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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Vaidade

 


 Florbela Espanca

                                    


Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade !



Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo ! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade !

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !


Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a Terra anda curvada !


E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Livro de mágoas (1919)


segunda-feira, 13 de julho de 2026

Mãe

 

 









Poema de Adriano Espínola,


in: Praia provisória, 2006








De terra a tua voz,


de terra os teus gestos,


de terra a tua bênção,


de terra a tua mágoa,


de terra os teus restos


agora enraizados:


árvore crescendo


às avessas - lá onde


tudo começa e finda:


no silêncio do sangue


que me dói ainda.





quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

À MULHER ADVOGADA

 



Nos cobriram de prerrogativas e excederam nas limitações

Não precisa ter conhecimento de lei pra entender que a nossa balança é desleal

Andamos sobre saltos em calçadas, escadas, pedras, cascalhos, discriminações e injustiças

Seguimos sem cair sobre a corda bamba da retidão

Pedem para sermos direitas no direito e na vida

Esquecem que somos escolhas, lado, área, carreira e vontade

Que seja de Direita a nossa direção

Esquerda a nossa oportunidade

Somos constituição de sonhos e amor

Levamos na contestação o choro do filho

a conta pra pagar

os problemas políticos

o machismo, a fome de conhecimento, o desafio

O medo de perder e o poder do medo

Embora gigantes, sensíveis

Embora acusação, emoção

Embora justiça, razão

Não há contradição em nossa defesa

A mulher advogada é garra

É mãe e profissional

Esposa e defensora

Estudante e consultora

Mulher e procuradora

Não existe uma sem a outra

Somos mistura homogênea

A advogada é balança que equilibra

É sentença incontestável

É Justiça natural.

(Tenylle Mota)

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Mãe

 




Poema de Adriano Espínola,

in: Praia provisória, 2006




De terra a tua voz,

de terra os teus gestos,

de terra a tua bênção,

de terra a tua mágoa,

de terra os teus restos

agora enraizados:

árvore crescendo

às avessas - lá onde

tudo começa e finda:

no silêncio do sangue

que me dói ainda.



sábado, 28 de junho de 2025

Feminismo Negro

 





Rodolfo Pamplona Filho


 


No coração da luta, onde a voz ressoa,

celebra-se a visibilidade da pessoa,

que não pode mais ficar calada,

nem muito menos ser silenciada.


 


Das sombras do passado, ergue-se altivo

um movimento imparável e decisivo.

Contra a opressão, levanta-se em união,

celebrando a força, a coragem e a visão.


 

Mulheres negras, guerreiras de luz,

quebram as correntes, desafiam a cruz.

Nas ruas, palcos e páginas da história,

O feminismo negro escreve sua trajetória,

reivindicando espaço, justiça e igualdade,

empoderando vidas, com amor e dignidade.

 


É a voz que ecoa, em cada canto e esquina,

A luta pelo direito de ser quem se destina.

Feminismo negro, raiz de resistência e poder,

estrela que ilumina o caminho a percorrer.


 


Salvador, 8 de junho de 2024.

sábado, 21 de junho de 2025

Esquiva





Garcia Rosa



     Quando passas altiva e desdenhosa,

     Como uma deusa em mármore esculpida,

     Lembras-me a Grécia antiga e luminosa

     E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.




     Toda a força do amor misteriosa

     Trazes soberbamente refletida

     Na perfeição da plástica mimosa

     E na graça do andar, indefinida...




     Mas quando te acompanho na esperança

     De penetrar os íntimos refolhos

     Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,




     Volves em torno, distraída, os olhos,

     Na pertinácia vã de uma esquivança

     Que semeia ilusões em vez de abrolhos.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Formosa

 

 





Maciel Monteiro






     Formosa, qual pincel em tela fina


     Debuxar jamais pode ou nunca ousara;


     Formosa, qual jamais desabrochara


     Na primavera a rosa purpurina;




     Formosa, qual se a própria mão divina


     Lhe alinhara o contorno e a forma rara;


     Formosa, qual jamais no céu brilhara


     Astro gentil, estrela peregrina;




     Formosa, qual se a natureza e a arte,


     Dando as mãos em seus dons, em seus lavores


     jamais soube imitar no todo ou parte;




     Mulher celeste, oh! anjo de primores!


     Quem pode ver-te, sem querer amar-te?


     Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

domingo, 1 de junho de 2025

Mais uma vida negra

 






(Negra Luz)




A mulher 

A negra

A mãe 

A trabalhadora 


A beleza

A resistência 

O amor

A luta


A angústia 

O diploma

O filho

O pão 


A barra

O barraco

O tráfico 

A repulsa 


O pulso 

A quebrada

A abolição 

A frustração 


Um estampido!

Muitas direções!

Pelo rastro de sangue, mais uma vida.

Vidas!


Um coração!

Muitas esperas!

Pela cor da pele, mais um negro...negra.

