sexta-feira, 18 de abril de 2014

Poetas

Poetas

Rodolfo Pamplona Filho
Poetas
Poetas vivem
Poetas vivem no mundo
Poetas vivem em um mundo paralelo:
o mundo das percepções subjetivas,
observações iluminadas
por um olhar diferenciado.
E é ai que está
todo o sentido da poesia...
Tornar o feio, bonito;
o inútil, útil;
o certo, duvidoso;
o duvidoso, certo;
o morto, vivo ou redivivo...
Salvador, 27 de maio de 2013, segunda-feira,

em um engarrafamento monstruoso na Av. ACM.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

As Dores de Soledade


As Dores de Soledade

Dele ela somente via a nuca. Queria ver o rosto, mas chegara tarde, por causa da demora do ônibus. O salão estava cheio, acomodara-se na última fileira. No ambiente, havia um cheiro de ódio. Maria da Soledade rescendia a amor. Ela estava louca de vontade de abraçar o filho, dar-lhe um beijo e perdoá-lo pelo feito ou não feito, porque pouco entendia dos acontecimentos. Ouvira falar que o filho sumido, agora aparecido, seria julgado por ter cometido um crime. Devia ser um engano e assim pensava com fé.
          Soledade e José tinham duas filhas. Sonhavam com um menino. Quando José Alfredo nasceu, o pai se orgulhou por breve tempo, mas logo substituiu esse sentimento por preocupação. Soledade, entretanto, acreditava ter recebido um chamado de algum lugar ignorado, para que colocasse as suas moléculas, átomos e poros a serviço daquele a que acabara de dar à luz. Os médicos lhe disseram que era pouca a chance de o menino sobreviver, só milagre o salvaria. O marido aconselhou que ela não se envolvesse tanto com o quase morto, para evitar dor maior. Mas a mulher não ouviu ou não quis ouvir e debulhou lágrimas e orações.  E, se milagre foi, não se sabe. Ao cabo de poucos dias, os médicos deram alta ao menino. Soledade levou o "embrulhinho" para casa. Era muito pequeno e frágil. Então, ela lhe deu do peito leite, amor e esperança. O menino vingou – como diziam as vizinhas – contra os prognósticos. Em pouco tempo, em peso, altura e aparência, não se diferenciava dos outros da idade. Porém cresceu esquivo, calado, introvertido e demonstrava, desde muito novo, certa crueldade, traduzida na mania de esmigalhar formigas e outros bichos do quintal.
          Quando José Alfredo fez oito anos, o pai morreu em um acidente do trabalho. Como além do serviço na fábrica José fizesse uns bicos como carpinteiro, a pensão que a família passou a receber era insuficiente para as despesas da modesta casa. Soledade foi trabalhar de faxineira. As filhas cuidavam de sua casa e ela da dos outros. O pouco tempo que lhe sobrava era gasto em mimos com o filho nascido quase morto.
          Talvez pelo seu jeito calado, José Alfredo foi perseguido por uma turma da escola. Eram seis meninos mais velhos. Rasgavam-lhe o uniforme e lhe batiam. Soledade não vencia as costuras de remendos. Passado certo tempo, chegou-lhe a notícia de que um deles havia sido espancado e estava no hospital. Havia quem jurasse ser obra de José Alfredo. Um por um, os agressores foram agredidos. Um deles teve a perna partida em vários lugares a golpes de barra de ferro. Outro ficou internado vários dias no hospital, com o crânio quebrado a pedradas. Havia o que entrara em coma, depois de ter grande parte do corpo queimado. Os demais sérias escoriações. Aqueles que conseguiam falar acusavam José Alfredo.  Esse negou com poucas palavras. Ninguém presenciara. Tudo bem planejado e no momento certo. Soledade preferiu acreditar no filho e o absolveu. O amor ofuscante de Maria a impedia de ver a gravidade da situação. Acarinhou o filho, em vez de repreendê-lo. Tratou-o como se fosse ainda o bebê do embrulhinho.
          Ele estava com dezessete quando sumiu. Nem avisou, nem deixou pista.
          O filho no banco dos réus.
          O homem de roupa preta apregoava, com voz de artista de televisão, as malfeitorias de Caladão, alcunha do meliante no submundo do crime.
