segunda-feira, 27 de julho de 2026

Tempo Rei






Gilberto Gil



Não me iludo

Tudo permanecerá

Do jeito que tem sido

Transcorrendo

Transformando

Tempo e espaço navegando

Todos os sentidos...



Pães de Açúcar

Corcovados

Fustigados pela chuva

E pelo eterno vento...



Água mole

Pedra dura

Tanto bate

Que não restará

Nem pensamento...



Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Transformai

As velhas formas do viver

Ensinai-me

Oh Pai!

O que eu, ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo

Socorrei!...



Pensamento!

Mesmo o fundamento

Singular do ser humano

De um momento, para o outro

Poderá não mais fundar

Nem gregos, nem baianos...



Mães zelosas

Pais corujas

Vejam como as águas

De repente ficam sujas...



Não se iludam

Não me iludo

Tudo agora mesmo

Pode estar por um segundo...



Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Oh Tempo Rei!

Transformai

As velhas formas do viver

Ensinai-me

Oh Pai!

O que eu, ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo

Socorrei!...


domingo, 26 de julho de 2026

Morrer é Doce!





Rodolfo Pamplona Filho



Quando em meu peito, romper-se a corrente

Que a alma me prende à dor de viver

Não quero por mim, nem uma lágrima,

Nem um suspiro, nem um sofrer...

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu passamento.

Não quero que um sorriso

Se apague pelo fim do meu triste tormento!


Viver foi peregrinar no deserto,

Procurando achar o que não estava escondido,

viver foi submergir no tédio,

Tentando encontrar o que já estava perdido

Quando se esgotar o meu suspiro,

Não desfolhe por mim sequer uma flor!

Não tornai outro ente matéria inútil.

Sozinho, da morte, deixai-me o torpor!


No meu epitáfio, escrevas:

Foi homem e, pela vida, passou

Como nas horas de um pesadelo

Que só, com a bela senhora, acordou


Descansem meu leito solitário

À sombra de um triste cipreste,

Numa floresta há muito esquecida

Onde não usurpem o que ainda me reste.

Este parece ser meu desejo final

Neste esperado momento de verdade nua.

Eis-me pronto para beijar a bela senhora

E ver como a morte é doce e crua!


(1989)


sábado, 25 de julho de 2026

Busque Amor novas artes, novo engenho






Luís de Camões



Busque Amor novas artes, novo engenho

Pera matar-me, e novas esquivanças,

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.



Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.


Mas, enquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê,



Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como e dói não sei porquê.




sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Dia

 



Rodolfo Pamplona Filho




É hoje o dia!

E o sangue dá nova pulsada

como um atleta de corrida...

Será que, antes da chegada,

já será despedida?


É hoje o dia!

E a ansiedade

toma todo o corpo,

como se a vontade

aproximasse o porto...


É hoje o dia!

Mas que desespero!

A cada minuto de espera,

tenho um pesadelo

de que serei esquecido na terra...


É hoje o dia!

Tenho a esperança

de que tudo vai dar certo

toda vez que vem a lembrança

de que o momento está perto!


É hoje o dia!

Recebi a confirmação

de que não houve desistência,

o que faz meu coração

renovar sua resistência!


É hoje o dia!

É agora a hora!

Por isso, sem demora,

farei o que sempre quis:

apenas ser feliz.




Salvador, 26 de agosto de 2011.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Apoteose



 Tavares Bastos



Senhora, estes meus versos eram cheios

De tenebrosos, místicos pecados,

Porém já foram todos comungados

Com a hóstia santa dos teus níveos seios!



E assim por essa luz iluminados

Apagaram-se os tristes devaneios

Que os maculavam de cruéis anseios,

Brumando-os de negrores mascarados!...



E já que os leste, minha santa amada,

Rasga-os agora: quero estrangulada

Minh'alma ver em tuas mãos de neve!...


E então, que este prazer ainda eu goze,

Erguendo novamente uma ara leve



Para fazer-te nova Apoteose!...


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Poliamorismo







Rodolfo Pamplona Filho


Por que não se pode

amar mais de uma pessoa

ao mesmo tempo?

