sexta-feira, 15 de abril de 2011

O metrônomo

O metrônomo
 José Antonio Correa Francisco
O ideal seria começar como nas histórias infantis: Era uma vez espaço e tempo (Mônica Sette Lopes)

O sol não havia dado a luz de sua graça. A névoa era densa. Fosca e prateada. Impossível enxergar algo além do capô do carro. Nunca dirigi tão devagar e com cuidado. Ninguém na rua. Nenhum carro. Nenhuma pessoa. Ninguém. Ao menos eu nada conseguia enxergar além do capô.
Estacionei o carro e desci. O ambiente era assustador. A névoa úmida, densa, fosca e prateada agora era cortada pelo meu umbigo. Sim. Não era possível esconder tamanha deformidade física: a barriga crescera mais do que qualquer parte do corpo. Nenhuma luz, nenhuma pessoa. Não havia vento. Somente a névoa densa e úmida. Ao me aproximar da porta, lentamente, percebi que estava sem a trava e entrei. A névoa foi definitivamente deixada para trás, embora ousasse invadir os espaços internos do prédio, sem sucesso. Liguei o celular. Finalmente algo útil pode ser extraído do aparelho produzido para vigiar os nossos passos. Dever-se-ia chamar GPS (gentio permanentemente seguido). Consegui chegar até a porta da Vara. Também estava destravada. Também entrei. Acendi o interruptor de luz e me dirigi ao gabinete.
Seria o primeiro dia de trabalho naquele local. Uma pilha de processos na minha mesa. Fiquei apavorado. Não suporto nada sobre a mesa. Principalmente pilhas de processos. Somente eu posso ocupar a mesa. Somente eu! Quando a diretora chegasse, exortar-lhe-ia, severamente, para que aquilo não ocorresse jamais, jamais...
Fui até a copa. Enchi uma caneca com água e aqueci no aparelho de microondas. Busquei algum chá nos armários, mas nada havia. Olhei para a caneca, bebi um leve gole d’água e não gostei do que senti. Descartei a água quente e a caneca. Peguei um copo. Abri a geladeira mais nada havia e sequer ligada estava. Não havia água no filtro. Enchi novamente a caneca com água e novamente abri o aparelho de microondas. Aqueci um pouco mais do que a primeira vez. Levei a caneca para o gabinete.
Pus a caneca ao lado do teclado do computador e tentei erguer a pilha de processos. Antes, porém, resolvi ler o nome das partes, a petição inicial, documentos, enfim, se algo já ocorrera. Processualmente falando. Fiquei surpreso ao perceber que eu não conseguia ler as letras na capa dos autos. Como num conto fantástico, quando eu me aproximava dos autos as letras dançavam como estrelas cadentes, corriam como pássaros, voavam como bailarinas. Peguei a caneca e dei um gole sensível. Senti um calor tremendo. Água quente na boca vermelha: sensação inodora e desagradável.
Corri ao banheiro. Não havia luz e algum vazamento no encanamento produzia um barulho sombrio. Misto de gritos e sussurros de quem, numa madrugada fria, procura abrigo para se proteger de uma tempestade. Não sabia o motivo de me encontrar ali. Voltei ao gabinete. Sentei à frente da pilha de processos. O baile das letras continuou. Mesmo assim abri os autos...
Fiquei boquiaberto ao ver pentagramas repletos de notas e pausas. Semínimas, semibreves, semifusas e suas correlatas pausas. Acordes e acordes, solfejos, arpejos. Bemóis e sustenidos. Langsam era o andamento da petição inicial. Larghetto, o da contestação. Na audiência inaugural foi inscrito Presto con fuoco: conciliação recusada. Fechei o processo, catatônico. Voltei à copa e esquentei um pouco mais de água. Voltei ao gabinete. Não conseguia mirar a pilha de processos. Liguei o computador e uma enorme clave de sol surgiu na tela. Brilhante e dourada. Ao fundo, um suave solfejo de fagote. Não reconheci a música, embora atraente e cativante.
A pouco e pouco escutei barulhos nos corredores. Os servidores chegavam. Os cumprimentos se multiplicavam. A campainha instalada no balcão avisava um novo atendimento a ser feito. O som da campainha era diferente, lembrando um maestro que, antes da execução da peça musical, marca levemente o compasso. Trouxeram o metrônomo. Um servidor, de baixa estatura e grave largura, com roupas brilhantes e coloridas, carregava uma almofada vermelha. Sobre ela, o metrônomo. Silente e polido. Madeira de lei e o pêndulo formado por uma haste de aço e o peso de cobre. Todos os servidores na Vara se levantavam com a passagem do metrônomo que foi colocado, religiosamente, na sala de audiência. Da porta do gabinete, observava tudo, atentamente.
