segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Distância Aproximada

Distância Aproximada

Rodolfo Pamplona Filho
Tão longe, tão perto...
Quando me afasto
do seu olhar
é que consigo expressar
o mais puro dos sentimentos
que não quero esconder...

É estranho!
Ao ficar sem você,
fico mais perto
do que se estivesse aqui...
Pelo menos até
a oportunidade de rever...

Um dia, entenderei
porque a distancia aproxima
e a saudade reúne
o que deveria viver ao lado
em um eterno abraço apertado.

Belo Horizonte, 06 de junho de 2011.

domingo, 13 de novembro de 2011

Jeropiga com tremoços


Jeropiga com tremoços
                                                                                               Jairo Vianna Ramos

O Bar Recanto do Alentejo era quase centenário. Conservava as portas e janelas de madeira maciça, pintadas e repintadas de azul marinho, em contraste com as paredes brancas de sucessivas caiações. No salão, havia mesas com tampos redondos de mármore sobre a base de tripé, como quase não se via mais. As cadeiras antes eram de palhinha. Foram reformadas. Não havia quem fizesse a restauração da forma correta e com o material certo, por isso ficaram integralmente de madeira. O piso gasto, de cerâmica quadriculada, era mantido limpo e encerado e os azulejos brancos subiam até meia parede, com uma barra decorada, também de azul escuro, na junção da parte azulejada com a caiada.
                         Érico observava o ambiente como se o visse pela primeira vez. Assim fazia quase todos os dias, no tempo gasto com os passos incertos completados com a bengala, até chegar à mesa sagrada, a do canto. Na verdade, eram duas mesas ajuntadas. Faziam alegoria de um número oito, mas, na ótica de Heleno, seria um violão sem cabo. Ao redor, as sete cadeiras. As pequenas toalhas xadrez, colocadas em forma de losango, pareciam nunca terem sido trocadas, todavia estavam limpas, e os seis copos virados de borco cumprimentavam-no. Somente diante da sua cadeira o copo estava levantado. Sentou-se com dificuldade. Os joelhos davam-lhe a impressão de estarem cheios de grãos de areia. Estava com quase noventa.
                         Toninho se apressou em servir o velho freguês. Colocou sobre a mesa a dose de jeropiga e um pires com os tremoços.
                         — Bênção, padrinho!
                         — Deus te abençoe!
                         Érico fez um sinal de brinde aos copos de cerveja emborcados, como se fossem pessoas, e esboçou um sorriso.
                         Toninho não era afilhado de igreja, mas Érico e os companheiros da confraria eram chamados de padrinhos por ele, desde ainda rapazote. Retribuíam dizendo-o afilhado e se tornou hábito. Muitas vezes, como bons padrinhos, socorreram o atual dono do bar, dando-lhe conselhos valiosos ou arrefecendo eventuais arroubos da juventude. O moço se casara com uma bela mulata que morara no morro vizinho. Tinham um menino chamado Manoel Antônio. Esse chamava Érico de avô, abrindo-lhe o coração, apertado de saudade dos netos, depois que o filho se fora para o exterior levando a família.
                         Após a morte da esposa, Érico ficara sozinho. Alentava-se no calor da confraria e nas caraminholas interiores. O mundo imaginário e suas lentíssimas andanças pelas ruas do bairro, quase um périplo, por assim dizer, desafogavam-lhe a angústia dos dias parados.
                         Por mais que tentasse, Érico não lembrava como a turma se formara. Sabia que, em mil novecentos e sessenta, já haviam se apossado da mesa, de segundas a quintas. Isso porque houve grande discussão sobre a propriedade da mudança da capital para Brasília, que quase descambou em briga, e assim seria se não interviesse Heleno. Lembrava-se também de que o seu América havia conquistado o campeonato carioca, em jogo dramático, empatado com o Fluminense com um gol de beque, na época um absurdo. Estava quase certo de que fora em mil novecentos e cinquenta e cinco, porque se lembrava da gozação de Heleno, flamenguista convicto, pela derrota do time de predileção de Érico, na final do campeonato carioca, com quatro gols de Dida. Olhou o relógio para se certificar da pontualidade. Sete horas. Chegara no horário.
                         Pelo vão da porta, viu o movimento dos carros. Fazia calor. Antigamente passavam bondes por ali. Manoel, o pai de Toninho, era o dono do bar. A freguesia se compunha de gente distinta. O bairro era distinto. Um dos melhores, ou o melhor da zona norte. Fora nobre, mediano e agora era esquecido, embora guardasse provas da importância do passado.
                         Certo dia, Caio chegou engravatado, como de costume. Vinha do fórum, ou do escritório, ou de alguma delegacia, porque era advogado criminalista. Trazia no rosto um sorriso maroto. Tomou o seu lugar – de frente para a porta, pois dizia ter acumulado alguns inimigos e preferia morrer de frente para o assassino – e tirou da pasta de couro um calhamaço de papéis. Havia feito cópias em um mimeógrafo a álcool, conhecido por cachacinha. As letras azuladas denunciavam a impressão. Entregou um exemplar a cada um. Era o Estatuto da Confraria dos Trinta.
                         As reações dos leitores foram desencontradas no início. Houve quem reclamasse da burocracia ridícula, mas, ao alcançar cláusulas estapafúrdias, escritas com refinado humor, a turma se pôs a rir.
