quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A sabedoria na azeitona

Rodolfo Pamplona Filho



Toda experiência

faz parte

de algum aprendizado...

Experimentar

o fruto da oliveira

no seu amadurecer

ensina a valorizar

a transformação

proporcionada pela conserva...

O tempo para o desfrute

não coincide com o desgaste,

mas, sim, com o desvelo

para revelar

o melhor momento

para degustar...



No Trem para Sevilla, 23 de junho de 2015, 12:30 (7:30
 no Brasil...)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Poema Anônimo

Majela Colares


O poema que não fiz
(mas sempre canto)
está mais em mim
que muitos...
(pouco que escrevi)
é o mais inconstante
indefinido
dos poemas que vivi

o poema que não fiz
traduz meu mundo
está implícito...
único
em meu verso
já não sei quem sou
quem ele é
- fundiram-se todos os limites

O poema que não fiz
sorri comigo e sofre
e dorme e finge...
pensa a anônima forma
só para não ser,
enfim, subjuntivo

o poema que não fiz
surge do nada
e conspira a relatividade do tudo
(é a razão variável do verbo)
não há palavras
não há gestos
metáforas
tinta
que o descreva

o poema que não fiz
(mas sempre canto)
fecunda a própria poesia
que me seduz a vida inteira

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Quando o Brado é ouvido!

Rodolfo Pamplona Filho


Não é fácil lutar...
contra as trombetas
daqueles que torcem contra!

Não é fácil lutar...
com o adversário,
o estádio e até o árbitro!

Não é fácil lutar...
com pênalti mal marcado
e gol legal anulado!

Mas a luta não é opção!
É determinação do coração,
que enseja a reação!

Mas a gana não é virtude!
É premissa de quem honra
o manto sagrado que ostenta!




Então, aprendam os detratores,
que, até soar o apito final,
o combate ainda é frontal,

o intento se persegue,
o objetivo não se esquece,
a esperança prevalece:

Aprendam que não se canta vitória
antes da derradeira hora,
como ensina a nossa história!

E, por isso tudo...

Sim, é fácil...
cantar até perder a voz
Brilhar com a força de mil sóis!

Sim, é fácil...
sorrir por, da degola, escapar
chorar para nunca mais voltar

Sim, é fácil...
emocionar com o triunfo de garra
aplaudir quem vence na marra!

Só uma coisa
realmente não é fácil...
é deixar de acreditar...
é deixar de vibrar...
é deixar de te amar...
pois isso nunca acontecerá...

Dublin, madrugada de 18 de setembro de 2014, ao saber do triunfo do Baêa,
dedicado a todos para quem lutam até o final, em especial Máxi e
Branquinho...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Banquete

Myriam Fraga


O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.


O prato que eu como, 
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.




Mas,


O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes


É somente a metade
Do sonho
De um homem.

domingo, 6 de setembro de 2015

O Destino do Sobreiro

Rodolfo Pamplona Filho



A consciência da finitude

permite a tranquilidade

de investir em um futuro

que certamente não se verá...

Afinal, a cortiça é recolhida

por quem não cultivou,

o fruto é desfrutado

por quem não o plantou

e ninguém limita

o alcance do amor...



A caminho de Évora, 01  de julho de 2015...

sábado, 5 de setembro de 2015

Cartão postal

Murilo Mendes




Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.


O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ninguém tem culpa...

Rodolfo Pamplona Filho



Como fruto natural

da herança católica ibérica,

teme-se aceitar que o mal

existe também na América,

fugindo-se da conseqüência

de qualquer conduta humana,

negando toda negligência

ou mesmo prática insana...

Assim, tudo é desculpável






e a tolerância encontra apogeu...

Ninguém se vê responsável

pelos atos que cometeu...

É-se vítima do sistema,

do capitalismo, da maldição...

É-se vítima do governo,

da pobreza, da educação...

Desta forma, pedir desculpas

não merece louvação,

pois será apenas assumir a culpa,

como em uma espontânea confissão

mas que, ao contrário do pecado,

não merece qualquer perdão,

e, sim, somente o escárnio

ou uma mais alta indenização...



Wittenberg, 06 de julho de 2015

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Poema de sete faces

Carlos Drummond de Andrade


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.




O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.


O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.


Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.


Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.


Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Yggdrasil

Rodolfo Pamplona Filho




Árvore da Vida
Árvore do Mundo
que liga os nove Reinos:
Asgard, lar daqueles
que consideram deuses,
onde Odin cavalga Sleipnir,
seu garanhão de oito patas,
e tudo vê e tudo comanda...
Vanaheim
Alfheim
e, ligada ao céu
pela Bifrost,
ponte do arco-íris,
está
Midgard, nossa terra,
logo acima de
Jötunheim, terra do gelo
e de seus gigantes...




