segunda-feira, 20 de março de 2017

Serviço Mal Feito


Rodolfo Pamplona Filho

Cabo desencaixado
Trabalho sujo
Peças faltando
Garantias vazias
Parafusos soltos
Pregos frouxos
Informação incompleta
Serviço Mal Feito

Orlando, 27 de janeiro de 2017  

domingo, 19 de março de 2017

O Amor Antigo



Carlos Drummond de Andrade 

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige, nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

sábado, 18 de março de 2017

Foco, Consolo e Esperança


Rodolfo Pamplona Filho 

Direcionar esforços
para realizar
o que não se tem
e que outros acreditam
que não se terá.
Esse é o Foco

Saber que o pior arrependimento
é de quem nem tenta
e que conhecimento,
adquirido com esforço,
nunca se perde.
Esse é o Consolo.

Ter a consciência de que nada muda,
se permanecer a letargia,
e que toda estrada é construída
com cada passo que se dá,
ainda que na direção do desconhecido.
Essa é a Esperança!

Essa é a tríade
que renova a sede de viver,
o gozo de cada novo dia,
o gosto de continuar respirando:
esse é o foco, o consolo e a esperança!

Salvador, 14 de fevereiro de 2017.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Discurso de Posse como Presidente da Academia de Letras Jurídicas da Bahia Gestão 2017-2018




Excelentíssimo Senhor Acadêmico Professor Dr. César Faria Júnior, a quem eu tenho a honra de suceder na Presidência da Academia de Letras Jurídicas da Bahia, em nome de quem saúdo todos os demais membros da mesa diretora desta sessão;
Senhores confrades, acadêmicos, magistrados, procuradores, advogados, professores, servidores, estudantes, meus parentes e amigos;

Toda cerimônia de posse de uma nova Diretoria de um sodalício tem um ritual.
E, tradicionalmente, o ritual se encerra com um pronunciamento do porta-voz do novo colegiado que a dirigirá.
Assim é e será a presente solenidade.
Todavia, a maior parte dos senhores conhece suficientemente este interlocutor a ponto de saber (ou esperar) que algo de diferente seja feito...
Se há uma característica da minha personalidade que tem sido reconhecida com frequência – além da loucura ou ousadia, que, em verdade, é uma “persona” para respeitar a minha essência... – é a pluralidade.
Não sou afeto a guetos, grupos ou panelas.
Gosto de conviver com iguais e com diferentes.
Gosto de circular entre juristas e músicos, jovens e idosos, doutos e incultos, cys e trans, crentes e ateus, árabes e judeus...
Gosto das interfaces do Direito e da Arte.
Gosto de fazer diversas atividades simultaneamente, estando em mais de um lugar ao mesmo tempo, exercitando uma ubiquidade que me permite, estranhamente, me sentir mais humano...
E, por isso, esse discurso também não se limitará aos tradicionais chavões que costumeiramente são vislumbrados...
É claro que a gratidão deve ser sempre verbalizada.
Ninguém chega em lugar algum absolutamente sozinho.
E é por isso que, normalmente, toda manifestação traz sempre alguns registros que, se forem aqui omitidos, seriam interpretados como uma gafe ou coisa pior.
O que é subversivo, de minha parte, é que os agradecimentos e dedicatórias normalmente são no final...
Mas eu quero começar com eles, pois o registro público é a prova inequívoca de um coração grato e coerente.
Meu irmão e confrade Pablo Stolze Gagliano, que nos prestigia imensamente com sua presença nesse evento, me passou um “trote” hoje de manhã, dizendo que estava impossibilitado de comparecer... Depois disse que era brincadeira... Mas, com ele, tenho sempre o lembrete constante de que toda obra e toda atividade devem ser dedicadas a Deus, independentemente de qual seja o credo de cada um, nas múltiplas possibilidades da crença no espiritual, que inclui até a total ausência de crença...
Também não se pode deixar de registrar o agradecimento à minha família, que convive diuturnamente com (e tenta compreender) alguém que não consegue ficar parado... A Emilia, misto de esposa e mãe; Marina, dublê de filha e “parceira de aventuras”, e Rodolfinho, filho que carrega meu nome e que é meu padawan do treinamento Jedi de como controlar a “Força”, ofertarei sempre meu sincero amor paternal. Eu sou o “catador de bolas” de vocês...
Claro que, comumente, invoca-se também a memória daqueles que já se foram... E, por todos eles, devo lembrar de meus pais, Rodolfo, que nunca escondia o orgulho de me ter como seu “projeto de filho perfeito”, e de Maria de Lourdes, que nos deixou recentemente, depois de enfrentar quatro anos de um martírio, no qual estive, durante todo o tempo, ao seu lado, jamais desamparando-a.
E, naturalmente, preciso agradecer a cada um dos confrades, que sufragaram maciçamente nossos nomes para compor a nova Diretoria, dando-nos a legitimidade para atuar para o bem dos propósitos que acreditamos. É um “bordão” dizer, em qualquer ato público de posse, que “quiseram os amigos que eu estivesse aqui...”. Bem, no caso concreto, tenho a convicção de que muitos dos senhores deixaram, há muito, de ser apenas colegas e confrades, tornando-se destinatários do meu mais sincero afeto, do amor que se devota a amigos que se tornam família.
Se é certo que o meu reconhecimento será eterno, mais certo ainda é que é necessário passar para outra parte do discurso...
Hoje, 15 de março de 2017, assumo, com muita honra, a Presidência da Academia de Letras Jurídicas da Bahia.
A data deste evento foi escolhida momentos após a apuração dos votos da nova Diretoria, a pedido do agora empossado Vice-Presidente Fredie Didier Jr., de forma que pudesse conciliar com sua agenda e viabilizar o seu comparecimento.
Todavia, quis o destino, esta inexplicável e incontrolável entidade que nos apronta surpresas a cada passo ou encruzilhada, que algumas coincidências saltassem aos olhos.
No dia de ontem, comemorou-se o aniversário de 170 anos de nascimento de um dos mais fascinantes poetas brasileiros, o baiano Antônio Frederico de Castro Alves, que viveu apenas 24 anos (nascido em 14 de março de 1847 e falecido em 06 de julho de 1871), mas que deixou versos e ideias que continuam sendo reproduzidos por gerações de cultores das letras, das palavras e da poesia.
No dia de hoje, boa parte da população decide ir às ruas para protestar contra propostas de modificação da disciplina jurídica de seu presente e de seu futuro...
E não é que Castro Alves, um jovem poeta, com formação jurídica (ainda que incompleta), já recitava há mais de cem anos:
“A praça, a praça é do Povo!
Como o céu é do Condor!
É antro onde a liberdade
Cria a águia ao seu calor!”

