sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O Pequeno Guerreiro

 Jairo Vianna Ramos


As patas dos cavalos pareciam arrancar fumaça do chão. Um gigantesco guerreiro cavalgava com destreza seguido por outros cavaleiros fortemente armados. Os pastores corriam com as ovelhas a procura de abrigo.

Aonde iriam os soldados com tanta pressa e raiva? A quem atacariam? Era evidente o eclodir da guerra. Os pastores não eram os inimigos, pois  já se punham salvos.

Eu olhava com insistência a grande campina, mas não via traço do possível adversário do exército do colosso. Mais ao norte, havia um castelo abandonado, ou ao menos assim parecia. Suas torres estavam derretidas, em parte. Era estranho o descuido em que se encontrava a  edificação tão importante. Em volta havia um bosque cujas árvores não tinham folhas e por algum tempo pensei que ali estariam os antagonistas, mas logo desisti da ideia, haja vista a ausência de sombras necessárias ao esconderijo. Os pobres troncos sozinhos eram incapazes de esconder um homem sequer.
O imenso guerreiro levava a horda ao noroeste. O ruído dos tropéis ensurdecedores quase dilacerava os meus tímpanos.

O gigante guerreiro trazia na cabeça um insólito capacete encimado com uma ponta de espada. Imaginei se cabeceasse algum desafeto. Pensei se a lâmina atravessasse o meu corpo e me contraí. Suei e senti a dor na suposição da violenta batalha por vir.

Forcei a vista ao noroeste. A campina continuava vazia pelos lados de lá. Nada de inimigos. Apenas o grande guerreiro e seus seguidores galopavam em linha reta naquele rumo.
O casal de pássaros chegou ao ninho para alimentar os filhotes. Ainda bem — pensei. Sempre ficava preocupado que acontecesse algo com os pais. Quem tomaria conta dos pequenos? Eu os alimentaria, talvez.  Mas um dia, eles precisariam aprender a voar. Não saberia ensinar-lhes isso. Mas agora me afligia o fato de o ninho ficar tão próximo à campina onde, eu sabia, travar-se-ia a brutal contenda. Era meu dever cuidar dos pássaros. Tornei-me guardião voluntário dos filhotes e não podia deixá-los em momento tão grave.

Os adultos piavam sem cessar, arrepiavam as penas do alto das cabeças e em volta dos pescoços. Talvez previssem o perigo.

Um repentino calor insuportável promovia uma lufada de ar quente que trazia o incrível cheiro de sangue ainda não derramado, como se antecipasse o futuro. Abri os braços na insana pretensão de assustar os bravios guerreiros.

 Olhei novamente a noroeste e, agora sim, vi o outro exército que despontava no horizonte. E enquanto o esquadrão do gigante vestia armaduras e malhas cinzentas, o outro trajava roupas coloridas e alegres, algo estranho para soldados cuja missão, ao menos na teoria, seria assombrar, enfrentar e destruir os oponentes.

Lamento dizer que me esqueci dos pássaros e descumpri, assim, por um momento, o que era obrigado. Porém, como desviar a vista daquela inusitada legião de cores? Ela não vinha embalada pelos militares tambores. Tocavam-se, não sei quem, onde e como, belas e alegres valsas. Embora ainda distantes, dava para se ver que os cavalos mais pareciam belas criaturas dos carrosséis enfeitados dos parques. E a variedade harmoniosa dos matizes pintava na pradaria um jardim em movimento. Canteiro líquido que escorria pela terra. Presente do sol da tarde enviado do fim do mundo. Aurora boreal.

À frente do belo exército estava o pequeno guerreiro. Mas naquela distância não lhe distingui as feições. De viés olhei o ninho. Os pássaros adultos estavam imóveis. Os filhotes nem ousavam erguer as cabeças à procura do repasto. Enfurnaram-se, por ordem do instinto. A natureza repudiava a fereza.

Olhei de novo a planície, não mirei os lados do gigante porque meus olhos preferiam o exército da cor e da alegria e, para meu espanto, percebi, agora nitidamente: o pequeno guerreiro era eu! E mais perplexo pude ver que se vestia como eu, embora em combate medieval. Calças nos joelhos e uma camiseta azul com escritos em vermelho, em língua estrangeira, cujo significado eu não sabia, como ele também, talvez.