                         Alguns dos itens, em contrapartida, eram emocionantes. Tratavam de nuances da amizade e do companheirismo. Lágrimas contidas. Havia uma cláusula que anistiava Luizinho das dívidas junto ao bar. A confraria se responsabilizaria por elas e, daquele momento em diante, o confrade estaria livre de despesas, ganhara a condição de sócio remido. O beneficiário protestou. Queria a inclusão de uma salvaguarda, afinal poderia melhorar de vida. O impasse foi resolvido com o aceno de uma possibilidade futura de eventual reforma no diploma, se fosse o caso. O estatuto foi aprovado por aclamação.
                         Érico bebeu a jeropiga e fez sinal para Toninho. Disse baixinho, como se precisasse:
                         — Uma de casco escuro!
                         Toninho meneou a cabeça. A marca não fabricava cervejas de cascos claros há muito tempo. Érico percebeu os cabelos grisalhos do afilhado e sentiu o mundo lhe cair sobre as costas. Fitou os copos virados de boca para baixo. Lembrou-se das discussões entre os amigos por causa de política, futebol, concurso de misses, livros, carros e outros assuntos. Ouvia-lhes as vozes como se estivessem presentes. Todos estavam na casa dos trinta, embora alguns muito próximos dos quarenta. Daí vinha o nome da confraria. Um desavisado poderia supor serem trinta os membros, mas eram sete e, como dizia Hermes, as inscrições estavam definitivamente encerradas.  Érico, Luizinho, Solano, Heleno, Hermes, Caio e Péricles seriam os únicos confrades para todo o sempre.
                         Érico passou uma das mãos nos ralos cabelos brancos, piscou os olhos azuis, coçou o rosto rosado, salpicado pelas manchas senis, e se lembrou das discussões sobre futebol. Se o nome do Vasco fosse ao menos citado, Manoel, lá do balcão, disparava em arrastado sotaque lusitano:
                         — Casaca! Casaca! A turma é da fuzarca!
                         Alguns anos mais tarde, Manoel voltou para Portugal. Da família só ficou Toninho. Ao se despedir, disse que levava a tristeza de não ter feito do filho um vascaíno. O moço, desde menino, preferia o Fluminense. Érico pôs a culpa em Péricles, torcedor daquele time.
                          — Deve ter ameaçado o moço.
                         Péricles era detetive de polícia. Como gostava de trabalhar nos finais de semana e era solteiro, trocava os plantões com os colegas casados, para que esses pudessem ficar com a família, e assim, também, garantia a sua presença na confraria. Diziam ser exímio atirador e bom de briga. Mas era fino no trato, vestia-se com distinção e conversava bem. Tinha uma boa figura e sempre se questionou por que não se casara ou não namorava. Ele dizia que, nos finais de semana em serviço, arrumava uma mulherada danada e de graça. Defendia a incompatibilidade da profissão com o casamento.
                        — O tira fica de coração mole — ele dizia sem pestanejar.
                         Solano era dono de uma banca de jornal. Orgulhava-se ao expor a crônica semanal de Érico à vista dos fregueses, como se fosse de autoria própria. Ufanava-se daquela amizade. Estava sempre a par das notícias e trocava informações com o jornalista e radialista, pois Érico também tinha um programa matutino em uma rádio do mesmo grupo do jornal em que escrevia. Conversas sobre política e notícias não publicadas murcharam nos tempos mais duros da ditadura. Foram perseguidos: um pelo que escrevia e o outro pelas publicações passadas às escondidas aos fregueses simpatizantes da esquerda. Algumas vezes, Péricles acionou as suas amizades na polícia política para atenuar a situação dos amigos. Afora os sustos, nada passou de "prestações de esclarecimentos".
                         Heleno trazia em si a própria África. Na pele, na ginga e no ritmo. Compositor de sambas bonitos e mestre na mecânica de automóveis era procurado por gente de todas as classes e todos os carros. Com a substituição dos veículos importados pelos da indústria nacional, adaptou sua oficina e manteve a clientela. Um especialista no envenenamento de motores. Havia quem comprasse um carro novo e levasse para ele modificar. Curiosamente, não sabia dirigir. Somente manobrava os carros dentro do galpão. Apaziguador oficial da confraria, rusgas ele resolvia com a voz mansa e um samba tocado na caixinha de fósforos.
                         Sete horas da noite. Sete copos com jeropiga. Sete pires com tremoços. Nada de Luizinho chegar. O estatuto previa multa, em caso de não ser aceita a justificativa.  Caio, com voz empostada, como se estivesse no salão do júri, defendeu o atrasado, alegando que, se era remido, nada pagaria e não havia como se lhe impor uma multa calculada sobre o valor da conta, porque vinte por cento de zero é zero. Outros foram contra e a discussão se tornaria bulha, não fosse a intervenção de Heleno.  Decidiram beber a jeropiga sem Luizinho, já que muitos estavam sedentos e as cervejas viriam a seguir. O brinde com a jeropiga era como uma oração obrigatória.
                         Luizinho capengava da perna direita, porque havia sido colhido por um trem quando menino. Quase tiveram de amputar. Não foi preciso, mas os movimentos não se deram mais. A perna dura arrastada por Luizinho. Nunca conseguira emprego e vivia de vender bilhetes de loteria. Como Péricles, era solteiro e nunca arrumara namorada, mas não por falta de querer, como no caso do amigo. Morava em um barracão no fundo da casa do irmão mais velho, esse casado e pai de dois meninos adolescentes.
