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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Murmúrio








Cecília Meireles




Traze-me um pouco das sombras serenas


que as nuvens transportam por cima do dia!


Um pouco de sombra, apenas,


- vê que nem te peço alegria.






Traze-me um pouco da alvura dos luares


que a noite sustenta no teu coração!


A alvura, apenas, dos ares:


- vê que nem te peço ilusão.






Traze-me um pouco da tua lembrança,


aroma perdido, saudade da flor!


- Vê que nem te digo - esperança!


- Vê que nem sequer sonho - amor!

terça-feira, 17 de março de 2026

Aceitando o que é possível

 




 



Rodolfo Pamplona Filho




Sonhar não custa nada,

mas alcançar o que se deseja

não é fácil

e, muitas vezes,

só se pode

se confirmar com o que se tem,

suspirar pelo que não vem,

lamentar o irrealizável

e aceitar o que é possível.


Salvador, 16 de dezembro de 2022.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Canção

 




 

 


Cecília Meireles



Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar



Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.



O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...



Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.



Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Murmúrio




Cecília Meireles


Traze-me um pouco das sombras serenas

que as nuvens transportam por cima do dia!

Um pouco de sombra, apenas,

- vê que nem te peço alegria.



Traze-me um pouco da alvura dos luares

que a noite sustenta no teu coração!

A alvura, apenas, dos ares:

- vê que nem te peço ilusão.



Traze-me um pouco da tua lembrança,

aroma perdido, saudade da flor!

- Vê que nem te digo - esperança!

- Vê que nem sequer sonho - amor!

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Recado

 



Fagundes de Oliveira





Demonstra com doçura o teu amor,

Num gesto apenas, sem falar, só pensa

O quanto o sentimento é uma presença

Que adorna a vida e a encanta em seu valor.



O orvalho da manhã tem um sabor

De vida nova e uma esperança imensa.

O tempo vai passando e a recompensa\

É igual a um beijo dado com calor.



Procura ser feliz - a vida é leve

Não pára e não dá tempo à indecisão;

É um vento que acalenta enquanto é breve.



O sonho vai passando e na verdade

É uma janela aberta à imensidão

Com gosto de esperança e de saudade.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Reflexão n°.1




Murilo Mendes



Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

Nem ama duas vezes a mesma mulher.

Deus de onde tudo deriva

E a circulação e o movimento infinito.




Ainda não estamos habituados com o mundo

Nascer é muito comprido.


sábado, 26 de abril de 2025

Canção

 


 

Cecília Meireles



Pus o meu sonho num navio


e o navio em cima do mar;


- depois, abri o mar com as mãos,


para o meu sonho naufragar






Minhas mãos ainda estão molhadas


do azul das ondas entreabertas,


e a cor que escorre de meus dedos


colore as areias desertas.






O vento vem vindo de longe,


a noite se curva de frio;


debaixo da água vai morrendo


meu sonho, dentro de um navio...






Chorarei quanto for preciso,


para fazer com que o mar cresça,


e o meu navio chegue ao fundo


e o meu sonho desapareça.






Depois, tudo estará perfeito;


praia lisa, águas ordenadas,


meus olhos secos como pedras


e as minhas duas mãos quebradas.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Aceitando o que é possível

 


 






Rodolfo Pamplona Filho




Sonhar não custa nada,


mas alcançar o que se deseja


não é fácil


e, muitas vezes,


só se pode


se confirmar com o que se tem,


suspirar pelo que não vem,


lamentar o irrealizável


e aceitar o que é possível.


 


Salvador, 16 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

O que se quer de um amor

 





Rodolfo Pamplona Filho


O que se quer de um amor?

Sonho na infância

Parceria na juventude

Compreensão na maturidade

Solidariedade na solidão da velhice...


Salvador, 25 de março de 2018.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Viagem Passageira

 




Gal Costa


O sonho é ter tudo resolvido

Com o passar do tempo pela vida

A casca da ferida se formando

A cicatriz na pele do futuro

A pele do futuro finalmente

Imune ao corte, à lâmina do tempo

O tempo finalmente estilhaçado

E a poeira sumindo no horizonte


O sonho é ter tudo dissolvido

O corpo, a mente, a fonte da lembrança

Enfim, ponto final na esperança

Somente as ondas soltas no oceano

Não mais o esperma e o óvulo da morte

Não mais a incerteza do binário

Um tempo liso sem o fuso horário


Não mais um sim, um não, um sul, um norte

O sonho dessa canção passageira

Mochila da viagem passageira

Passagem nessa vida passageira

Para uma vida ainda passageira

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Tão delicada...