O vento bateu mais forte nos meus cabelos e já eram perceptíveis os hálitos dos inimigos. Os seus fedores invadiram-me. Vi as rugas de raiva nos seus rostos. Estavam muito próximos. O choque era iminente e inevitável. Levantei a espada uma vez. A música cessou. Fez-se o silêncio. Repeti o gesto e gritei, com a voz seca de arranhar garganta:

— Atacar!

Escureceu à minha volta. Um turbilhão de corpos e armas. O sangue espirrou como chuva às avessas. Gritos cortaram o ar e o som de aço no aço era incessante. O cavalo resfolegou sob o meu corpo e rodopiou para encontrar piso entre os corpos dilacerados. Na escuridão da batalha, eu vi o capacete incomum do gigante.  Tentei me aproximar dele e ele, mais ainda, ansiava o combate e veio em minha direção abrindo alas pela pugna. Onde passava deixava o rastro de arrasamento. Embora ciente da desproporção, não havia outra forma de terminar a contenda senão a queda do líder. Cabia-me enfrentá-lo. Franzi a testa para ajudar a visão ofuscada pelo sol. Fez-se um claro na planície, como se parasse a batalha e no meio do espaço criado, sem qualquer ordem ou combinação, estávamos: eu e o enorme oponente.

O gigante nem cumprimentou. Com um só gesto atirou a lança contra meu peito. Dor aguda. O sangue corou a grama da campina, misturou-lhe a púrpura, como se houvesse ainda onde se colorir.
Não entendia como eu, deitado ao chão e de braços abertos, no ofício de proteger a árvore onde estava o ninho, pudesse cair moribundo lá na campina, pois a dor predefinia o fim.

Mas o eu de lá não era o mesmo de cá.

O gigante, ciente da vitória, volveu para o lado da árvore e balançou a enorme cabeça, incrédulo. Viu outro pequeno guerreiro igual àquele que jazia à sua frente.

A determinação destruidora foi mais forte que a dúvida e o enorme homem veio em minha direção. Senti a boca secar e pensei nos pobres passarinhos no ninho.

Os segundos cresceram como horas. Eu gritei coisas que não me lembro. Vi o guerreiro e seu cavalo em franco galope se aproximava. Ele abaixou a cabeça e deixou em evidência a espada do capacete.  Fechei os olhos, pensei nos meus pais, na minha casa, nos passarinhos e chorei.

Senti um toque no ombro e ouvi, ao longe, a voz de homem.

— O que é isso, menino? Está sentindo alguma coisa? Você está bem?

Não respondi logo. Apontei para o alto e balbuciei:

— O gigante está perto. Matou muita gente e agora quer me pegar! Deixou um rastro de sangue!

O homem olhou o céu e sorriu.

— Calma! São apenas nuvens, elas às vezes tomam formas estranhas e assustadoras, depende da imaginação. E está vermelho porque o sol se põe. Vá para casa, descanse e esqueça.

Olhei a árvore e saí dali satisfeito, vivo e livre, como os passarinhos. Antes de dormir, resolveria sobre continuar ou não na missão de guardião dos pássaros da pracinha. Talvez fosse ainda muito novo para isso.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Migalhas de Carinho

Rodolfo Pamplona Filho




Eu mendigo
migalhas de seu carinho
como um cachorrinho
junto de sua mesa,
na esperança de, um dia,
encher minha barriga vazia
e meu coração sedento...

Salvador, 16 de janeiro de 2014

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Anjo Satã

Há uma mulher, de quem falam

por casas e praças,

que tem fama e fervor.

Decide se acompanha ou opõe.



Dizem de suas orações e do que manda fazer,

dos homens que a ela não se comparam.

Galardões e seminários, em arrastos e confissões,

por honra da senhora dos feitiços e bênçãos.



 Entre terras e escravos, minas e fundições,

a fortuna que tantos sondaram,

os beijos de bajulações e outros empregos.

Soube abraçar e esquivar, manter e disputar.



O padre e o banqueiro, o contratador e o governador,

quem pode os seus pedidos ignorar?

Roga a Deus em visões.

Alguma vez sorriu, se disse feliz?



Dizem os bons: é um anjo encarnado!

Seus desejos espargem amor e docilidade.

Quando jovem, encantou, com suavidade de rosa,

gentes do campo e da cidade.



Afirmam os profanos: é satã afeminado!

Sua boca reparte fel e inimizade.

Sua flor se abriu em propositada cilada

ao capitão que embarcou na conhecida emboscada.



Por conselho quebrou dificuldades e jornadas

tolamente propagadas.