                         As garrafas de casco escuro chegaram à mesa simultaneamente com a notícia trazida pelo sobrinho. Luizinho havia morrido atropelado. Um carro em alta velocidade.  Tentara fugir arrastando a perna dura. Em vão. No dia seguinte ao do falecimento de Luizinho, criou-se a primeira emenda ao estatuto da Confraria dos Trinta. O morto não perderia o lugar na mesa. Quem viesse a morrer também não. O copo ficaria emborcado e a cadeira vazia, como se o falecido permanecesse no grupo. Solano, embora espanhol e dito comunista, tinha um naco umbandista e garantiu a presença do espírito do falecido nas reuniões dos confrades.
                         Hermes quase não falava. Bebia economicamente, como se desfrutasse cada gota da bebida, fosse cerveja ou jeropiga. Era o único a tirar as cascas dos tremoços antes de comê-los. Gostava de cozinhar e às vezes a turma se reunia em sua casa. Os casados levavam as famílias. Fazia uma invejável feijoada. Solano dizia ser ele tão preciso cozinheiro quanto farmacêutico. Dava à culinária o mesmo cuidado dispensado às fórmulas magistrais. A sua farmácia passava por um momento difícil, com as drogarias a se espalharem pelo bairro, após tomarem o mercado em outros pontos mais atraentes da cidade. Os médicos quase não receitavam mais fórmulas específicas.  Reduzia-se o espaço para farmacêuticos do seu naipe, capazes de fazer pequenas suturas e curativos cicatrizantes nas mais complexas feridas. Hermes curava corações partidos, como um dia Érico escrevera em uma crônica, depois de ver o efeito de uma conversa entre o farmacêutico e Solano, quando esse cismou de se separar da mulher.  Escreveu sobre certa fórmula do amor, depois achou piegas, mas o jornal saíra e não houve como voltar atrás.
                         Hermes deixou a confraria em vida. Mudou-se para o interior levando o seu negócio, porque, se ficasse, quebraria. Isso gerou, após uma semana de tristeza e um samba-canção meloso composto por Heleno, no qual rimava felicidade com amizade, nova questão de ordem estatutária a ser dirimida, como disse Caio. Talvez tenha sido essa a maior discussão entre eles, pois alguém sugeriu fosse eleito substituto. Copos e copos foram virados até a conclusão. Incluiu-se no estatuto uma norma pela qual o copo de Hermes ficaria na mesa, virado para cima, e o seu lugar preservado. Afinal, não se ausentara por querer, mas por contingência da vida. No mesmo aditamento, foi alterado, também com votos vencidos e protestos da minoria, o nome da confraria para Confraria da Jeropiga com Tremoços. Érico fora um dos opoentes à nova denominação e nunca mencionou a turma assim, usou sempre o nome antigo, "Dos Trinta".
                        — Isso é nome de bloco carnavalesco — dizia, a gesticular com os braços para cima e com os pés, como se sambasse.
                         Nem se passaram dois anos da mudança de Hermes e veio a notícia de sua morte. Um enfarto fulminante. Dormira e não acordara. Estavam todos na casa dos cinquenta, na ocasião. Érico, o decano, como dizia Caio, com quase sessenta. Fizeram uma oração diante do copo de Hermes, que foi virado, cerimoniosamente, de borco.
                         A confraria seguiu a tradição, agora com cinco componentes. Toninho chegou a pensar em pedir uma das mesas, para que o bar abrigasse mais fregueses, mas, ao iniciar o assunto, bastou o olhar de Péricles para que se calasse. Não havia, nem no Recanto do Alentejo nem nas redondezas, quem fosse capaz de puxar briga com o detetive, porque, apesar da idade, sobreviviam incólumes a mão firme e a valentia. Criar confusão com a turma da confraria era a última coisa que passava pela mente do dono do estabelecimento, já que era ingratidão pensar coisa assim. Nos altos e baixos do negócio, muitas vezes eles o sustentaram com a precisão no pagamento, isso sem contar alguns empréstimos salvadores nos tempos de inflação galopante e juros extorsivos. Vivos ou mortos, presentes ou ausentes, eram padrinhos, quase sócios e amigos, pensou o dono do Recanto, antes de dizer com as mãos postas e um sorriso nos lábios:
                          — Não está aqui quem falou. Esqueçam, por favor...
                         Logo mudou de assunto para o futebol, para agradar Péricles.
                         Érico aportou do passado e viu o copo esquentando sobre a mesa. Já não bebia como antes. Sorveu o restinho da jeropiga no copo menor, para puxar o sabor, e a seguir tomou a cerveja. Deu-lhe inesperada vontade de beber mais jeropiga. Fez sinal para Toninho. Não era o costume, mas costumes são para serem quebrados, pensou. O perplexo proprietário do bar trouxe a jeropiga e perguntou se queria mais tremoços. Diante do sinal negativo, apressou-se para trazer as sardinhas.
                         Érico olhou o lugar de Caio, o patrono dos pobres, como escrevera um dia em uma de suas crônicas. O seu pensamento se fez ao largo e ele navegou mais uma vez para o passado. Talvez o amigo advogado tivesse sido o grande aglutinador do grupo ao redigir o estatuto, cujo texto, inicialmente feito como brincadeira, tornou-se forte lei entre os amigos. Ninguém ousava desrespeitar as regras. As sardinhas inteiras no prato o fizeram lembrar que o advogado tinha o rosto parecido com a cara de uma delas. Nariz adunco, e olhos que pareciam saltar das órbitas. Durante certo tempo, Solano o apelidara assim. Como ele não ligava e chamava a si próprio pelo apelido de doutor Sardinha, a alcunha não pegou. Logo o assunto se desfez. Caio era capaz de usar terno completo, com colete e tudo, em pleno verão de quarenta graus, sem um pingo de suor na fronte. Dizia ser o termômetro da frieza necessária à sua profissão. E o pavor de ficar de costas para a rua era a única fraqueza demonstrada. Por ironia, morreu assassinado pelas costas. O viúvo de uma vítima de homicídio, cujo agressor Caio absolvera diante do tribunal do júri, usando e abusando de maledicências sobre a vítima, desferiu-lhe um tiro na nuca e outro nas costas, enquanto ele esperava para apanhar um táxi defronte do seu escritório.  O assassino não durou muito tempo. Logo foi encontrado, encurralado e morto pela polícia, após uma troca de tiros, como disseram os jornais. Desconfiava-se que Péricles tivesse agido pessoalmente no encalço, cerco e morte do homicida, mas sempre negava, se alguém perguntasse. Érico, com o poder de observação de cronista, tinha certeza da participação do confrade policial, que, embora já estivesse aposentado, continuava no ambiente da polícia e fazia investigações particulares com a ajuda de colegas da ativa. Mas era uma fé intuitiva. Nada dito ou percebido, apenas sentido.