É com Direito e Poesia que pretendo conduzir a Academia.
Acredito realmente que a Arte é um dos caminhos para a elevação da alma e um dos consolos para o renovar da esperança...
Costumo dizer publicamente que “o único Direito verdadeiramente inalienável é o Direito de ter esperança...”
Com o aniversariante Castro Alves:
“Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança”

E uma das formas que acredito de transformar a esperança, de ideia para ação, é através do trabalho.
Se sou conhecido como um homem de palavras, também o sou como um homem de ações.
Não esperem os senhores que venha eu para a Presidência simplesmente para cumprir uma etapa de uma carreira, naquela sensação de que, agora, chegou a minha vez de dar a minha contribuição...
Se os senhores me convocaram para essa tarefa, têm consciência de que um dos lemas que mais uso não é tirado de qualquer livro de Direito, mas, sim, do filme “Tropa de Elite”: “missão dada é missão cumprida”!
A ideia é dar continuidade, sim, a todos grandes projetos encampados pelas diretorias anteriores, notadamente aquela cujo mandato se encerrou e que eu tive a honra de participar da diretoria, exercendo o cargo de secretário geral, atribuição essa que cumpri, aliás, durante três gestões, sendo uma do Presidente César Faria Jr. e dois mandatos da nossa maravilhosa musa Alice Gonzalez Borges. Isso sem contar minha colaboração espontânea em reuniões de diretorias anteriores em que, mesmo sem fazer parte formalmente da direção, participei ativamente de diversos projetos, prática essa que gostaria de estimular em todos os confrades.
Tudo isto continuará a ser feito, para o que conto, inclusive, com o apoio de todos os ex-presidentes, de todos os confrades e de todos aqueles que se propõem a apoiar a cultura jurídica na Bahia.
Esta nova diretoria tem, porém, um desafio hercúleo: buscar ombrear-se ao trabalho fantástico de todas as Presidências anteriores.
A proposta é simples: continuar dando vida à Academia, ampliando o reconhecimento de que é ela o espaço democrático e o locus privilegiado da cultura jurídica da Bahia.
Pretendemos manter o projeto das Quintas Culturais, a Revista da Academia e a sua participação na Federação das Academias de Letras Jurídicas do Brasil.
Otimizaremos as formas de comunicação no âmbito acadêmico, seja revitalizando e otimizando seu Boletim, seja ampliando a visibilidade da Academia nas redes sociais.
Continuaremos com a Revista da Academia (finalmente com ISSN!!!), buscando aperfeiçoar seus mecanismos de publicação e qualificação.
Organizaremos o 2º Congresso da Academia de Letras Jurídicas da Bahia, convocando, desde já, cada um dos acadêmicos para comparecer, assistindo, presidindo ou palestrando.
Planejamos estabelecer convênio com o Instituto Baiano de Direito do Trabalho, recentemente revitalizado, para que possamos realizar sessões específicas nesse maravilhoso espaço que é o salão principal da Academia. A proposta é que essa mesma diretriz seja feita com todo e qualquer curso de Direito ou instituição jurídica que pretenda fomentar debates e estudos, finalidade primordial de uma Academia de Letras.
Há muito mais projetos a elaborar e a executar.
Esse é o desafio da nova Diretoria.
Uma Diretoria que, se examinada com cuidado, tem uma característica peculiar.
Pela primeira vez na história da nossa Academia, a direção será conduzida por uma maioria nascida a partir dos anos 70.
Se a diversidade e o respeito mútuo impõem sempre a troca de experiências entre gerações, o fato é que assumimos em um mundo completamente diferente daquele no qual a Academia foi concebida.
E precisamos sempre nos adaptar a este mundo, pois a Academia deve ser sempre um local de renovação do amor ao Direito e às Letras.
“Amemos, porque o amor é um santo escudo”, diria o aqui multicitado Castro Alves.