Propriedade não é estima.

Respeito e admiração: busca de conquista.



Não tem qualidade o corpo reles que jaz

sem alma ativa e corada,

como não tem mérito o sentimento do filho

que por vã afronta recebe castigo.



As encomendas que se fazem

são parcas e desmerecem

a memória de tempos bruscos e mal acolhidos.

Descanso é refúgio não reservado.



O trabalho será eternizado na dor

de quem compra indulgência sem sacrifício.

A herança está consumada em fogo,

purificada de mãos sem engenho e desvalorosas.



Ditosa mulher ambígua,

que aos meus sentimentos não satisfaz,

sua morte encerrou muitas vidas

e a minha já não se compraz.





Bruno Terra Dias

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Karoshi

Rodolfo Pamplona Filho




Morte súbita
por excesso de trabalho
Consequência cruel
Ironia do destino
Quando o meio de vida
vira a via da fatalidade...

Porto de Galinhas, 08 de novembro de 2013.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Aos Presentes e Futuros Amigos



A amizade não é coisa pueril, de criança
Ela Permite a troca de experiências e esperanças.
Belos gestos e palavras, quando vindos do coração
Só podem trazer, nos amigos, fortes emoções.




 
É coisa divina, abençoada.
Por isto deve ser cultivada.
Manter ou fazer um amigo, é ouro
A ser guardado no coração, igual tesouro.

A qualquer momento podemos precisar
Sabendo, de antemão, que ele lá vai estar
Sempre pronto a ajudar, a dar um alento.

Para se manter e fazer amizades
Devemos empenhar talento.
O que tento, com criatividade.


(Paulo Basílio - 20/07/2011)

domingo, 9 de agosto de 2015

Resenhas do Chile

Rodolfo Pamplona Filho




Love
Oreo
Eu tou brincando!
Manzanas
"Mãe, os Dourados estavam fazendo Bullying comigo!"
Minha mãe!
"Bate, amiga! De novo, amiga! Beijinho, amiga! Derrete!"
Para, mãe!
Maridjo!
Vinte!
Manhêê!
Fulano roubou pão na casa do João!
Eu, não! Então, quem?
Parará paratiparara
"Quero ficar com Lulu!"
Não que Nino vai brigar...
Defenestrar...
Tem wi-fi aqui?

No aeroporto de Santiago, 16 de janeiro de 2014...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

CICLO



Constrito nesta cela provisória
A vagar pelo ciclo do destino
Pressinto desde os tempos de menino
A falta de sentido para a história.

Das câmaras sombrias da memória
Ressuscitam lembranças que abomino
Desse ciclo macabro que defino
Como a prisão de toda luta inglória

Que o homem, a cismar por este espaço,
Teima em lutar, imaginando que
Conseguirá fugir ao seu fracasso.

O fim da história é sempre abominável
Mas todo homem finge que não o vê
Ignorando seu ciclo miserável.

No ar, 12 de julho de 2011

Alexandre Roque

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Luto e Luta

Rodolfo Pamplona Filho



Luto ferozmente
contra a melancolia,
o vazio, o medo
de não ter você...

Luto diuturnamente
para não entristecer,
pra seguir vivendo
de cabeça erguida.

Luto tenazmente
para a maldita culpa
e a terrível solidão
não me consumirem.

Luto pela luta
Luto sem luto
Luto por tudo
Luto por você...

Salvador, 23 de janeiro de 2014

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ser sempre chique

Nunca o termo "chique" foi tão usado para qualificar pessoas como nos dias de hoje.

A verdade é que ninguém é chique por decreto. E algumas boas coisas da vida, infelizmente, não estão à venda. Elegância é uma delas.

Assim, para ser chique é preciso muito mais que um guarda-roupa ou closet recheado de grifes famosas e importadas. Muito mais que um belo carro Italiano.

O que faz uma pessoa chique, não é o que essa pessoa tem, mas a forma como ela se comporta perante a vida.

Chique mesmo é ser discreto.

Quem não procura chamar atenção com suas risadas muito altas, nem por seus imensos decotes e nem precisa contar vantagens, mesmo quando estas são verdadeiras.

Chique é atrair, mesmo sem querer, todos os olhares, porque se tem brilho próprio.

Chique mesmo é ser discreto, não fazer perguntas ou insinuaçõe inoportunas, nem procurar saber o que não é da sua conta.

É evitar se deixar levar pela mania nacional de jogar lixo na rua.

