domingo, 20 de agosto de 2023

Amar, nunca me coube









Mas sempre transbordou


O rio de lembranças


Que um dia me afogou




E nesta correnteza


Fiquei a navegar


Embora, com certeza,


Não possa me salvar




Amar nunca me trouxe


Completo esquecimento


Mas antes me somou


Ao antigo tormento




E assim, cada vez mais,


Me prendo neste nó


E cada grito meu


Parece ser maior




(Mario Quintana)


sábado, 19 de agosto de 2023

Rompendo






Rodolfo Pamplona Filho


E, de repente, o silêncio!!!

E o que era unidade

virou dois corpos abraçados

(mas não era a mesma coisa!)

E o silêncio persiste!!!

Palavras são emitidas,

mas parece não haver som

Confesso: estou com medo

(ela também!)

Medo de quê???

Medo de perdê-la

e nunca mais tê-la...

... de volta ... em meus braços

O rádio está ligado,

mas o silêncio continua... (insuportável!!!)

Fala-se sobre qualquer coisa,

mas o silêncio continua...

Será o fim?

Ou será apenas a explosão de outra neurose?

Enquanto escrevo,

meu corpo sua e treme!

Será febre?

Será medo?

Será que vou conseguir encontrar

alguém que eu goste de abraçar

alguém com quem eu possa conversar

alguém que eu possa amar,

sem ser você, amiga?

Acho difícil,

Acho impossível,

acho insuportável!

Mas, então, por que, meu Deus, por que?

Por que meu coração está confuso desse jeito?


Se eu a amo,

por que hesito?

Se não a amo,

por que existo?

Vejo seus olhos marejados

Sinto que ela vai chorar.

Se tenho vontade, por que não grito logo que a quero?

que a amo?

que a desejo?

Porque...

... sou imaturo

... sou um idiota

... sou influenciado por palavras que não vem da minha boca

nem da minha alma

nem do meu coração.

Mas, mesmo assim,

e por isso mesmo,

eu hesito quando

quando tudo seria bem mais fácil

e bem mais simples

se eu (mente, alma e coração)

apenas dissesse:


Meu amor, quero ficar contigo o resto de minha vida!


(11.10.92)

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Minha matilha é a cara da diversidade - 2

 



 

8 indivíduos

Tamanhos diferentes

Idades diferentes

Cada um com sua cor, em paleta de cores

Paridade (4 machos e 4 fêmeas)

4 duplas

2 de porte pequeno, 4 de porte médio e 2 de porte grande

2 mais velhos (Camille e Tchutchucão)

2 irmãos de sangue (Hans e Hannah) em uma família socioafetiva

2 grandões estabanados (Carlos e Joana)

2 baixinhos invocados (Buck e Simone)

1 feminista (Camille)

1 gordo (Tchuchucão)

1 troglodita convertido (Hans)

1 homo (Hannah)

1 hiperativo (Carlos)

1 periguete (Joana)

1 mauricinho (Buck)

1 com deficiência (Simone)

 

Mas todos amados sem qualquer restrição.

 

Salvador, 01 de agosto de 2023.

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Frustração

 


 

Como lidar

com a frustração

quando mal se dá conta

de si próprio?

 

O desejo é ilimitado

e os recursos

da realidade

são finitos…

 

Assim, se percebe

a inevitabilidade

do sentimento;

a força

do constrangimento;

a imperatividade

do sofrimento.

 

Salvador, 02 de junho de 2023.


quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Eu não gosto de paredes brancas

 



 

Eu não gosto de paredes brancas

Elas me trazem uma sensação de limpeza

parecendo um ambiente de hospital

incompatível com a vida real

impossível no mundo normal

 

Eu não gosto de paredes brancas

Elas parecem uma tela em branco

em que não se pode escrever,

como um manto imaculado a esconder

uma vida proibida de viver

 

Eu não gosto de paredes brancas

Elas soam como a água ideal:

Inodora, incolor e insípida!

Eu só gosto de paredes brancas

como um convite para novas criações!

 

Salvador, 10 de junho de 2022.


terça-feira, 15 de agosto de 2023

Comunhão

 

 


Com quem há prazer

em convidar para a mesa?

Na fartura

ou na carência,

só se compartilha,

com certeza,

com quem se tem comunhão,

com quem se divide o pão,

com quem mora em seu coração.

 

Salvador, 10 de junho de 2022.


segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Boteco

 


 

O que tem em um boteco?

