terça-feira, 6 de outubro de 2026

Perdoar


 


Rodolfo Pamlona Filho


Perdoar não é esquecer.


Perdoar é superar.


Perdoar faz parte 


do pacote de amar




Salvador, 31 de agosto de 2022.


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O Parto



 Nauro Machado


Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.


Mas eu quero e é necessário


que me sofra e me solidifique em poeta,


que destrua desde já o supérfluo e o ilusório


e me alucine na essência de mim e das coisas,


para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,


trazer-me à tona do poema


com um grito de alarma e de alarde:


ser poeta é duro e dura


e consome toda


uma existência.


domingo, 4 de outubro de 2026

Saudades

 


 Rodolfo Pamplona Filho




Saudades...


Sinto saudades...


Saudades


de teu carinho,


de teu beijo,


de teu corpo,


de teu sexo,


de tudo que te faz só ti,


de tudo que te faz só minha,


de tudo que me faz só teu...


sábado, 3 de outubro de 2026

Tietê

 


Ieda Estergilda



No caldo grosso do rio


derramei lágrimas de tristeza e mágoa


pela águas urbanas, paulistanas, devastadas.


Ontem peixes e barcos, hoje leito fedido


na capital


esse rio vive além da lama


dos cadáveres encalhados


dos esgotos que desembocam nele


esse rio em que acredito


pois salvar é coisa dos homens


mesmo que tarde.




Um rio


é uma beleza, um ser


o Tietê é uma beleza ferida


uma ferida que brilha


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Para um amor secreto





 Rodolfo Pamplona Filho







Querido


Você nem imagina como estou ligada em você...


Você nem imagina como estou ligada a você


Eu me emociono só de pensar


em como seria maravilhoso


ouvir nossas musicas com você...








Descobrir sua essência, além da casca,


fez despertar o amor e a ansiedade de estar perto.


Quero ficar com você em meu colo, vendo o por do sol até a lua iluminar sua face...


Quero fazer um cafuné, deslizando minha mão sobre seus cabelos, ate sentir sua pele...


Quero beijar seu rosto delicadamente, ate fazer você acreditar que não está sonhando...


Quero até mesmo brigar com você, só para ter o prazer da reconciliação...








Você tem um efeito perturbador em mim...


É um sentimento forte, que toma todo meu pensamento...


que me anestesia em alguns momentos


quando imagino nossas vontades reunidas...




E a única coisa que me faz melhorar é chorar...


mas é um choro de alívio e de esperança


de que, algum dia, poderemos


rir juntos e felizes...


...apenas por estar pertos um do outro.


...e você tentar me calar...


...e eu continuar falando que nem uma matraca...


...e você rir porque se diverte comigo...


...e porque não consigo disfarçar


meu nervosismo


de ter transformado


essa fantasia em realidade...








Você é parte de mim,


não como um agente externo,


mas como um complemento de mim mesmo.




Nosso amor não tem amarras, nem barreiras...


e é como um primeiro namoro...


no qual ficamos ávidos por um contato...


na palavra e no carinho...


Não consigo mais pensar na minha vida sem ter você.








Você está fora de todo tipo de definição.


Não posso dizer que é meu amigo,


nem amante, nem ficante,


nem pretendente, nem confidente...


não há rótulos....


Não somos nada disso e, dificilmente, alguém compreenderia esta relação.


Ela está fadada a permanecer apenas na publicidade de nossas almas e corações.








É como se você fosse eu...


como se meu pensamento estivesse em você.....


Por isso que me completa....


e ninguém me entende...


então ninguém entenderia você, dessa forma, na minha vida...








San Francisco, 25 de setembro de 2010.


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Tântalos



 Inácio Raposo



Não pode ter de certo os olhos sempre enxutos


Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:


Sedento — vê debalde um córrego infinito;


Faminto — vê debalde os floridos produtos!...


Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,


Leve talvez pareça um bárbaro delito!...


Foge sempre a torrente ao mísero precito


E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!






Há Tântalos também na vida transitória:


Querem estes a lympha e os pomos do talento,


E morrem no hospital para viver na história.






Desditosos que são... no malogrado intento!...


Longe de haverem ganho os loiros da vitória,


Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Gratidão

 




 Rodolfo Pamplona Filho







Gratidão não se exige,


não se pede, nem se espera...