Tomei mais um gole da água da caneca. Estava alimentado e pronto para o início da sessão. Ouvi rumores no corredor ainda mais altos e me dirige à sala de audiência. Feito o pregão. Peguei o processo e as letras continuavam, teimosamente, a bailar. Seria um dia difícil, imaginei. Partes e advogados entraram na sala. De meu lado esquerdo, o secretário de audiência. Do lado direito, o metrônomo. Assim que todos se sentaram, o servidor de roupas coloridas acionou o metrônomo. Tec, tec... Tec, tec. Lentamente, muito lentamente o ritmo da audiência foi determinado pelo metrônomo. Tec, tec. Todos se portavam normalmente. Eu estava impaciente, pois me sentia profundamente incomodado com a marcação do tempo. Lento, tec, tec, mas preciso. Repetitivo. Tec, tec. Peguei o processo, mais uma vez, e, para meu espanto, os nomes continuavam a dançar, na capa, acompanhando com precisão o ritmo do metrônomo. Tec, tec...Tec, tec. Mesmo sem conseguir entender nada, iniciei os trabalhos.
Enquanto o metrônomo marca o tempo, o servidor abriu um documento na tela do computador, formado por tabela repleta de informações musicais. Tons, semitons, claves, fermatas, compassos, ritornelos. Pensei, rapidamente, na possibilidade de não estar preparado para aquela sessão, mas logo encarei o meu papel de julgador, pensando nos princípios, na analogia e nos ótimos costumes. Gostava de música, mas não detinha tanto conhecimento para decidir a questão. Enchi-me de orgulho e determinei ao servidor que escolhesse o segundo quadro da tabela. Pronto. Instrução iniciada.
Antes de qualquer recurso retórico, antes de qualquer palavra amiga, antes de qualquer cumprimento às partes e aos presentes na sala de audiência, o servidor das roupas coloridas e brilhantes acelerou o andamento do metrônomo. A pulsação imposta pelo aparelho já era maior do que o meu batimento cardíaco. As partes se agitavam. No corredor, um vozerio tamanho. Chamei o meirinho e determinei que pedisse para que se fizesse silêncio. Ao abrir a porta da sala de audiência, o vozerio foi trocado por sons de afinação de instrumentos. Ao fechar a porta, o silêncio reinou. Dirigi a palavra à reclamante para que falasse. Era uma mulher linda e séria. O problema deveria ser gravíssimo. Ao abrir a boca, eu escutei uma linda ária, perfeita. Nunca ouvira nada tão belo e suave. Esperei a pausa e retirei-lhe a palavra. O seu patrono olhou para mim, com ar de reprovação. Neste momento, o servidor de baixa estatura e grave largura acelerou um pouco mais o metrônomo. Os presentes se agitaram ainda mais. O vozerio lá fora retornou. Mais uma vez determinei o silêncio que foi precedido de pequenos arpejos dos instrumentos do lado de fora. Passei a palavra ao reclamado que, com voz de barítono, cantava outra bela canção. Um lied tão sensível que a reclamante pousou as mãos sobre a mesa, fechou os olhos e sorriu levemente. Esperei a pausa e retirei-lhe a palavra. Houve protestos de todos, inclusive dos servidores. O metrônomo disparou e eu retornei ao gabinete, abri a porta do banheiro e comecei a gritar: Bravo, bravíssimo, bravíssimo!!!!
Minha mulher trouxe um copo d’água. Gelado. Meu filho, que dormia no quarto, estava sentado junto à parede e se contorcia de tanto rir. Tomei a água. Olhei no relógio. 2h40. Ainda eu teria o domingo para descansar antes do retorno às atividades. Fui até a sala e fechei o livro que ganhara naquele dia.
Preciso sonhar mais...

Manaus, 8.1.2011

Um dia após o retorno do recesso.

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4 comentários:

  1. Meu Feijão Zinho


    Amor Amorzinho
    Desculpe! Me Desculpe Meu Feijãozinho!
    Não Me Passo do Caminho

    Amor Amorzinho
    Desculpe! Me Desculpe Meu Feijãozinho!
    Mas Não Me Passo do Caminho

    À Você só Deus Sozinho

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  2. Excelente texto e bom excelente cronista!

    Abraço

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