sábado, 9 de fevereiro de 2019

Quem nunca sofreu por amor?




Quem nunca sofreu por amor
Você nunca sofreu por amor?
A gente mata um pedaço,
para deixar outro nascer
Nascer é difícil
Dói, mas, no fim, vale a pena
Pode-se sempre fingir
que nada aconteceu,
mas, se assim for,
a cicatriz não consolida
e a ferida fica aberta
A gente precisa aprender
com o sofrimento,
infelizmente...
Vai passar...
Tudo passa
até a dor por amor...

Salvador, 26 de novembro de 2018.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pânico Moral



Qual é o pior medo?
O asco do que ocorreu,
O terror do que se vê
ou o receio do que pode vir?

Quando o discurso
torna-se concreto,
nada mais é certo,
senão o temor da opressão.

Pouco se sabe o que virá afinal,
mas não se espera coisa boa
quando se confere quem tece loas

a quem ameaça sua existência,
arriscando sua sobrevivência
em um estado de pânico moral.

Salvador, 20 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Considerações de Aninha



Cora Coralina

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Dormes



Olavo Bilac

Dormes… Mas que sussurro a umedecida
Terra desperta? Que rumor enleva
As estrelas, que no alto a Noite leva
Presas, luzindo, à túnica estendida?

São meus versos! Palpita a minha vida
Neles, falenas que a saudade eleva
De meu seio, e que vão, rompendo a treva,
Encher teus sonhos, pomba adormecida!

Dormes, com os seios nus, no travesseiro
Solto o cabelo negro… e ei-los, correndo,
Doudejantes, sutis, teu corpo inteiro

Beijam-te a boca tépida e macia,
Sobem, descem, teu hálito sorvendo
Por que surge tão cedo a luz do dia?!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Ela com A, Ela do B



Rodolfo Pamplona Filho

Ela com A
Ela com Afeto,
Amor e Admiração

Ela do B
Ela do Barraco,
Briga e Batida de frente

Ela com A
Ela com Amizade,
Abraço e Ação

Ela do B
Ela com Birra,
Bolacha e Batalhas

Ela com A
A mulher que sonhei
para mim

Ela com B
O pesadelo que
sempre temi

Ela com A
Ela do B
Duas pessoas
em um mesmo ser.

Salvador, 18 de outubro de 2018.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Vergonhoso



Jorge da Rosa

Pobre dos pobres
País envergonhado
O mundo descobre
A corja, os safados

Lutamos, lutamos
Querendo crescer
Mas vem um tirano
Querendo retroceder

O Brasil é lindo
Enche-me de orgulho
O que estou pedindo
É um grande papa entulhos

Compra de deputados
Reforma trabalhista
Aumento de todos os lados
Governo golpista.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Refletir e reflorir



Rodolfo Pamplona Filho

E ontem, indo ao trabalho,
consegui visualizar
uma árvore que cresceu
em meio a escombros

É como a esperança que brota
de lugares improváveis,
ensinando que não existem
sonhos impossíveis.

Salvador, 25 de outubro de 2018.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Justiça



Jorge da Rosa

Brilhas como aurora que víamos outrora
Que encanto esse teu, insuflação divina
És como o mar, de admirar
És sol, és chuvas, inundas os corações
Estouras represas, és fortaleza
Mínima é minha força
Escravo dessa moça
Máxima é minha paixão que só
Não tem capacidade de
Perturbar o juízo e a conduta
Pelo código da paixão estás
Cometendo um crime:
Ler meu coração.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Nem tudo tem preço



Rodolfo Pamplona Filho

Nem tudo tem preço
Dignidade não tem
Amor não tem
Felicidade de verdade
também não

Nem tudo tem preço
e o que você me pede
não tem como ser aceito
sem tirar um pedaço de mim.

Nem tudo tem preço
e, se você fizer
o que me violenta
vai finalmente aprender:
Nem tudo tem preço,
mas tudo tem troco

Salvador, 08 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Tudo Bem



Drica Serra

moça,

tudo bem ser indecisa

quanto ao sabor do sorvete,

a camiseta, a pizza, a faculdade.

mas jamais aceite viver com a dúvida

sobre o amor de alguém por você. não dá pra

amar escondido, o amor salta, se mostra,

derrama pra todos os lados. se você não

o vê, acredito, ele não existe.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Mudando para você



Rodolfo Pamplona Filho

Vou mudar
minha cara,
minha casa,
minha fala

Vou mudar
meu endereço,
meu adereço
minha composição

Vou mudar
a minha postura.
a minha estrutura,
o meu caminhar

Vou mudar
tudo em mim
para poder
ser o mesmo para você.