É presente de um coração puro,


que não vê outra forma de agir,


na memória da marca do passado


e do alívio do auxílio no desespero...








Por isso, a ingratidão machuca


como punhaladas nas costas,


como um tapa no rosto,


como uma dor fatal no peito...








O ingrato merece mais do que repúdio:


é pena de morte no coração,


que se fecha em uma ferida purulenta,


cujos bálsamos somente são


o ostracismo ou a ressurreição do perdão...








Reconhecer-se grato é o exercício da verdadeira humildade,


que é saber que, sozinho, não se consegue nada,


pois conquistas isoladas são vitórias de Pirro,


em que obter o resultado não significa necessariamente desfrutá-lo...








Gratidão é a resposta sincera


que o afeto exige por coerência!




É a marca que renova a esperança,


que não é a última que morre, posto imortal,


mas, sim, a certeza de que


ainda se pode ter fé na humanidade








Maceió, 03 de setembro de 2010


terça-feira, 29 de setembro de 2026

Cinzas

 




Heitor Lima






A última brasa ardeu na cinza adusta:


Tudo passou, tudo se fez em poeira...


E na minha alma, que o abandono assusta,


Morre a luz da esperança derradeira.




O amor mais casto, a aspiração mais justa


Têm a desilusão para fronteira...


Um momento de sonho às vezes custa


O sacrifício da existência inteira!






Chama efêmera, o amor! Baldado surto,


A glória! Ah! coração mesquinho e raso...


Ah! pensamento presumido e curto...






E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,


— Tudo se perderá no mesmo ocaso


E se confundirá na mesma ruína.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Muzuá, Puçá e Caçuá





 Rodolfo Pamplona Filho







Muzuá é a armadilha,


que espera sua vítima 


ou decora uma casa;




Puçá é a rede 


que impede o siri 


de se desvencilhar;




Caçuá é o cesto


que transporta a cangalha 


no lombo de um jegue:




Muzuá, Puçá e Caçuá,


três formas de entrelaçar 


o que o destino proporcionar.








Salvador, 02  de novembro de 2020


domingo, 27 de setembro de 2026

Lembrança

 


 Oswald Barroso



A lua te recordará


a branca noite


em que ela se despiu


e, vermelha,


se fez cúmplice


do nosso amor.




O mar te lembrará


nosso costume


de caminhar nas tardes


até o horizonte,


pois que o mar


também é cúmplice


dos namorados distantes.








E quando vires, amor,


num vão de céu


uma estrela,


tu não chorarás,


porque, então,


aprenderás o meu caminho.








Mas, quando o povo


andar triste pelos becos,


tu saberás do meu luto


e sentirás a dor


da dura separação.






Porém, se a multidão


ensaiar um canto,


tu saberás do meu riso


e nela me encontrarás.


sábado, 26 de setembro de 2026

O Ocaso

 




 Rodolfo Pamplona Filho



Dos dias

Do calor

Das vidas

Do amor

De nada

De tudo

Do nada

Do mundo



Bogotá, 05 de outubro de 2013, em conexão para o Brasil, olhando o entardecer...


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

RETROSPECTO




Humberto de Campos


Vinte e seis anos, trinta amores: trinta


vezes a alma de sonhos fatigada.


e, ao fim de tudo, como ao fim de cada


amor, a alma de amor sempre faminta!


 


Ó mocidade que foges! brada


aos  meus ouvidos teu futuro, e pinta


aos meus olhos mortais, com toda a tinta,


os remorsos da vida dissipada!


 


Derramo os olhos por mim mesmo... 


E, nesta muda consulta ao coração cansado,


que é que vejo? que sinto?  que me resta?


 


Nada: ao fim do caminho percorrido,


o ódio de trinta vezes ter jurado


e o horror de trinta vezes ter mentido!


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Má Vontade





 Rodolfo Pamplona Filho



Má vontade é tudo de ruim!



É muito difícil lidar 


com quem se acha com razão 


e não dá espaço 


para fazer outra programação








Má vontade é uma droga!


Não há como conversar 


com quem não admite repensar 


a atitude tempestuosa


que somente tem o dom de perturbar 








Má vontade é uma praga!