 


 


Mihai Eminescu



Tão delicada, és semelhante

À alva flor da cerejeira.

E como um anjo entre os mortais

Surges da minha vida à beira.


Nem bem tu tocas o tapete,

A seda soa ao teu pisar

E da cabeça até os pés

Pairas num sonho, a flutuar.


Das dobras longas do vestido,

Como do mármore, ressais,

Presa a minh’alma aos olhos teus

Cheios de lágrimas e ais.


Ó sonho meu feliz de amor,

Noiva suave, de outras lendas,

Não me sorrias! Se sorrires

Tua doçura me desvendas.


Podes, no encanto da tua noite,

Deixar-me os olhos sempre baços

E com o murmúrio de tua boca

No frio enredo dos teus braços.


Súbito, passa um pensamento

No véu do teu ardente olhar:

É a renúncia penumbrosa,

Sombra de doce suspirar.


Te vais e eu bem compreendi

Não mais deter o passo teu;

Perdida, sempre, para mim,

Noiva imortal no peito meu!


Pois ter-te visto é culpa minha,

Da qual jamais terei perdão;

Expiarei sonho de luz

A mão direita erguendo, em vão.


Ressurgirás como uma aura

Da eterna virgem, de Maria,

Em tua fronte uma coroa...

Aonde tu vais? Voltas um dia?




Tradução: Luciano Maia


quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Sincronicidade Onírica

 

 





Rodolfo Pamplona Filho


 

Sonhos juntos

revelam desejos

individuais e coletivos

Medos e Projetos

Passado e Futuro

coabitando o inconsciente


Sonhos juntos

revelam anseios

verdadeiros ou idealizados

Temores e Audácia

Ontem e amanhã

coexistindo no presente


 Sonhos juntos

Comprovam suspeitas

racionais ou inconscientes

Traumas e Gatilhos

Complexos e Redenções

convivendo tempestuosamente

na Sincronicidade Onírica


 


Salvador, 25 de julho de 2024.

sábado, 27 de julho de 2024

Recado

 






Fagundes de Oliveira




Demonstra com doçura o teu amor,

Num gesto apenas, sem falar, só pensa

O quanto o sentimento é uma presença

Que adorna a vida e a encanta em seu valor.



O orvalho da manhã tem um sabor

De vida nova e uma esperança imensa.

O tempo vai passando e a recompensa\

É igual a um beijo dado com calor.



Procura ser feliz - a vida é leve

Não pára e não dá tempo à indecisão;

É um vento que acalenta enquanto é breve.



O sonho vai passando e na verdade

É uma janela aberta à imensidão

Com gosto de esperança e de saudade.


quinta-feira, 30 de maio de 2024

Reflexão n°.1


 


Murilo Mendes



Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

Nem ama duas vezes a mesma mulher.

Deus de onde tudo deriva

E a circulação e o movimento infinito.


Ainda não estamos habituados com o mundo

Nascer é muito comprido.


 


domingo, 10 de março de 2024

A lenda da Tília

 







Mihai Eminescu


-“Branca, sabes que de amor

sem lei nasceste, mas isto

fez-me jurar desde então

que esposarás Jesus Cristo!


Vestindo o hábito de monja,

Indo a um mundo mais sublime,

Redimirás tua mãe,

Me libertarás de um crime.”


-“Deste mundo, caro pai,

quem quiser dele se mude;

a minh’alma é tão alegre,

radiosa a juventude!


A dança, a música, o bosque,

Isto é o que minh’alma preza;

Não um catre solitário

Onde chorando se reza!”




-“Sei o que melhor te serve,

como eu disse assim será;

À viagem de amanhã,

Te prepara desde já!”


Mãos aos olhos leva Branca,

Tudo em sua mente se aduna;

A cabeça ardendo, louca...

Só lhe resta esta fortuna?


Seu cavalo branco, amigo,

Selado lá fora, espera;

Ela põe o pé no estribo,

Ir ao bosque delibera.


A noite vem do arvoredo

Cujo perfume a embevece;

O céu as estrelas mostra,

Doce anúncio se oferece.




Ela nos bosques penetra

Até a velha tília, onde,

Com flores que vêm ao solo,

Fonte mágica se esconde.


Embalada à voz das águas,

Canta a trompa, um som incerto.

Forte... cada vez mais forte...

Perto... cada vez mais perto...


E a fonte, presa em magia,

Brotando, um rumor espraia –

Sobre os bosques das colinas,

Lua branda de atalaia.


