sábado, 9 de abril de 2016

Cogito



Torquato Neto




eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Um amor lindo...



Rodolfo Pamplona Filho



O nosso amor é lindo:
lindo, lindo de viver!
O nosso amor é tão lindo,
que, como ele, outro não pode haver.

O nosso amor é o mais bonito,
pois, como ele não pode ter
as coisas tidas como grandes,
vai se construindo nas pequenas

e, nesse processo, ilumina tudo
que, para os outros, sem ter vivido,
talvez fosse insignificante
ou passasse despercebido,

mas, para quem ama de verdade,
é puro encantamento,
chave para felicidade
e do fim de todo lamento.

E, por isso, ele é
o amor das surpresas,
da doçura, da generosidade,
da imaginação e da criatividade.

Na necessidade de buscar jeitos
e estradas vicinais para poder seguir,
esse amor inventa caminhos insuspeitos,
descobre trilhas preciosas a investir

ainda que sem sinalização
ou qualquer outra perspectiva
de ser algo mais que uma canção
que tocará toda nossa vida.

É um amor que é,
simultaneamente,
razão e fé,
coração e mente,

luz e mistério,
agito e acalento.
calor e refrigério,
paz e vento.

Salvador, 07 de dezembro de 2011.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

O arquivo


http://www.releituras.com/vgiudice_arquivo.asp
Victor Giudice



No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

João transformou-se num arquivo de metal.

No período em que trabalhou no Jornal do Brasil, de 1994 a 1997, Victor Giudice se destacou pelo companheirismo e pelo bom humor que marcava suas histórias. Os casos com que divertia seus colegas geralmente diziam respeito a duas de suas maiores paixões: os livros e a música.

Em 1995, foi agraciado com o Prêmio Jabuti pelos contos reunidos em "O Museu Darbot e outros mistérios", que recebeu o seguinte comentário da presidente da Academia Brasileira de Letras, a escritora Nélida Piñon: "Victor Giudice é um escritor contemporâneo completo. Sua busca por uma linguagem mais simples só prova que deixou de ser um escritor de vanguarda para se tornar um mestre. Já é um clássico." (Extraído do "Jornal do Brasil" , Segundo Caderno/1998).
Victor Giudice (1934-1997) nasceu em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Aos cinco anos de idade mudou-se para São Cristóvão, transformado, segundo a crítica, em seu "grande sertão ficcional" , onde viveu mais da metade de sua vida. Foi professor, bancário, jornalista, músico, ensaísta e crítico. A partir de 1968, intensificou suas atividades como escritor, tendo publicado seis livros: O necrológio (contos, Editora O Cruzeiro, 1972), Os banheiros (contos, Editora Codecri,1979), Bolero (romance, Editora Rocco, 1985), Salvador janta no Lamas (contos, Editora José Olympio, 1989), O museu Darbot e outros mistérios (contos, Editora Leviatã,1994) e O sétimo punhal (romance, Editora José Olympio, 1996).

Salvador janta no Lamas ganhou o Prêmio "Ficção 89", da Associação Paulista de Críticos de Arte. O museu Darbot e outros mistérios foi agraciado com a maior distinção literária do país, o Prêmio Jabuti, e foi lançado no Salão do Livro de Paris em 1998 (Le Musée Darbot et autres mystères, Editions Eulina Carvalho).

Para o teatro, escreveu Baile das sete máscaras, inédito, e o monólogo Ária de serviço, encenado pela atriz Bete Mendes, no Centro Cultural Banco do Brasil, em 1991. Compôs e executou ao vivo a trilha sonora da peça Prometeus, do Grupo Mergulho no Trágico.

Suas atividades como professor incluem, além de oficinas de criação literária, cursos de Introdução à Ópera, Wagner e Música Sinfônica, ministrados no Centro Cultural Banco do Brasil e em outras instituições. Participou das Rodas de Leitura, no CCBB, e na Casa da Leitura e viajou pelo país como conferencista.