Por que o ato de amar

exige uma exclusividade artificial,

como se o coração pudesse

ser controlado como

um bicho de estimação?


Para alguém ser completo,

é possível que haja mais de uma peça

para formar um todo,

que não é um quebra-cabeça,

mas, sim, um complexo prisma,

cujas faces são complementares,

não havendo verdade ou mentira,

pois tudo dependerá do ângulo que se mira...


Eu quero amar você eternamente,

mas não quero deixar de amar ninguém...

Eu quero ficar com você o resto da vida,

mas isso não significa viver só a dois...

Meu amor não é uma cabine simples,

com apenas dois lugares:

é um mar com vários ecossistemas,

uma galáxia com diversas estrelas...


Eu não quero a clandestinidade

de viver um amor marginal...

Quero uma relação de maturidade

em que haja entrega total,

sem a ilusão da única cara metade,

vivendo o múltiplo afeto da vida real.


San Francisco, 28 de setembro de 2010.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Mate-nos de vez



 Negra Luz




Mata-me de vez!

Não a pequenos golpes.

Não a bateias de mercúrio.

Contamina de vez os meus rios!

Destrói todas as matas!


Mata-me de vez!

Não unha a unha.

Não a contrabandos em feiras.

Extingue todas as espécies!

Fauna! Flora! Tudo!


Mata-me de vez!

Não a cotidianas torturas.

Não a lixo no ar... no mar...

Derrete as geleiras de Norte a Sul!

Detona todas as bombas que criou!


Mata-me de vez!

Não a queimadas de pasto.

Não a indígenas desabrigados.

Faz-me letra morta!

Revoga todos os meus direitos em lei!



Mate-me assim...

De vez!

Eu, Meio Ambiente, peço.

Mas lembre-se:

Você não é as baratas!









segunda-feira, 20 de julho de 2026

Desanimado, Desequilibrado e Desconfiado


 


Rodolfo Pamplona Filho

 

Quer-se viver

uma convivência Dez

mas o que mais se tem

é um relacionamento Des:

Desanimado,

Desequilibrado,

Desconfiado…

 

E é assim:

Descontrolado

Desesperado

Desesperado

que se vai sobrevivendo…

 

Falta a base

para a construção

de uma real intimidade,

a vivência no giro do ciclo da vida

 

O valor dessa intimidade

tende a prevalecer

na medida em que o tempo passa

 

Pois tudo pesa

A confiança pesa

O sexo pesa

O social pesa

 

E não há o que fazer…

O que é somente de uma parte

não pode ser tratado por terceiros

 

Por mais que seja fiel

Por mais que seja amoroso

Por mais que seja receptivo

 

Por mais que seja animado,

equilibrado e confiável,

não se pode mudar

o que não depende

verdadeiramente de si.

 

Macapá, 21 de maio de 2026.

domingo, 19 de julho de 2026

Receita de poema




Antonio Carlos Secchin.




Um poema que desaparecesse

à medida que fosse nascendo,

e que dele nada então restasse

senão o silêncio de estar não sendo.


Que nele apenas ecoasse

o som do vazio mais pleno.

E depois que tudo matasse

morresse do próprio veneno.


sábado, 18 de julho de 2026

Herança Digital

 




Rodolfo Pamplona Filho

 

Nos cofres da nuvem, em byte e protocolo,

Armazena-se a vida em código e memória;

Metadados narram, em silêncio e sem dolo,

Fragmentos de afeto em cifra transitória.

 

Perfis persistentes, sob gestão contratual,

Entre termos de uso e cláusula restritiva,

Guardam traços do eu em domínio virtual,

Na arquitetura lógica de herança ativa.

 

Há chaves privadas, senhas, autenticação,

Criptografia assimétrica em cofre selado;

Sem o devido acesso ou legitimação,

O acervo digital resta inacessado.

 

Testamento eletrônico, diretiva antecipada,

Define a sucessão de ativos intangíveis;

Entre direito e ética, a fronteira é traçada

Por regimes jurídicos ainda sensíveis.

 

E assim, na interface entre morte e sistema,

Subsiste a presença em dado estruturado;

Na persistência algorítmica de um teorema,

O legado humano segue virtualizado.