Chique mesmo é dar bom dia ao porteiro do seu prédio e às pessoas que estão no elevador.
É lembrar-se do aniversário dos amigos.

Chique mesmo é não se exceder jamais!
Nem na bebida, nem na comida, nem na maneira de se vestir.

Chique mesmo é olhar nos olhos do seu interlocutor.

É "desligar o radar", "o telefone", quando estiver sentado à mesa do restaurante, prestar verdadeira atenção a sua companhia.

Chique mesmo é honrar a sua palavra, ser grato a quem o ajuda, correto com quem você se relaciona e honesto nos seus negócios.

Chique mesmo é não fazer a menor questão de aparecer, ainda que você seja o homenageado da noite!

Chique do chique é não se iludir com "trocentas" plásticas do físico... quando se pretende corrigir o caráter: não há plástica que salve grosseria, incompetência, mentira, fraude, agressão,
intolerância, ateísmo...falsidade.

Mas, para ser chique, chique mesmo, você tem, antes de tudo, de se lembrar sempre de o quão breve é a vida e de que, ao final e ao cabo, vamos todos terminar da mesma maneira, mortos sem levar nada material deste mundo.


Portanto, não gaste sua energia com o que não tem valor, não desperdice as pessoas interessantes com quem se encontrar e não aceite, em hipótese alguma, fazer qualquer coisa que não lhe faça bem, que não seja correta.

Lembre-se: o diabo parece chique, mas o inferno não tem qualquer glamour!

Porque, no final das contas, chique mesmo é Crer em Deus!

Investir em conhecimento pode nos tornar sábios... mas, Amor e Fé nos tornam humanos!

GLÓRIA KALLIL

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Perdão



Rodolfo Pamplona Filho

O Perdão
começa
em um único lugar:
a pessoa que você vê
no espelho...

Salvador, 19/03/2014

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Doação do seu eu

Doação do seu eu
Rodolfo Pamplona Filho



É preciso aprender
a doar não somente
o que se tem,
mas, principalmente,
o que se é...
Dar de si
sem pensar em si...
Quem não vive para servir
não serve para viver...
Quem não entrega
seu próprio eu
não sabe o motivo
pelo qual viveu...

Salvador, 16 de janeiro de 2014, pensando...

domingo, 2 de agosto de 2015

Da arte de engolir sapos



Certa vez, a imprensa toda noticiou, Fernando Henrique declarou que a política é a arte de engolir sapos. E isso é verdade, na medida em que os políticos, quando estão com raiva, dissimulam, dissimulam, e ninguém pode saber se, quando brigam entre si, estão, na verdade, brigando, ou apenas para brasileiro ver.

Mas a vida também exige a prática de engolir sapos. E algumas profissões mais do que as outras. Tirando os políticos, cuja vida é diversa da nossa, pobres mortais, todos, em maior ou menor grau, uma hora tem que dar a mão à palmatória e deixar de responder a algumas provocações, seja de quem for.

Os juízes, na audiência, devem ter uma paciência de Jó. Com advogados, com partes, com serventuários, com imprensa que, muitas vezes teima em aparecer, quando o caso é interessante, ou, melhor dizendo, rumoroso, e acha que pode fazer o que quiser porque é a imprensa: de repórteres, todos devem beijar a mão. E com as testemunhas mentirosas, então? Dessas nem é bom falar. Paciência de Jó é pouco.





Advogados precisam ter paciência de Jó com juízes irascíveis, que são muitos. Andam estressados com o trabalho extenuante e por qualquer manifestação menos inteligente do advogado – ninguém é inteligente em todos os minutos da vida – e já se irritam, tratam mal os clientes e lá se vai a paz da audiência. E quando o advogado é mais inteligente e mais erudito do que o juiz, então? É uma tragédia. Qual juiz admite que o advogado sabe mais do que ele? Lembro-me bem do que dizia Rodrigues Pinto, em suas aulas de Direito Processual do Trabalho na UFBA: o advogado deve saber mais do que o juiz, porque se o juiz errar, o advogado conserta, mas se o advogado errar, adeus, o cliente está perdido.

Mas eu sou o juiz! Bate no peito o prepotente!

Mães precisam ter paciência com os filhos e o marido. Interessante que das mães sempre se exige mais do que dos pais. Mesmo que a mãe tenha um trabalho difícil, cansativo, o cansaço do pai é sempre mais respeitado do que o da mãe. Ser mãe é sofrer no paraíso?

