Leia o discurso completo:
É preciso encontrar o que você ama"
"Estou honrado por estar aqui com vocês em sua formatura por uma das melhores universidades do mundo. Eu mesmo não concluí a faculdade. Para ser franco, jamais havia estado tão perto de uma formatura, até hoje. Pretendo lhes contar três histórias sobre a minha vida, agora. Só isso. Nada demais. Apenas três histórias.
A primeira é sobre ligar os pontos.
Eu larguei o Reed College depois de um semestre, mas continuei assistindo a algumas aulas por mais 18 meses, antes de desistir de vez. Por que eu desisti?
Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era jovem e não era casada; estava fazendo o doutorado, e decidiu que me ofereceria para adoção. Ela estava determinada a encontrar pais adotivos que tivessem educação superior, e por isso, quando nasci, as coisas estavam armadas de forma a que eu fosse adotado por um advogado e sua mulher. Mas eles terminaram por decidir que preferiam uma menina. Assim, meus pais, que estavam em uma lista de espera, receberam um telefonema em plena madrugada ¿"temos um menino inesperado aqui; vocês o querem?" Os dois responderam "claro que sim". Minha mãe biológica descobriu mais tarde que minha mãe adotiva não tinha diploma universitário e que meu pai nem mesmo tinha diploma de segundo grau. Por isso, se recusou a assinar o documento final de adoção durante alguns meses, e só mudou de idéia quando eles prometeram que eu faria um curso superior.
Assim, 17 anos mais tarde, foi o que fiz. Mas ingenuamente escolhi uma faculdade quase tão cara quanto Stanford, e por isso todas as economias dos meus pais, que não eram ricos, foram gastas para pagar meus estudos. Passados seis meses, eu não via valor em nada do que aprendia. Não sabia o que queria fazer da minha vida e não entendia como uma faculdade poderia me ajudar quanto a isso. E lá estava eu, gastando as economias de uma vida inteira. Por isso decidi desistir, confiando em que as coisas se ajeitariam. Admito que fiquei assustado, mas em retrospecto foi uma de minhas melhores decisões. Bastou largar o curso para que eu parasse de assistir às aulas chatas e só assistisse às que me interessavam.
Nem tudo era romântico. Eu não era aluno, e portanto não tinha quarto; dormia no chão dos quartos dos colegas; vendia garrafas vazias de refrigerante para conseguir dinheiro; e caminhava 11 quilômetros a cada noite de domingo porque um templo Hare Krishna oferecia uma refeição gratuita. Eu adorava minha vida, então. E boa parte daquilo em que tropecei seguindo minha curiosidade e intuição se provou valioso mais tarde. Vou oferecer um exemplo.
Na época, o Reed College talvez tivesse o melhor curso de caligrafia do país. Todos os cartazes e etiquetas do campus eram escritos em letra belíssima. Porque eu não tinha de assistir às aulas normais, decidi aprender caligrafia. Aprendi sobre tipos com e sem serifa, sobre as variações no espaço entre diferentes combinação de letras, sobre as características que definem a qualidade de uma tipografia. Era belo, histórico e sutilmente artístico de uma maneira inacessível à ciência. Fiquei fascinado.
Mas não havia nem esperança de aplicar aquilo em minha vida. No entanto, dez anos mais tarde, quando estávamos projetando o primeiro Macintosh, me lembrei de tudo aquilo. E o projeto do Mac incluía esse aprendizado. Foi o primeiro computador com uma bela tipografia. Sem aquele curso, o Mac não teria múltiplas fontes. E, porque o Windows era só uma cópia do Mac, talvez nenhum computador viesse a oferecê-las, sem aquele curso. É claro que conectar os pontos era impossível, na minha era de faculdade. Mas em retrospecto, dez anos mais tarde, tudo ficava bem claro.
Repito: os pontos só se conectam em retrospecto. Por isso, é preciso confiar em que estarão conectados, no futuro. É preciso confiar em algo - seu instinto, o destino, o karma. Não importa. Essa abordagem jamais me decepcionou, e mudou minha vida.
A segunda história é sobre amor e perda.
Tive sorte. Descobri o que amava bem cedo na vida. Woz e eu criamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhávamos muito, e em dez anos a empresa tinha crescido de duas pessoas e uma garagem a quatro mil pessoas e US$ 2 bilhões. Havíamos lançado nossa melhor criação - o Macintosh - um ano antes, e eu mal completara 30 anos.
Foi então que terminei despedido. Como alguém pode ser despedido da empresa que criou? Bem, à medida que a empresa crescia contratamos alguém supostamente muito talentoso para dirigir a Apple comigo, e por um ano as coisas foram bem. Mas nossas visões sobre o futuro começaram a divergir, e terminamos rompendo - mas o conselho ficou com ele. Por isso, aos 30 anos, eu estava desempregado. E de modo muito público. O foco de minha vida adulta havia desaparecido, e a dor foi devastadora.
Por alguns meses, eu não sabia o que fazer. Sentia que havia desapontado a geração anterior de empresários, derrubado o bastão que havia recebido. Desculpei-me diante de pessoas como David Packard e Rob Noyce. Meu fracasso foi muito divulgado, e pensei em sair do Vale do Silício. Mas logo percebi que eu amava o que fazia. O que acontecera na Apple não mudou esse amor. Apesar da rejeição, o amor permanecia, e por isso decidi recomeçar.
Não percebi, na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. O peso do sucesso foi substituído pela leveza do recomeço. Isso me libertou para um dos mais criativos períodos de minha vida.