 

Salvador, 04 de maio de 2026.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Off price





Que a sorte me livre do mercado

e que me deixe

continuar fazendo (sem o saber)

fora de esquema

meu poema

inesperado



e que eu possa

cada vez mais desaprender

de pensar o pensado

e assim poder

reinventar o certo pelo errado


Ferreira Gullar. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Licença Parental

 


Rodolfo Pamplona Filho

 

No labor suspenso, nasce um direito essencial,

Amparo jurídico à chegada da existência,

Entre afeto e norma, vínculo inicial,

Protege-se o cuidado com digna consistência.

 

Não só genitora, tampouco apenas genitor,

Mas quem assume o encargo da formação,

Partilha-se o tempo, fortalece-se o amor,

Sob guarida legal da corresponsabilização.

 

No berço se firma o primeiro laço social,

Com presença contínua, zelo estruturante,

Desenvolvimento pleno, substrato vital,

Num convívio próximo, terno, edificante.

 

Licença que transcende previsão normativa,

Traduz humanidade na ordem instituída,

Pois cada instante em convivência afetiva

Consolida direitos na aurora da vida.

 

Salvador, 05 de maio de 2026.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Nicanor e seu Cavalo





Poema de Carlos Nejar (1939-)



Nunca vi ninguém olhar

com tal ternura um cavalo

e um cavalo navegar

nos seus olhos, desviá-lo

para dentro, onde é mar

e o mar, apenas cavalo.

Nunca vi ninguém olhar

nicanor naqueles olhos

que pareciam findar

onde os espaços se foram.

Nicanor sabia olhar

sem o menor intervalo

como lhe fosse apanhar

a toda brida, os andares.

E se podiam falar

num trote pequeno ou largo,

com rédea de muito amparo,

o corpo estando a montar

a eternidade cavalo.




terça-feira, 14 de julho de 2026

Pessoa com Deficiência e Convenção de Nova York

 




Rodolfo Pamplona Filho

 

À luz da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, enfim se proclama

que a limitação não define o existir;

pois é na barreira hostil que se inflama

o peso cruel de impedir e excluir.

 

Não basta o diagnóstico frio e restrito,

nem laudo encerrado em linguagem severa;

há muros erguidos no espaço infinito

da mente que nega, despreza e impera.

 

Se a urbe não abre caminhos decentes,

se faltam acesso, respeito e guarida,

transformam-se corpos, outrora potentes,

em alvos da sombra social instituída.

 

Por isso, a inclusão não traduz caridade,

nem gesto piedoso de falsa emoção;

é norma fundada em justiça e igualdade,

é força de cidadania em ação.

 

E, assim cada voz, sem temor, se levanta,

reivindica presença, trabalho e valor;

pois toda pessoa, em essência, é santa

na livre grandeza de seu próprio labor.

 

Eunápolis, 11 de maio de 2026.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Mãe

 

 









Poema de Adriano Espínola,


in: Praia provisória, 2006








De terra a tua voz,


de terra os teus gestos,


de terra a tua bênção,


de terra a tua mágoa,


de terra os teus restos


agora enraizados:


árvore crescendo


às avessas - lá onde


tudo começa e finda:


no silêncio do sangue


que me dói ainda.





domingo, 12 de julho de 2026

Sobre Estímulos e Freios

 



Rodolfo Pamplona Filho

 

A liberdade de expressão

implica em assumir

as consequências do que se diz,

mesmo quando se fala coisas

sem saber do que está falando

 

O que se pretende

ser um estímulo

vira um freio abrupto

do desejo de viver

 

Desistir para não sofrer?

Esquecer para não chorar?

Nada disso traz paz…

Afinal, antes viver

a sensação de lutar

e ser derrotado

do que a de nem sequer tentar…

 

Marabá, 21 de maio de 2026.

sábado, 11 de julho de 2026

Soneto






Sânzio de Azevedo



Há muito tempo, muito tempo mesmo,

sentisse uma tristeza ou uma alegria,

brotavam-me da pena, às tontas, a esmo,

rastros de poema, cacos de poesia...

