domingo, 12 de março de 2023

O Depósito

 


Clivia Filgueiras


Do contrato sou um tipo

Me assento na confiança plena

Referente a custódia ou guarda de coisa alheia

Pode ser ela grande ou pequena.


Duas pessoas de mim fazem parte

Uma entrega e a outra guarda o montante

Há uma relação de confiança

Entre o depositário e o depositante.


Quando entrego a coisa

Espero deveras a restituição – sigo confiante...

Se na ocasião ajustada dela não me fizer novamente dono

Uma Ação de Depósito proponho

Afinal, sou o depositante!


Eu recebo a coisa

Restituí-la-ei conforme o ajustado

Não sou o seu dono

Apenas depositário!


Como depositário tenho algumas obrigações:

Guardo a coisa alheia recebida mas dela não posso me servir...

Respondo por dolo ou culpa se a coisa perecer...

Ao depositante sou obrigado a restituir.


Se da coisa me apossar sem autorização

Receberei a devida sanção

O juiz decretará uma pena

Irei parar na prisão.


Como depositante as minhas obrigações vão além

Remunero quando sou oneroso

Mas posso ser gratuito também!


Posso também ter obrigações de fato real:

Reembolsar as despesas de meu interesse

Indenizar os prejuízos de vício real.


Contrato Irregular também posso ser

Posso usar e dispor da coisa depositada...

Restituir coisa de igual valor e quantidade...

Devolver não exatamente a que me foi confiada.


Posso ser Necessário, Legal, Hospedeiro ou Miserável

Os três primeiros com fundamento ou exigência legal

O último quando em guerra...terremoto e coisa e tal.


Para concluir:

Antes da coisa entregar

É preciso no depositário confiar

Pois sou baseado numa relação de boa-fé

De Depósito devem me chamar.





sábado, 11 de março de 2023

Amor de Pandemia

 



Rodolfo Pamplona Filho


A pandemia maltratou

e fez ruir

castelos e sonhos

mas fez surgir

amores escondidos

no meio do isolamento

e falta de contato pessoal.

Será que o universo

encontrará novo alento?

Ou é esperança vazia

sonhar em reviver

um amor de pandemia?

 

Salvador, 18 de dezembro de 2022

sexta-feira, 10 de março de 2023

Crime poético

 


Fabiano Oliveira


Quais os elementos do crime?

Típicos são os versos do poeta,

Por transcrever sua ilicitude emotiva,

Tornando por isto culpável,

Aos olhos alheios?...


Por tanto assim ele deve buscar seu excludente,

Defendendo sua inspiração,

Tendo como arma do delito,

Papel e caneta...


Deve suprir a necessidade,

Que eclode de seu âmago,

Ainda que o mundo desaprove,

A artística faceta...


O cumprimento do dever legal,

Exercendo seu direito de expressão,

Ainda que aparentemente seja tido como imoral,

Pela opinião alheia estreita...


Diante de tantas críticas a arte jurídica,

Proferidas tantas condenações em sentenças subtendidas,

Poetar é um ato punitivo,

E só resta ao estudante da lei altivo,

Buscar o êxito bom e justo...


... na contenda.

 24/06/2011

quinta-feira, 9 de março de 2023

Dificuldades de Cognição


 


Rodolfo Pamplona Filho


Não é atenção

Não é comunicação

Não é proposital

Não é baixo astral

Não é de propósito

Não é despropósito

Não é revolução

é mesmo Dificuldade de Cognição

 

Salvador, 08 de dezembro de 2022.


quarta-feira, 8 de março de 2023

Escolhas

 



Malu Calado


Escolhas ruins...

Consequências

A dor pode surgir

Responsabilize- se

Então

Olhe o mundo de outra maneira

Tentando afastar- se da repetição.

Dê um tempo

Olhe o mar

Acalme-se

E saiba construir-se

Observe quem é você

E tome as suas decisões

Sabendo que tudo depende

Da sua escolha

Já é hora de para de culpar o mundo

Transforme o seu mundo

E logo verá que uma alma bonita

Fará escolhas...

Mas sem causar dor para si

Tampouco para o outro.






terça-feira, 7 de março de 2023

Coisar

 




 Rodolfo Pamplona Filho


Coisa as coisas

para não deixar de coisar

o que precisa ser coisado.

 

Oceano Atlântico, 12 de janeiro de 2023.


segunda-feira, 6 de março de 2023

Valentina

 


Ney Pimenta


Valentina acordou cedo, o que não era qualquer novidade. Diferente era aquela sensação de angústia. Levou um tempo para compreender e, só depois do café reforçado que fez para Valteir é que se deu conta... Nove meses. "Dava um filho", pensou. Estava sem receber seu salário há tanto tempo que já se acostumara. Mas naquele dia, não. Pensou no marido, se esforçando nas vendas da concessionária, pensou no casal de filhos cujas roupas começavam a puir pela falta de novas e resolveu que ia tomar uma atitude, Ah! se não ia! Era o fim e ela tinha cabelo nas ventas. Não deixava nada barato. 