Nos cinco anos seguintes, criei duas empresas, a NeXT e a Pixar, e me apaixonei por uma pessoa maravilhosa, que veio a ser minha mulher. A Pixar criou o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é hoje o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. E, estranhamente, a Apple comprou a NeXT, eu voltei à empresa e a tecnologia desenvolvida na NeXT é o cerne do atual renascimento da Apple. E eu e Laurene temos uma família maravilhosa.
Estou certo de que nada disso teria acontecido sem a demissão. O sabor do remédio era amargo, mas creio que o paciente precisava dele. Quando a vida jogar pedras, não se deixem abalar. Estou certo de que meu amor pelo que fazia é que me manteve ativo. É preciso encontrar aquilo que vocês amam - e isso se aplica ao trabalho tanto quanto à vida afetiva. Seu trabalho terá parte importante em sua vida, e a única maneira de sentir satisfação completa é amar o que vocês fazem. Caso ainda não tenham encontrado, continuem procurando. Não se acomodem. Como é comum nos assuntos do coração, quando encontrarem, vocês saberão. Tudo vai melhorar, com o tempo. Continuem procurando. Não se acomodem.
Minha terceira história é sobre morte.
Quando eu tinha 17 anos, li uma citação que dizia algo como "se você viver cada dia como se fosse o último, um dia terá razão". Isso me impressionou, e nos 33 anos transcorridos sempre me olho no espelho pela manhã e pergunto, se hoje fosse o último dia de minha vida, eu desejaria mesmo estar fazendo o que faço? E se a resposta for "não" por muitos dias consecutivos, é preciso mudar alguma coisa.
Lembrar de que em breve estarei morto é a melhor ferramenta que encontrei para me ajudar a fazer as grandes escolhas da vida. Porque quase tudo - expectativas externas, orgulho, medo do fracasso - desaparece diante da morte, que só deixa aquilo que é importante. Lembrar de que você vai morrer é a melhor maneira que conheço de evitar armadilha de temer por aquilo que temos a perder. Não há motivo para não fazer o que dita o coração.
Cerca de um ano atrás, um exame revelou que eu tinha câncer. Uma ressonância às 7h30min mostrou claramente um tumor no meu pâncreas - e eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos me disseram que era uma forma de câncer quase certamente incurável, e que minha expectativa de vida era de três a seis meses. O médico me aconselhou a ir para casa e organizar meus negócios, o que é jargão médico para "prepare-se, você vai morrer".
Significa tentar dizer aos seus filhos em alguns meses tudo que você imaginava que teria anos para lhes ensinar. Significa garantir que tudo esteja organizado para que sua família sofra o mínimo possível. Significa se despedir.
Eu passei o dia todo vivendo com aquele diagnóstico. Na mesma noite, uma biópsia permitiu a retirada de algumas células do tumor. Eu estava anestesiado, mas minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células ao microscópio começaram a chorar, porque se tratava de uma forma muito rara de câncer pancreático, tratável por cirurgia. Fiz a cirurgia, e agora estou bem.
Nunca havia chegado tão perto da morte, e espero que mais algumas décadas passem sem que a situação se repita. Tendo vivido a situação, posso lhes dizer o que direi com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito útil mas puramente intelectual.
Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que desejam ir para o céu prefeririam não morrer para fazê-lo. Mas a morte é o destino comum a todos. Ninguém conseguiu escapar a ela. E é certo que seja assim, porque a morte talvez seja a maior invenção da vida. É o agente de mudanças da vida. Remove o velho e abre caminho para o novo. Hoje, vocês são o novo, mas com o tempo envelhecerão e serão removidos. Não quero ser dramático, mas é uma verdade.
O tempo de que vocês dispõem é limitado, e por isso não deveriam desperdiçá-lo vivendo a vida de outra pessoa. Não se deixem aprisionar por dogmas - isso significa viver sob os ditames do pensamento alheio. Não permitam que o ruído das outras vozes supere o sussurro de sua voz interior. E, acima de tudo, tenham a coragem de seguir seu coração e suas intuições, porque eles de alguma maneira já sabem o que vocês realmente desejam se tornar. Tudo mais é secundário.
Quando eu era jovem, havia uma publicação maravilhosa chamada The Whole Earth Catalog, uma das bíblias de minha geração. Foi criada por um sujeito chamado Stewart Brand, não longe daqui, em Menlo Park, e ele deu vida ao livro com um toque de poesia. Era o final dos anos 60, antes dos computadores pessoais e da editoração eletrônica, e por isso a produção era toda feita com máquinas de escrever, Polaroids e tesouras. Era como um Google em papel, 35 anos antes do Google - um projeto idealista e repleto de ferramentas e idéias magníficas.
Stewart e sua equipe publicaram diversas edições do The Whole Earth Catalog, e quando a idéia havia esgotado suas possibilidades, lançaram uma edição final. Estávamos na metade dos anos 70, e eu tinha a idade de vocês. Na quarta capa da edição final, havia uma foto de uma estrada rural em uma manhã, o tipo de estrada em que alguém gostaria de pegar carona. Abaixo da foto, estava escrito "Permaneçam famintos. Permaneçam tolos". Era a mensagem de despedida deles. Permaneçam famintos. Permaneçam tolos. Foi o que eu sempre desejei para mim mesmo. E é o que desejo a vocês em sua formatura e em seu novo começo.
Mantenham-se famintos. Mantenham-se tolos. Muito obrigado a todos."
Blog para ler e pensar... Um texto por dia... é a promessa... Ficarei muito feliz em ler e saber o que cada palavra despertou... Se você quiser compartilhar um texto, não hesite em mandar para rpf@rodolfopamplonafilho.com.br. Aqui, não compartilho apenas os meus textos, mas de poetas que eu já admiro e de todas as pessoas que queiram viajar comigo na poesia... Se quiser conhecer somente a minha poesia, acesse o blog rpf-poesia.blogspot.com.br. Espero que goste... Ficarei feliz com isso...
