conversa foi interrompida por uma familiar voz feminina... 

 - Era esse meu maior pagamento, Álvaro. Ouvir de você uma confissão sincera de 

arrependimento. Não há prova de amor maior do que esta que acabo de receber. 

 Álvaro levantou-se de um salto: ali estava, diante de si, Tereza, olhos marejados com 

a confissão que acabara de escutar. Em choque, Álvaro mal conseguia falar. Nem sequer 

percebeu a presença de Maria Helena, um pouco mais distanciada, que a tudo assistia, 

avisada que tinha sido por Claudio de que o filho receberia uma notícia difícil de suportar. 

Álvaro e Tereza reconciliaram-se ali mesmo. Nem Claudio nem Maria Helena falaram nada. 

Não era o momento para qualquer intervenção de terceiro. 

  

*** 


Não houve adjudicação do bem penhorado; tampouco foi necessária a sua venda em 

leilão judicial. Álvaro pagou sua dívida do modo como sempre desejou: transferindo a 

Tereza parte de seu imóvel residencial. E ambos transferiram, um ao outro, parte de suas 

vidas. Casaram-se, como havia de ser. 


Os honorários advocatícios de Gastão Antunes foram pagos pela própria Tereza. O 

pagamento que ele efetivamente desejava, jamais recebeu: o amor de Tereza sempre fora, 

desde que conhecera Álvaro, bem fora do comércio. 


Maria Helena decidiu morar sozinha e aceitou vender a participação na sociedade 

para adquirir um imóvel próprio. A adquirente dessas quotas foi uma distinta senhora, de 

nome Tereza Lacerda Cruz. Desnecessário dizer que os instrumentos jurídicos conducentes à  

concretização desses negócios foram elaborados por Claudio Silva, agora advogado 

contratado da Fábrica, que está em plena expansão. 


Como Tereza chegou no bar, justamente a tempo de ouvir a confissão de Álvaro? Este 

é um daqueles mistérios que só a vida faz acontecer. 


E a Fábrica de Velas Cruz continua sendo dos Cruz. 



10 de janeiro de 2017 


sábado, 11 de abril de 2026

Triste Fim?

 




Rodolfo Pamplona Filho


Será o fim?

Triste fim...

Na verdade, tudo muda...

Só não muda a mudança...

Tudo muda...

As mudas voltarão a florescer...

e os mudos e os mundos também...

Por aí...

Os exemplos vão ficar

e os trilhos voltarão a se encaixar...

depois...


Salvador, 24 de agosto de 2013, batendo papo com Bernardo Lima no What's up..

sexta-feira, 10 de abril de 2026

SINO DE CARRANCAS





Helena Maria De Oliveira Siqueira


Não te vejo ...

mas te escuto ...

te escuto na calada da noite ...

te escuto na aurora ...

no correr do dia ...

te escuto quando chove ...

quando desperta os pássaros e me desperta também ...

Te escuto quando você eleva sua voz aos céus e me presenteia com a Ave Maria ...

Te escuto até mesmo quando alongas minhas noites e diminuis os meus dias ...

quando aceleras ou retardas os meus passos ...

Te escuto quando és o mensageiro de boas e de más notícias ...

Não te vejo ...

mas o nosso diálogo é harmonioso ...

você fala ...

eu te escuto ...

e nossa relação é de vida eterna ...

Te escuto quando só você me vê ...

Te escuto ainda quando não me vês porque estas meu coração  ...

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Cadáver Vivo

 





Rodolfo Pamplona Filho



Acordar, comer

Banhar-se, vestir

Trabalhar, beber

Deslocar-se, dormir

Não saber o que mais fazer?

Quem sabe, talvez, viver?

Ver que um dia passa

sem, de nada, achar graça

é finalmente perguntar:

será que morri e

me esqueceram de enterrar?



Salvador, 13 de junho de 2013, após uma sessão de analise junguiana.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Velho E A Flor

 





Vinicius de Moraes


Por céus e mares eu andei,

Vi um poeta e vi um rei

Na esperança de saber

O que é o amor.


Ninguém sabia me dizer,

Eu já queria até morrer

Quando um velhinho

Com uma flor assim falou:


O amor é o carinho,

É o espinho que não se vê em cada flor.

É a vida quando

Chega sangrando aberta

em pétalas de amor.


terça-feira, 7 de abril de 2026

Não ir


 


Rodolfo Pamplona Filho



Não ir

não é

necessariamente

perder

Não ir

pode ser

esperar

para ganhar,

refletir

para entender,

aguardar

para vencer

 


Salvador, 23 de setembro de 2020.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

O crivo do não saber da falsa esperança





Vitor Henrique


A vida  criva o agrado da falsa esperança em um fardo pesado, que nem  alça de uma calça que não laça. 

A impostora, a  mentirosa,  a farsante ou hipócrita falsa esperança.  

A ânsia do ancorar no Lar que leva a um destoar. 

Um aborrecimento, uma mentira ou tirania. Eis o crivo do livro vivo que construímos em uma falsa esperança do não saber.



Que guiado e liderado  pelo o sonhar que nos criva. 

Da incógnita cotidiana  do sonhar ou não sonhar? 