E os telefonemas das revistas, dos cartões de crédito, dos operadores de telemarketing? A senhora já foi assinante da Revista XPTO, não foi? Por que não é mais? E por que não quer? É? Mas não quer por que, minha senhora? Mas a revista tem uma promoção... Mesmo assim não quer? Por quê? Haja paciência.

Agora vêm os tais torpedos das operadoras de telefonia. A cada minuto, o celular dá a notícia de que há um torpedo. Você vai ver se é algum amigo, alguém da família ou colega, mas qual, é a operadora, oferecendo prêmios e mais prêmios pra você aderir a não sei mais quê. Penso que não fiquei rica ainda por não ter paciência com esse tipo de coisa.

Acho que eu não tenho a arte de engolir sapos. Nunca serviria para a política. Dissimulação passa longe de minhas pretensões. Tenho muita paciência com muita coisa, na audiência, então, no Tribunal da mesma forma, sempre fui um poço de compreensão, sem nenhuma dissimulação, mas engolir sapos, nunca. Adoeço. E, pior é que, quando não tenho paciência e respondo à mesma altura, sinto-me culpada. Adoeço também.

Os sapos que ando engolindo ultimamente, sem qualquer arte, fazem-me mal ao estômago. Esse é que é o problema. Eles descem e ficam a chacoalhar, ou coaxar, não sei, fazendo uma confusão dos infernos e meu estômago começa a doer, fogo puro,  minha boca é um estrago só, de aftas, minha língua fica dormente e assim vai.
É sapo de todos os lados. Todos andam estressados. Os engolidores de sapos são os que mais sofrem, se não são políticos. Esses, já se sabe, têm a arte. Não se irritam, atuam em qualquer área. Mas nós não somos os artistas da estirpe. E sofremos com esse mundo maluco.

O pior de tudo é que sou um caso perdido.  Não quero aprender essa arte. Prefiro queimações no estômago, língua ardendo e garganta em brasa. Minha prepotência, nesse aspecto, é irritante, e já se incorporou ao meu quotidiano e não há quem dê jeito. Não posso me conformar em ser saco de pancada. Mas tenho o interesse, o grande interesse, em deixar a pessoa falando sozinha: é minha vingança com os estressadinhos e desaforados. Urro de burro não chega ao céu, diria minha mãe. Por isso, calo-me, esperando que o desaforado fique sem graça e pare com a cantilena. Vingo, calando-me, mas sofro, como se tivesse despejado uma série de impropérios no interlocutor.
Não tenho, pois, a arte de engolir sapos.
Vou morrer assim. E ponto final.

Maria Francisca – março/2009.

sábado, 1 de agosto de 2015

Sobre Sonhos


Rodolfo Pamplona Filho


Já dizia o filosofo:
os sonhos são os rebentos
e botões da imaginação!
Por isto, também têm o direito
de viver sua vida pura...
Sufocar ou deformar
os sonhos da juventude
é destruir a criação
e matar o criador...

Salvador, 13 de novembro de 2013, conversando com a amiga Ezilda Melo

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A Borboleta azul



Havia um viúvo que morava com suas duas filhas curiosas e inteligentes.

As meninas sempre faziam muitas perguntas.

Algumas ele sabia responder, outras não.

Como pretendia oferecer a elas a melhor educação,

mandou as meninas passarem férias com um sábio

que morava no alto de uma colina.

O sábio sempre respondia todas as perguntas sem hesitar.

Impacientes com o sábio, as meninas resolveram inventar uma pergunta

que ele não saberia responder.

Então, uma delas apareceu com uma borboleta azul

que usaria pra pegar uma peça no sábio.





- O que você vai fazer? - perguntou a irmã

- Vou esconder a borboleta em minhas mãos e perguntar.

se ela está viva ou morta.

Se ele disser que está morta, vou abrir minhas mãos e deixá-la voar.

Se ele disser que ela está viva, vou apertá-la e esmagá-la.

E assim qualquer resposta que o sábio nos der está errada!

As duas meninas foram, então, ao encontro do sábio, que estava meditando.

- Tenho aqui uma borboleta azul.
Diga-me sábio, ela está viva-
ou morta?

Calmamente o sábio sorriu e respondeu:

- Depende de você. Ela está em suas mãos.

Assim é a nossa vida, o nosso presente e o nosso futuro.

Não devemos culpar ninguém quando algo dá errado.

Somos nós os responsáveis por aquilo que conquistamos (ou não).