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Ao meu pequeno
Ao meu pequeno
Que mesmo antes do nascimento,
podia sentir o meu toque e ao mesmo tempo tocar-me com suas mãozinhas
e pezinhos;
podia, sim, ouvir a voz amável do seu pai, minhas doces palavras e cantigas;
podia enxergar, mesmo que através do meu coropo, o seu mundo;
podia saborear, ter as mais diversas percepções sensoriais, sobretudo,
podia sentir a alegria e plena satisfação da minha espera.
Ana Cecília Rosário Ribeiro
Que mesmo antes do nascimento,
podia sentir o meu toque e ao mesmo tempo tocar-me com suas mãozinhas
e pezinhos;
podia, sim, ouvir a voz amável do seu pai, minhas doces palavras e cantigas;
podia enxergar, mesmo que através do meu coropo, o seu mundo;
podia saborear, ter as mais diversas percepções sensoriais, sobretudo,
podia sentir a alegria e plena satisfação da minha espera.
Ana Cecília Rosário Ribeiro
terça-feira, 11 de outubro de 2011
No livro grosso dos preconceitos...
No livro grosso dos preconceitos...
É simplesmente emocionante a decisão de um desembargador do Tribunal de Justiça e São Paulo. Um garoto pobre, que perdeu o pai em um acidente de trânsito pediu ajuda da Justiça Gratuita, mas um juiz negou. A negativa por si só já comove, principalmente pela falta de humanidade. Só que, a decisão de um desembargador é ainda muito mais emocionante.
Decisão do desembargador José Luiz Palma Bisson, do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferida num Recurso de Agravo de Instrumento ajuizado contra despacho de um Magistrado da cidade de Marília (SP), que negou os benefícios da Justiça Gratuita a um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de ser atropelado por uma motocicleta. O menor ajuizou uma ação de indenização contra o causador do acidente pedindo pensão de um salário mínimo mais danos morais decorrentes do falecimento do pai.
Por não ter condições financeiras para pagar custas do processo o menor pediu a gratuidade prevista na Lei 1060/50. O Juiz, no entanto, negou-lhe o direito dizendo não ter apresentado prova de pobreza e, também, por estar representado no processo por "advogado particular".
A decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a partir do voto do desembargador Palma Bisson é daquelas que merecem ser comentadas, guardadas e relidas diariamente por todos os que militam no Judiciário.Transcrevo a íntegra do voto:
“É o relatório. Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro - ou sem ele -, com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna.
Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai - por Deus ainda vivente e trabalhador - legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em paubrasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes vêem apenas papel repetido. É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro - que nem existe mais - num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina.
Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta Terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é.
O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante.
Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, no pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres.
Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico. Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia d'água, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou.
Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos...
Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir.
Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal.
É como marceneiro que voto.
JOSÉ LUIZ PALMA BISSON - Relator Sorteado”
É simplesmente emocionante a decisão de um desembargador do Tribunal de Justiça e São Paulo. Um garoto pobre, que perdeu o pai em um acidente de trânsito pediu ajuda da Justiça Gratuita, mas um juiz negou. A negativa por si só já comove, principalmente pela falta de humanidade. Só que, a decisão de um desembargador é ainda muito mais emocionante.
Decisão do desembargador José Luiz Palma Bisson, do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferida num Recurso de Agravo de Instrumento ajuizado contra despacho de um Magistrado da cidade de Marília (SP), que negou os benefícios da Justiça Gratuita a um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de ser atropelado por uma motocicleta. O menor ajuizou uma ação de indenização contra o causador do acidente pedindo pensão de um salário mínimo mais danos morais decorrentes do falecimento do pai.
Por não ter condições financeiras para pagar custas do processo o menor pediu a gratuidade prevista na Lei 1060/50. O Juiz, no entanto, negou-lhe o direito dizendo não ter apresentado prova de pobreza e, também, por estar representado no processo por "advogado particular".
A decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a partir do voto do desembargador Palma Bisson é daquelas que merecem ser comentadas, guardadas e relidas diariamente por todos os que militam no Judiciário.Transcrevo a íntegra do voto:
“É o relatório. Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro - ou sem ele -, com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna.
Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai - por Deus ainda vivente e trabalhador - legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em paubrasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes vêem apenas papel repetido. É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro - que nem existe mais - num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina.
Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta Terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é.
O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante.
Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, no pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres.
Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico. Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia d'água, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou.
Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos...
Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir.
Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal.
É como marceneiro que voto.
JOSÉ LUIZ PALMA BISSON - Relator Sorteado”
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Concurso
Concurso
Rodolfo Pamplona Filho
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domingo, 9 de outubro de 2011
Reflexões sobre universidade
Reflexões sobre universidade
Mário Araújo Filho
Professor do Curso de Engenharia Elétrica/UFCG
Professor do Curso de Engenharia Elétrica/UFCG
No meio acadêmico, todo mundo tem muito claro que as atividades-fim da Universidade são Ensino, Pesquisa e Extensão. Em geral, refere-se a ensino de graduação e pós-graduação, atividade investigativa e de geração de conhecimento, extensão – à sociedade – do conhecimento produzido na instituição. Às três atividades-fim acrescenta-se ainda a exigência de que sejam realizadas de forma indissociável, como estabelece a constituição brasileira. É o famoso princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
Cabendo à instituição universitária realizar essas três atividades, há quem questione se cabe também a cada professor universitário, como indivíduo, realizá-las todas. Li certa vez um texto de José Arthur Gianotti, filósofo e professor da USP, em que ele afirmava (e cito de memória, com o risco da imprecisão) que a universidade precisa de bons professores, absolutamente dedicados ao ensino, mas sem nenhum interesse por atividades de laboratório; a universidade precisa de professores que sejam excelentes pesquisadores, mas sem nenhuma vocação para dar aulas; e, completava, precisa também de “burocratas universitários competentes”, para ter quem bem a administre.