                         Além das homenagens da emborcação do copo feita pelos amigos, com participação de alguns fregueses sabedores do falecimento do advogado, Solano mandou fazer em uma gráfica uma versão luxuosa do estatuto, para ficar eternizado o talento do amigo. A edição de um só exemplar foi depositada nas mãos de Toninho e posta em uma gaveta acessível a quem quisesse consultar.
                         A confraria, resumida a quatro membros, sobreviveu.
                         — A indissolubilidade é uma cláusula pétrea! — discursava um empolado Caio, no auge dos arremedos etílicos, quando ainda vivia.
                         Se a partida dos amigos "para as mesas do além", como dizia a letra de um samba de autoria de Heleno, entristecia os amigos viventes, também trazia força e inspiração para que continuassem unidos. Os mortos eram lembrados sempre e às vezes se tinha a impressão de estarem ainda vivos. Mas o falecimento de Caio causou em Péricles um efeito devastador.
                         Apanhado pela depressão, o detetive continuou a frequentar o bar, mas era como se fosse outro. Nem mesmo as vitórias do seu time e os abraços que Toninho lhe dava eram capazes de tirá-lo da postura triste. Nada lhe interessava. Heleno achava que ele se sentia culpado por ter matado o assassino de Caio, embora ninguém soubesse do acontecimento verdadeiro. Solano ralhava com o mecânico. Érico se preocupava com o emagrecimento galopante do amigo investigador. Afinal, era sozinho, sem quem lhe cuidasse.
                         Uma noite, Péricles não apareceu no bar. Heleno, o mais novo na ocasião, com sessenta e quatro anos, prontificou-se a ir à casa do investigador, localizada a duas quadras. Solano e Érico aguardaram ansiosos. O amigo voltou com a notícia da internação. Um vizinho o socorrera.
                         Péricles não voltou ao bar. Saiu do hospital morto. Fora vítima de um câncer só descoberto em estado terminal. Nada disse aos amigos, para lhes poupar a amargura.
                         Solano, Heleno e Érico fizeram a cerimônia da emborcação entre lágrimas. A velhice lhes amolecera os corações. Fizeram um pacto de não morrerem tão cedo.  Preservariam a memória dos finados a cada dia de encontro da Confraria dos Trinta, ou da Jeropiga com Tremoços. Não se importavam mais com nomes ou detalhes.
                         O pacto só não foi cumprido porque Heleno, aos setenta e seis anos, resolveu fazer algo inusitado. Com o crescimento da oficina, ele já não fazia o esforço de antes. Havia quem fizesse o serviço pesado. Apenas orientava e testava os motores de ouvido. Mesmo depois de se entender com as injeções eletrônicas, ele nunca havia dirigido para valer um veículo. Mas estava diante de uma obra prima. Um carro antigo com a lataria recuperada. Um motor aspirado, quase feito à mão. O ronco grosso e profundo. Não resistiu, tomou o volante, ganhou a rua e acelerou. A potência absurda impulsionou o veículo para velocidade estonteante e o experiente mecânico, inábil motorista, perdeu o controle do carro, que avançou de encontro a um poste. Isso a menos de trezentos metros da oficina. Morte instantânea, disseram os peritos.
                         Os remanescentes, Solano e Érico, fizeram a emborcação do copo de Heleno. Toninho se lembrou do "Samba das mesas do além" e cantou um trecho. Cinco copos emborcados. Jeropiga com tremoços. Cerveja casco escuro. Tristeza com saudade. Amizade e sinceridade. Abraçaram-se os confrades sobreviventes. Quem seria o próximo?  Quando? Até quando?
                         Érico e Solano, jornalista e jornaleiro, atravessaram a casa dos setenta e entraram na dos oitenta assíduos às reuniões daquela mesa mágica e cheia de histórias de camaradagem.
                         Aos oitenta e cinco, Solano morreu, vítima de um derrame. Um alquebrado Érico brindou a viagem do amigo para a mesa do além. Emborcação. Seis copos virados.  Sentiu vontade de viajar para a outra mesa, a do além. Lá decerto se encontraria com os amigos. Ririam, chorariam e se consolariam. Talvez voltasse à juventude.  Invejou os que partiram. Fez o brinde com o copo de dose de jeropiga e lhe deu a impressão de ver a aura de Solano saindo pela porta afora, para depois subir. Chegou a balbuciar para o amigo levá-lo consigo. Sentou-se à mesa e chorou como nunca, o peito apertado por ter ficado vivo.
                         De volta ao presente, Érico pediu outra dose de jeropiga. Era a terceira. Olhos lacrimejantes e rosto afogueado. Toninho se recusou a servi-lo, lembrando-lhe a idade e os cuidados com a saúde. O velho esbravejou. Reclamou do afilhado metido a dar ordens, mas obedeceu. Virou seu próprio copo de borco, levantou-se com dificuldade, apoiou-se na bengala e com passos miúdos atravessou o bar. Finalmente chegou à calçada, onde deu início à lenta caminhada.

