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segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Minha Escola de Samba




Rodolfo Pamplona Filho


Boca carnuda

com lábios de enlouquecer 

Comissão de frente 

convidando para receber 

Barriga chapada

com pele de veludo 

Alas armadas

que merecem estudo…

Que reco-reco! 

Que tamborim!

Com um bumbo tocando 

a noite toda para mim 

Com um pandeiro chamando

para um samba sem fim…


Morro de São Paulo, 4 de janeiro de 2023.


segunda-feira, 14 de novembro de 2022

O sítio

 



André Carvalheira



Em cada canto da casa,


teu cheiro felino


Em tudo reluz


Nas folhas, teus cabelos embaraçam


No vento, teu som-só sopra prazeres


N'água, teu corpo escorre segredos


Nas pedras, teus pés nus-húmidos gozam


Em cada canto de mim, teu cheiro felino


Em tudo reluz

sábado, 10 de setembro de 2022

O Sítio

 






Em cada canto da casa,

teu cheiro felino


Em tudo reluz

Nas folhas, teus cabelos embaraçam

No vento, teu som-só sopra prazeres


N'água, teu corpo escorre segredos

Nas pedras, teus pés nus-húmidos gozam

Em cada canto de mim, teu cheiro felino

Em tudo reluz


André Carvalheira

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Elegância



 

Paul Valery descreveu

Elegância como “a arte

de não se fazer notar,

aliada ao cuidado sutil

de se deixar distinguir”.

 

Algumas pessoas têm

um tipo de elegância

que as fazem chamar atenção

por onde passam

independente do que estejam vestindo,

com quem estão andando

ou de que assunto estejam falando.

 

Não sei se tudo isso decorre

do estilo de vestimenta

ou do sorriso dos lábios,

mas tenho certeza

de que o faz roubar a atenção

talvez tenha sido a pureza da alma...

 

Salvador, 21 de agosto de 2020.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

A MULHER





Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

Florbela Espanca

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A MULHER





Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

Florbela Espanca

quinta-feira, 12 de março de 2020

O quereres

Resultado de imagem para pintura tropicalista


Caetano Veloso




Onde queres revólver sou coqueiro
E onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo
E onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto eu sou o chão
E onde pisas o chão minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão
E onde queres cowboy eu sou chinês
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato eu sou espírito
E onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo
E onde buscas o anjo sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido sou herói
Eu queria querer-te e amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n'roll
Onde quers a lua eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo-te aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A MULHER









Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

Florbela Espanca

sábado, 14 de setembro de 2019

Minha moeda







Uma riqueza eu guardava
Passei agora a distribuir
Sou artista das palavras
Que foram depositadas em mim

Creditadas desde o ventre
Por aquela que ao mundo me fez vir
Hieróglifos de amor
Compreendidos pelo sentir

De moeda em moeda
Que da conta me perdi
Sou um banco de palavras
De tão rica que me senti

A riqueza acumulada
Eu passei a dividir
Pois desta vida nada se leva
Vale aquilo que vivi

Quando no papel assento um poema
Sinto: com o Mundo reparti
A fortuna que de graça
De tantos outros recebi

E, se pensas, só foi da família
Que riquezas recebi...
Acharás na Antiga História
Traços do saldo creditado em mim

Sendo assim passa a ser tua
Minhas posses repasso a ti.
Pelos poemas, deposito versos
Transferências para banco que habita em ti.

Negra Luz

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Sedução



Adélia Prado

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A AUSENTE



Vinicius de Moraes

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Constatação Óbvia


Rodolfo Pamplona Filho




Quanto mais o tempo passa,
quanto mais velho eu fico,
mais a vida adulta parece ser
aquele treco frustrante e idiota
que te impede de ler HQ's...


Salvador, 28 de julho de 2013.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Mas



Me ame devagarinho
Mas não tão devagar
Me olhe com desejo pulsante
Mas de forma que não vá me amedrontar

Me deseje em qualquer lugar
Mas não a todo momento
Me procure aonde eu estiver
Mas não me traga sofrimento

Me acalme com palavras
Mas não com apenas uma expressão
Me alimente com seus olhos
Mas de forma que não vá partir meu coração

Me dê todo amor que tiver
E me entregue seu coração
Mas, se um dia eu o partir
É porque a poesia se esvaiu na multidão

Ricardo Oliveira do Nascimento

Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O sítio

André Carvalheira





Em cada canto da casa,

teu cheiro felino

Em tudo reluz

Nas folhas, teus cabelos embaraçam

No vento, teu som-só sopra prazeres

N'água, teu corpo escorre segredos

Nas pedras, teus pés nus-húmidos gozam

Em cada canto de mim, teu cheiro felino

Em tudo reluz

domingo, 4 de outubro de 2015

Nenhum corpo é como o seu

Rodolfo Pamplona Filho





Nele, me espalho,
como a explorar
um território encantado
e inebriante...
Nele, me encaixo,
como se moldado
para uma sintonia exclusiva
e reconfortante...
Nele, procuro
cada forma de excitação,para sentir o arrepio
da troca de experiências.
Nele, coloco
minha língua,
meu desejo,
minha essência.
Nele, exercito
cada parte de meu ser,
esgotando cada líquido
e entregando o que sou...
Nele, descanso
sem medo do mundo lá fora,
pois o amanhã pertence
a quem descobriu o seu amor.



