Stéfane Pyaar
todo mundo
pede ajuda
o tempo todo.
alguns gritam,
outros choram baixinho.
e eu, bem, eu escrevo.
Blog para ler e pensar... Um texto por dia... é a promessa... Ficarei muito feliz em ler e saber o que cada palavra despertou... Se você quiser compartilhar um texto, não hesite em mandar para rpf@rodolfopamplonafilho.com.br. Aqui, não compartilho apenas os meus textos, mas de poetas que eu já admiro e de todas as pessoas que queiram viajar comigo na poesia... Se quiser conhecer somente a minha poesia, acesse o blog rpf-poesia.blogspot.com.br. Espero que goste... Ficarei feliz com isso...
Stéfane Pyaar
todo mundo
pede ajuda
o tempo todo.
alguns gritam,
outros choram baixinho.
e eu, bem, eu escrevo.
Rodolfo Pamplona Filho
Amor é quase tudo,
mas o quase não é irrelevante
O que falta ao amor
para ser impactante?
Talvez um pouco de cuidado
Talvez um carinho inesperado
Talvez uma torcida explícita
Talvez uma entrega sem retorno
Amor é quase tudo,
mas o quase não é irrelevante
O que falta ao amor
para ser incessante?
Talvez uma dose de mistério
Talvez um suspiro no espelho
Talvez um choro em desabafo
Talvez um frio na barriga no encontro
Amor é quase tudo,
mas o quase não é irrelevante
O que falta ao amor
para ser acachapante?
Talvez um bilhete inesperado
Talvez uma surpresa no acordar
Talvez dormir agarrado
Talvez nunca parar de sonhar
Salvador, 27 de outubro de 2018.
Poema de Fernando Py (1935-2020)
– melancólico olhar, sereno rosto,
postura fixa e o todo bem composto –
no retrato que o tempo desafia.
Fui eu na minha infância fugidia
de prazeres ingênuos, e o desgosto
de sentir tão efêmera a alegria
bem depressa mudada em seu oposto.
Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa
e tudo altera nem sequer deixou
um grão de infância feito esmola escassa.
Fui eu; e da figura só ficou
o olhar desenganado na fumaça
em que a criança inteira se mudou.
abril 1998
(De Sentimento da Morte – 2003)
Rodolfo Pamplona Filho
De supetão,
joga-se tudo para cima,
muda-se a programação,
arrisca-se fazer o inédito
De supetão,
muda-se o clima,
o humor
e a disposição
De supetão,
sai-se de casa,
abandona-se um lar,
busca-se uma saída
De supetão,
toma-de coragem
para fazer o que
nunca se fez na vida.
Salvador, 09 de janeiro de 2021.
Celso Cruz
Aprendi o Nome das Uvas.
Cada lenda, cada história,
Guardei na memória,
Pra conversar bonito,
Pra passar por erudito,
Por um bom entendedor.
Eu sou um bom bebedor.
Gosto de uma boa bebida,
Com uma boa comida,
Harmonizando o sabor :
🍇🍇🍇
Cabernet Sauvignon
Presente em toda taverna,
Cabernet vem de caverna
Sauvignon, de selvagem
Vai do calor à friagem
Se adaptando a cada clima
Um cruzamento “obra-prima”
É do século dezesseis
E vou dizer pra vocês
É uva de minha estima.
🍇🍇🍇🍇
A francesa Merlot
O seu significado
Diz-se ter se originado
Do pássaro “merle”, pequeno,
Abundante em terreno,
Onde a uva era plantada.
Sua cor preto azulada
Seu gosto por ela, madura
Era a praga da cultura,
Em outra época passada.
🍇🍇🍇🍇
E veio lá da Borgonha,
A uva Pinot Noir,
Depende do terroir
De onde é extraída,
O buquê, sua bebida
A sua coloração
É a uva camaleão,
Muda de aroma, de cor
Uva de fino sabor,
Requer harmonização.
🍇🍇🍇🍇
Sucesso do Uruguai,
Tannat, a uva francesa,
Vai bem com a sobremesa
Com um assado de vitela,
Um churrasco de costela
Pois, seus taninos marcantes,
Tem poderes antioxidantes.
Eu mesmo acho adorável,
Final longo, memorável,
Vinhos Intensos e elegantes.
🍇🍇🍇🍇
De nome Petit Verdot,
Uva de cacho pequeno,
Própria de clima ameno,
Demora amadurecer
Entre o plantar e o colher.