É claro que nem tudo que me vinha

com maior ou menor facilidade,

ao fim e ao cabo, na verdade tinha

a mesma altura, a mesma qualidade.

Mas escrevia. Hoje, bem mais distante

ficou aquilo que era minha meta.

Somente a inspiração rara e inconstante

é que me diz que ainda sou poeta.

Já nem sei bem o que daria agora

para escrever poemas como outrora.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Soneto da Justiça Criminal Defensiva

 




Rodolfo Pamplona Filho

 

Se o medo orienta o julgar prudente,

a balança inclina-se sem razão;

pune-se antes, de modo recorrente,

para evitar suposta omissão.

 

A pressão social, voz insistente,

influi por vezes na decisão;

e o juiz, temendo agir displicente,

afasta-se da justa direção.

 

Mas julgar exige firmeza e critério,

não se submete ao clamor etéreo,

nem ao receio de eventual falha,

 

pois o Direito, em seu magistério,

busca o equilíbrio sério e austero,

onde a Justiça jamais se embaralha.

 

Brasília, 03 de maio de 2026.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Fui Eu



 


Poema de Fernando Py (1935-2020)



Fui eu esse menino que me espia

– melancólico olhar, sereno rosto,

postura fixa e o todo bem composto –

no retrato que o tempo desafia.


Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa mudada em seu oposto.


Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.


Fui eu; e da figura só ficou

o olhar desenganado na fumaça

em que a criança inteira se mudou.



abril 1998


(De Sentimento da Morte – 2003)





quarta-feira, 8 de julho de 2026

Soneto da Violência Espiritual

 




Rodolfo Pamplona Filho

 

Sob o véu sacro de elevada crença,

ergue-se, às vezes, oculta opressão;

verbo que fere, em tênue aparência,

cinge a alma em dor e submissão.

 

Invoca o medo com falsa prudência,

tolhe o pensar, subjuga a razão;

faz da esperança amarga dependência,

e enclausura o ser na frágil ilusão.

 

Mas fé legítima não aprisiona,

nem se alimenta de culpa ou temor;

antes liberta e ao bem se inclina,

 

pois luz autêntica jamais abandona,

conduz à vida com justo fervor

e, em liberdade, a essência ilumina.

 

Brasília, 03 de maio de 2026.

terça-feira, 7 de julho de 2026

O fim e a glória





Rogério Medeiros



Fim de mandato.

Não foi fácil

Presidir um tribunal eleitoral.



Muitas aflições.

Pandemia do coronavírus,

A pior delas.



Problemas internos,

Pressões externas.

O poder é sempre solitário.



Decidir, eis o desafio.

Coragem e integridade,

Sempre.



Já dizia Einstein:

Uma hora namorando,

Parece um minuto;

Um minuto,

Sentado sobre um formigueiro,

Parece uma hora...



Fiquei durante um ano

Sentado sobre um formigueiro.

Pareceu-me uma eternidade.



Fiz o que pude e

Creio que fiz bem.

Não fui perfeito, ninguém é.



Agora, recordo Tom Jobim e

Vou viver a derradeira glória do ser humano:

Andar nas ruas,

Como um ilustre desconhecido.





segunda-feira, 6 de julho de 2026

Soneto do Cão Guia



 Rodolfo Pamplona Filho



Em ruas densas de rumor e movimento,


surge o fiel condutor da travessia;


guiando passos com sereno alento,


converte sombra hostil em harmonia.


 


Percebe o risco oculto ao caminhar,


desvia abismos, grades, multidão;


ensina o mundo inteiro a enxergar


que há dignidade em cada direção.


 


Não é somente auxílio em locomoção,


mas liberdade viva e verdadeira;


é ponte erguida contra a exclusão.


 


Seu trote firme rompe a fronteira


que separava acesso e condição,


convertendo a companhia em inclusão.


 


Salvador, 09 de maio de 2026.

domingo, 5 de julho de 2026

Seja e esteja Feliz!






Paulo Basílio - 01/08/2020






Hoje, quero mais é ser,


Ser humano,


Ser pessoa.


Importar menos com coisa.






Cansado que querer


Ter e continuar a manter


Mesmo que só na aparência,


Tranquilidade na sobrevivência.