Encontros e Música

Amigos e Barulho

Risada e Conversa

Sorrisos e Delícias

 

Garçom, traz à mesa

Comidinhas e Gentileza

Bebidas e Beleza

e um Sorvete de sobremesa

Na calçada ou varandão

 

Salvador, 20 de julho de 2023.


domingo, 13 de agosto de 2023

Amor de Irmão

 



 

Amigo

Eu não tenho dinheiro para dar

nem tenho como as coisas mudar,

mas sei que, quando a coisa apertar,

vou pegar a tua mão

 

Amigo

Não consigo resolver teus problemas

Nem sei como desvendar teus esquemas

mas sei que, em todos os dilemas,

serei sempre teu Irmão

 

Na saúde ou na doença

No vazio ou na crença

No mar ou na terra

Na paz ou na guerra

“Só posso dizer que te amo

e que estou ao teu lado”,

Irmão

 

Salvador, 06 de agosto de 2023.



sábado, 12 de agosto de 2023

18 anos de Rodolfinho

 



 

Meu querido Rodolfinho,

 

Hoje você completa 18 anos de vida

E eu não poderia estar mais feliz

Por ter visto você crescer e se tornar

Um jovem forte, corajoso e capaz

 

Lembro-me dos seus primeiros passos

E das suas primeiras palavras

E agora vejo você pronto para voar

E conquistar o mundo com suas asas

 

Você é um filho amado e especial

E eu tenho muito orgulho de você

Por tudo o que já fez e ainda fará

E por ser um exemplo de amor e fé

 

Que a vida lhe traga muitas alegrias

E que você siga sempre em frente

Com determinação, sabedoria e bondade

E que Deus lhe abençoe eternamente

 

Parabéns, meu filho querido

Que este dia seja repleto de amor

E que você saiba que sempre estarei aqui

Para apoiá-lo em cada novo caminho e sabor.

 

Salvador, 03 de junho de 2023.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Crianças Feridas

 



Rodolfo Pamplona Filho


Crianças feridas

se reconhecem reciprocamente.

Encontros de sensibilidades

na carência de amor

e de reconhecimento.

Na precisão

do olhar do outro

com bons olhos.

No reconhecimento

não por ser brilhante,

mas por ser específico.

Ser visto com olhos normais

se limita ao senso comum;

os bons olhos veem

apenas o que é único.


Salvador, 12 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Mate-nos de vez

 



Negra Luz


Mata-me de vez!

Não a pequenos golpes.

Não a bateias de mercúrio.

Contamina de vez os meus rios!

Destrói todas as matas!


Mata-me de vez!

Não unha a unha.

Não a contrabandos em feiras.

Extingue todas as espécies!

Fauna! Flora! Tudo!


Mata-me de vez!

Não a cotidianas torturas.

Não a lixo no ar... no mar...

Derrete as geleiras de Norte a Sul!

Detona todas as bombas que criou!


Mata-me de vez!

Não a queimadas de pasto.

Não a indígenas desabrigados.

Faz-me letra morta!

Revoga todos os meus direitos em lei!


Mate-me assim...

De vez!

Eu, Meio Ambiente, peço.

Mas lembre-se:

Você não é as baratas!





quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Consulta

 


Rodolfo Pamplona Filho


Consultar é uma atitude sofisticada

em uma relação a dois

Por vezes, a ação mais delicada

é dar nome aos bois.

Perguntar e esperar a resposta

é a prova definitiva

de que a opinião alheia Importa

e que o que se vai fazer

não é fruto de um só querer,

mas resultado de um conviver.


 


Salvador, 09 de abril de 2020.


terça-feira, 8 de agosto de 2023

Frases Ventias

 



Carlinhos Brown




Teu beijo 


Cata-vento


Que assobia


Frases ventias


Pra ti sem mim


Pelo portão que escorre a calmaria


Nos utensílios


Que a vi servir


Saladas em lavouras de agonia


Com ar de amor


Que mal dormia


Yá,yá


Como porção de arroz


Na água escura


Na desventura de ver o dia


Toda canção de amor 


agora é tua


Põe o tecido


Que tu tecia


Arranca esse ardor


Que a moda surta


Carrega meu amor


Com pés de frutas

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Companhia ou Companheiro

 


Rodolfo Pamplona Filho


Companhia 


é estar do lado,


preenchendo


um espaço 


Companheiro 


é viver ao lado,


mesmo quando


não se está presente




Companhia 


é ir ao cinema,


ao bar ou 


às compras


Companheiro 


é não importar o lugar,


pois, em todos,


se deve estar.