Salvador, 14 de outubro de 2018.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Simultaneidade




Mário Quintana

- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ego e Alma



Rodolfo Pamplona Filho

Ser importante é do Ego
Ser feliz é da alma
Ser valorizado é do Ego
Realizar-se é da alma
Ter títulos é do Ego
Saber é da alma
Ser lembrado é do Ego
Fazer é da alma
Ser reconhecido é do Ego
Ter amigos é da alma
Ser casca é do Ego
Ser essência é da alma

Salvador, 21 de julho de 2018.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Uma certa arte




Elizabeth Bishop

(tradução de Nelson Ascher)

A arte da perda é fácil de estudar:
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.

Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.

Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.

Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.

Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.

Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Tudo de mim



Rodolfo Pamplona Filho

Quero viver com você!
Se já vivo,
quero viver mais:
Mais perto
Mais tempo
Mais quente
Mais vivo

Você merece o que há de bom!
Se já tem,
Quero dar tudo:
Tudo de vivo
Tudo de delicado
Tudo de romântico
Tudo de intenso
Tudo de mim!

Salvador, 10 de março de 2018.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A Flor e a Náusea



Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Egoísta ou Altruísta



Rodolfo Pamplona Filho

Ser altruísta é bom,
pois pensar no outro ajuda
a resolver os problemas do coletivo

Ser altruísta é importante,
pois tratar somente em si
pode destruir a humanidade

Ser altruísta é valoroso,
pois achar quem cuida de outrem
traz exemplos que edificam

Mas não dá para ser só altruísta,
pois esquecer de sua felicidade
é condenar-se ao sofrimento.

Mas não dá para ser só altruísta,
pois não realizar seus desejos
é chafurdar na frustração.

Mas não dá para ser só altruísta,
pois não se preocupar também consigo
é o início de sua própria anulação.

Salvador, 20 de julho de 2018.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Certeza




Octavio Paz

Se é real a luz branca
desta lâmpada, real
a mão que escreve, são reais
os olhos que olham o escrito?

Duma palavra à outra
o que digo desvanece-se.
Sei que estou vivo
entre dois parênteses.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Por que Poesia?



Rodolfo Pamplona Filho

Não se vive sem ar,
água e comida.
Mas andar sem poesia
é manter o corpo aquecido
de forma artificial.

A poesia é o que nos difere
de um animal irracional,
embora ele também possa
inspirar poesia,
ainda que sem saber.

A poesia transforma
o efêmero em eterno,
o instante em contínuo
e o fugaz em imortal.

Não me deseje o mal,
nem queira me tolher:
privar-me da poesia
é assassinar silenciosamente
meu desejo de viver.

No vôo para Orlando, 01 de janeiro de 2019.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Marcas de um egoísmo



Tiago Figueiredo

Querem que eu repita minhas ações,
assim como os belos traços no desenho das mansões.
Querem que eu confirme aquilo que eu não vi,
assim como sempre fazem julgando a ti.

E neste mundo onde a vantagem conta mais valor,
fico pensando nas vezes em que falta o amor.
E neste mundo onde a incerteza vale como argumento,
fico pensando nas vezes em que falta o sentimento.

Os homens perderam a razão do negociar e do fazer da paz.
A vida se tornou um marasmo, um cadeado sem a sua chave.
E ainda perguntam como serão as marcas das gerações.
As mulheres agora lutam com prazer e força.
Que marasmo irritante se tornou esta rotina.
E ainda perguntam sobre minhas visões.
Bebês segurando bebês, amamentando o que o futuro viu.
Realidade que se torna bem efetiva neste lugar.
E ainda perguntam sobre nossas emoções.

Se foi, se foi, se foi... Eu não sei.
A união do mundo que rasgou seus traços.
São marcas de um egoísmo vivente em nós,
são só gente perdeu os seus abraços.

Se foi, se foi, se foi... Eu já vi.
A união de um mundo que não dá sua mão.
São marcar de um egoísmo vivente em nós,
são só gente que perdeu amor no coração.

Querem que eu repita minhas ações.
Neste mundo onde a vantagem conta mais valor.
Onde foi a união e seu heroísmo.
São as marcas que compõe este egoísmo.