Amemos realmente.
Amemos o Direito.
Amemos o magistério.
Amemos as letras jurídicas.
Amemos os livros que foram escritos antes de nós e os que ainda estão por ser produzidos.
Amemos aqueles que semeiam o saber...

“Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!”

Renovemos a alma e façamos juntos a construção de novos mares...
Muito obrigado!

terça-feira, 14 de março de 2017

Poético e Brasileiro


Rodolfo Pamplona Filho  

Poético e Brasileiro
é sonoro.
Poético e Brasileiro
é visceral.
Poético e Brasileiro
é o objetivo.
Poético e Brasileiro
é essencial.
Poético e Brasileiro
é chiquérrimo.
Poético e Brasileiro
é sensacional.
Poético e Brasileiro
é a alma.
Poético e Brasileiro
é fundamental.

Praia do Forte, 26 de fevereiro de 2017.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Velha História



Mário Quintana 

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!...Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado...

domingo, 12 de março de 2017

Selfie


Rodolfo Pamplona Filho

Passou tanto tempo
tirando fotos
que perdeu a vista
do que estava ao seu lado...

Orlando, 27 de janeiro de 2017.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Confissões



Rodolfo Pamplona Filho 

Eu não quero
te perder
Eu vejo teu rosto
em todos os lugares
Eu não consigo
esquecer o teu sorriso...
tua boca... teu olhar...
teu corpo mexendo
com a música no ar...
Eu não quero viver
longe do teu abraço.
Chego a achar
que estou enlouquecendo...
e talvez esteja mesmo,
mas de amor...

Salvador, 30 de janeiro de 2017.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Psiu, gostosa...


Luiza Passarin    

Psiu, gostosa
Vem aqui
Ô linda
Foge não
Vadia
Nojenta
Vagabunda
Piranha
Bruxa
Lixo

Ô mocinha
Toma um banho
Limpa teu sangue
Eu prefiro limpa, assim
Limpa esse chão
Limpa essa louça aqui
Quero teu corpo limpo

Ô querida
Tão nervosa
Não precisa
É louca
É neurótica
Fica quietinha
Fecha a perninha
Sente como menininha

É tão frágil
É cristal
Mimo meu
Na minha estante
Calada
Muda
Silenciada

Ei, mulher
Eu tenho uma flor
Feliz dia
Sorria
Eu salvei o dia

Toma, boneca
Uma promoção de perfume
Maquiagem mais em conta
Lingerie na promoção
É teu dia, bonita!

Tá com frescura, gatinha?
Volta aqui
Vamos conversar
Eu não queria ter de te machucar
Vai dar jogo pro azar?
Bruxa
Vagabunda
Filha da puta

Eita, coitadinha
Tão novinha
Quis dar
Não soube se cuidar
Agora nada de abortar
Engula essa tua culpa
Mamãe
Trancada
Forçada
Quem mandou?

