sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Lembrança


Cláudia Barral





Te amo como a moça que arde em febre e não dorme

Por longos corredores desertos

Antes mesmo de te amar

Como a um filho

Como a um irmão

Como alguém partindo em breve

Como é o consentir

Como o momento em que acaba a missão de esperar

Como o sol nos pátios dos sanatórios, dos presídios e

            [entre rostos de vidro dos santos das catedrais

Como se sua voz fosse a luz

Como alguém que acabou de dar-se conta que é feito

                                              [somente de lembranças

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Musicando a Tristeza


 Rodolfo Pamplona Filho






Musiquemos a sensação...

A tristeza é inspiração...

O que machuca também ensina

e o sofrimento não precisa

ser uma eterna sina...

Somos movidos  a amor

e - porque não dizer? - a dor...

Somos o Som e a Dor...




Brasília, 14 de março de 2013.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Noite morta

 Manuel Bandeira


Junto ao poste de iluminação

Os sapos engolem mosquitos.



Ninguém passa na estrada.

Nem um bêbado.



No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.

Sombras de todos os que passaram.

Os que ainda vivem e os que já morreram.



O córrego chora.

A voz da noite . . .



(Não desta noite, mas de outra maior.)



Petrópolis, 1921

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Momentos Felizes


 Rodolfo Pamplona Filho




Quando estamos tristes,

lembranças felizes 

nos fazem seguir,

mesmo que não saibamos

para onde vamos.




Quando estamos para baixo,

memórias felizes

nos fazem sorrir,

mesmo sem muito tempo

para respirar 




Quando estamos depressivos,

momentos felizes 

despertam a sensação 

de que, em algum lugar do passado,

já houve esperança de um futuro melhor.




Terça-feira, 10 de novembro de 2020

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Vaidade

 Florbela Espanca



                                         

Sonho que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade !



Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo ! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade !

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !



Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a Terra anda curvada !



E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...



Livro de mágoas (1919)

domingo, 25 de setembro de 2022

Ritmo da Vida


 Rodolfo Pamplona Filho




Não é o ritmo da vida

que me incomoda:

é o corte abrupto no final.






Praia do Forte, 03 de agosto de 2013, lendo Calvin...

sábado, 24 de setembro de 2022

SONETO


Rubem Braga





E quando nós saímos era a Lua,

Era o vento caído e o mar sereno

Azul e cinza-azul anoitecendo

A tarde ruiva das amendoeiras.


E respiramos, livres das ardências

Do sol, que nos levara à sombra cauta

Tangidos pelo canto das cigarras

Dentro e fora de nós exasperadas.


Andamos em silêncio pela praia.

Nos corpos leves e lavados ia

O sentimento do prazer cumprido.


Se mágoa me ficou na despedida

Não fez mal que ficasse, nem doesse –

Era bem doce, perto das antigas.

(1947)

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Má Vontade


 Rodolfo Pamplona Filho




Má vontade é tudo de ruim!

É muito difícil lidar 

com quem se acha com razão 

e não dá espaço 

para fazer outra programação




Má vontade é uma droga!

Não há como conversar 

com quem não admite repensar 

a atitude tempestuosa

que somente tem o dom de perturbar 




Má vontade é uma praga!

Só dá mesmo para lamentar 

a empáfia de quem tem certeza 

de que todo erro é alheio

e todo mau resultado não é sua culpa.




Má vontade é uma merda, viu? 




Salvador, 05  de novembro de 2020 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

RETROSPECTO

Humberto de Campos




Vinte e seis anos, trinta amores: trinta

vezes a alma de sonhos fatigada.

e, ao fim de tudo, como ao fim de cada

amor, a alma de amor sempre faminta!

 

Ó mocidade que foges! brada

aos  meus ouvidos teu futuro, e pinta

aos meus olhos mortais, com toda a tinta,

os remorsos da vida dissipada!

 

Derramo os olhos por mim mesmo... 

E, nesta muda consulta ao coração cansado,

que é que vejo? que sinto?  que me resta?

 

Nada: ao fim do caminho percorrido,

o ódio de trinta vezes ter jurado

e o horror de trinta vezes ter mentido!

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

O Ocaso


 Rodolfo Pamplona Filho


Dos dias

Do calor

Das vidas

Do amor

De nada

De tudo

Do nada

Do mundo






Bogotá, 05 de outubro de 2013, em conexão para o Brasil, olhando o entardecer...


terça-feira, 20 de setembro de 2022

Lembrança

 Oswald Barroso





A lua te recordará

a branca noite

em que ela se despiu

e, vermelha,

se fez cúmplice

do nosso amor.


O mar te lembrará

nosso costume

de caminhar nas tardes

até o horizonte,

pois que o mar

também é cúmplice

dos namorados distantes.




E quando vires, amor,

num vão de céu

uma estrela,

tu não chorarás,

porque, então,

aprenderás o meu caminho.




Mas, quando o povo

andar triste pelos becos,

tu saberás do meu luto

e sentirás a dor

da dura separação.



Porém, se a multidão

ensaiar um canto,

tu saberás do meu riso

e nela me encontrarás.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Muzuá, Puçá e Caçuá


 Rodolfo Pamplona Filho




Muzuá é a armadilha,

que espera sua vítima 

ou decora uma casa;


Puçá é a rede 

que impede o siri 

de se desvencilhar;


Caçuá é o cesto

que transporta a cangalha 

no lombo de um jegue:


Muzuá, Puçá e Caçuá,

três formas de entrelaçar 

o que o destino proporcionar.