Ela mostra-se resistente,
Brota precocemente
Me garantiu meu vizinho
Que é expert em vinho
E de Bordeaux, é procedente.
🍇🍇🍇🍇🍇
Chianti, Rosso, Brunello,
Favorece a minha tese
Que a uva Sangiovese,
Essa cepa italiana
Da região da Toscana,
É história engarrafada.
Na Itália ela é amada,
Desde a Roma antiga.
Existe quem contradiga
A história aqui contada.
🍇🍇🍇🍇
A uva perdida de Bordeaux,
Carmenère, me encanta
Seu sabor se agiganta
Com um harmonizar propício.
Ótimo custo benefício
E se bem harmonizado,
Mesmo americanizado,
É uma de cepa divina,
Em toda América Latina
Esse vinho é encontrado
🍇🍇🍇🍇
Syrah, Shiraz “Darou-é-shah”
Ou, o remédio do Rei,
Pelo que pesquisei
E ouvi do meu amigo,
Se discordarem, não ligo
Bom de harmonização
Ótimo pro coração
Sabor intenso e profundo
No novo e no velho mundo
Sempre desperta paixão
🍇🍇🍇
Malbec, uva francesa
Sucesso na Argentina,
Sempre uma bebida fina,
De Mendonza à Patagônia
Eu digo, sem parcimônia,
O Patagão prefiro eu
Estando no apogeu
Com o seu sabor marcante
É um vinho mais elegante
Bem ao estilo europeu
🍇🍇🍇🍇
Nebbiolo vem de “nebbia”,
Que traduz-se em nevoeiro,
Foi o meu amor primeiro.
Um vinho piemontês
Eu vou dizer pra vocês
Se bebo sinto saudade
Sem nenhuma vaidade
Se junto à pessoa amada
Com uma boa macarronada
Meu nome é felicidade
🍇🍇🍇🍇
Que dizer da Tempranillo
Uva ilustre da Espanha
Com uma enorme façanha
De três mil anos de história,
Se não me falha a memória,
É a que primeiro amadurece.
E, pelo que me parece,
“Temprano” é precocidade
O vinho é a felicidade
Que em garrafa se oferece.
Rodolfo Pamplona Filho
Festa junina na pandemia
é diferente do São João
quando os dias da gente
eram apenas “normais”
Os amigos e as famílias,
como antes, não estão
presencialmente
ao lado e juntos mais
Se não dá mais para abraçar,
isso não quer dizer
que a vontade de cantar
tenha que desaparecer
Se não dá mais para beijar,
isso não quer dizer
que a ausência do tocar
anule o desejo de viver
Hoje, pode não ter dança
ou mesmo um brinde com quentão,
mas sempre terá a esperança
que aquece o coração
de que, se não abraçados
fisicamente,
continuaremos ligados
espiritualmente,
e isso renova a alegria
e o desejo por dias melhores,
que é o combustível da folia
e a ordem para que não chores
pois, na nossa folia,
pode até faltar licor,
mas, nunca na vida,
faltará o amor.
Salvador, 24 de junho de 2020.
Negra Luz
Para ficar,
Me dê motivos...
Está bem mais fácil eu me perder.
Para apostar,
Me dê razões...
A aposta é alta. E se eu perder?
A quem cobrar?
Não há garantias...
A conta é alta, para não te perder.
Você está Rei,
Eu nasci Rainha...
O meu reinado vai além de você.
Amar...
Eu amo.
Afirmo isso.
A quem mais amo?
Meu próprio ser.
Rodolfo Pamplona Filho
Uma vida sem filhos
é como uma árvore sem frutos:
beleza ornamental,
que cumpre sua jornada
e realiza sua missão,
não se machucando ao final
pela dor da sua ausência.
Mas como saber
se há a dor
sem provar o sabor
do primeiro amor?
Como disse o poeta;
“Filhos, melhor não tê-los,
mas, se não tê-los,
como sabê-los?”...
Praia do Forte, 02 de janeiro de 2021.
(Negra Luz)
A mulher
A negra
A mãe
A trabalhadora
A beleza
A resistência
O amor
A luta
A angústia
O diploma
O filho
O pão
A barra
O barraco
O tráfico
A repulsa
O pulso
A quebrada
A abolição
A frustração
Um estampido!
Muitas direções!
Pelo rastro de sangue, mais uma vida.
Vidas!
Um coração!
Muitas esperas!
Pela cor da pele, mais um negro...negra.
Negras! Negros!