Como em sonho, Ela delira

E ao olhar, pasma, ao seu lado,

Vê um garboso mancebo

Em corcel negro montado...


Será que os olhos lhe mentem?

Ou será verdade pura?

Flores de tília ao cabelo,

Trompa de prata à cintura.


Ela então os olhos baixa,

Passa a mão na fronte e um gozo

O seu coração lhe inunda

De um encanto doloroso.


Ele se chega mais perto,

Infantil e suplicante;

Dela a alma se inebria,

Cerra os olhos, neste instante.


Com uma mão tenta afastá-lo,

Mas sente presos seus braços

De uma dor, de uma doçura

No seu peito em fortes laços.


Gritaria... mas não ousa,

Sua fronte cai-lhe ao ombro;

Seus beijos sem conta a boca

Dele sorve, em desassombro.



Carinhoso, ele a interroga

Mas ela a face lhe esconde.

E com voz doce, baixinho,

Pouco a pouco lhe responde.

..................................................

Vão juntos, em cavalgada,

A ninguém ouvidos dando,

E no amor, vão um ao outro

Nos olhos se devorando.


E sempre vão mais além

Por sombras, de vale em vale;

E a melancólica trompa

Soa doce, soa grave.


O seu brando som se espalha

Pelos vales ressoante,

Mais suave... mais suave...

Mais distante... mais distante...


Sobre os pinhos das colinas

Segue a lua de atalaia.

E a fonte, presa em magia,

Brotando, um rumor espraia.


 


Tradução: Luciano Maia


sexta-feira, 8 de março de 2024

Tão delicada...

 



Mihai Eminescu



Tão delicada, és semelhante

À alva flor da cerejeira.

E como um anjo entre os mortais

Surges da minha vida à beira.


Nem bem tu tocas o tapete,

A seda soa ao teu pisar

E da cabeça até os pés

Pairas num sonho, a flutuar.


Das dobras longas do vestido,

Como do mármore, ressais,

Presa a minh’alma aos olhos teus

Cheios de lágrimas e ais.


Ó sonho meu feliz de amor,

Noiva suave, de outras lendas,

Não me sorrias! Se sorrires

Tua doçura me desvendas.


Podes, no encanto da tua noite,

Deixar-me os olhos sempre baços

E com o murmúrio de tua boca

No frio enredo dos teus braços.




Súbito, passa um pensamento

No véu do teu ardente olhar:

É a renúncia penumbrosa,

Sombra de doce suspirar.


Te vais e eu bem compreendi

Não mais deter o passo teu;

Perdida, sempre, para mim,

Noiva imortal no peito meu!


Pois ter-te visto é culpa minha,

Da qual jamais terei perdão;

Expiarei sonho de luz

A mão direita erguendo, em vão.


Ressurgirás como uma aura

Da eterna virgem, de Maria,

Em tua fronte uma coroa...

Aonde tu vais? Voltas um dia?


 


 


Tradução: Luciano Maia

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Os Sonhos

 



Abdias Sá


De repente acordo e vejo bem perto

De mim, colado quase ao meu, desnudo,

Também, cansado, inerte no veludo,

O corpo dela, sem censura, aberto


O coração, de sentimento incerto,

Às vezes, mesmo, indiferente a tudo.

De tanto vê-la assim me desiludo

E me entristeço sempre que desperto.


Sem esperança de acordar com ela,

Eu fico preso ao meu amor constante

E paro, e penso e sinto,  num instante,


Quando ela dorme, assim, imóvel, bela:

...Eu dos seus sonhos estou tão distante,

Que nem parece que estou junto dela. 



                             João Pessoa, 1981


quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Sono (de A Mesma Noite)

 



Heitor Ferraz Mello


Tudo vai revertendo

em sono forte.

Impulso de fuga

para o país vário

da insolência do sol,

da tempestade

temperada em sonho.

O sono vai correndo

ardiloso

todas as formas,

dentes,

olhos por fora.

E o coração pára

diluído no copo d'água

ao lado.

 


domingo, 24 de dezembro de 2023

Vaidade

 




Florbela Espanca


                                           A um grande poeta de Portugal

 


Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade !


Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo ! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade !

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a Terra anda curvada !



E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Livro de mágoas (1919)


 


quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Fanatismo

 




Florbela Espanca


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver !

Não és sequer a razão do meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida !


Não vejo nada assim enlouquecida ...

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No misterioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida !


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim !



E, olhos postos em ti, digo de rastros :

"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."



Livro de Soror Saudade (1923)