Só dá mesmo para lamentar 


a empáfia de quem tem certeza 


de que todo erro é alheio


e todo mau resultado não é sua culpa.








Má vontade é uma merda, viu? 








Salvador, 05  de novembro de 2020 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

SONETO




Rubem Braga








E quando nós saímos era a Lua,


Era o vento caído e o mar sereno


Azul e cinza-azul anoitecendo


A tarde ruiva das amendoeiras.




E respiramos, livres das ardências


Do sol, que nos levara à sombra cauta


Tangidos pelo canto das cigarras


Dentro e fora de nós exasperadas.




Andamos em silêncio pela praia.


Nos corpos leves e lavados ia


O sentimento do prazer cumprido.




Se mágoa me ficou na despedida


Não fez mal que ficasse, nem doesse –


Era bem doce, perto das antigas.


(1947)


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Ritmo da Vida





 Rodolfo Pamplona Filho


Não é o ritmo da vida

que me incomoda:

é o corte abrupto no final.



Praia do Forte, 03 de agosto de 2013, lendo Calvin...


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Vaidade

 


 Florbela Espanca

                                    


Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade !



Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo ! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade !

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a Terra anda curvada !


E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Livro de mágoas (1919)


domingo, 20 de setembro de 2026

Momentos Felizes





 Rodolfo Pamplona Filho







Quando estamos tristes,


lembranças felizes 


nos fazem seguir,


mesmo que não saibamos


para onde vamos.








Quando estamos para baixo,


memórias felizes


nos fazem sorrir,


mesmo sem muito tempo


para respirar 








Quando estamos depressivos,


momentos felizes 


despertam a sensação 


de que, em algum lugar do passado,


já houve esperança de um futuro melhor.








Terça-feira, 10 de novembro de 2020


sábado, 19 de setembro de 2026

Noite morta

 


 Manuel Bandeira



Junto ao poste de iluminação

Os sapos engolem mosquitos.



Ninguém passa na estrada.

Nem um bêbado.




No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.

Sombras de todos os que passaram.

Os que ainda vivem e os que já morreram.



O córrego chora.


A voz da noite . . .



(Não desta noite, mas de outra maior.)



Petrópolis, 1921


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Musicando a Tristeza

 




 Rodolfo Pamplona Filho











Musiquemos a sensação...


A tristeza é inspiração...


O que machuca também ensina


e o sofrimento não precisa


ser uma eterna sina...


Somos movidos  a amor


e - porque não dizer? - a dor...


Somos o Som e a Dor...








Brasília, 14 de março de 2013.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Lembrança





Cláudia Barral


Te amo como a moça que arde em febre e não dorme


Por longos corredores desertos


Antes mesmo de te amar


Como a um filho


Como a um irmão


Como alguém partindo em breve


Como é o consentir


Como o momento em que acaba a missão de esperar


Como o sol nos pátios dos sanatórios, dos presídios e


            [entre rostos de vidro dos santos das catedrais


Como se sua voz fosse a luz


Como alguém que acabou de dar-se conta que é feito


                                              [somente de lembranças

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

18 anos de Rodolfinho



 





 


Meu querido Rodolfinho,


 


Hoje você completa 18 anos de vida


E eu não poderia estar mais feliz


Por ter visto você crescer e se tornar


Um jovem forte, corajoso e capaz


 


Lembro-me dos seus primeiros passos


E das suas primeiras palavras


E agora vejo você pronto para voar


E conquistar o mundo com suas asas


 


Você é um filho amado e especial


E eu tenho muito orgulho de você


Por tudo o que já fez e ainda fará


E por ser um exemplo de amor e fé


 


Que a vida lhe traga muitas alegrias


E que você siga sempre em frente


Com determinação, sabedoria e bondade


E que Deus lhe abençoe eternamente


 


Parabéns, meu filho querido


Que este dia seja repleto de amor


E que você saiba que sempre estarei aqui


Para apoiá-lo em cada novo caminho e sabor.


 


Salvador, 03 de junho de 2023.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Versos Íntimos

  


(Augusto dos Anjos)


Vês?! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera


Toma um fósforo, acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro.

A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se alguém causa ainda pena a tua chaga

Apedreja essa mão vil que te afaga.