sábado, 12 de novembro de 2011

Exemplo de Proatividade

Exemplo de Proatividade
O abacaxi é uma fruta que nos traz muitas lições. Veja!
Álvaro trabalhava em uma empresa. Funcionário sério, dedicado, cumpridor de suas obrigações e, por isso mesmo, já com seus 20 anos de casa. Um belo dia, ele vai ao dono da empresa para fazer uma reclamação:
- Meu patrão, tenho trabalhado durante estes 20 anos em sua empresa com toda a dedicação, só que me sinto um tanto injustiçado. O Juca, que está conosco há somente 03 anos, está ganhando mais do que eu.
O patrão fingindo não ouví-lo disse:
- Foi bom você vir aqui. Tenho um problema para resolver e você poderá fazê-lo. Estou querendo dar frutas como sobremesa ao nosso pessoal após o almoço hoje. Aqui na esquina tem uma barraca. Vá até lá e verifique se eles têm abacaxi.
Álvaro, sem entender direito, saiu da sala e foi cumprir a missão. Em cinco minutos estava de volta.
- E aí Álvaro? - perguntou o patrão:
- Verifiquei como o senhor mandou. O moço tem abacaxi.
- E quanto custa?
- Isso eu não perguntei não.
- Eles têm quantidade suficientes para atender a todos os funcionários? - Quis saber o patrão.
- Também não perguntei isso não.
- Há alguma fruta que possa substituir o abacaxi?
- Não sei não.
- Muito bem Álvaro. Sente-se ali naquela cadeira e me aguarde um pouco.
O patrão pegou o telefone e mandou chamar o Juca. Deu a ele a mesma orientação que dera ao Álvaro. Em oito minutos, o Juca voltou.
- E então? Indagou o patrão.
- Eles têm abacaxi, sim. Em quantidade suficiente para todo nosso pessoal e, se o senhor preferir, têm também laranja, banana, melão e mamão. O abacaxi estão vendendo a R$1,50 cada; a banana e o mamão a R$1,00 o quilo; o melão R$1,20 a unidade e a laranja a R$20,00 o cento, já descascada.
- Mas como eu disse que a compra seria grande quantidade, eles me concederão um desconto de 15%. Deixei reservado. Conforme o senhor decidir, volto lá e confirmo - explicou o Juca.
Agradecendo pelas informações, o patrão dispensou-o. Voltou-se para o Álvaro, que permaneceu sentado ao seu lado e perguntou-lhe:
-Álvaro, o que foi que você estava mesmo me dizendo?
- Nada sério não patrão. Esqueça. Com sua licença...
E o Álvaro deixou a sala.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Receita de Amor

Receita de Amor

Rodolfo Pamplona Filho

Para ter uma história sensacional,
não há script definitivo a seguir,
pois cada relação é individual
e não há uma trilha a repetir.

Todavia, é possível, mesmo assim,
até mesmo pela experiência,
fazer um passo a passo, sim,
de uma fórmula de convivência.

Se meu segredo eu fosse contar,
diria sinceramente que o essencial
para uma relação se concretizar
é encontrar um sabor especial.

A massa básica, para ser eficiente,
é o amor mais sincero somente,
mas isto só não é suficiente,
se faltarem outros ingredientes

Confiança no rosto!
Um molho de saudade!
Beijinhos a gosto
e abraços à vontade...

Desejo deve ser como queijo:
presente em toda parte...
Assim como o respeito,
que dá a liga em qualquer arte.

Uma pitada de ciúme é aceitável,
sem exagero para não desandar,
pois a compreensão é desejável
e a tolerância há de reinar.

Uma colher de chá de ousadia!
Polvilhe fortes emoções!
Espalhe um pouco de fantasia!
Gratine novas sensações!

Tempere tudo com afeto!
Coloque em fogo brando!
Misture no momento certo!
Aguarde enquanto vai dourando!

Aqueça sempre o relacionamento!
Resfrie todo ressentimento!
Descubra o prazer do sabor
de sua própria receita de amor.

New York, 16 de setembro de 2011.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Minimamente Feliz