Ah, mas isso é fase
Hoje não quer ser mãe
Quando encontrar homem bom
Espera só, querida
Toda mulher nasce pra isso
É vocação
Questão de tempo
Espera só


Dupla jornada
Balela de louca
Eu sou um fofo
Estou aqui com sua pensão
Sua vocação
Não minha

Olha, putinha
Quer abortar?
Teu nome tá em sangue
Lá no chão da favela
1 milhão por ano
Clandestinas
É Gabriela?
Cravo ou Canela?
Não tem chá
Não tem pai
Não tem saúde
Não tem
Não

Não pode descuidar
Tem que tomar
A pílula
Engula
Um pouquinho a cada dia
Trombofílica
Hipertensa
Cancerígena
Mas descuidar não pode
Pode suas asas

Olha ali, tá gordinha
Desleixou
Tá descuidada
Desse jeito acaba sozinha
Mas tem rosto tão bonito
Não se cuida
Questão de saúde, sabe?
Me preocupo
Juro que não é padrão

Filme de terror
É rua escura
Passo próximo
Respiração ritmada
Pensou era demônio
Era homem
Ali
Sozinha
Suja
Pintando a sarjeta de sangue
Por hora são onze

Vocês querem falar sobre flores? Eu não quero nem vê-las. A bizarrice poética desse dia é fruto da dor das nossas mulheres: estupradas, silenciadas, subestimadas, impedidas, mutiladas, espancadas, violentadas, exploradas, forçadas.
Todos. Os. Dias.

8 de março é dia de luta.
(08.03.2016)

                   

quarta-feira, 8 de março de 2017

Minha Homenagem às Mulheres


Rodolfo Pamplona Filho


Se existe algo mais perfeito
do que a beleza da mulher
ganhará não só o meu respeito,
mas também minha adoração e fé,

pois somente uma obra divina,
que deve ser reverenciada,
pode ter mais perfeita sina
do que o encanto da mulher amada.

O fascínio feminino importa
muito mais que um físico atrativo:
é o conjunto completo de uma obra,
que deixa qualquer um cativo!

A inteligência, a perspicácia,
a sutileza, o instinto,
a elegância, a espontaneidade,
o sorriso, o carinho.

Todas as mulheres são lindas!
Embora algumas não expressem
toda a delicadeza
de sua infinita grandeza.

Todas as mulheres são lindas!
Falta a muitos homens
a efetiva sensibilidade
para perceber sua complexidade.

Dizem que, atrás de um grande homem,
há sempre uma grande mulher...
Isto é um engano monumental,
pois ela nunca estará no final,

mas, sim, o caminho inspirando
ou espiritualmente comandando
o passo a ser dado ou verbo a ser dito,
a ação cantada ou verso a ser escrito...

pois nada do que o homem tentar
será feito para seu próprio prazer:
haverá sempre uma musa a encantar
as etapas de seu íntimo querer.

terça-feira, 7 de março de 2017

Amor bastante


Paulo Leminski


Quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

segunda-feira, 6 de março de 2017

Casar e Separar



Rodolfo Pamplona Filho 


Quando casar é uma loteria 
e separar uma aposentadoria,
o amor é um amuleto 
da sorte das esperanças vazias...

Orlando, 26 de janeiro de 2017.

domingo, 5 de março de 2017

Retrato



Cecília Meireles 

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?



quarta-feira, 1 de março de 2017

Conexão e Sintonia


Rodolfo Pamplona Filho 
Eu não preciso
sequer ver
para sentir
a vibração
da nossa conexão.

Eu não preciso
sequer ouvir
para perceber
a harmonia
da nossa sintonia.

Não importa a distância...
Não importa o lugar...
Não importa o tempo,
mas, sim,
a conexão e a sintonia

Miami, 18 de fevereiro de 2017.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Aninha e suas pedras


Cora Coralina


Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Tudo ou Nada


Rodolfo Pamplona Filho

Tudo que tenho
Nada me foi dado
Tudo que tenho
Tudo foi conquistado
Tudo que não tenho
Eu tenho com ela
Como abrir mão de tudo
para ser completo?


01 de janeiro de 2017, nas águas do Oceano



Atlântico.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Motivo


Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.



sábado, 25 de fevereiro de 2017

A Voz do Senso Comum


Rodolfo Pamplona Filho  



É difícil admitir
que alguém possa saber
mais do que você!
Tenho certeza absoluta
de tudo que falo,
pois somente digo
o que meu cabresto
permite ver...
Quero ir embora,
quando estou com medo,
mesmo quando se está perto
de onde se quer chegar.
Por que só tem isso?
Porque, na realidade,
não enxergo
o que há a mais...
Não estou conseguindo,
mesmo quando, na verdade,
eu nem sequer tentei...
Tenho medo
de fazer tudo aquilo
que nunca fiz antes...



Miami, 16 de janeiro de 2017.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Parecer


Rodolfo Pamplona Filho 

Eis o parecer:
Parece que vocês
parecem mais
do que parece.

Miami, 17 de janeiro de 2017.