Escarra nessa boca que te beija!

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Amor de Irmão




Rodolfo Pamplona Filho


Amigo


Eu não tenho dinheiro para dar


nem tenho como as coisas mudar,


mas sei que, quando a coisa apertar,


vou pegar a tua mão


 


Amigo


Não consigo resolver teus problemas


Nem sei como desvendar teus esquemas


mas sei que, em todos os dilemas,


serei sempre teu Irmão


 


Na saúde ou na doença


No vazio ou na crença


No mar ou na terra


Na paz ou na guerra


“Só posso dizer que te amo


e que estou ao teu lado”,


Irmão


 


Salvador, 06 de agosto de 2023.


domingo, 13 de setembro de 2026

Timidez




 (Cecília Meireles)


Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…– mas só esse eu não farei.Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…– palavra que não direi.Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,– que amargamente inventei.E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…– e um dia me acabarei.

sábado, 12 de setembro de 2026

Boteco

 



Rodolfo Pamplona Filho 


O que tem em um boteco?

Encontros e Música

Amigos e Barulho

Risada e Conversa

Sorrisos e Delícias


Garçom, traz à mesa

Comidinhas e Gentileza

Bebidas e Beleza

e um Sorvete de sobremesa

Na calçada ou varandão


 


Salvador, 20 de julho de 2023.


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Amor

 



(Álvares de Azevedo)


Amemos! Quero de amor

Viver no teu coração!

Sofrer e amar essa dor

Que desmaia de paixão!Na tu’alma, em teus encantos

E na tua palidez

E nos teus ardentes prantos

Suspirar de languidez!


Quero em teus lábios beber

Os teus amores do céu,

Quero em teu seio morrer

No enlevo do seio teu!Quero viver d’esperança,

Quero tremer e sentir!

Na tua cheirosa trança

Quero sonhar e dormir!


Vem, anjo, minha donzela,

Minha’alma, meu coração!

Que noite, que noite bela!

Como é doce a viração!E entre os suspiros do vento

Da noite ao mole frescor,

Quero viver um momento,

Morrer contigo de amor!

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Comunhão



Rodolfo Pamplona Filho


Com quem há prazer

em convidar para a mesa?

Na fartura

ou na carência,

só se compartilha,

com certeza,

com quem se tem comunhão,

com quem se divide o pão,

com quem mora em seu coração.



Salvador, 10 de junho de 2022.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

José




(Carlos Drummond de Andrade)


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?E agora, José?

sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, – e agora?Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Eu não gosto de paredes brancas

 




Rodolfo Pamplona Filho

 


Eu não gosto de paredes brancas

Elas me trazem uma sensação de limpeza

parecendo um ambiente de hospital

incompatível com a vida real

impossível no mundo normal


 Eu não gosto de paredes brancas


Elas parecem uma tela em branco

em que não se pode escrever,

como um manto imaculado a esconder

uma vida proibida de viver


Eu não gosto de paredes brancas


Elas soam como a água ideal:

Inodora, incolor e insípida!

Eu só gosto de paredes brancas

como um convite para novas criações!



Salvador, 10 de junho de 2022.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Canção do Exílio

 







(Gonçalves Dias)


Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

domingo, 6 de setembro de 2026

Frustração



 


Como lidar

com a frustração

quando mal se dá conta

de si próprio?


O desejo é ilimitado

e os recursos

da realidade

são finitos…


Assim, se percebe

a inevitabilidade

do sentimento;

a força

do constrangimento;

a imperatividade

do sofrimento.



Salvador, 02 de junho de 2023.


sábado, 5 de setembro de 2026

Ora direis ouvir estrelas




(Olavo Bilac)


Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…E conversamos toda a noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Minha matilha é a cara da diversidade - 2



 

 Rodolfo Pamplona Filho


8 indivíduos


Tamanhos diferentes


Idades diferentes


Cada um com sua cor, em paleta de cores


Paridade (4 machos e 4 fêmeas)


4 duplas


2 de porte pequeno, 4 de porte médio e 2 de porte grande


2 mais velhos (Camille e Tchutchucão)


2 irmãos de sangue (Hans e Hannah) em uma família socioafetiva


2 grandões estabanados (Carlos e Joana)


2 baixinhos invocados (Buck e Simone)


1 feminista (Camille)


1 gordo (Tchuchucão)


1 troglodita convertido (Hans)


1 homo (Hannah)


1 hiperativo (Carlos)


1 periguete (Joana)


1 mauricinho (Buck)


1 com deficiência (Simone)


 


Mas todos amados sem qualquer restrição.