Polêmico, cáustico, autor de “A universidade em ritmo de barbárie”, Gianotti deve ter escandalizado muita gente com essas suas considerações, que atingem em cheio o dogma da indissociabilidade, separando o que “todo mundo” acha que não se pode separar: basicamente, o ensino da pesquisa e vice-versa. O curioso é que aquilo que é brandido como verdade absoluta, quase sagrada no meio acadêmico, não raro tem pouquíssima correspondência com a prática real nos territórios dos campi.
Não necessariamente, os melhores professores de graduação, por exemplo, serão os que tenham a chamada “formação completa”, isto é, o título de doutor - considerado habilitação para coordenar equipes de pesquisa. Não raro, constitui verdadeiro desperdício arrancar docentes vocacionados para a investigação científica, dos laboratórios para as salas-de-aula da graduação, ou mesmo para desenvolver atividades administrativas.
Continuando a mexer nessa autêntica casa-de-marimbondos acadêmica, poderíamos ainda constatar: não existe instituição de educação superior (IES) sem alunos de graduação. A IES pode não ter pesquisa institucionalizada, nem mesmo pós-graduação e nenhuma atividade de extensão, mas terá, necessariamente, que contar com estudantes em nível de graduação para ser considerada instituição de educação superior. Diferentemente, um instituto de pesquisa não precisará de alunos para justificar sua existência.
Já foi praticamente consensual definir IES de excelência como aquela onde seus professores fossem todos doutores, em regime de tempo integral e dedicação exclusiva (retide). Hoje, há unidades de excelência que optam por ter parte dos seus professores em tempo parcial, não necessariamente doutores, mas que tenham um pé no mercado de trabalho, para trazer para a sala-de-aula a realidade lá de fora. Para que possam formar profissionais sintonizados com a evolução da vida real, e que ocorre fora das cercas dos campi.
sábado, 8 de outubro de 2011
O Bolo, a Justiça e o Direito
O Bolo, a Justiça e o Direito
Por George Marmelstein Lima
Imagine que dois amigos, João e Paulo, resolvam comprar um bolo para comer depois do almoço. Antes de dividi-lo, resolvem fazer o seguinte pacto: João cortará o bolo e Paulo escolherá o primeiro pedaço. Eis um procedimento justo, pois, certamente, aquele que cortará o bolo tentará ser o mais eqüanime possível para não correr o risco de ficar com um pedaço pequeno.
Acho que ouço essa história desde os meus cinco anos de idade. Esse exemplo do bolo é didático e capaz de convencer qualquer criança sobre a essência da justiça, que foi captada por Ralws com a sua ficção do “véu da ignorância”. Mas será que é tão simples assim?
Digamos que João seja um utilitarista radical. Resolve, por conta própria, sem consultar o amigo, repartir o bolo em partes desiguais: um pedaço bem grande e outro bem pequeno. Assim que corta o bolo, João é mais rápido do que o amigo e consegue ficar com o pedaço maior. Mas ele é utilitarista e está preocupado não em satisfazer seus próprios interesses pessoais, mas sim os interesses do maior número de pessoas. Ele vê três crianças famintas que, se não comerem o bolo, certamente irão morrer de desnutrição. João não tem dúvidas e dá o pedaço grande às três crianças, deixando Paulo enfurecido.
Paulo resolve processar o amigo. Eles fizeram um pacto e o pacto foi descumprido. O direito deve castigar os comportamentos socialmente prejudiciais e premiar os comportamentos socialmente benéficos. Paulo alega que a conduta adotada por João irá minar o convício social, pois nenhuma sociedade subsiste se qualquer pessoa resolve descumprir os pactos a seu bel prazer. Dentro da ética kantiana, a conduta adotada por João jamais poderia se tornar uma lei universal, pois irá abalar a confiança entre as pessoas. João não deveria ter feito o pacto se o seu interesse era descumpri-lo, pois tal comportamento é contraditório. Paulo acha que foi traído e usado como um mero instrumento, já que sua vontade não foi respeitada.
João, por sua vez, alegou que nada mais fez do que ajudar três crianças que estavam à beira da morte. Paulo ficou com um pedaço suficiente para saciar o seu prazer naquele momento. Por isso, João não sentiu qualquer remorso em fazer o que a sua razão utilitarista mandou: maximizar a felicidade do maior número de pessoas possíveis.
Temos aqui um conflito jurídico cujos argumentos apresentados pelas partes envolvidas são essencialmente éticos. É uma clássica disputa entre a ética deontológica (kantiana) e utilitarista (benthaniana*). O direito fornece respostas (jurídicas) para os dois lados da controvérsia. Há normas jurídicas que dizem que os pactos devem ser cumpridos e há normas jurídicas que dizem que os pactos devem cumprir uma função social e que as crianças devem ser protegidas com absoluta prioridade. Como se vê, inevitavelmente o juiz, para solucionar essa controvérsia, deverá adotar uma das duas concepções éticas antes mencionadas. O direito, por si só, não fornece uma resposta precisa e unívoca. É nesse sentido que entendo que os juristas, com freqüência, transformam ética em direito, ou seja, adotam concepções éticas para justificar suas decisões jurídicas. Se isso é certo ou errado, não sei dizer. Só sei que é inevitável. E já que é inevitável, melhor então é que os juristas passem a dominar corretamente os fundamentos dessas diversas teorias éticas.