Companhia 


é presenciar momentos 


especiais ou do dia-a-dia.


Companheiro 


é dividir o prato,


o choro ou a alegria.




Companhia


é estar junto


Companheiro


é estar junto 


para o que der e vier




Salvador, 04 de julho de 2018.


domingo, 6 de agosto de 2023

Até Pensei

 



Chico Buarque de Holanda


           


Junto à minha rua havia um bosque


Que um muro alto proibia


Lá todo balão caia


Toda maçã nascia


E o dono do bosque nem via


Do lado de lá tanta aventura


E eu a espreitar na noite escura 


A dedilhar essa modinha


A felicidade 


Morava tão vizinha


Que, de tolo


Até pensei que fosse minha


Junto a mim morava a minha amada


Com olhos claros como o dia


Lá o meu olhar vivia


De sonho e fantasia


E a dono dos olhos nem via


Do lado de lá tanta ventura


E eu a esperar pela ternura


Que a a enganar nuca me via


Eu andava pobre


Tão pobre de carinho


Que, de tolo


Até pensei que fosse minha




Toda a dor da vida


Me ensinou essa modinha


Que, de tolo


Até pensei que fosse minha


sábado, 5 de agosto de 2023

Poema a quatro mãos (ou “Poema da amizade”)

 


Rodolfo Pamplona Filho


Amizade não se mede,

não se vende, nem se cede

Amizade se vive em verso e prosa

Amizade é a coisa mais poderosa

que pode ocorrer na vida,

por mais que ela seja sofrida,

pois um amigo é o pai ou o irmão,

que a gente elege pelo coração!


E se fosse medida em peso?

Seria tonelada

E se fosse medida em calor?

Seria o sol e mais nada!

Sendo medida em luz...

É certo cegaria!

Se fosse medida em tempo?

O infinito bastaria!


Se amizade pudesse ser vendida,

seu preço seria inestimável!

Se pudesse ser cedida,

seria uma herança notável!

Não cabe cobrança por presença!

É a sintonia atemporal

capaz de lavrar a sentença

de um amor fraterno e imortal!




Salvador, 07 de julho de 2020. 


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Minha Madrinha

 



Taumaturgo Vaz







Aqui na terra, desiludido


Tonto, perdido,


Saio das cinzas deste vulcão,


Para ouvir missa na capelinha,


Lá, onde mora Minha Madrinha,


Nossa Senhora da Conceição!






Ao pé do nicho branco e enflorado,


Ajoelhado,


De olhos abertos fitos no altar


Rezo baixinho... Santa alegria!


Minha Madrinha!  Ave Maria!


Cheia de Graça!  Graça sem par!






Mãe de Jesus!  Flor do Carinho!


Secai os cardos do meu caminho!


Livrai-me do ódio de Humanidade!


Da inveja torpe, da iniqüidade


E da traição,


Que ora andam soltos e voejando,


Como de Corvos um negro bando,


Sob a amplidão!


Tende Piedade, doce Rainha!


Minha Madrinha!  Minha Madrinha!


Nossa Senhora da Conceição!






Olhai, oh Virgem, quantos tormentos


Sofrem os justos!  Quantos lamentos


Soltos aos ventos!


Quanta miséria!  Quanto pesar!


Cessai, oh Virgem, esta Agonia,


Minha Madrinha!  Ave Maria!


Cheia de Graça, Graça sem par!






Lá nos Palácios o oiro e o incenso,


Risos e danças, um mundo imenso


De luz e pompas, sedas e aromas,


Lembrando os velhos tempos de Roma


A era negra da perdição!


E fora, o pranto, o frio, a fome... 


Tudo que é triste, fere e consome 


os pobres velhos e as criancinhas!  


Vinde por eles, Minha Madrinha!  


Nossa Senhora da Conceição!






De olhos abertos fico rezando 


Fora do mundo, junto do altar, 


Vendo chegar o doce bando


Das esperanças,


— Anjos formosos, meigas crianças


Rubras centelhas


Dos céus descidos para o Perdão!


E, como a Virgem tudo adivinha,


Ri-se bondosa.  Salve Rainha!


Cheia de Graça!  Minha Madrinha!


Nossa Senhora da Conceição!

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Bioética

 


Rodolfo Pamplona Filho



Conhecer os limites do tolerável 


Aprender os caminhos do aceitável 


Saber os limites 


do que se pode na concreção 


e do que não se deve na regulação 


Entender 


que nem sempre a imaginação 


é a melhor conselheira da ação,


pois nem tudo que é possível 


é factível ou recomendável.