Correu para a escola em que trabalhava e começou a conversar com todos. Tinham de fazer algo. 


Ao longe, alguém a observava sem que ela percebesse. Meia hora depois, um milico todo engalanado entrou e acabou com tudo... "olhem, moças, vocês vão ter que parar com essa reunião, senão, infelizmente, vou ter que prender todo mundo". Ficou com raiva. Olhou fundo nos olhos dele, mas enxergou, como sempre, mais longe na alma do sujeito. Fazia o que lhe mandavam, não era por vontade própria...


Se apiedou do homem. 


E foi lutar em outra frente.





domingo, 5 de março de 2023

O Melhor Amigo

 




Rodolfo Pamplona Filho


O melhor amigo

que a vida me proporcionou

não foi um ilustre doutor,

nem um circunspecto senhor.

 

O melhor amigo

que o tempo me mostrou

não foi um romântico amor,

nem algum colega de voo.

 

O melhor amigo

que o sofrimento me revelou

não foi um padre ou pastor,

nem um médico salvador.

 

O melhor amigo

que a vida me deu

foi o único que sempre me entendeu,

aquele que nunca esmoreceu,

a verdadeira força do coração,

o meu cachorro Tchuchucão.

 

Salvador, 11 de janeiro de 2023.


sábado, 4 de março de 2023

Poesia e vida

 



Vinicius de Moraes



A lua projetava o seu perfil azul

Sobre os velhos arabescos das flores calmas

A pequena varanda era como o ninho futuro

E as ramadas escorriam gotas que não havia.

Na rua ignorada anjos brincavam de roda…

- Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.

Só os perfumes teciam a renda da tristeza

Porque as corolas eram alegres como frutos

E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

Eu me pus a sonhar o poema da hora.

E, talvez ao olhar meu rosto exasperado

Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga

Talvez ao pressentir na carne misteriosa

A germinação estranha do meu indizível apelo

Ouvi bruscamente a claridade do teu riso

Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.

E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite

Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos

Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo

E se escorrer sobre os teus lábios como um suco

E marulhar entre os teus seios como uma onda

Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias

De que me tivesses possuído antes do amor.


sexta-feira, 3 de março de 2023

Santa Ceia

 




Comunhão é comer junto

Companheiro é quem

compartilha o pão

A mais linda missão

de toda a humanidade

é aprender a viver

a solidariedade!

E não há espaço melhor

para tratar o próximo como irmão

do que, no dividir a mesa,

em uma refeição,

na plenitude da certeza

de que o amor é a solução.

 

Salvador, 10 de janeiro de 2023.


quinta-feira, 2 de março de 2023

Lágrimas de gás

 




Jairo Vianna Ramos



Quando saí da Candelária, ao meio daqueles milhares de gente, eu não a havia notado. Nem sabia muito bem por que e o quê se protestava. Eu nunca apanho ônibus, moro no centro, perto do trabalho, e raramente saio das imediações. Quando o faço, pego um táxi. Mas havia uma gota d'água inexplicavelmente derramada na minha cabeça. Eu protestava contra a mentira. Deveria ser crime hediondo mentir, com reserva para ficcionistas, poetas, letristas e toda essa gente criativa, mentirosos do bem e do belo. Havia uma flagrante dissonância nos cartazes, faixas e dizeres à minha volta. Uma dissonância harmônica, contudo. Maldisse a falta de ideia de escrever um cartaz de "abaixo a mentira", ou mesmo "criminalizem a mentira". Segui a passeata gritando meu slogan inutilmente, decerto, porque outras muitas reivindicações eram feitas por grupos de forma mais contundente.

Entramos na Avenida Rio Branco, a grande reta, palco de muitos carnavais e protestos. Ali se deu, em 1968, em plena ditadura militar, nos anos de chumbo, uma passeata de cem mil pessoas. No ar daquele junho distante, o cheiro da morte de Edson Luiz, o estudante do calabouço. Agora, as balas são de borracha, pensei um pouco aliviado, ao menos por enquanto são diferentes do chumbo da época do meu pai. Passávamos pela esquina da Rua da Alfândega quando a avistei. Uma moça comum, vestida de camiseta com o logotipo da campanha do combate ao câncer de mama, calça jeans e tênis. Cabelos cortados na altura do início dos ombros. Ela dizia palavras de ordem e para isso cultivava duas rugas na testa, que pareciam acompanhar o desenho do nariz. Marcavam-se covinhas em suas bochechas. Achei-a magra. Mas no todo era bonita, embora longe dos estereótipos da modelo ou da gostosa. Irradiava uma energia que eu sentia naquela distância, a de um passo lateral, se muito. Pisávamos o asfalto. Por um momento, eu me esqueci do motivo da minha participação naquilo tudo, porque só pensava nela e, logo depois, era como se só ela existisse. Os milhares de manifestantes se desvaneceram. Passamos pela esquina da Rua do Rosário e depois a da Rua do Ouvidor, e eu surdo. Pensei que seria um péssimo ouvidor. Toda atenção à moça das rugas e covinhas. Ao passarmos pela Rua São José, ali perto da Praça Mario Lago, pensei no grande artista e me convenci de que ele estaria conosco, se vivo fosse. Mas também pensei no amor e olhei para a moça, e lhe segurei a mão. Ela me olhou assustada por um instante, mas logo sorriu com sumiço das rugas e aumento das covinhas. E nossas mãos ficaram coladas por alguma energia somente explicável na poesia. Chegamos à Cinelândia. Ocorreu um não se sabe o quê. O movimento agora estático. Qual seria o próximo passo? Cantavam-se músicas e gritavam-se palavras de ordem. Nossas mãos unidas. Nem sei quanto tempo ficamos assim, de mãos dadas e olhares perdidos. Súbito o estrondo. Outro. A fumaça. Apertei a mão da moça com mais vigor. Ela se virou e nos beijamos. Na bruma, o beijo infindável. Sugávamos a ternura e chorávamos lágrimas de gás.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Crise no Cruzeiro