Provavelmente, utilitaristas menos radicais, como Stuart Mill ou R. M. Hare, censurariam a conduta adotada por João. Mill, por exemplo, alegaria que aquele que pratica o mal pensando em receber algum benefício imediato para si ou para outrem “desempenha o papel de um dos piores inimigos da humanidade”. Isso poque:
“As regras morais que proíbem os seres humanos de fazer mal uns aos outros (nas quais nunca devemos esquecer-nos de incluir a interferência incorreta na liberdade uns dos outros) são mais vitais para o bem-estar humano do que quaisquer máximas, por mais importante que sejam, que apenas indiquem a melhor forma de gerir um dado setor da vida humana. (…)
É a observância destas regras morais que, só por si, preserva a paz entre os seres humanos. Se a obediência a elas não fosse a regra, e a desobediência a exceção, cada um veria em todos os outros um provável inimigo, contra o qual teria de se manter permanentemente em guarda”.
Fonte: direitosfundamentais.net
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Grande Marquinhos!
Grande Marquinhos!
Por Antonio Prata
Fonte: http://vip.abril.com.br/blogs/saideira/2010/11/02/grande-marquinhos/
Agradeço à bebida, sobretudo, pela forma como ela facilita as relações sociais. Nesses 30 dias a seco, fui a um lançamento de livro e duas festas. Descobri como é difícil, sem o auxílio glorioso de duas doses,
Fonte: http://vip.abril.com.br/blogs/saideira/2010/11/02/grande-marquinhos/
Agradeço à bebida, sobretudo, pela forma como ela facilita as relações sociais. Nesses 30 dias a seco, fui a um lançamento de livro e duas festas. Descobri como é difícil, sem o auxílio glorioso de duas doses,
estabelecer uma conversa minimamente sustentável com gente com quem você não tem intimidade.
Interagir socialmente sem álcool é como acender a churrasqueira sem álcool: o papo não pega, você tem que ficar assoprando e abanando a brasa, para ver se a coisa esquenta. Não esquenta. E por quê?
Porque a lucidez é maligna. Sóbrio, você tem o tempo todo a consciência de que aquela conversa é só fachada, de que nem você nem a pessoa diante de si têm interesse em saber nada um do outro, de que só estão perguntando como está o trabalho e se têm visto a Juliana ou o Marquinhos (Marquinhos? Você não se lembra de nenhum Marquinhos?) porque estudaram juntos em 1993 ou calharam de
estar na mesma praia, em Ubatuba, em algum réveillon do século 20. E o que o álcool faz, na conversa?
O mesmo que no carvão: cria chama sem calor, produz interesse genuíno onde, em sua ausência, haveria descaso. O cara te explica que se formou em veterinária e trabalha com zebu, em Uberlândia, você diz, ?Zebu, genial!?, e começa a fazer perguntas. Quando vê, estão conversando animadamente sobre a corcova do boi, e você fica felicíssimo ao descobrir que é dali que vem o cupim, e que a carne chama cupim porque o calombo parece um cupinzeiro. Dez minutos depois, está convencido de que o sujeito é uma pessoa maravilhosa, que vocês têm que se ver mais, talvez até realugar a casa de Ubatuba para o próximo réveillon. Vocês trocam telefones e e-mails, dizem que se verão novamente em breve, e farão um cupim com manteiga, no alumínio, ou uma paleta de cordeiro. Você fala para ele chamar a Juliana, ele diz que levará também o Marquinhos, que ficará feliz em saber do encontro.
(Quem diabos será o Marquinhos, meu Deus?!)
É claro que nada disso acontecerá. Toda aquela animação só existiu porque estavam meio bêbados, mas e daí? Pelo menos se divertiram, durante cinco ou dez minutos, batendo um papo numa varanda ou
É claro que nada disso acontecerá. Toda aquela animação só existiu porque estavam meio bêbados, mas e daí? Pelo menos se divertiram, durante cinco ou dez minutos, batendo um papo numa varanda ou
na fila do banheiro. No final, a vida é isso: talvez haja meia dúzia de momentos retumbantes, um pódio, os braços de algumas mulheres, uns aplausos, mas 99% do tempo você estará numa varanda ou na fila do
banheiro, conversando com alguém com quem não escolheu conversar. Se não soubermos extrair graça desses momentos, vamos do berço ao túmulo de saco-cheio.
Nesta altura do texto, ouço uma voz distante. Não sei se é minha mãe, minha mulher, meu psicanalista ou a Organização Mundial da Saúde: ?Mas precisa necessariamente de álcool para se divertir??. Coço a cabeça.
Deve haver pessoas que se sentem absolutamente confortáveis em seus próprios corpos, todo o tempo, e são capazes de falar sobre zebus e se despir diante de desconhecidas sem nenhuma ajuda do etanol. Dalai
Lama talvez consiga. Sr. Myiagi, quem sabe? Eu não. Eu preciso das duas doses dessa substância que algum ancestral iluminado inventou, num momento de lucidez ? talvez seu último ?, ao fermentar trigo, batata, uva, mandioca ou o que estivesse à mão e, num ato de indômita curiosidade, beber o líquido resultante.
Claro, é bom ter sempre em mente a lição adaptada da sacola da padaria: beber bem para beber sempre. (Por ?bem?, entenda: com parcimônia.) Por isso, um mês a seco. Por isso, algumas noites por semana, em
casa, só na Coca light, assistindo a um seriado ou lendo um livro. Para que aos 78 eu ainda possa falar empolgado, numa varanda ou na fila do banheiro: Zebu, genial! e mande abraço para o Marquinhos, grande Marquinhos!, quem quer que ele seja.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Soneto do Abraço
Soneto do Abraço
Rodolfo Pamplona Filho
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quarta-feira, 5 de outubro de 2011
O marceneiro e as ferramentas
O marceneiro e as ferramentas
Contam que, em uma marcenaria houve uma estranha assembléia. Foi uma reunião onde as ferramentas juntaram-se para acertar suas diferenças.
