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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

A louca

 



Augusto dos Anjos


A Dias Paredes


Quando ela passa: - a veste desgrenhada,

O cabelo revolto em desalinho,

No seu olhar feroz eu adivinho

O mistério da dor que a traz penada.


Moça, tão moça e já desventurada;

Da desdita ferida pelo espinho,

Vai morta em vida assim pelo caminho,

No sudário de mágoa sepultada.


Eu sei a sua história. - Em seu passado

Houve um drama d’amor misterioso

- O segredo d’um peito torturado -


E hoje, para guardar a mágoa oculta,

Canta, soluça - coração saudoso,

Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

A louca




Augusto dos Anjos



Quando ela passa: - a veste desgrenhada,

O cabelo revolto em desalinho,

No seu olhar feroz eu adivinho

O mistério da dor que a traz penada.


Moça, tão moça e já desventurada;

Da desdita ferida pelo espinho,

Vai morta em vida assim pelo caminho,

No sudário de mágoa sepultada.


Eu sei a sua história. - Em seu passado

Houve um drama d’amor misterioso

- O segredo d’um peito torturado -


E hoje, para guardar a mágoa oculta,

Canta, soluça - coração saudoso,

Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

O Fim do Mundo




Ele era conhecido como o Zé do Fim do Mundo, porque era onde realmente vivia, ou sobrevivia, naqueles confins do sertão bruto, nas fronteiras de lugar nenhum, uma região sem nome e esquecida por Deus, como ele próprio resmoneava entre dentes e às vezes clamava aos céus em altos brados. Suportou a seca, o sol, a poeira e o apelido até que, num momento de epifania, uma voz lhe soprou aos ouvidos que a alcunha era justa, porque fora escolhido pela Divindade para alertar ao mundo que o Dia do Juízo se aproximava; que desta vez vinha mesmo, embora em outras ocasiões o Divino tenha coçado o cocoruto, pensado melhor e desistido de extinguir a sua criação, observando com Sua suprema bondade uma qualidadezinha aqui e outra ali. José atendeu ao chamado e mudou-se para a capital, assumindo com toda diligência e fervor a missão de pregar a chegada iminente do Apocalipse. Acordava cedinho, vestia um manto encardido e ia para as praças, onde brandia com severidade a palavra e o báculo contra os impenitentes que, passando a conhecê-lo, mantinham-se a distância prudente do pesado varapau. Um dia, resolveu lançar as suas imprecações contra um bando de punks que por ali passava, cujo cabelo colorido, roupas de couro e atitude debochada não lhe deixaram dúvidas quanto à qualidade de enviados de Satanás para desviar os crentes do caminho da verdade e sabotar o trabalho dele, José. Os ditos cujos, à vista das pessoas que ali estavam e que, embora condoídas, não se atreveram a interferir, passaram a voejar como corvos em torno do pregador e, enquanto riam com fúria demoníaca, desfechavam-lhe murros e sopapos, tentando o pobre inutilmente afastá-los com o seu bordão. Tomaram-lhe por fim o cajado e, com ele, moeram-no a pauladas, deixando-o estendido na praça como morto, os braços abertos como um Cristo descido da cruz. Após longo tempo nas Clínicas, entre a vida e a morte, as autoridades chegaram à conclusão de que José, solto por aí, representava um perigo para si e para a comunidade. Por mais que ele assegurasse a todos que era realmente um profeta, um enviado do Senhor, com a missão de preparar os escolhidos para o advento do Apocalipse, cujos Quatro Cavaleiros já se podiam divisar em horizonte próximo, o palavreado só serviu para convencer as pessoas da sua falta de senso e a decisão de interná-lo como insano não sofreu contestação a não ser a dele próprio, que sentia não ter ali o seu bordão, para pôr a cacetadas um pouco de fé na cabeça daqueles incréus. Nada adiantou e o Fim do Mundo pegou-o alguns dias depois no quarto 36 do Sanatório Municipal.

 -Fausto Couto Sobrinho - outubro de 2012

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Eu me divirto com minhas próprias loucuras




O nome da minha autobiografia

O meu estilo de vida

A minha profissão de fé

O que sou e o que me tornei

A minha perfeita definição

A minha genuína tradução

O meu verdadeiro eu

O que se define como meu

Eu me divirto com

minhas próprias loucuras...


Salvador, 15 de janeiro de 2013.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Fanatismo



Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…

Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
‘Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…

sábado, 25 de novembro de 2017

Retalhos de mim,


Rosana Bouleh

Retalhos de mim,
pedaços de seda, viscose, lã e algodão.
Tem também pecados de chita e poliéster pra completar o meu eterno Patchwork em formação.
Retalhos de mim,
não são pedaços de mim, são partes de um pedaço que há em mim, onde não mora a razão.
Onde as ideias se encontram, as paixões adentram, a loucura é ardente e me faz sentir emoção.
Retalhos de mim,
não são fatias do que sobrou, mas o lado saboroso da bolacha que restou, a parte mais engraçada da piada contada, o doce gostoso quando a vida insiste em amargar,
o arrepio sem frio de uma noite de amor.
Retalhos de mim,
guarda as verdades de um amor que ficou, do cheiro do perfume que impregnou, do toque que enfeitiçou, da alma que nunca mais se encontrou... no mosaico de paixão que dentro de mim você desenhou.
Rosana Bouleh... rabiscos...

terça-feira, 23 de maio de 2017

SONETO DA DESPEDIDA


Cássio Pitangueira

A despedida não poderia ser diferente;
Infelizmente não tão contente;
E com a alma sombria e escura;
É chegada a hora de partir para sempre;

Certo de uma desvalorização absurda;
Num quadro clínico de loucura;
Numa sombra infinita de amargura,
Ponho-me em prantos serenos a gritar!

Na elevada altura de um desespero,
Coloco-me de joelhos,
Já sem forças para lutar!

Com a esperança de uma relva simples e pura,
Vou curar minha amargura,
Num novo seio que hei de encontrar;



                               

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A louca

Augusto dos Anjos








A Dias Paredes


Quando ela passa: - a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.

Eu sei a sua história. - Em seu passado
Houve um drama d’amor misterioso
- O segredo d’um peito torturado -

E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça - coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Jack Kerouac


"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente.
Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."

Jack Kerouac