Acreditar ou não acreditar, para o  medo de nós arranhar e nos ferir no ir. 



Não vamos ancorar se não sonharmos. 

Não vamos acompanhar o marchar da maré. 

Não vamos nem ao menos ter lido o livro do não saber

Mas se for um houver do muro sem lucro. 

Das  as alegrias… 

das  alegorias das falácias que não devem ser cogitadas, digitadas, lidas e escritas. 

Das idas às ideias inobsoletas das Borboletas das letras da falsa esperança.

 


Mas, se não sonhar não teremos vivido o livro.  

Do amada do nada. 

Do rechear do cheirar do lar 

Do avistar até aterrar em uma terra do além mar

Para que o amarrar do amar, se torne lar. Eis, o livro do não saber do escrito, digitado ou cogitado.



O que fizeram, o que eu fiz e para onde fui. 

É foda, a cabeça lota em quotas de devaneio. 

Sujeira que me jogaram, amarraram e me deixaram em uma mar uivante de Abrantes.  

Não se iluda com a forma lúdica da localidade airosa, porque não existe rosas sem espinhos, nem que se for no pinho do seu ninho. 

Não importa a forma, a sonata está perdida em uma ida sem partida, mas com chegada aonada mais me consola.  



As solas nem estão gastas em lascas. Mas já sei que não há nada mais. 

Porque não há? 

Porque eu já disse, me sujaram, amarraram e me jogaram no meio do nada e eu não sei nadar, nem ao menos andar no desconhecido. 

Não sei que lugar é esse, 

Não sei se tenhas o nobre e o pobre, e se eles se importam em ouvir os meus pensamentos confusos tontos pela… a maré.   

A porta parece  torta,  cheias de discursos  de nenhures. Porque, donde eu veio pelos devaneios, não conheci achar meios a abrir. 



A cabeça tida madura, já sabe que a vida  é assim, dura igual uma pedra, que  que  esmurra em uma algazarra de sentimentos. 

Uma verdadeira surra de  momentos e tormentos em só lamentos. 

Não se engane ou encane, dizem que é apenas uma pane no sistema. 

Urge então a necessidade de saber, para não beber na fonte da ignorância, porque a ânsia em uma direção de uma ação, que nasce naquela  idade.

Naquela idade, em que você não vê as coisas do jeito que antes via. 

Você de per si, sabe que  a vida é assim, no sim ou no não, sempre serei o anão da pirâmide. 



Ahhh, se eu pudesse ja ter descobre está chave mestra para concertar ou atar os nós do que já se foi. 

Aos  amigos que você tem que não ligam, 

o  sinal de pane aparece e você não amanhece 

É, no verso da canção, no abrir da chave, que a ave ligeira já sabe antes  que você, que é só ela e mais nada. 

Não existe amor no clamor da dor de um sociedade doente. 

Quem fala que sim mente, pela  simples mediocridade que transforma a terra em letra de funeral. 

Não existe compaixão, nem paixão. 

Não existe nada além dessa vida, porque na ida, você sabe que  somos meros passageiros prestes a partir. 

Desligue os castelos do tetris, que moldam quem está certo ou errado na peça de encaixe, desligue a máquina, desligue a cina.  

Porque nada importa, nem a forma, nem o como e o porque.



O Turbilhão em um bilhão de reações. 

A falta de quem  não tem alta, por um amor verdadeiro, sincero, companheiro na jornada da vida, nem que se for para uma ida sem partida.

Incógnita que Incomoda, quase coca, roça a aguça por resposta. 

O meu eu tosta, queima, chamusca a sina da mina  da ocitocina com a dopamina. 

Não hesita, nessa usina de toxina a saber. 

Mas, quem me  dera saber a resposta para essa incógnita que me habita que não hesita. 



Quem me dera  as respostas, se nem sei quais são as perguntas, que me perfazem. 

É nessa usina, que ser zem não me fazem ir além do óbvio. 

Mas que me dera saber o que meu corpo quer beber? Se é nessa usina de ocitocina com dopamina que eu vivo até ir ao além, nem se for sem ou com a resposta. 

A incógnita nitra o que sei lá eu sou, só sei que zem eu não sou, nem com serotonina eu sou. 

Sou eu, um bilhão de reações sem lições de moralidade e eticidade.  

Sou eu quem caminha nessa mina de toxina e paixão em uma mansão sem uma lição a te dar.

Nem mandar a onde andar, porem a quem lhe vem apenas excitar o meu eu até onde for, nem que se for sem alem a algo que nem existe.

Sou eu turbilhão em um bilhão de reações com ações, sem lições, mas com desejos e medos.






domingo, 5 de abril de 2026

Fake News na Pandemia





Rodolfo Pamplona Filho


A Internet

deu voz

a quem não tem

o que dizer

e que acaba

dizendo

o que não consegue esconder:

a sua própria raiva,

ódio e ignorância,

misturados com a insegurança

de simplesmente

antipatizar

quem virou alvo

do seu difamar,

como se seu mal querer

pudesse justificar

ou verdade tornar

o fel que escorre

no íntimo do seu ser.


 


Salvador, 25 de julho de 2020