Um martelo estava exercendo a presidência, mas os participantes exigiram que ele renunciasse.
A causa?
Fazia demasiado barulho e além do mais, passava todo tempo golpeando.
O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, alegando que ele dava muitas voltas para conseguir algo.
Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez pediu a expulsão da lixa.
Disse que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos. A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse o metro, que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fosse o único perfeito.
Nesse momento entrou o marceneiro, juntou todos e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, o metro, o parafuso... E a rústica madeira se converteu em belos móveis.
Quando o marceneiro foi embora, as ferramentas voltaram à discussão. Mas o serrote adiantou-se e disse:
– Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o marceneiro trabalha com nossas qualidades, ressaltando nossos pontos valiosos. Portanto, em vez de pensar em nossas fraquezas, devemos nos concentrar em nossos pontos fortes.
Então, a assembléia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limpar e afinar asperezas, e o metro era preciso e exato. Sentiram-se como uma equipe, capaz de produzir com qualidade, e uma grande alegria tomou conta de todos pela oportunidade de trabalharem juntos.
O mesmo ocorre com os seres humanos.
Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa e negativa.
Ao contrário, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas humanas. É fácil encontrar defeitos... Qualquer um pode faze-lo! Mas encontrar qualidades?
Isto é para os sábios !
Um martelo estava exercendo a presidência, mas os participantes exigiram que ele renunciasse.
A causa?
Fazia demasiado barulho e além do mais, passava todo tempo golpeando.
O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, alegando que ele dava muitas voltas para conseguir algo.
Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez pediu a expulsão da lixa.
Disse que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos. A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse o metro, que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fosse o único perfeito.
Nesse momento entrou o marceneiro, juntou todos e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, o metro, o parafuso... E a rústica madeira se converteu em belos móveis.
Quando o marceneiro foi embora, as ferramentas voltaram à discussão. Mas o serrote adiantou-se e disse:
– Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o marceneiro trabalha com nossas qualidades, ressaltando nossos pontos valiosos. Portanto, em vez de pensar em nossas fraquezas, devemos nos concentrar em nossos pontos fortes.
Então, a assembléia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limpar e afinar asperezas, e o metro era preciso e exato. Sentiram-se como uma equipe, capaz de produzir com qualidade, e uma grande alegria tomou conta de todos pela oportunidade de trabalharem juntos.
O mesmo ocorre com os seres humanos.
Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa e negativa.
Ao contrário, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas humanas. É fácil encontrar defeitos... Qualquer um pode faze-lo! Mas encontrar qualidades?
Isto é para os sábios !
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Cruz na planície
Tentava me lembrar do motivo pelo qual eu estava ali. À minha volta, a planície a se perder de vista, furtando do sol raios escorregadores nas flores de capim, para pintar o chão ora de lilás, ora de dourado, ora de cor não sabida, tamanha a profusão. Lá e cá, alguma árvore se erguia escoteira e, se eram poucas, dispersas e longínquas, ausentes eram os humanos, ou vestígios deles, posto que, ao que parecia, somente a minha sombra dava sinal de algum, ou seja, eu mesmo.
Eu girava o corpo, aguçava a visão e nada. De onde eu teria vindo? Por que estava naquele lugar amplo e deserto de gente? Parecia que o mundo abrira ali uma lacuna, um mar de terra. No céu, nada. Sol e azul. Nem nuvem.
A minha língua colada aos dentes, preguiçosa de se fazer soltar. A sede de quem chega à sede do inferno. Eu arrastava os pés, com o esforço dos grilhões.
O tempo passou, passou e eu vi alguma coisa a divergir da paisagem sonolenta. Plantada no meio do nada estava a cruz. De longe, parecia ser pequena, uma cruzinha de cemitério. Talvez alguém tivesse morrido por ali e outro passante lhe houvesse feito a sepultura, plantando a cruz sem lápide. Mas era um sinal dos humanos, de civilização, e isso me animou. Mudei o rumo, se é que tinha algum. Firmei o olhar na pequena e longínqua cruz e caminhei naquela direção.
A ânsia da curiosidade me fazia querer chegar logo ao fúnebre sinal. Quem sabe lá perto houvesse algum indício capaz de iluminar o meu caminho e me tirar da desolação. A conclusão não poderia ser mais lógica, porque, se alguém morreu e outro enterrou, ao menos duas pessoas passaram por lá e, por consequência, alguma saída existia. O caminho da salvação.
Apertei o passo, embora as pernas cansadas, que davam a impressão de acorrentadas, não respondessem corretamente à vontade. Quase me arrastava e o mato rasteiro se enredava nos meus sapatos, dificultando o que já era árduo. Mesmo assim, trôpego, segui na direção da cruz. Caminhei, caminhei, caminhei... Não sei se foram horas, minutos ou mesmo dias, mas eu me aproximava da cruz e, conforme mais me achegava, ela ficava maior, muito maior do que mera cruz de cova imaginada, porque parecia mesmo de verdade, daquelas dos suplícios, das crucificações. E, forçando bem os olhos, enrugando a testa com força, percebi que algo estava pregado a ela. Um corpo? A ideia me fez tremer e a minha boca seca e rachada se encheu de saliva refrescante. Um inesperado bálsamo. Nem a água da mais pura fonte teria o sabor do líquido que se apresentou para matar a minha sede. Saciado assim, apertei o passo com renovada energia.