Minimamente Feliz

A felicidade é a soma das pequenas felicidades. Li essa frase num outdoor em Paris e soube, naquele momento, que meu conceito de felicidade tinha acabado de mudar. Eu já suspeitava que a felicidade com letras maiúsculas não existia, mas dava a ela o benefício da dúvida.
Afinal, desde que nos entendemos por gente aprendemos a sonhar com essa felicidade no superlativo. Mas ali, vendo aquele outdoor estrategicamente colocado no meio de meu caminho (que de certa forma coincidia com o meio de minha trajetória de vida), tive certeza de que a felicidade, ao contrário do que nos ensinaram os contos de fadas e os filmes de Hollywood, não é um estado mágico e duradouro.
Na vida real, o que existe é uma felicidade homeopática, distribuída em conta-gotas. Um pôr-de-sol aqui, um beijo ali, uma xícara de café recém-coado, um livro que a gente não consegue fechar, um homem que nos faz sonhar, uma amiga que nos faz rir. São situações e momentos que vamos empilhando com o cuidado e a delicadeza que merecem as alegrias de pequeno e médio porte e até as grandes (ainda que fugazes) alegrias.
Contabilizo tudo de bom que me aparece, sou adepta da felicidade homeopática. Se o zíper daquele vestido que  adoro volta a fechar (ufa!) ou, se pego um congestionamento muito menor do que esperava, tenho consciência de que são momentos de felicidade e vivo cada segundo.
Alguns crescem esperando a felicidade com maiúsculas e na primeira pessoa do plural: Eu me imaginava sempre com um homem lindo do lado, dizendo que me amava e me levando pra lugares mágicos. Agora, se descobre que dá pra ser feliz no singular: 'Quando estou na estrada dirigindo e ouvindo as músicas que amo, é um momento de pura felicidade. Olho a paisagem, canto, sinto um bem-estar indescritível'.
Uma empresária que conheci recentemente me contou que estava falando e rindo sozinha quando o marido chegou em casa. Assustado, ele perguntou com quem ela estava conversando: Comigo mesma, respondeu. Adoro conversar com pessoas inteligentes.
Criada para viver grandes momentos, grandes amores e aquela felicidade dos filmes, a empresária trocou os roteiros fantasiosos por prazeres mais simples e aprendeu duas lições básicas: que podemos viver momentos ótimos mesmo não estando acompanhadas e que não tem sentido esperar até que um fato mágico nos faça felizes.
Esperar para ser feliz, aliás, é um esporte que abandonei há tempos. E faz parte da minha dieta de felicidade o uso moderadíssimo da palavra quando. Aquela história de quando ganhar na Mega Sena, quando me casar, quando tiver filhos, quando meus filhos crescerem, quando tiver um emprego fabuloso ou quando encontrar um homem que me mereça, tudo isso serve apenas para nos distrair e nos fazer esquecer da felicidade de hoje. Esperar o príncipe encantado, por exemplo, tem coisa mais sem sentido? Mesmo porque quase sempre os súditos são mais interessantes do que os príncipes; ou você acha que a Camilla Parker-Bowles está mais bem servida do que a Victoria Beckham?
Como tantos já disseram tantas vezes, aproveitem o momento, amigos. E quem for ruim de contas recorra à calculadora para ir somando as pequenas felicidades.
Podem até dizer que nos falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para nossos tempos. Que digam.
Melhor ser minimamente feliz, várias vezes por dia, do que viver eternamente em compasso de espera.

Leila Ferreira, jornalista

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Necessidade de Rebeldia

Necessidade de Rebeldia

Rodolfo Pamplona Filho

A ordem é ficar assentado
com cinto afivelado,
mas todo mundo levanta...

O comando é ficar calado
e prestar atenção ao quadro,
mas ninguém se concentra...

Quem, errado, recusa a reprimenda
guarda, em si, uma tremenda
carência de auto-afirmação

ou será apenas o pecado
de um ego inflamado
que insiste em ser diferente?

Talvez seja resistência de verdade
à qualquer tipo de autoridade
ou simples ausência de respeito...

Por isso, desconfie dos sintomas
de quem não consegue relaxar
com o que passo a relatar...

Um exemplo é quando
todo trânsito é um problema,
como qualquer estratagema...

Ou quando não consegue o ato
de deixar o celular desligado
no avião, aula ou reunião...

Negar o silêncio solicitado
em qualquer ambiente fechado
como se só você tivesse razão...

Talvez seja hora de pedir ajuda
psicológica ou outra terapia
para evitar a denúncia vazia

de quem não supera
a estranha anomalia
da necessidade de rebeldia
  



Belo Horizonte, 06 de junho de 2011.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Quem é o seu amante?

Quem é o seu amante?

(Jorge Bucay - Psicólogo)

"Muitas pessoas tem um amante e outras gostariam de ter um. Há também as que não tem, e as que tinham e perderam".

Geralmente, são essas últimas que vem ao meu consultório, para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insônia,apatia, pessimismo, crises de choro, dores etc.

Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar seu tempo livre.

Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança.

Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme:

"Depressão", além da inevitável receita do anti-depressivo do momento.

Assim, após escutá-las atentamente, eu lhes digo que não precisam de nenhum anti-depressivo; digo-lhes que precisam de um AMANTE!!!

É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem meu conselho.

Há as que pensam:

"Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa dessas"?!
Há também as que, chocadas e escandalizadas, se despedem e não voltam nunca mais.

Aquelas, porém, que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico o seguinte:

"AMANTE" é aquilo que nos "apaixona", é o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono, é também aquilo que, às vezes, nos
impede de dormir.

O nosso "AMANTE "é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e amotivação da vida.

Às vezes encontramos o nosso "AMANTE" em nosso parceiro. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer obsessivo do passatempo predileto....

Enfim, é "alguém!" ou "algo" que nos faz "namorar a vida" e nos afasta do triste destino de "ir levando"!..

E o que é "ir levando"?

Ir levando é ter medo de viver. É o vigiar a forma como os outros vivem, é o se deixar dominar pela pressão, perambular por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastar-se do que é gratificante, observar decepcionado cada ruga nova que o espelho mostra, é se aborrecer com o calor ou com o frio,com a umidade, com o sol ou com a chuva.

Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão, de que talvez possamos realizar algo amanhã.

Por favor, não se contente com "ir levando"; seja também um amante e um protagonista ... DA SUA VIDA!

Acredite: O trágico não é morrer, afinal a morte tem boa memória, e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver...

Por isso, e sem mais delongas, procure algo para amar...

A psicologia após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:

"PARA ESTAR SATISFEITO, ATIVO E SENTIR-SE JOVEM E FELIZ, É PRECISO NAMORAR A VIDA!!!!!

domingo, 6 de novembro de 2011

Desejo II

Desejo II

Rodolfo Pamplona Filho
Preciso de você aqui me esquentando...
Adoraria agarrar seu corpo no friozinho da noite escura...
Deitar por cima de você, beijando sua nuca e cheirando sua pele...
Entrelaçar seus cabelos nos pelos do meu peito...
Você pergunta como agüento o fogo que carrego dentro de mim?
É fácil como respirar...
Não se lamenta o que se deseja...
Não se chora pelo que se clama...
Não se vive sem quem se ama...