Morreu.
E ela morreu.
Um negro...
Uma negra...
Importam?
Portam?
Vidas importam!
Mais uma vez,
Foi-se uma vida negra.
Rodolfo Pamplona Filho
Aldrava
Aljava
A porta
ou a trava
A saída
ou a arma
A paz
ou o Karma
Salvador, 24 de janeiro de 2021
Ferreira Gullar
pouso o rosto
na mesa
que
alívio
ser apenas
tato
só o
macio
contato
o corpo
corpo
defeso
dos esplendores
da vida
Rodolfo Pamplona Filho
Como é estranho
não sentir falta
do que era essencial
até bem pouco...
Como é inovador
poder respirar novamente
sem a sensação
de que tudo sufocava...
Como é libertador
saber que há vida
fora do casulo
da sua metamorfose...
Como é revigorante
saber que há novas perspectivas
de poder viver a vida
como ela deve ser vivida.
Salvador, 26 de janeiro de 2021.
Caetano Veloso
Menino Deus
Um corpo azul dourado
Um porto alegre é bem mais que um seguro
na rota das nossas viagens no escuro
Menino Deus
Quando tua luz se acenda
a minha voz comporá tua lenda
e por um momento
haverá mais futuro do que jamais houve
Mas ouve a nossa harmonia
A eletricidade ligada no dia
em que brilharias por sobre a cidade
Menino Deus
Quando a flor do teu sexo abrir as pétalas para o universo
então por um lapso se encontrará nexo
ligando breus
dando sentido aos mundos
e aos corações sentimentos profundos
de terna alegria
no dia do Menino Deus.
(Rodolfo Pamplona Filho/Marcelo Paulo)
Duas estrelinhas
surgiram no céu de nossa cidade!
Duas pequenas rosas nasceram
no jardim da felicidade!
Será que existe maior alegria
do que viver cada dia
na enorme expectativa
do momento de sua vinda?
Se uma só já seria amada,
recebermos duas na mesma fornada
é amor que não mede tamanho!
Venham ver como a vida é bela,
Giovanna e Gabriella
Chico Buarque de Holanda
Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dono dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a a enganar nuca me via
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Rodolfo Pamplona Filho
Eu preciso aprender
a viver só
e saber que o mundo
não existe por minha causa.
Eu preciso aprender
a viver só
e aprender que o silêncio
é melhor do que
o ruído incompreensível
Eu preciso aprender
a viver só
é enxugar cada lágrima
sem a ajuda
de quem quer que seja.
Eu preciso aprender
a viver só!
E só!
Miami, 29 de dezembro de 2017
Taumaturgo Vaz
Aqui na terra, desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Rodolfo Pamplona Filho
Amar não é suficiente,
se falta compreensão,
se falta atenção,
se falta audição.
Amar não é suficiente,
se falta empatia,
se falta poesia,
se falta harmonia
Amar não é suficiente,
se falta presença,
se falta crença,
se falta diferença
Amar pode ser tudo,
mas não é suficiente,
se não for tudo
para a gente.
Salvador, 08 de outubro de 2018.
Georgina Albuquerque
A estrada pertence ao homem que a ilumina
e busca dar certeza
aos passos que exercita afoito.
É também da mulher que aguarda dar à luz,
suor brotando meio ao sangue,
o seio pesado e entumescido
premiando a vitória do parir.
Cordões rompidos preservam resquícios,
rastros de passado na terra úmida;
frutos cobiçados, maturação alcançada,
choro irrompendo uma membrana fina.
Ainda que os mortos-vivos se levantem,
e cantem pela manhã os pássaros indiferentes,
o mundo é dos obstinados que se entregam,
e pensam que carregam o necessário dentro de si.
A chegada, porém, pertence ao homem corajoso,
aquele que despreza o tempo no afago à sua amada;
à mãe que sorri, indolente, noite enluarada,
e conta sempre ao filho coisas engraçadas.
Não precisa dormir, nem dar à luz, nem nada,
tampouco encenar uma vida agitada.
O final da rota é apenas o início,
um útero macio que comporta, aquecido,
a calma experiência de um viver fugaz.
Rodolfo Pamplona Filho
Vou mudar
minha cara,
minha casa,
minha fala
Vou mudar
meu endereço,
meu adereço
minha composição
Vou mudar
a minha postura.
a minha estrutura,
o meu caminhar
Vou mudar
tudo em mim
para poder
ser o mesmo para você.
Salvador, 14 de outubro de 2018.