Passados alguns minutos de caminhada, agora firme, pude divisar com certeza: havia um corpo crucificado! Corri pelo campo com desabalada fúria e pude ver se tratar de um homem. Ao chegar ao pé da cruz, com o coração batendo desenfreado e a visão quase embaçada pelo suor, constatei que ele vivia. Não era um rapaz, mas também não era um homem maduro. Quase jovem, digamos. Cabeleira de cantor de rock, mas com estranho acessório em volta da testa, talvez um lenço ou uma tira. A altura da cruz era incrível e, apesar de todo o nervosismo, tentei imaginar como fora fixada, se por perto não havia pedra, elevação, árvore ou o que servisse de suporte. Súbito a cabeça do homem se moveu para o meu lado e eu vi o seu peito arfar. Gritei. Ele disse coisas em uma língua desconhecida por mim. Tentei lhe fazer gestos, em estúpida tentativa de me comunicar, pois ele não poderia retribuir. Não estava amarrado, mas preso por enormes cravos, daqueles usados em ferrovias para fixar dormentes, traspassados em cada uma das mãos e nos pés sobrepostos. Em pânico, gritei inutilmente por socorro. Tentei arrancar a cruz do chão, mas era firme. Não havia como eu chegar ao homem, que continuava a dizer coisas ininteligíveis. Empurrei a firmeza da cruz com as forças que possuía e ela não se moveu um só milímetro. Atirei-me contra ela com o ombro e de nada serviu, a não ser para que eu sentisse forte dor. O sol inclemente. Poderia ao menos chover, para aliviar o que o meu desafortunado companheiro devia sentir, pensei. Revistei o céu em todas as direções. Não havia sinal de nuvem, só o azul impecável e o vento nenhum. No chão, apenas o capim, nem um pedaço de pau com o qual eu pudesse fazer uma alavanca, a fim de tentar emborcar o objeto de tortura e morte e, talvez, tirar o homem da terrível situação.
Forçado pelo cansaço e pela impotência, ajoelhei-me ao pé da cruz, postei as mãos para sustentar o queixo e poder lançar o olhar mais alto, na direção do homem. Ele trajava calça de sarja e uma camisa esfarrapada, toda a roupa manchada de sangue. Tentei calcular a altura do madeiro vertical e concluí que, entre o solo e o homem, havia por volta de uns trinta metros. Estranha cruz, comprida embaixo e curta na parte superior. Quem quer que tenha feito aquilo ao pobre agonizante pensou na improvável hipótese de aparecer alguém naquele lugar deserto. E eu ali de joelhos, sem qualquer possibilidade de ajudar o necessitado. Rouco de gritar por socorro e sem condições de dizer algum conforto, pois o idioma que o homem falava era outro, nada podia fazer a não ser assistir à sua triste morte.
Repentinamente, fui invadido por sensação de força descomunal. Levantei-me, fui ao encontro da cruz e iniciei a escalada. A madeira escorregadia. Sem soltar os braços, livrei-me dos sapatos, mantendo as pernas cruzadas e esfregando os pés um no outro. Com isso, melhorou a minha condição e aos poucos ganhei altura. Aproximava-me do crucificado, embora não soubesse ao certo o que faria quando pudesse alcançá-lo. Do alto, olhei ao redor e confirmei que, como pensava, nada havia, a não ser a campina sem fim. Era como se fosse um mar de capim. Ao longe, muito ao longe, uma árvore ou outra. Uma gota de sangue do homem pingou em meu rosto. Os seus pés estavam quase ao meu alcance. Animei-me. A cruel e forte cruz não oscilava nem com os nossos pesos somados.
Finalmente, pude tocar os pés do pobre homem. Um calor estranho. Não sabia mais o que fazer. Escalei cruz e pessoa. Dois homens abraçados nas alturas. Ele me disse alguma coisa na língua estrangeira. Eu retruquei, a lhe perguntar sobre o que deveria fazer, por ser a minha única preocupação no momento. Pensei que, se eu arrancasse os cravos, cairíamos ambos do alto do colosso e de nada valeria tanta luta. Se eu lhe soltasse um dos braços, não só cairíamos, como ele teria rasgados os pés e a outra mão. Assim ficamos: cara a cara, sangue a sangue, sorte a sorte.
Imaginava-me abraçado com força no corpo e no madeiro, mas percebi ser isso impossível, porquanto a circunferência dos meus braços não seria tanta. Estranhamente, eu não caía. Prendia-me no abraço ao crucificado. Era como se eu tivesse perdido o peso ou a força da gravidade se anulasse. Um sentimento confortante, superior à felicidade. Assim ficaria para sempre. Unia-me ao crucificado pelo amor ao próximo. Estaria com ele para o que viesse. Juntos, irmanados, solidários...
E do céu veio o facho de luz azulada...
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Futuro do Pretérito
Futuro do Pretérito
Rodolfo Pamplona Filho
|
Salvador, 19 de maio de 2011.
domingo, 2 de outubro de 2011
Fardo
Fardo
Malu Casado
Depois de tantos anos,
ainda ouço as palavras:
enfado, saco, porre...
Gritando em meus ouvidos
como tambores.
Transfiro a tristeza, a raiva
para o meu corpo,
que me corta, engorda...
Não me olha:
delira...
Acha que verá um monstro!
Tenho palavras.
Nada é mais rico,
mais triste,
mais forte,
mais bonito,
e irritante,
que as palavras...
E eu as temo
mas teimo e tolero
com tédio...
Eu, meu próprio fardo!
É urgente uma reação!
Uma posição de vítima
não combina mais
e, como sei,
aparece o incômodo
e a impaciência...
O corpo e a mente pedem
providência.
Eu?
Impaciento-me com a covardia,
com a paralisia...
Queria, ao menos, não ser
fardo, não pesar...
sábado, 1 de outubro de 2011
Los Amorosos.