 


Salvador, 01 de agosto de 2023.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Soneto de Fidelidade




 (Vinicius de Moraes)


De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem amaEu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Rompendo




Rodolfo Pamplona Filho




E, de repente, o silêncio!!!

E o que era unidade

virou dois corpos abraçados

(mas não era a mesma coisa!)

E o silêncio persiste!!!

Palavras são emitidas,

mas parece não haver som

Confesso: estou com medo

(ela também!)

Medo de quê???

Medo de perdê-la

e nunca mais tê-la...

... de volta ... em meus braços

O rádio está ligado,

mas o silêncio continua... (insuportável!!!)

Fala-se sobre qualquer coisa,

mas o silêncio continua...

Será o fim?

Ou será apenas a explosão de outra neurose?

Enquanto escrevo,

meu corpo sua e treme!

Será febre?

Será medo?

Será que vou conseguir encontrar

alguém que eu goste de abraçar

alguém com quem eu possa conversar

alguém que eu possa amar,

sem ser você, amiga?

Acho difícil,

Acho impossível,

acho insuportável!

Mas, então, por que, meu Deus, por que?

Por que meu coração está confuso desse jeito?


Se eu a amo,

por que hesito?

Se não a amo,

por que existo?

Vejo seus olhos marejados

Sinto que ela vai chorar.

Se tenho vontade, por que não grito logo que a quero?

que a amo?

que a desejo?

Porque...

... sou imaturo

... sou um idiota

... sou influenciado por palavras que não vem da minha boca

nem da minha alma

nem do meu coração.

Mas, mesmo assim,

e por isso mesmo,

eu hesito quando

quando tudo seria bem mais fácil

e bem mais simples

se eu (mente, alma e coração)

apenas dissesse:


Meu amor, quero ficar contigo o resto de minha vida!


(11.10.92)

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Amar, nunca me coube




(Mario Quintana)


Mas sempre transbordou

O rio de lembranças

Que um dia me afogou



E nesta correnteza

Fiquei a navegar

Embora, com certeza,

Não possa me salvar



Amar nunca me trouxe

Completo esquecimento

Mas antes me somou

Ao antigo tormento



E assim, cada vez mais,

Me prendo neste nó

E cada grito meu

Parece ser maior




segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Sorrisos



Rodolfo Pamplona Filho


Todo sorriso é um enigma

mais difícil que o da esfinge

pois não há saída: ele nos devora,

seja alegre ou seja triste!


Cada dente exposto,

cada expressão no rosto

contém uma mensagem

Cada olhar brilhante,

cada riso vibrante

transmite uma imagem


Ela sorri para mim?

Ou ela sorri de mim?

Compreender é tão difícil

quanto se espera um “sim”!

Não se sabe se um sorriso

é um beijo ou uma ironia!

Não se sabe se um sorriso

emana sarcasmo ou poesia!


Por isso mesmo,

repito sempre o lugar comum:

“Sorria sempre, mesmo

que seja um sorriso triste!

Pois antes um sorriso triste

do que a tristeza

de não saber sorrir!”


(1991)


Musicado por Iuri Lemos Vieira em 2006


domingo, 30 de agosto de 2026

Coisa Amar



Manuel Alegre




Contar-te longamente as perigosas

coisas do mar. Contar-te o amor ardente

e as ilhas que só há no verbo amar.

Contar-te longamente longamente.



Amor ardente. Amor ardente. E mar.

Contar-te longamente as misteriosas

maravilhas do verbo navegar.

E mar. Amar: as coisas perigosas.



Contar-te longamente que já foi

num tempo doce coisa amar. E mar.

Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.



Contar-te o mar ardente e o verbo amar.

E longamente as coisas perigosas.

sábado, 29 de agosto de 2026

Esperança




Rodolfo Pamplona Filho


O futuro há de ser melhor do que o presente

e infinitamente superior ao passado recente,

pois guarda em sim um querer

que se renova a cada alvorecer


Não é o amor que difere o homem dos outros animais...