Capetown, 10 de setembro de 2015.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Teu sexo

Viajo ao redor do teu sexo,
Peregrino no altiplano dos teus bruços,
Andarilho sem rumo, nas corolas dos teus seios.
Cada acre do teu corpo me fascina,
Cada coxilha do teu torso me detém,
E em mim retém a vocação que me destino.



Teu sexo recende a mirra
--- Termo intocado em minha rota de migrante.

Teu sexo tem som de concha
Na ressonância das marés dos meus naufrágios.

Eros Grau

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Anjo Satã

Há uma mulher, de quem falam

por casas e praças,

que tem fama e fervor.

Decide se acompanha ou opõe.



Dizem de suas orações e do que manda fazer,

dos homens que a ela não se comparam.

Galardões e seminários, em arrastos e confissões,

por honra da senhora dos feitiços e bênçãos.



 Entre terras e escravos, minas e fundições,

a fortuna que tantos sondaram,

os beijos de bajulações e outros empregos.

Soube abraçar e esquivar, manter e disputar.



O padre e o banqueiro, o contratador e o governador,

quem pode os seus pedidos ignorar?

Roga a Deus em visões.

Alguma vez sorriu, se disse feliz?



Dizem os bons: é um anjo encarnado!

Seus desejos espargem amor e docilidade.

Quando jovem, encantou, com suavidade de rosa,

gentes do campo e da cidade.



Afirmam os profanos: é satã afeminado!

Sua boca reparte fel e inimizade.

Sua flor se abriu em propositada cilada

ao capitão que embarcou na conhecida emboscada.



Por conselho quebrou dificuldades e jornadas

tolamente propagadas.

Propriedade não é estima.

Respeito e admiração: busca de conquista.



Não tem qualidade o corpo reles que jaz

sem alma ativa e corada,

como não tem mérito o sentimento do filho

que por vã afronta recebe castigo.



As encomendas que se fazem

são parcas e desmerecem

a memória de tempos bruscos e mal acolhidos.

Descanso é refúgio não reservado.



O trabalho será eternizado na dor

de quem compra indulgência sem sacrifício.

A herança está consumada em fogo,

purificada de mãos sem engenho e desvalorosas.



Ditosa mulher ambígua,

que aos meus sentimentos não satisfaz,

sua morte encerrou muitas vidas

e a minha já não se compraz.





Bruno Terra Dias

sábado, 21 de junho de 2014

Constatação Óbvia

Constatação Óbvia

Rodolfo Pamplona Filho
Quanto mais o tempo passa,
quanto mais velho eu fico,
mais a vida adulta parece ser
aquele treco frustrante e idiota
que te impede de ler HQ's...


Salvador, 28 de julho de 2013.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Sobre eles...


Sobre eles...

Rodolfo Pamplona Filho
Dois colossos imponentes
de rara beleza e volúpia,
levemente entumecidos
pelo toque de meus dedos
ou o roçar de minha língua
deslizando em seus caminhos,
como a desbravar novas fontes,
de onde emana a seiva da vida,
que alimenta o meu desejo,
sem nunca saciá-lo,
pois a delicia de seu beijo
é o alimento de minh'alma
e que somente se acalma
com o perfume que exala
de cada poro destinatário
da minha entrega e tesão,
no verdadeiro significado
da palavra sofreguidão,
ao se entregar à minha boca,
que nunca cansará
de tocar sua pele
e sentir o seu gosto,
para descobrir o paraíso...

Salvador, 09de novembro de 2012.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

AMANTES


 

AMANTES
Dos amantes dichosos hacen un solo pan,
una sola gota de luna en la hierba,
dejan andando dos sombras que se reunen,
dejan un solo sol vacio en una cama.
De todas las berdades escogieron el dia:
ne se ataron con hilos sino con un aroma,
y no despedazaron la paz ni las palabras.
La dicha es una torre transparente.
El aire, el vino van con los dos amantes,
la noche les regala sus petalos dichosos,
tienen derecho a todos los claveles.
Dos amantes dichosos no tienen fin ni muerte,
nacen y mueren muchas veces mientras viven,
tienen la eternidad de la nturaleza.
Pablo Neruda