Descendo para as raízes,
onde nunca descansa
o dragão Nidhogg,
encontraremos
o mundo subterrâneo
e os reinos de
Muspelheim,
Nidavellir,
Svartalfheim, terra dos elfos negros,
e, por fim,
Niffleheim,
terra de Hvergelmir
e de Hel,
cujos portões são guardados
por Garm,
que não tem três cabeças,
pois uma já é o bastante...

Salvador, 05 de março de 2014, lendo Thor...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Retrato

Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Loki

Rodolfo Pamplona Filho






Há quem veja
só desdém
quando se
oferece bondade...
Por que a tocha
detesta o sol,
se não apenas
por brilhar mais?
O trapaceiro
O de muitas formas
O destruidor
Quem é este
que é todos
e é único
simultaneamente?
Aquele que provocará
o Ragnarok
e o cavalgar
das Valquirias,
com seus garanhões de nuvens,
a conduzir Deuses mortos
para Valhalla...

domingo, 30 de agosto de 2015

Descobrimento

Mário de Andrade





Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

sábado, 29 de agosto de 2015

Oportunidade

Rodolfo Pamplona Filho







Oportunidade
não é questão de tempo,
mas de prioridade
e de investimento.

 Salvador, 04/03/2014




sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Prudência





A inconsequência irracional,

Atordoa.

A guerra impensada,

É luta à toa.

A prudência sensata,

É paz duradoura.

O que se ouve e vê

Nem tudo é flor.

É preciso prever...



Hermes de Lima /29/08/2015.






quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Pafúncio Salustiano Nepomuceno

Pafúncio Salustiano Nepomuceno

Rodolfo Pamplona Filho
Pafúncio Salustiano,
com este nome,
eu não me engano!
Seria um novo
Professor?
Talvez um redivivo
Confessor?
Astrolábio ou Astromar
Astrogildo ou Ermenegildo
Pouco importa
sequer o conteúdo,
pois o verdadeiro absurdo
é se chamar pelo nome pequeno
Pafúncio Salustiano Nepomuceno.


Guayaquil, 05 de octobre de 2013.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Soneto da Convivência (ou sobrevivência) com o Despeito

Rodolfo Pamplona Filho



Quem não merece seu respeito
não é digno de seu apreço!
Conviver com o despeito
é ter de pagar um alto preço:

O tempo, as agruras da vida
ou a maturidade dolorida
acabam ensinando a dura lição
de chamar canalha de excelência,




quando é inevitável a convivência,
imposta pela força do meio social
ou mesmo do ambiente profissional,

que trazem o carcará para perto...
Lembre: às vezes, estar em paz
é melhor do que estar certo...

Salvador, 14/02/2014, pensando em que não merece sequer ser destinatário do
meu pensamento...

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Teu sexo

Viajo ao redor do teu sexo,
Peregrino no altiplano dos teus bruços,
Andarilho sem rumo, nas corolas dos teus seios.
Cada acre do teu corpo me fascina,
Cada coxilha do teu torso me detém,
E em mim retém a vocação que me destino.



Teu sexo recende a mirra
--- Termo intocado em minha rota de migrante.

Teu sexo tem som de concha
Na ressonância das marés dos meus naufrágios.

Eros Grau

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Desprezo Inevitável

Rodolfo Pamplona Filho


Há pessoas cuja amizade
em nada acrescenta...
Ao contrário, só diminui...
afeta o humor, desperta o rancor,
retira a alegria, tira a paz



Quando a demagogia,
prepotência, arrogância,
encontram guarida
na Boçalidade encarnada,
não há mais nada
a fazer,
senão aceitar
que, muitas vezes,
o desprezo é inevitável...


Salvador, 16/02/2014

domingo, 23 de agosto de 2015

Definição de filhos por José Saramago




Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como
amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos
para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto
mesmo ! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter,
porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de
estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder?
Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.

sábado, 22 de agosto de 2015

Rompendo o Silêncio

Rodolfo Pamplona Filho




E dou-lhe uma!
É preciso resistir!
E saber que,
por mais que as nuvens
cubram o horizonte,
as estrelas continuam lá!





E dou-lhe duas!
É preciso repetir!
E mostrar que
um raio pode acertar
o mesmo alvo
seguidamente!

E dou-lhe três!
É preciso insistir!
E romper qualquer barreira
que os amantes do atraso
tenham tentado impor
como uma maldição.

E dou-lhe uma...
duas... três...
E que o triunfo inspire
para que o vencedor respire
e retome o caminho de glória,
em que se construiu a sua história.

No aeroporto de Guarulhos, 14 de setembro de 2014, para K9 e Maxi.