Vários de seus contos foram publicados nos Estados Unidos, Argentina, México, Portugal, Alemanha, Hungria, Polônia, Bulgária, Tchecoslováquia. Uma de suas narrativas mais populares, O arquivo, foi o conto brasileiro mais publicado no exterior. Outro conto, Carta a Estocolmo, foi considerado, nos Estados Unidos, um dos quinze melhores trabalhos de ficção científica de 1983 e consta da antologia Antaeus (The Ecco Press, Nova York, 1983).

Publicou ensaios e resenhas no Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Suplemento Literário do Minas Gerais, etc. Durante três anos assinou a coluna Intervalo, especializada em música erudita, no Jornal do Brasil, tendo sido esta sua última atividade.

A editora José Olympio planeja a publicação de uma coleção que reunirá todos os seus contos. Do primeiro volume, programado para 1999, constarão O museu Darbot e outros mistérios e o romance inédito e inacabado Do catálogo de flores.

Texto publicado originalmente no livro "O Necrológio", Edições O Cruzeiro — Rio de Janeiro, 1972, foi incluído por Ítalo Moricone em sua seleção dos "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 382.


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Conversa entre amantes



Ele diz:
—Eu falo.
Ela diz:
—Dentro de mim!

Anna Fascolla

Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

terça-feira, 5 de abril de 2016

As Nossas Primeiras Pessoas



A Paulo e Augusto Padilha


As nossas primeiras pessoas
serão nossas pessoas da vida inteira.
No último átimo - xeque-mate existencial -
essas pessoas lá estarão
na nossa hora derradeira.
E hão de derramar a primeira gota de leite
e a lágrima da força aparentemente bruta
vertida em público aos olhos de cachoeira.
Vão ficar com a gente as mãos do afago quente
ensinadas rentes para a oração: “santo anjo do senhor, meu zeloso guardador”;
“a bênção, meu pai”, “Deus te dê fortuna”.
As nossas primeiras pessoas somos nós primeiramente.
E, quando se vão,
nos deixam um vão
que de joelhos vamos pedir aos pés nos darem as mãos
desses que nos são permanentemente.


Seirabeira

Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

segunda-feira, 4 de abril de 2016

POBRE MULHER



Tão pobre nasceu que só possuía amor no coração...
    Cresceu... Trabalhou muito e enriqueceu...
       Sua riqueza consistia apenas em sabedoria...
           Morreu deixando como herança uma única lição...
                 A de saber amar...

Carla Elisio
Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

domingo, 3 de abril de 2016

SEM A CLARIDADE DELA


Não sei se é o fim: não consegui sequer perceber o início ou o meio.
Foram exclusivamente dias.
A noite já não tem mais o mesmo brilho.
A lua não olha mais para mim.
Não existem estrelas; todas ofuscadas com um não sabe quê ofuscante.
A tarde já se fora como um domingo ou quarta-feira de cinzas...
O dia sequer amanhecera: proibiram o sol de sorrir para mim.
Os pássaros já não fazem coro em minha janela.
As flores não se abrem às onze horas.
O girassol não segue o sol.
Resta-me, apenas, um tempo indecifrável.
Um tempo que resgata o que eu pensei esquecer.
Um tempo que passa; mas não amanhece, entardece ou anoitece.
Apenas o tempo das lembranças.
Apagaram a luz, a tua luz que me ilumina.
Tento reacendê-la, mas não adianta: está apagada.

Itanaina Lemos Rechmann
Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

sábado, 2 de abril de 2016

Linguagem


Essa nossa linguagem
Tão própria de nós dois
Fala e cala
Emociona e ri
Minha pele chama
 E você responde
Nossa interlocução
Não tem fim
Ou é fim
Enfim...