Ser e estar.


Não tem melhor solução.


Ser feliz e estar contente.






Ter isto na mente


E no nosso coração.


Sempre seja e esteja.









sábado, 4 de julho de 2026

Desanimado, Desequilibrado e Desconfiado


 




Rodolfo Pamplona Filho



Quer-se viver


uma convivência Dez


mas o que mais se tem


é um relacionamento Des:


Desanimado,


Desequilibrado,


Desconfiado…


 


E é assim:


Descontrolado


Desesperado


Desesperado


que se vai sobrevivendo…


 


Falta a base


para a construção


de uma real intimidade,


a vivência no giro do ciclo da vida


 


O valor dessa intimidade


tende a prevalecer


na medida em que o tempo passa


 


Pois tudo pesa


A confiança pesa


O sexo pesa


O social pesa


 


E não há o que fazer…


O que é somente de uma parte


não pode ser tratado por terceiros


 


Por mais que seja fiel


Por mais que seja amoroso


Por mais que seja receptivo


 


Por mais que seja animado,


equilibrado e confiável,


não se pode mudar


o que não depende


verdadeiramente de si.


 


Macapá, 21 de maio de 2026.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O que me atrai





 (Negra Luz)






Olhos... que não me acuam em padrões, 


Que me enxergam inteira,


Que me desnudam vestida.


Viril!








Boca... que não deprecia ninguém,


Que dialoga com paz,


Que beija como vento.


Lindo!








Mãos... que não violentam,


Que trabalham e buscam sonhos,


Que abraçam me acolhendo.


Gostoso!








Ombros... que não me oprimem,


Que estejam ao lado,


Que estejam disponíveis pertinho de mim.


Safado!








Peitos... que não inflem, subjugando-me,


Que compartilhem suas vitórias,


Que construam comigo as trilhas de si.


Muralha!








Barriga... que não se esqueça o que é vida,


Que não conte as minhas estrias,


Que entenda as entrelinhas em mim.


Sedutor!








Falo... que não ande por aí desprotegido,


Que quando esteja comigo,


Que seja entrega de dois.


Voraz!








Bumbum... que não sente e espere,


Que não me pare, nem me acelere,


Que deixe no meu ritmo seguir.


Sagaz!








Pernas... que não chutem-se o balde, me esquecendo,


Que sejam fortes e parceiras,


Que ergam corpo e sonhos.


Perspicaz!








Pés... que não se percam em qualquer vento,


Que sigam suas próprias rotas,


Que também confluam para mim,


Próspero.








Esse é o homem que eu desejo inteiro,


Que, inteira, miro os seus beijos,


Que quero na vida, na cama,


Ao lado de mim!






quinta-feira, 2 de julho de 2026

Soneto sobre a Lei Maria da Penha

 


Rodolfo Pamplona Filho



Do brado outrora imerso em mudez,


ergue-se norma firme a proteger;


rompe-se o ciclo vil de insensatez


e se afirma o direito de viver.


 


Não só a força bruta em sua vez,


mas toda forma que possa ofender


encontra na lei pronta altivez,


para coibir, punir e conter.


 


Medidas céleres trazem proteção


e impõem ao agressor limitação,


em defesa da vítima atingida.


 


Mas garantir real transformação


exige ação além da previsão,


com justiça concreta e efetiva.


 


Brasília, 03 de maio de 2026.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Oásis




(Negra Luz)








Quando a minha sede não encontrava os olhos d’água 


Que sempre saciavam meu coração


Ou tão secas as almas


Sem que houvesse ninguém 


Para a dança da chuva aventurar


Ou se, só, quisesse ouvir A Banda e passar


Sem me olharem como um disco velho que nunca emplacou


Era você que se apresentava


Toda a seca, por um instante, se convertia em ilusão


Havia coqueiros


Rio fluindo


Roupa encharcada


Eu na beira do mar


Acalmava-se meu furacão


Nimbus se dissipavam


Enxergava outras estradas


Em vicinais, achava bicas onde molhava o rosto


Bebia um gole d’agua fazendo de concha a mão 


E muito do que me faltava 


Por você, poesia, me fartava 


Um oásis para minha emoção