Negras! Negros!


Morreu.

E ela morreu.

Um negro...

Uma negra...


Importam?

Portam?

Vidas importam!

Mais uma vez, 

Foi-se uma vida negra.


sexta-feira, 9 de maio de 2025

Ela com A, Ela do B

 






Rodolfo Pamplona Filho




Ela com A

Ela com Afeto,

Amor e Admiração 


Ela do B

Ela do Barraco,

Briga e Batida de frente 


Ela com A

Ela com Amizade,

Abraço e Ação 


Ela do B

Ela com Birra,

Bolacha e Batalhas 


Ela com A

A mulher que sonhei

para mim


Ela com B

O pesadelo que

sempre temi


Ela com A

Ela do B

Duas pessoas

em um mesmo ser.



Salvador, 18 de outubro de 2018.

terça-feira, 6 de maio de 2025

É tempo de primavera

 


 

Janete Fonseca



Ar de primavera 


De fruta cheirosa 


Da beira da praia 






Vento na memória 


fareja a mulher 


recém descoberta. 


Passou muito tempo, 


Espelho reflete 


Anel de turquesa, 


soutien vermelho, 


Na boca desenho 


De coração grená 






No mundo mudado 


Dos mais avelhados 


Corações calados, 


Erga-se um brinde 


À mulher descoberta 


Só a ouvir estrelas 


Do homem ao lado, 


Cheio de desejos 


Da mulher ardente 


De olhar de fogo, 


Que vai olhando 


Quando o vê olhar 






Mulher incansável 


Toma pelas mãos 


retalhos do tempo 


Que se vão passando 


Antes que a tarde 


Primaveril 


morra, aberta, 


dentro de mim.


segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Violência Racial e de Gênero

 


 


Rodolfo Pamplona Filho


Na solidão da alma, a violência ronda,

rasgando o tecido da esperança, tão profunda.

Violência racial e de gênero, mãos cruéis a maltratar,

Causando feridas que só o tempo pode cicatrizar.

 

O preconceito tece sua teia venenosa, aprisionando almas, semeando dor espinhosa.

A pele que deveria ser abraço, é alvo de desdém,

e a liberdade é um sonho distante, muito além.

 

Mas na luta contra essa sombra que assombra,

Eleva-se a voz da justiça que nenhuma ameaça doma.

Com passos firmes, busca-se reparação e reconstrução,

para que o mundo seja lar para todos e todas, sem medo da opressão.


 


Salvador, 8 de junho de 2024.

domingo, 28 de julho de 2024

Feminismo Negro

 



 

No coração da luta, onde a voz ressoa,

celebra-se a visibilidade da pessoa,

que não pode mais ficar calada,

nem muito menos ser silenciada.

 

Das sombras do passado, ergue-se altivo

um movimento imparável e decisivo.

Contra a opressão, levanta-se em união,

celebrando a força, a coragem e a visão.

 

Mulheres negras, guerreiras de luz,

quebram as correntes, desafiam a cruz.

Nas ruas, palcos e páginas da história,

O feminismo negro escreve sua trajetória,

reivindicando espaço, justiça e igualdade,

empoderando vidas, com amor e dignidade.

 

É a voz que ecoa, em cada canto e esquina,

A luta pelo direito de ser quem se destina.

Feminismo negro, raiz de resistência e poder,

estrela que ilumina o caminho a percorrer.

 

Salvador, 8 de junho de 2024.

domingo, 21 de julho de 2024

Esquiva

 



Garcia Rosa



     Quando passas altiva e desdenhosa,

     Como uma deusa em mármore esculpida,

     Lembras-me a Grécia antiga e luminosa

     E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.



     Toda a força do amor misteriosa

     Trazes soberbamente refletida

     Na perfeição da plástica mimosa

     E na graça do andar, indefinida...



     Mas quando te acompanho na esperança

     De penetrar os íntimos refolhos

     Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,



     Volves em torno, distraída, os olhos,

     Na pertinácia vã de uma esquivança

     Que semeia ilusões em vez de abrolhos.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Formosa

 


Maciel Monteiro



     Formosa, qual pincel em tela fina

     Debuxar jamais pode ou nunca ousara;

     Formosa, qual jamais desabrochara

     Na primavera a rosa purpurina;


     Formosa, qual se a própria mão divina

     Lhe alinhara o contorno e a forma rara;

     Formosa, qual jamais no céu brilhara

     Astro gentil, estrela peregrina;


     Formosa, qual se a natureza e a arte,

     Dando as mãos em seus dons, em seus lavores

     jamais soube imitar no todo ou parte;


     Mulher celeste, oh! anjo de primores!

     Quem pode ver-te, sem querer amar-te?

     Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

domingo, 23 de junho de 2024

Entre quatro paredes







Negra Luz


Vale tudo, logo cedo aprendi

Enquadrada nas minhas escolhas

Tudo vale ali


Em Lençóis listrados

Margens dos dois lados

30 linhas: início e fim


Liberto-me de todos os pecados

Permito-me em todo invadir

Me desnudo não só para mim


Passiva ou ativa

Direta ou indireta

Auxiliar como o haver no existir


Cubro as vergonhas com metáforas

Flor beijando o colibri

Cálice do orvalho de ti


E conectando os sentidos

Coerente com o sentido

Deixo me inteira fluir


A seguir, abro as portas

A realidade estampada

A mulher ocultada revelou-se bem alí



sexta-feira, 21 de junho de 2024

As rosas de outubro







Negra Luz



É preciso tocar nas duas rosas.

Tu as tem diante de ti.

Permitir- se adentrar nos meandros.

Profundamente, tocar- se e sentir.


Estas rosas tocadas por ti

Ganham brilho e te tranquilizarão.

Tocar-se garante o benefício

Que de câncer não morrerão.


Não ocultes de ti as tuas rosas.

São só duas!

E tuas são!

Dê lhes amor.


Toque e retoque nas flores segura.

Se algo estranho, procure o doutor.

Suas flores não serão mais só tuas,

A Medicina e todos os istas delas, certo, cuidarão com amor.



segunda-feira, 17 de junho de 2024

Perdi a calcinha





Negra Luz



Desesperada estava a procurar a calcinha

Prova irrefutável do que queria ocultar

Orvalhada e com lascivo odor da minha alma

Diria por mim em metáforas aquilo que ele viera me questionar.


Olhei para o teto…

Nada alí!

Em algum momento lembrei:

Ao longe, sem rumo, lancei!


Estiquei a colcha amassada

 E nela nada não há rastro da danada

Restava a gaveta vizinha…

Estaria lá, embolada, entre papéis e versos de amor?


Nenhuma pista me levava

Uma dúvida se aguçara....

Uma calcinha usei?

No meio daquele furor?


E nesse momento tremi,

Quando nos olhos dele

"Meninos eu vi!'

A renda que esqueci


Ao não ter por onde sair

Não mais adiei,

Gritei! Rospondi:

Quero mais!



sábado, 1 de junho de 2024

Gilda

 








Murilo Mendes




Não ponha o nome de Gilda

na sua filha, coitada,

Se tem filha pra nascer

Ou filha pra batisar.

Minha mãe se chama Gilda,

Não se casou com meu pai.

Sempre lhe sobra desgraça,

Não tem tempo de escolher.

Também eu me chamo Gilda,

E, pra dizer a verdade

Sou pouco mais infeliz.

Sou menos do que mulher,

Sou uma mulher qualquer.

Ando à-toa pelo mundo.

Sem força pra me matar.

Minha filha é também Gilda,

Pro costume não perder

É casada com o espelho

E amigada com o José.

Qualquer dia Gilda foge

Ou se mata em Paquetá

Com José ou sem José.

Já comprei lenço de renda

Pra chorar com mais apuro

E aos jornais telefonei.

Se Gilda enfim não morrer,

Se Gilda tiver uma filha

Não põe o nome de Gilda,

Na menina, que não deixo.

Quem ganha o nome de Gilda

Vira Gilda sem querer.

Não ponha o nome de Gilda

No corpo de uma mulher.


 


quarta-feira, 29 de maio de 2024

Ela com A, Ela do B



Rodolfo Pamplona Filho



Ela com A

Ela com Afeto,

Amor e Admiração 


Ela do B

Ela do Barraco,

Briga e Batida de frente 


Ela com A

Ela com Amizade,

Abraço e Ação 


Ela do B

Ela com Birra,

Bolacha e Batalhas 


Ela com A

A mulher que sonhei

para mim


Ela com B

O pesadelo que

sempre temi


Ela com A

Ela do B

Duas pessoas

em um mesmo ser.


Salvador, 18 de outubro de 2018.


sexta-feira, 3 de maio de 2024

A tua presença morena

 



Caetano Veloso e Gilberto Gil


 

A tua presença

Entra pelos sete buracos da minha cabeça

A tua presença

Pelos olhos, boca, narinas e orelhas

A tua presença

Paralisa meu momento em que tudo começa

A tua presença

Desintegra e atualiza a minha presença

A tua presença

Envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas

A tua presença

É branca verde, vermelha azul e amarela

A tua presença

É negra, negra, negra, negra, negra,

negra, negra, negra, negra,

A tua presença

transborda pelas portas e pelas janelas

A tua presença

Silencia os automóveis e as motocicletas

A tua presença

Se espalha no campo derrubando as cercas

A tua presença

É tudo que se come, tudo que se reza

A tua presença

Coagula o jorro da noite sangrenta

A tua presença

É a coisa mais bonita em toda a natureza

A tua presença

Mantém sempre teso o arco da promessa

A tua presença

morena, morena, morena, morena,

morena, morena, morena.