Anna Fascolla
Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Mas



Me ame devagarinho
Mas não tão devagar
Me olhe com desejo pulsante
Mas de forma que não vá me amedrontar

Me deseje em qualquer lugar
Mas não a todo momento
Me procure aonde eu estiver
Mas não me traga sofrimento

Me acalme com palavras
Mas não com apenas uma expressão
Me alimente com seus olhos
Mas de forma que não vá partir meu coração

Me dê todo amor que tiver
E me entregue seu coração
Mas, se um dia eu o partir
É porque a poesia se esvaiu na multidão

Ricardo Oliveira do Nascimento

Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

quinta-feira, 31 de março de 2016

Da janela



Da janela do meu quarto
Um mundo novo se apresenta
Não sei se fico ou se parto
Meu coração não mais aguenta

Está partido, sangrando
As feridas ainda abertas
As verdades descobertas
Com você se enganando

O mundo novo parece o mesmo
Tudo velho, tudo visto
Saio bêbado, a esmo

Para voltar, arrependido
Os amores não mais existem
Tudo, tudo já foi lido.



Anna Fascolla
Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

quarta-feira, 30 de março de 2016

Poesia



Se está correndo atrás da poesia
Perdoe-me, não irá encontra-la
Pois a poesia não se alcança
Ela apenas se sente

Se está à procura de versos perfeitos
Mais uma vez, perdoe-me, mas não irá escrevê-lo
Pois os versos vem do coração
E não da sua mente

Mas, finalmente quando encontra-la
Vai perceber, que a poesia já estava em você
E que os melhores poemas, vem do âmago do seu prazer
E se tentar defini-la, ela jamais irá se deitar e regozijar até lhe satisfazer

Ricardo Oliveira do Nascimento
Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

terça-feira, 29 de março de 2016

Por que me irrito (ou ignoro) discursos bobos...



Vou explicar uma vez.

Veja se dá para entender.

O Brasil está em uma crise política.

Essa crise já se anunciava desde a eleição de 2014, em que houve uma divisão do país, tendo o resultado sido por cerca de 2% de diferença.

Desde então, a oposição tem investido na política de "quanto pior, melhor!".

Ao mesmo tempo, a polícia federal e o ministério público federal têm feito um fantástico trabalho de investigação das entranhas do poder, denunciando o tráfico de influência, corrupção e relações incestuosas da política com o empresariado, expondo as vísceras de um sistema que foi escrito tradicionalmente na base do "caixa 2" e dos "agrados" e "favores".

Como se não bastasse isso, o governo federal (ai, sim, leia-se o PT e aliados, históricos ou de conveniência, como o PMDB) tem se mostrado profundamente incompetente para gerenciar a situação econômica e política.
Assim, chega-se à seguinte situação:

A) impeachment é processo político, por crime de responsabilidade, não recall por incompetência gerencial;

B) toda corrupção deve ser denunciada e combatida, não se limitando a um partido ou a uma figura;

C) o clima de bipolaridade apenas estimula encarar a situação como um jogo, em que se aponta, a todo tempo, alguma "prova definitiva" da culpa, quando o julgamento jurídico não é feito pela opinião pública, mas, sim, pelo judiciário;

D) o julgamento político é feito nas urnas, não se esgotando no eventual impeachment (que pode vir, sim, e não será golpe, se feito dentro das regras constitucionais);

E) #naovaitergolpe é uma frase de efeito, que pode ser uma afirmação contra os lunáticos que sonham com um golpe militar ou querem acabar com as garantias individuais, mas também pode ser manipulado como um chavão para manter o PT no poder (o que tem se tornado insustentável).

Por isso, soa imbecil e manipulador ouvir o discurso preconceituoso contra o PT, quando não acompanhado de um juízo efetivamente crítico.

Discurso contra a corrupção, sim!

Discurso a favor das garantias processuais e constitucionais, sempre!

E esses discursos não são incompatíveis.

O importante é apurar tudo e punir quem deve ser punido.