Não é a falta de guerra que garante a paz...

Não é a pesquisa lógica que impulsiona à solução...

Não é o remédio que traz calma ao coração...


É a força que move o doente à cura...

É o que faz a alma se manter pura...

É o que se sente no sorriso da criança...

É a mais clara forma de fé: a esperança!


Viver é o exercício da persistência

em um mundo que mina sua resistência

com armadilhas dolorosas nos pontos mais sensíveis,

criando obstáculos cada dia mais terríveis...


Mas nada disso realmente importa

quando a sensação que bate à nossa porta

é uma confiança inexplicável no amanhã

com um renascer da vontade a cada manhã...


Salvador, 23 de maio de 2010


Para Micael...


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Me marcou





(Negra Luz)


Com o melhor cheiro que já senti,

Com a comida mais gostosa que comi,

Com o banho mais bem tomado que tomei ,

Com o sermão mais pujante que ouvi


Também, com o melhor conselho,

Com a palavra mais sábia,

Com o provérbio mais significativo,

Com a frase que ficou


E, assim era, com o mais inebriante sorriso,

Com o olhar mais profundo,

Com o abraço que mais me aqueceu,

Com o beijo de mais abnegado amor


Minha mãe me marcou com tudo, 

Que traduzia seu amor.

Eu sigo e, nas marcas em mim,




Reencontro tudo de bom que Mainha deixou!

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A Banalização da Morte

 



Rodolfo Pamplona Filho




A TV divulga, a rádio anuncia,

o jornal comunica

o saldo das mortes do final de semana...

o trânsito, o acidente doméstico

ou a costumeira e pontual queima de arquivo...



Normal...



Ouvimos impassíveis,

tomando o café nosso de cada dia,

no meio das notícias políticas

ou da alegria ou tristeza com

o resultado do jogo do nosso time...



Normal...



Não há espaço para indignação,

nem mesmo há tempo para isso...

A informação passa por

nossos olhos e ouvidos

como uma brisa imperceptível...



Normal...



O sangue escorre das imagens,

do som e dos papéis...

mas não se sente nada...

Anestesia coletiva, difusa e impessoal...

A apatia e a indiferença

não fazem acepção de pessoas...



Normal...


Normal?




Salvador, 16 de agosto de 2010, uma segunda-feira sangrenta...


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Tempo Rei





Gilberto Gil


Não me iludo

Tudo permanecerá

Do jeito que tem sido

Transcorrendo

Transformando

Tempo e espaço navegando

Todos os sentidos...


Pães de Açúcar

Corcovados

Fustigados pela chuva

E pelo eterno vento...


Água mole

Pedra dura

Tanto bate

Que não restará

Nem pensamento...


Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Transformai

As velhas formas do viver

Ensinai-me

Oh Pai!

O que eu, ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo

Socorrei!...


Pensamento!

Mesmo o fundamento

Singular do ser humano

De um momento, para o outro

Poderá não mais fundar

Nem gregos, nem baianos...


Mães zelosas

Pais corujas

Vejam como as águas

De repente ficam sujas...


Não se iludam

Não me iludo

Tudo agora mesmo

Pode estar por um segundo...


Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Transformai

As velhas formas do viver

Ensinai-me

Oh Pai!

O que eu, ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo

Socorrei!...



terça-feira, 25 de agosto de 2026

Morrer é Doce!



Rodolfo Pamplona Filho



Quando em meu peito, romper-se a corrente

Que a alma me prende à dor de viver

Não quero por mim, nem uma lágrima,

Nem um suspiro, nem um sofrer...

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu passamento.

Não quero que um sorriso

Se apague pelo fim do meu triste tormento!


Viver foi peregrinar no deserto,

Procurando achar o que não estava escondido,

viver foi submergir no tédio,

Tentando encontrar o que já estava perdido

Quando se esgotar o meu suspiro,

Não desfolhe por mim sequer uma flor!

Não tornai outro ente matéria inútil.

Sozinho, da morte, deixai-me o torpor!


No meu epitáfio, escrevas:

Foi homem e, pela vida, passou

Como nas horas de um pesadelo

Que só, com a bela senhora, acordou


Descansem meu leito solitário

À sombra de um triste cipreste,

Numa floresta há muito esquecida

Onde não usurpem o que ainda me reste.