Salvador, 02  de novembro de 2020

domingo, 18 de setembro de 2022

Cinzas


Heitor Lima



A última brasa ardeu na cinza adusta:

Tudo passou, tudo se fez em poeira...

E na minha alma, que o abandono assusta,

Morre a luz da esperança derradeira.


O amor mais casto, a aspiração mais justa

Têm a desilusão para fronteira...

Um momento de sonho às vezes custa

O sacrifício da existência inteira!



Chama efêmera, o amor! Baldado surto,

A glória! Ah! coração mesquinho e raso...

Ah! pensamento presumido e curto...



E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,

— Tudo se perderá no mesmo ocaso

E se confundirá na mesma ruína.

sábado, 17 de setembro de 2022

Gratidão


 Rodolfo Pamplona Filho




Gratidão não se exige,

não se pede, nem se espera...

É presente de um coração puro,

que não vê outra forma de agir,

na memória da marca do passado

e do alívio do auxílio no desespero...




Por isso, a ingratidão machuca

como punhaladas nas costas,

como um tapa no rosto,

como uma dor fatal no peito...




O ingrato merece mais do que repúdio:

é pena de morte no coração,

que se fecha em uma ferida purulenta,

cujos bálsamos somente são

o ostracismo ou a ressurreição do perdão...




Reconhecer-se grato é o exercício da verdadeira humildade,

que é saber que, sozinho, não se consegue nada,

pois conquistas isoladas são vitórias de Pirro,

em que obter o resultado não significa necessariamente desfrutá-lo...




Gratidão é a resposta sincera

que o afeto exige por coerência!


É a marca que renova a esperança,

que não é a última que morre, posto imortal,

mas, sim, a certeza de que

ainda se pode ter fé na humanidade




Maceió, 03 de setembro de 2010

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Tântalos

 Inácio Raposo




Não pode ter de certo os olhos sempre enxutos

Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:

Sedento — vê debalde um córrego infinito;

Faminto — vê debalde os floridos produtos!...

Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,

Leve talvez pareça um bárbaro delito!...

Foge sempre a torrente ao mísero precito

E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!



Há Tântalos também na vida transitória:

Querem estes a lympha e os pomos do talento,

E morrem no hospital para viver na história.



Desditosos que são... no malogrado intento!...

Longe de haverem ganho os loiros da vitória,

Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Para um amor secreto


 Rodolfo Pamplona Filho




Querido

Você nem imagina como estou ligada em você...

Você nem imagina como estou ligada a você

Eu me emociono só de pensar

em como seria maravilhoso

ouvir nossas musicas com você...




Descobrir sua essência, além da casca,

fez despertar o amor e a ansiedade de estar perto.

Quero ficar com você em meu colo, vendo o por do sol até a lua iluminar sua face...

Quero fazer um cafuné, deslizando minha mão sobre seus cabelos, ate sentir sua pele...

Quero beijar seu rosto delicadamente, ate fazer você acreditar que não está sonhando...

Quero até mesmo brigar com você, só para ter o prazer da reconciliação...




Você tem um efeito perturbador em mim...

É um sentimento forte, que toma todo meu pensamento...

que me anestesia em alguns momentos

quando imagino nossas vontades reunidas...


E a única coisa que me faz melhorar é chorar...

mas é um choro de alívio e de esperança

de que, algum dia, poderemos

rir juntos e felizes...

...apenas por estar pertos um do outro.

...e você tentar me calar...

...e eu continuar falando que nem uma matraca...

...e você rir porque se diverte comigo...

...e porque não consigo disfarçar

meu nervosismo

de ter transformado

essa fantasia em realidade...




Você é parte de mim,

não como um agente externo,

mas como um complemento de mim mesmo.


Nosso amor não tem amarras, nem barreiras...

e é como um primeiro namoro...

no qual ficamos ávidos por um contato...

na palavra e no carinho...

Não consigo mais pensar na minha vida sem ter você.




Você está fora de todo tipo de definição.

Não posso dizer que é meu amigo,

nem amante, nem ficante,

nem pretendente, nem confidente...

não há rótulos....

Não somos nada disso e, dificilmente, alguém compreenderia esta relação.

Ela está fadada a permanecer apenas na publicidade de nossas almas e corações.




É como se você fosse eu...

como se meu pensamento estivesse em você.....

Por isso que me completa....

e ninguém me entende...

então ninguém entenderia você, dessa forma, na minha vida...




San Francisco, 25 de setembro de 2010.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Tietê

Ieda Estergilda




No caldo grosso do rio

derramei lágrimas de tristeza e mágoa

pela águas urbanas, paulistanas, devastadas.

Ontem peixes e barcos, hoje leito fedido

na capital

esse rio vive além da lama

dos cadáveres encalhados

dos esgotos que desembocam nele

esse rio em que acredito

pois salvar é coisa dos homens

mesmo que tarde.


Um rio

é uma beleza, um ser

o Tietê é uma beleza ferida

uma ferida que brilha

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Saudades

 Rodolfo Pamplona Filho




Saudades...

Sinto saudades...

Saudades

de teu carinho,

de teu beijo,

de teu corpo,

de teu sexo,

de tudo que te faz só ti,

de tudo que te faz só minha,

de tudo que me faz só teu...


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

O Parto

 Nauro Machado






Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.

Mas eu quero e é necessário

que me sofra e me solidifique em poeta,

que destrua desde já o supérfluo e o ilusório

e me alucine na essência de mim e das coisas,

para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,

trazer-me à tona do poema

com um grito de alarma e de alarde:

ser poeta é duro e dura

e consome toda

uma existência.

domingo, 11 de setembro de 2022