O processo penal não é feito para punir, mas, sim, para apurar, inclusive absolvendo quem for acusado levianamente.

Quando se coloca a questão em termos de nós e eles, em um "fla-flu jurídico", fecham-se os olhos para as verdadeiras questões importantes, servindo-se de massa de manobra para as disputas intestinas de poder.


Rodolfo Pamplona Filho

27 de março de 2016

segunda-feira, 28 de março de 2016

Partido: brasileiro




Entre estrelas e tucanos,
celebramos nosso pranto.
Na cegueira de partido,
Nossos sonhos divididos.

Somos um, mas não apenas;
somos também centenas.
Sangrando em vão sem perceber
que o inimigo é o poder.

Inventam verdades,
constroem mentiras,
sonegam esperanças
em plena luz do dia.

Mamam pela manhã,
nos traem à noite.
Hoje entregam benesses,
amanhã nos punem com o açoite.

Nessa toada, seguem tranquilos
brincando de rainhas e reis.
Pão e circo! Garante o bandido:
Ninguém se preocupa com leis.

Na aquarela dos partidos,
nos encontramos e erramos feio.
Mas não esqueçamos da seguinte lição:
Não somos azuis, amarelos ou vermelhos:
somos brasileiros.


Eduardo Loula Novais de Paula

Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

domingo, 27 de março de 2016

Cicuta



Beber a vida num só gole
Deitar a sorte no divã
Sujar a memória com a lama
Que ficou da caminhada

O caminho foi difícil
Por vezes inóspito, árido
A recompensa inútil
A minha, a sua, a de ninguém

As rosas desfolhadas
Substituídas por plástico
Poeira amontoada
Na mesinha da cabeceira

Jornais antigos acumulam-se à porta
Sempre fechada, sempre trancada
Correspondências sem resposta
Esperando a própria morte

E o poeta morre lentamente
Curtindo a dor em suas minúcias
Dor destilada nos versos
De quem não crê, apenas escreve

A música às vezes cala
Os versos não mais falam
O poeta chora em silêncio a dor da ausência
E desiste de existir

Versos ao vento
Sem leitor, sem amor
Versos ao vento
Adeus poeta, adeus trovador

E bebe a vida num só gole
Cicuta
Cicuta
Por que você não me escuta?


Anna Frascolla
Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

sábado, 26 de março de 2016

Proposta de Amor Possível

Rodolfo Pamplona Filho





Quando a tristeza, a solidão
e a angústia chegarem,
tente pensar na seguinte mensagem:
você não é só privação,
imobilidade, interdição,
frustração, impossibilidade.
Você é responsabilidade,
é amor pela família que formou,
mas é também coragem,
inspiração, amor,
desejo, explosão,
aventura e paixão.

E encontrou alguém
que ama seu ser
de um jeito tão forte também...
alguém que, como você,
quer pulsar, quer luzir,
quer vibrar, quer florir,
quer acariciar, quer beijar,
não quer machucar,
não quer ferir,
mesmo quando não sabe onde ir,
pois quer apenas viver,
de preferência, para você!

As contradições não me causam susto!
O que realmente me espantaria
é se você aceitasse, de forma fria,
tudo aquilo que repulso,
como a burrice, a preguiça,
a mediocridade da pura cobiça,
a pasteurização do não pensar,
do não duvidar, do achar
que o caminho do berço ao túmulo
pode ser reto, alvo, não acidentado,
de achar normal, e não um cúmulo,
andar sem uma marca ou pecado.

A gente é feito de dia e de noite,
luz e sombra, beijo e açoite,
de prazer e dor, sim e não,
de paz e de convulsão...
Eu admiro quem assume isso!
Por isso, deixa eu assumir o compromisso
de ser o seu amor possível, sua vontade,
a sua moça do sonho, a sua essência,
a sua parceira nas diversas realidades,
a musa do seu Poema da adolescência,
o seu fogo, o seu sexo, o seu tesâo,
seu porto seguro, sua loucura, a sua mansidão.