Este parece ser meu desejo final

Neste esperado momento de verdade nua.

Eis-me pronto para beijar a bela senhora

E ver como a morte é doce e crua!

(1989)

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Busque Amor novas artes, novo engenho




Luís de Camões



Busque Amor novas artes, novo engenho

Pera matar-me, e novas esquivanças,

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.


Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.


Mas, enquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê,



Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como e dói não sei porquê.




domingo, 23 de agosto de 2026

O Dia

 



Rodolfo Pamplona Filho


É hoje o dia!

E o sangue dá nova pulsada

como um atleta de corrida...

Será que, antes da chegada,

já será despedida?


É hoje o dia!

E a ansiedade

toma todo o corpo,

como se a vontade

aproximasse o porto...


É hoje o dia!

Mas que desespero!

A cada minuto de espera,

tenho um pesadelo

de que serei esquecido na terra...


É hoje o dia!

Tenho a esperança

de que tudo vai dar certo

toda vez que vem a lembrança

de que o momento está perto!


É hoje o dia!

Recebi a confirmação

de que não houve desistência,

o que faz meu coração

renovar sua resistência!


É hoje o dia!

É agora a hora!

Por isso, sem demora,

farei o que sempre quis:

apenas ser feliz.


Salvador, 26 de agosto de 2011.

sábado, 22 de agosto de 2026

Apoteose

 





 Tavares Bastos



Senhora, estes meus versos eram cheios

De tenebrosos, místicos pecados,

Porém já foram todos comungados

Com a hóstia santa dos teus níveos seios!


E assim por essa luz iluminados

Apagaram-se os tristes devaneios

Que os maculavam de cruéis anseios,

Brumando-os de negrores mascarados!...


E já que os leste, minha santa amada,

Rasga-os agora: quero estrangulada

Minh'alma ver em tuas mãos de neve!...



E então, que este prazer ainda eu goze,

Erguendo novamente uma ara leve


Para fazer-te nova Apoteose!...


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Poliamorismo





Rodolfo Pamplona Filho


Por que não se pode

amar mais de uma pessoa

ao mesmo tempo?

Por que o ato de amar

exige uma exclusividade artificial,

como se o coração pudesse

ser controlado como

um bicho de estimação?


Para alguém ser completo,

é possível que haja mais de uma peça

para formar um todo,

que não é um quebra-cabeça,

mas, sim, um complexo prisma,

cujas faces são complementares,

não havendo verdade ou mentira,

pois tudo dependerá do ângulo que se mira...


Eu quero amar você eternamente,

mas não quero deixar de amar ninguém...

Eu quero ficar com você o resto da vida,

mas isso não significa viver só a dois...

Meu amor não é uma cabine simples,

com apenas dois lugares:

é um mar com vários ecossistemas,

uma galáxia com diversas estrelas...


Eu não quero a clandestinidade

de viver um amor marginal...

Quero uma relação de maturidade

em que haja entrega total,

sem a ilusão da única cara metade,

vivendo o múltiplo afeto da vida real.


San Francisco, 28 de setembro de 2010.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Agonia (Soneto pelo avesso)



Rodolfo Pamplona Filho


Agonia


Angústia


Tensão




Stress


Impotência


Confusão




Vontade de sumir


e nunca mais aparecer...


Desejo sincero


de nunca mais acontecer...




Pensar se há alternativa


para o que não se soluciona


com toda a fé na medicina


em questão que não se equaciona




Salvador, 26 de fevereiro de 2012.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Amor sem promessas





Rodolfo Pamplona Filho




Quando se ama,


fazem-se promessas,


como se houvesse necessidade


de verbalizar


que se pode fazer tudo


por amor




Mas prometer gera expectativas


que, quando não realizadas,


causam uma frustração,


como se o amor perdesse força


por uma promessa não cumprida.




É olhar uma parte pelo todo,


o acessório pelo principal,


o detalhe pelo conjunto,


o universo por um lugar


a vida por um dia




Amar não exige promessas


Amar exige amar


Amar sem promessas


Amar, simplesmente amar.




Salvador, 06 de julho de 2018.