Belo Horizonte, 06 de junho de 2011.

sábado, 5 de novembro de 2011

O orador mudo

O poema abaixo deve ser lido, preferencialmente, enquanto é tocada a obra "O canto do cisne negro", de H. Villa-Lobos.
http://www.youtube.com/watch?v=LKYbyJzOFuY&feature=related
Feliz Natal
José Antonio


O orador mudo

Todas as manhãs ele acordava antes do amanhecer...

Lia, relia, estudava cada vírgula de seu discurso
Olhava para o espelho para verificar a pantomima
Cada detalhe. Cada verbo. Cada advérbio.

Saía, assim que a claridade dominava os esconderijos
Mais calados e esquecidos daquele denso povoado.
Dirigia-se, todos os dias, com seu escrito lapidado e,
Religiosamente, no mesmo horário, apresentava-se à platéia

A multidão ao seu redor prostrava-se, silente;
Encantada com a performance do orador
Inebriada de seus gestos, de seus passos, de suas expressões,
Do tom laudatório e do panegírico que ele fazia
Em todos os dias santos; em todos os santos dias

Dos seus gestos, apresentava-se um mundo novo
Cheio de viço e de bondade, de festa e felicidade.
A sua verve era incendiada pelos calorosos aplausos
De todos os ouvintes extasiados com o seu desempenho

Ao final do discurso, as palmas se misturavam
Às sonoridades do ambiente. Buzinas, Sirenes,
Gritos, tiros, lamentos e canções dissonantes...

No arrebol, retornava ao lar. Jamais fora compreendido.

Manaus, 23/dezembro/2010.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Soneto do Palhaço (Para Selton Mello)

Soneto do Palhaço (Para Selton Mello)

Rodolfo Pamplona Filho

A crise acompanha quem pensa
e não simplesmente habita
um mundo de gente tensa
que apenas leva a vida...

Eu quero me arriscar
e saber que pude tentar
outra via, sem medo de errar,
mesmo que eu venha a chorar...

Há horas em que o tempo mente
e tudo que se quer é um beijo
ou o mais intenso abraço

O gato bebe leite
O rato come queijo
Eu sou palhaço 

Salvador, 03 de novembro de 2011.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O CORDEL DESENCANTADO

O CORDEL DESENCANTADO
Sergio Gomes


>Se falo certo,
>Tô errado,
>Se falo errado,
>Tô diplomado,
>Porque nesse Brasil,
>O bom é ser analfabetizado?
>Se sou hetero,
>tô errado,
>Se sou gay,
>Tô valorizado,
>Porque nesse Brasil,
>Anda tudo meio afrescalhado?
>Se elogio uma mulher,
>É assédio, tô errado,
>Mas, se ignoro, coitado
>Tô lascado, me chamam de viado
>Porque nesse Brasil,
>Anda tudo muito politizado?
>Se faço brincadeira na escola,
>Tô errado,
>Se não faço, fazem comigo
>Tô lascado,
>Porque nesse Brasil,
>Anda tudo bullynguizado?
>Já não sei o que fazer,
>Se posso me virar ou me mexer,
>Se devo andar de frente ou de lado,
>Êta paisinho de merda danado!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

gênesis

gênesis 
                                         j.l. rocha do nascimento
no princípio foi o verbo
e o verbo era sonhar
no entremeio surgiram os olhos
que se fitaram escorregadios
até que parados brilharam
em seguida disseram como se palavras fossem
até  que mar adentro penetraram  a ante-sala da alma
foi quando veio o abraço
e ele foi terno
por fim veio o beijo
e o ele foi eterno.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Se hoje eu for embora...

Se hoje eu for embora...

Rodolfo Pamplona Filho

Se hoje eu me for,
eu deixaria algum torpor?
Seria eu um sorriso apagado
ou apenas um nome do passado?

O que realmente ficaria
de bom ou de ruim
na mente de cada alma fria,
que, um dia, passou por mim?

Seria eu uma boa lembrança,
uma nota digna de marca,
a concretização de uma esperança
ou um registro feito à faca?

Jamais haverá efetiva convicção,
mesmo que haja desconfiança,
de qual será a derradeira lição
de qual será a nossa herança...

Pode-se deixar alivio ou saudade,
mas nunca sequer saberemos,
pois o que se deixa à posteridade
é somente a vida que vivemos....

Salvador, 23 de outubro de 2011.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

PODER


PODER
Marta Torres

A gente sabe o que a gente quer
A gente quer o que a gente procura
A gente procura o que a gente gosta
A gente gosta do que a gente sabe
A gente quer o que a gente gosta
A gente sabe o que a gente procura
A gente procura o que a gente quer
Gostar, querer, saber... poder.

Março - 2006

domingo, 30 de outubro de 2011

Treino de Boxe

Treino de Boxe

Rodolfo Pamplona Filho

Hoje é dia de treino de boxe!
Você não tem idéia do prazer,
que ê colocar para fora
tudo que teve de conter,
socando a não mais poder
para descobrir seu verdadeiro ser!

Colocar roupa de treino,
bandagens e luvas...
Talvez uma bandana, lenço
ou elástico para quem
tem cabelo grande...
Sapatilhas e meiões...

Aquecimento
Alongamento
Esticar músculos
para não lesionar
Pular corda
Socar saco de areia,
torre de combate
ou o velho Bob...

Jab, direto,
Cruzado, direto,
Gancho, gancho,
Cruzado, upper
Esquiva lateral
ou o que mais puder no final.