Salvador, 08 de dezembro de 2011.



sexta-feira, 25 de março de 2016

Sonhamos, somamos, somos



A gente é sol.
A gente é só.
Até que nos provem o contrário e desatem os nós.

A gente é mar.
E nem sabe amar direito.
Somos imensos e grãos de areia ao mesmo tempo.

A gente é.
A gente já foi.
Vivendo a rotina e sempre deixando o que importa para depois.

A gente é vida.
Bem ou mal vivida.
A gente é espera da falta que é sentida.

Mas a gente é mais do que disseram que somos.
E a gente ainda não foi o que planejamos nos sonhos.

A gente é gente.
Comum e orgulhosa.
Fazendo muito com o pouco que tem e driblando o stress como numa bossa nova.

A gente escreve separado.
Mas se a gente for junto este poema está terminado.
Porque sonhos sonhados juntos, estão metade realizados.


Victor Fernandes
Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

quinta-feira, 24 de março de 2016

Último desejo





Quando eu morrer,
não quero flores nem velas,
choros ou rezas,
saudade ou compaixão.

Quero que façam diferente,
Sorriam pra toda gente,
cantem alegremente,
uma linda canção.

Pois quando eu me for,
não será por querer,
e não quero lá de cima,
Ver ninguém sofrer.

De sofrimento,
já basta a morte em si.
Não quero ter que sofrer de novo,
ao vê-los do céu depois de partir.

De antemão, portanto,
ficam todos avisados:
quero festas e canções
e abraços apertados.

Meu desejo é uma ordem,
e não quero tirania.
O aval do Senhor
será a minha garantia.

Eduardo Loula Novais de Paula
Poema selecionado no Concurso Dia Nacional da Poesia

quarta-feira, 23 de março de 2016

Felicidade e Utopia





Ó, que sujeito adorável
mas por que tanta raiva contida?
Algo dói, corrói?
Que te falta em vida?

É a morte à espreita,
em noção bergmaniana?
Ou a insatisfação diária,
sem razão, por isso - talvez- cotidiana?

Delírio dos dramáticos,
Excesso de sensibilidade
Tudo querem, nada desejam
Ao fim, só buscam felicidade

Só que ela é difícil, amigo, escorregadia
É como a utopia
A cada passo que se dá, ao longe,
tanto mais ela se distancia.

Filipi Vasconcelos de Campos - Santa Maria-RS - Vencedor do Concurso Dia Nacional da Poesia - 3º lugar

terça-feira, 22 de março de 2016

Espelho





Essa senhora
Que insiste em me olhar
Quando olho para o espelho
Vem me dizer
I n s i s t e n t e m e n t e
Que tudo aquilo que vivi
Muda-me por dentro
E por fora
Marca-me
Na alma
E na pele
Nos sonhos
E nos olhos
Testa
E cabelos brancos
Que insistem
Em povoar minha cabeça
Repleta
Ainda
De sonhos
De amores
De desejos
Repleta de todos os sorrisos
Que sempre estampei no rosto
Ao me ver
À frente do espelho


Anna Frascolla - Vencedora do Concurso Dia Nacional da Poesia 2016 - 2º lugar

segunda-feira, 21 de março de 2016

Sem Título



Sim,
Todo dia é assim

Brisa no rosto
Sol a raiar
A mão exprime 
O que o coração quer calar
Puxa forte
Puxa com força a esperança 
Traz 
do fundo 
uma luz
Traz 
Da alma
Teu sustento
Traz
Da vida 
O que Deus quer
Traz
Do amor
O seu lamento 

Mas é sempre assim
Todo dia
O sol a raiar


Foto de Alisson Louback
Poesia de Maila Louback - Vencedor do Concurso Dia Nacional da Poesia 2016 - 1º Lugar