 


Rodolfo Pamplona Filho


Onde se espera romance,

acha-se outro lance

Quando se espera curtir,

só se faz discutir

Quem consegue se estressar

no momento de relaxar

só acha razão

em sua convicção.

Quem consegue brigar

no meio do mar

vai a paz encontrar

em nenhum lugar.

 

Oceano Atlântico, 11 de janeiro de 2023.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Cor-respondência

 



Elisa Lucinda



Remeta-me os dedos

em vez de cartas de amor

que nunca escreves

que nunca recebo.

Passeiam em mim estas tardes

que parecem repetir

o amor bem feito

que você tinha mania de fazer comigo.

Não sei amigo

se era o seu jeito

ou de propósito

mas era bom, sempre bom

e assanhava as tardes.

Refaça o verso

que mantinha sempre tesa

a minha rima

firme

confirme

o ardor dessas jorradas

de versos que nos bolinaram os dois

a dois.

Pense em mim

e me visite no correio

de pombos onde a gente se confunde

Repito:

Se meta na minha vida

outra vez meta

Remeta.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Serviço Mal Feito

 



Rodolfo Pamplona Filho


Cabo desencaixado

Trabalho sujo

Peças faltando

Garantias vazias

Parafusos soltos

Pregos frouxos

Informação incompleta

Serviço Mal Feito


Orlando, 27 de janeiro de 2017  

domingo, 26 de fevereiro de 2023

O Amor Antigo

 



Carlos Drummond de Andrade 


O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige, nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.


O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a natureza.


Se em toda parte o tempo desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

o antigo amor, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.


Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Crepúsculo

 



Rodolfo Pamplona Filho


Nunca esqueci:

o sol se pondo aqui

e meu coração

sentindo frio

só porque não vê...

Mas tudo tem resposta,

pois, de repente, volta

o meu corpo a aquecer:

basta pensar em você.


Praia do Forte, 24 de fevereiro de 2017.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Rapte-me Camaleoa

 



Caetano Veloso 


Rapte-me camaleoa

Adapte-me a uma cama boa

Capte-me uma mensagem à-toa

De um quasar pulsando lower

Interestelar canoa

Leitos perfeitos

Seus peitos direitos me olham assim

Fino menino me inclino pro lado do sim


Rapte-me, adapte-me, capte-me

It's up to me

Coração

Ser, querer ser, merecer ser um camaleão

Rapte-me camaleoa

Adapte-me ao seu

Ne me quitte pas

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Quero Dormir

 



Rodolfo Pamplona Filho 


Quero Dormir

Ainda que isso signifique

a perda de uma chance

ou de uma noite.


Quero Dormir

Mesmo que isso importe

no fim de um momento

ou de um relacionamento.


Quero Dormir

Pois meu sono é mais importante

do que a sede de viver

ou chance de amar.


Quero Dormir

Nada mais me importa

senão o prazer indizível

de estar só em meu colchão.


Praia do Forte, 28 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Haicai

 





Neusa Peçanha


      Começa a ventar:

      o velho apanha o casaco,

      o menino, a pipa.



         O bonde da praça,

         entre balanços vadios,

         é brinquedo triste.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Mulher Ideal

 



Rodolfo Pamplona Filho


O que é uma mulher ideal?

Definitivamente, não é

alguém que não envelhece,

mas, sim, alguém para quem

o tempo não afeta o humor...

Não é alguém sem defeitos,

mas que aprende a sublimá-los

ou que acostumamos com eles...

E, ainda que brigue de vez em quando,

faça as pazes de forma tão gostosa,

que apague qualquer ressentimento...

Não precisa concordar com tudo,

mas tenha uma sintonia tal,

que saiba seu pensamento

antes de verbalizá-lo...

Esta é a minha mulher ideal!


Atenas, 29 de setembro de 2012.