Los amorosos callan.
El amor es el silencio más fino,
el más tembloroso, el más insoportable.
Los amorosos buscan,
los amorosos son los que abandonan,
son los que cambian, los que olvidan.
Su corazón les dice que nunca han de encontrar,
no encuentran, buscan.
Los amorosos andan como locos
porque están solos, solos, solos,
entregándose, dándose a cada rato,
llorando porque no salvan al amor.
Les preocupa el amor. Los amorosos
viven al día, no pueden hacer más, no saben.
Siempre se estan yendo,
siempre, hacia alguna parte.
Esperan,
no esperan nada, pero esperan.
Saben que nunca han de encontrar.
El amor es la prórroga perpetua,
siempre el paso siguiente, el otro, el otro.
Los amorosos son los insaciables,
los que siempre- ¡ que bueno !- han de estar solos.
Los amorosos son la hidra del cuento.
Tienen serpientes en lugar de brazos.
Las venas del cuello se les hinchan
también como serpientes para asfixiarlos.
Los amorosos no pueden dormir
porque si se duermen se los comen los gusanos.
En la obscuridad abren los ojos
y les cae en ellos el espanto.
Encuentran alacranes bajo la sábana
y su cama flota como sobre un lago.
Los amorosos son locos, sólo locos,
sin Dios y sin diablo.
Los amorosos salen de sus cuevas
temblorosos, hambrientos,
a cazar fantasmas.
Se ríen de las gentes que lo saben todo,
de las que aman a perpetuidad, verídicamente,
de las que creen en el amor como una lámpara de inagotable aceite.
Los amorosos juegan a coger el agua,
a tatuar el humo, a no irse.
Juegan el largo, el triste juego del amor.
Nadie ha de resignarse.
Dicen que nadie ha de resignarse.
Los amorosos se avergüenzan de toda conformación.
Vacíos, pero vacíos de una a otra costilla,
la muerte les fermenta detrás de los ojos,
y ellos caminan, lloran hasta la madrugada
en que trenes y gallos se despiden dolorosamente.
Les llega a veces un olor a tierra recién nacida,
a mujeres que duermen con la mano en el sexo, complacidas,
a arroyos de agua tierna y a cocinas.
Los amorosos se ponen a cantar entre labios
una canción no aprendida,
y se van llorando, llorando,
la hermosa vida.
Jaime Sabines.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Anestesia
Anestesia
Rodolfo Pamplona Filho
|
Salvador, 15 de maio de 2011.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Parabéns ao Prof. Geovane Peixoto
Parabéns por ser você
Temos que reconhecer
O profissionalismo deste ser
As boas críticas que faz
Não apenas a maneira de ensinar
Sempre a nos admirar
Mas também a vontade de nos alertar
Para que, nesse universo que virá
Saibamos a forma correta de estudar
E assim, o que de errado há, possamos mudar
Este professor nos motiva
A conquistar o MUNDO
Inspirando o que há de melhor
Em nós mesmos
Agradecemos pelas aulas
Pelo conhecimento muito bem transmitido
Porém, não apenas por isso
Nós agradecemos, também, pela oportunidade que tivemos
De aprender e conviver
Com um dos melhores mestres
Dentre aqueles que tivemos e que teremos
Em nossa vida profissional
Parabéns, professor Geovanne!
Ass.
Equipe Jus Ninjas 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Mãe... (por Mário Quintana)
Mãe...são três letras apenas,
As desse nome bendito,
Também o céu tem três letras
E nelas cabe o infinito...
Para louvar a nossa mãe
Todo bem que se disser,
Nunca há de ser tão grande como o bem que ela nos quer.
Palavra tão pequenina bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do céu
E apenas menor do que Deus! (Mário Quintana)
terça-feira, 27 de setembro de 2011
A JANELA DA SUA ALMA
Letra e Música: Rodrigo Andrade Almeida
(21 a 25 de dezembro de 2008)
Intro.: |C9 |Em7/B |Am7| D| D|
G7+ G7+(9)
Seu olhar
C9 Em7/B Am D G7+ G7+(9)
É mais belo que a maior beleza que há na Terra
C9 Em7/B Am D G7+ Bm7
Como uma gota de orvalho repousando sobre a pétala
C9 D
Numa manhã de primavera
G7+ G7+(9)
Seu olhar
C9 Em7/B Am D G7+ G7+(9)
É o mistério mais profundo que há e já houve neste mundo
C9 Em7/B Am D G7+ Bm7
Infinito como o instante que não dura um segundo
C9 D
Quando você olha pra mim
Em7/B Am7
Quero mergulhar no seu olhar
Em7/B Am7
Quero me entregar ao seu olhar
Em7/B Am7
Quero me perder no seu olhar
C9 D
Até você me encontrar
G7+ G7+(9)
Seu olhar
C9 Em7/B Am D G7+ G7+(9)
Tem a força da maior potência do planeta
C9 Em7/B Am D G7+ Bm7
Tão intenso quanto a escolha certa logo que é feita
C9 D
Como eu escolhi me entregar para você
G7+ G7+(9)
Seu olhar
C9 Em7/B Am D G7+ G7+(9)
É tão puro e sincero como se fosse criança
C9 Em7/B Am D G7+ Bm7
Como a lágrima que escorre logo após uma lembrança
C9 D
Puro e certo como o que sinto por você |REFRÃO|
Bm7 C9
Seu olhar é infinito
G7+
É meu herói e meu bandido
Am7
Meu alento e meu castigo
Bm7 C9
Seu olhar é proibido
G7+
É inimigo e meu amigo
Am7
A segurança e o perigo
Am7 C9 D Ebo
Seu olhar é a janela da minha alma |REFRÃO (2x)|
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