Armas de marca
ou feitas no Taboão:
o que importa, de fato,
é sentir a emoção...
O que é luta vira diversão!
O que é condicionamento físico
transforma-se em higiene mental!

Combinação de golpes
na Escolinha ou sombra solta
ou se entregar totalmente
no Circuito, verdadeiro rally!
Esporte nobre
Combate limpo
Regras claras
Respeito na cara.

Pura catarse! Necessidade!
Treinar em sombra ou combate...
Encontrar colegas
que se convertem em amigos
e amigos que viraram família
"só tem energia
quem gasta energia"
é a senha para viver melhor a vida...

Salvador, 27 de setembro de 2011.

sábado, 29 de outubro de 2011

NA AREIA DO TEMPO...



NA AREIA DO TEMPO...

Genesio Vivanco Solano Sobrinho

 


Na ampulheta,
Marcando o tempo,
A areia cai sem cessar.
Espero, findo o movimento,
Tudo acabar, mas não quero.
Enquanto isto
O tempo passa, incessante,
E nada o poderá deter.
Que fazer?
Apenas pensar, não mais que em um momento,
que não quero esquecer.
Por isso, o registro e
Enquanto a memória puder,
Durante o tempo que me restar,
Tudo farei para revivê-lo.
A areia cai, o tempo passa...
Em que estou a pensar?
Passado, presente, futuro...
Três formas distintas
De ver o tempo correr.
Passado outra coisa não é
Senão o que foi esperança,
E nada restou além de ilusão...
Presente, não sei se fruto
Da esperança, ou apenas sensação.
Do futuro, não sei dizer.
Este dependerá do que hoje acontecer.
Será de esperança
Ou nova frustração?!
Só sei de uma coisa,
E isso posso afirmar:
O que sinto é presente,
Não sei se por saudade
Ou simples emoção.
Do alto desta janela,
Em que vejo a vida passar,
Olhando o firmamento  
E as estrelas a brilhar,
Nada mais desejo
Antes da areia do tempo recair,
Senão, por um minuto que seja,
Rever o brilho dos olhos dela,
Que nas estrelas não vejo...
__._,_.___

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

MATEMÁTICA DE MENDIGO

MATEMÁTICA DE MENDIGO

Tenho que dar os parabéns ao estagiário que elaborou  essa pesquisa, pois o resultado que ele conseguiu obter é a mais pura  realidade..

Preste  atenção!!
Num sinal de trânsito muda de estado em média a cada  30 segundos (trinta segundos no vermelho e  trinta no verde).
 Então, a cada minuto um  mendigo tem 30 segundos para pedir a 5 motoristas
e receber pelo menos de dois deles R$ 0,20 e faturar em media pelo menos R$ 0,40 o que numa hora dará: 60 x R$ 0,40 =  R$ 24,00.
Se ele trabalhar 8 horas por dia, 25 dias por mês, num mês terá  faturado: 25 x 8 x R$ 24,00 = R$ 4.800,00.
Será  que isso é uma conta maluca?
Bom, R$ 24,00 por hora é uma conta bastante razoável  para quem está no sinal,
uma vez que, quem doa nunca dá somente R$ 0,20 e sim R$ 0,30, R$ 0,50  e  às  vezes até R$ 1,00.
Mas tudo bem, se ele faturar a metade: R$ 12,00 por hora terá R$ 2.400,00 no final do mês.
Ainda  assim, quando ele consegue uma moeda de R$ 1,00 (o que não é raro),
ele pode até descansar tranquilo debaixo de uma árvore por mais 9 viradas do sinal de trânsito,
sem nenhum chefe para lhe censurar por causa disto.
Mas considerando  que é apenas teoria, vamos ao mundo real.
De posse destes dados fui entrevistar uma mulher que pede esmolas,
e que sempre vejo trocar seus rendimentos numa conceituada padaria.
Então  lhe perguntei quanto ela faturava por dia. Imaginem o que ela respondeu?
É isso mesmo!! De R$ 120,00 a R$ 150,00 em média,
o que dá (25 dias por mês) x R$ 120,00 = R$ 3.000,00.
E ela disse que não mendiga 8 horas por  dia.

Moral  da História.
É  melhor ser mendigo do que estagiário (e muito menos PROFESSOR),
e pelo visto, ser estagiário e professor, é pior que ser mendigo...
Se esforce como mendigo e ganhe mais do que estagiário ou professor!!
Estude a vida toda e peça esmolas.
É mais fácil e melhor que arrumar emprego.

E  lembre-se...
Mendigo não paga 1/3 do que ganha ao governo.

Viva a matemática!!!!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Pauta

Pauta

Rodolfo Pamplona Filho

Pauta livre
Pauta cheia
Pauta firme
Pauta feia

O tempo não para no horizonte
e a pauta não cessa também...
Como água que cai do monte,
sem ver onde, quando ou a quem...

A agenda vai tarde...
É outro compromisso...
Mais uma atividade
Ou um novo feitiço?

Pauta Prostituta:
é quase uma sina...
Tudo a ver com a luta
e o trabalho das meninas..

Para umas, um tormento,
Para outras, diversão
A diferença entre pressão
Ou mesmo obrigação...

Umas não cobram raro
Outras pedem caro
Há quem faça até por amor...
Será que você já pensou?

Haverá alguma diferença
entre quem tem a crença
ou quem se joga sem fé?
Não sei a resposta qual é...

Será que sou apenas um peão
a vender o seu inestimável tempo
e, a baixo preço, seu parco talento
pela necessidade de atenção?

E a pauta continua...


Belo Horizonte, 06 de junho de 2011.