Nossa vida está em nossas mãos, assim como a borboleta azul.

Cabe a nós escolher o que fazer...

terça-feira, 28 de julho de 2015

Saudade absurda






Rodolfo Pamplona Filho

Toda saudade dói...
Mas dói mais quando é na gente...
Toda falta machuca...
Mas só conosco entorpece...
Não há vazio maior
do que a ausência
de quem nunca devia
ter saído do lado
do corpo e da alma,
em que fica toda a calma
e a paz do seu abraço...
Daí, essa saudade absurda...
Essa carência de você...
que só tem um único remédio
para trazer um refrigério:
seu beijo...

Salvador, 23 de janeiro de 2014

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ecos do pensar sobre o pensar





Fausto Couto Sobrinho

A criança chora na casa ao lado,
E lembra-me a dor que não chorei;
O abandono e a procura...
E o desencontro...


Lembre-se! Atenção!
dizia o pássaro falante de Huxley...




Na noite escura e chuvosa,
Fantasmas ambíguos escorrem
Pelos vidros das janelas;
Gotejando, viscosos, insones...


Ecos do pensar sobre o pensar:

O útero é morno e macio
Põe a mão aqui... é quentinho!
Como fugir ao langor? ...
A garganta fecha, o ar escasseia...


Lembre-se! Atenção!
alertam os meus sentidos.


É preciso estar acordado.
A vida se esgueira pela janela dos olhos,

Como sombra rápida e fugidia.
Menino! O que você está fazendo?!


A Escuridão se fecha à minha volta,
Ameaçadora e atrevida.


Ah! Mas, pressinto um brilho...
Coisinha pouca, mas um brilho...


Magia, magia, magia,
Sussurram dentes pontiagudos,
MAGIA, MAGIA, MAGIA,
Farfalham asas ao vento!


Agosto de 2002.

domingo, 26 de julho de 2015

Vida






Rodolfo Pamplona Filho

O passado é verdade concretizada.
O presente se acompanha.
O futuro se constrói...

Salvador, 23 de março de 2014

sábado, 25 de julho de 2015

Casa Arrumada



Carlos Drummond de Andrade



A vida é muito mais do que isso...
"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência
egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos
também a felicidade."



Casa arrumada  é assim:

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Tensão


Rodolfo Pamplona Filho

Tensão no ar
O mundo parece que dará 
choque em quem passar 
O calor aumenta a pressão 
ao tempo em que entorpece
o corpo com o suor
e a lágrima que desce...



Tensão no ar
As palavras somem 
O choro surge forte,
mas a sensação de injustiça 
faz travar a garganta...
E nada adianta...
talvez só o tempo
que demora de correr...
E, se, por acaso, sobreviver,
não saber mais o que fazer...

Tensão no ar
Só resta esperar...
o próximo passo a dar...
a nova golfada de ar...
o movimento inevitável 
para quem tem receio 
do que está por vir,
mas sabe apenas que 
não há mais como suportar
o que ainda se tem 
ou teve de enfrentar...
Tensão no ar

Salvador, 30 de dezembro de 2013, tomando uma decisão difícil... e dolorosa...

terça-feira, 23 de junho de 2015

ANIVERSÁRIO

ANIVERSÁRIO

Metade do tempo consumada
ou ainda mais.
No peito, a mesma fome, a mesma sede
do menino, do rapaz.
 O mesmo olhar perplexo
o mesmo
sem resposta
gesto crispado interrogando.
(É dezembro
e noite e abro a janela
e vejo outras janelas iluminadas.
Ali há vida, como na rua, como
no campo e no mar e nos velozes
aparelhos que cortam o espaço
e
talvez
noutros planetas e universos.
Como há incontáveis séculos e
provavelmente
amanhã. Mas tudo rápido
demais
que nem nos podemos saber
e partimos
no mesmo escuro em que chegamos.)
Perdi colegas, namoradas, cães.
Perdi árvores, pássaros, perdi um rio
e eu mesmo nele me banhando.
Isto o que ganhei: essas perdas. Isto
o que ficou: esse tesouro
de ausências.
(A noite avança, e as janelas
aos poucos
se apagam. No silêncio
meu coração permanece
iluminado. Eis que trabalha, fiel,
mesmo quando revela
a si mesmo em breve imóvel
ou, depois, a última estrela
sem testemunhas
no céu final.)


(ESPINHEIRA FILHO, Ruy. Poesia reunida e inéditos. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 150-151).