Ter, ao final,


apenas a simples consciência 


de que, acima de tudo, vida,


mas, sobretudo, ética.




Salvador, madrugada de 10 de fevereiro de 2022.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Canção I

 




Luís Vaz de Camões



Fermosa e gentil Dama, quando vejo


a testa de ouro e neve, o lindo aspeito,


a boca graciosa, o riso honesto,


o marmóreo colo e branco peito,


de meu não quero mais que meu desejo,


nem mais de vos que ver tão lindo gesto.


Ali me manifesto


por vosso a Deus e ao mundo; ali me inflamo


nas lágrimas que choro;


e de mim, que vos amo,


em ver que soube amar-vos, me namoro;


e fico por mim só perdido, de arte


que hei ciúmes de mim por vossa parte.




Se porventura vivo descontente


por fraqueza de esprito, padecendo


a doce pena que entender não sei,


fujo de mim e acolho-me, correndo,


à vossa vista; e fico tão contente


que zombo dos tormentos que passei.


De quem me queixarei


se vós me dais a vida deste jeito


nos males que padeço,


senão de meu sujeito,


que não cabe com bem de tanto preço?


Mas ainda isso de mim cuidar não posso,


de estar muito soberbo com ser vosso.




Se, por algum acerto, Amor vos erra,


por parte do desejo cometendo


algum nefando e torpe desatino;


se ainda mais que ver, enfim, pretendo;


fraquezas são do corpo, que é de terra,


mas não do pensamento, que é divino.


Se tão alto imagino


que de vista me perco – peco nisto –,




desculpa-me o que vejo;


que se, enfim, resisto


contra tão atrevido e vão desejo,


faço-me forte em vossa vista pura,


e armo-me de vossa fermosura.




Das delicadas sobrancelhas pretas


os arcos, com que fere, Amor tomou,


e fez a linda corda dos cabelos;


e, porque de vós tudo lhe quadrou,


dos raios desses olhos fez as setas


com que fere quem alça os seus, a vê-los.


Olhos, que são tão belos,


dão armas de vantagem ao Amor,


com que as almas destrui;


porém, se é grande a dor,


co a alteza do mal a restitui;


e as armas com que mata são de sorte


que ainda lhe ficais devendo a morte.




Lágrimas e suspiros, pensamentos,


quem deles se queixar, fermosa Dama,


mimoso está do mal que por vós sente.


Que maior bem deseja quem vos ama


que estar desabafando seus tormentos,


chorando, imaginando docemente?


Quem vive descontente


não há-de dar alívio a seu desgosto,


por que se lhe agradeça;


mas com alegre rosto


sofra seus males, para que os mereça;


que quem do mal se queixa, que padece,


fá-lo porque esta glória não conhece.




De modo que, se cai o pensamento


em algüa fraqueza, de contente


é porque este segredo não conheço:


assi que com razões, não tão-somente


desculpo ao Amor de meu tormento,


mas ainda a culpa sua lhe agradeço.


Por esta fé mereço


a graça, que esses olhos acompanha,


o bem do doce riso;


mas porém não se ganha


cum paraíso outro paraíso.


E assi, de enleada, a esperança


se satisfaz co bem que não alcança.




Se com razões escuso meu remédio,


sabe, Canção, que, porque não vejo,


engano com palavras o desejo.







terça-feira, 1 de agosto de 2023

O Viço

 


Rodolfo Pamplona Filho



E se, de repente,


eu te dissesse que não queria mais


viver no mesmo teto, na mesma cama


e que tudo que planejamos


não era mais essencial pra minha chama




E se, de repente


eu te dissesse que meu coração foi tomado


por uma vontade imensa de viver


que não engloba a rotina


que você tem a me oferecer




E se, de repente,


a pergunta que aparecesse


fosse: "Você não me ama mais?”


ou “Você arranjou outra?"


Seria o comum a se falar


pois rupturas ensejam esse pensar




E se, de repente,


tudo que era sólido


se desfizesse no ar


como grãos de areia nas mãos de uma criança,


caindo incessamente na ampulheta da vida.




Isso tudo nada teria a ver com amor,


pois eu continuarei te amando


da mesma forma pura e feliz...


Isso tudo nada teria a ver com amor,


mas com o viço que eu sempre quis...




Será que este viço se perderá?


Se este viço, sem querer, se perder


não será por outro alguém,


mas pelo próprio destino maduro


de uma essência que quer mais do que se tem.



Salvador, 28 de outubro de 2010.