domingo, 26 de abril de 2026

Canção





Cecília Meireles






No desequilíbrio dos mares,


as proas giram sozinhas...


Numa das naves que afundaram


é que certamente tu vinhas.




Eu te esperei todos os séculos


sem desespero e sem desgosto,


e morri de infinitas mortes


guardando sempre o mesmo rosto




Quando as ondas te carregaram


meu olhos, entre águas e areias,


cegaram como os das estátuas,


a tudo quanto existe alheias.




Minhas mãos pararam sobre o ar


e endureceram junto ao vento,


e perderam a cor que tinham


e a lembrança do movimento.




E o sorriso que eu te levava


desprendeu-se e caiu de mim:


e só talvez ele ainda viva


dentro destas águas sem fim.

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