          Soledade se negou a acreditar nas filhas quando elas lhe disseram ter vergonha de serem irmãs de Caladão. Não acreditara que o abominado bandido pudesse ser o seu filho. Recusava-se a ver os jornais exibidos por elas, se bem que, uma vez, olhou de relance um desenho em um deles e o homem retratado lembrava José Alfredo.  Havia mais de quinze anos que não o via. Pensou que talvez houvesse morrido, porque, em todo esse tempo, não lhe mandara notícia alguma.
         Ao ver a nuca do réu, teve certeza de quem era. Queria apertá-lo nos braços, homiziá-lo no seu colo, levá-lo consigo para sempre e terminar sua obra de mãe, tornando-o bom e caridoso.
          O homem de roupa preta dizia algumas palavras que ela não entendia. Parecia um linguajar estrangeiro. Outras, porém, ela conhecia muito bem. Ele queria trancafiar o seu filho por anos a fio. Dizia que o julgamento daquele dia, de um homicídio no qual o réu havia matado a amante com quarenta e seis facadas, era apenas um caso, porque a lista de malfeitorias era interminável.
          O homem falava bonito. Era moço e poderia ser seu filho também. Sentiu simpatia por ele e começou a acreditar no que dizia. Isso lhe trouxe aperto no peito e umidade nos seios secados na ânsia de salvar o bebê.
          Outro homem de preto tomou a palavra. Dizia ser o defensor do réu e pedia sua absolvição. Parecia se desculpar por fazer aquilo. Disse coisas que Soledade não entendeu e outras que a revoltaram. O homem estava, na verdade, acusando a ela por falta de atenção e carinho. Falava de um menino abandonado à própria sorte e que delinquira por culpa da família e da sociedade. Merecia absolvição ou atenuação da pena do crime passional que cometera, movido por violenta emoção provocada pela vítima.
          Soledade percebeu a confissão e a desculpa esfarrapada. Sentiu-se derrotada. Todo o esforço para trazer o filho à vida e nela mantê-lo. Agora, era acusada de levá-lo ao crime. O primeiro homem que falara devia ter razão. O filho transformara-se em um monstro desalmado. Ela já não queria beijá-lo nem levá-lo consigo.  Queria dar-lhe a sova não dada ao tempo certo. Relembrou o passado. Percebeu que José Alfredo, agora alcunhado de Caladão, jamais gostara dela e das irmãs. Pareceu-lhe que ele vivera a infância esperando o momento de partir e as usara como se fossem objetos, enquanto delas precisara. Lembrou-se dos bichinhos esmigalhados no quintal.
          O acusador com cara de ator de novela retomou a palavra. Ele pegou um papel e começou a ler o rol dos crimes praticados por Caladão. Os mais torpes eram seguidos de uma descrição detalhada. Assim foi feito no caso em que o réu assassinara aos poucos uma idosa diante do marido, para que ele dissesse onde estaria escondido um dinheiro que não tinha, e depois matara o velho. Também detalhou o caso da menina estuprada e depois morta diante da mãe e ainda o do menino sequestrado de quem o réu cortara dedo a dedo e remetera à família para exigir o resgate, subindo o preço a cada concordância com a remessa de outro dedo. A família conseguiu o dinheiro e entregou a Caladão. No local onde deveria ser encontrado o menino, estava o seu cadáver. As mãos sem dedos. O promotor continuou a narrar os crimes e, a cada detalhe dito pelo acusador, Soledade sentia um nó subir pelo seu corpo. Veio do útero, alcançou o peito, subiu pela traqueia, ultrapassou a faringe e chegou à boca. Ela teve vontade de matar o filho ali mesmo, com suas próprias mãos, pois, se dera a vida àquele ser desprezível, tinha o dever de tirá-la, em benefício de todos. Afinal, se era dela a culpa de tanto pecado, o melhor seria cortar o mal de uma vez.
          O promotor com cara de galã não parava de discorrer sobre as malfeitorias do Caladão. Soledade segurava aquela coisa doida que lhe entupia a garganta. Ela no fundo do auditório só podia ver a nuca do filho-monstro. O amor tanto transformado em ódio. Caladão virou o rosto. Soledade estremeceu. Súbito a garganta não conteve mais o grito dilacerante. Tremeram as luzes, ou isso pareceu acontecer. Ela se levantou e o grito rouco lhe abriu caminho. Não houve quem ousasse lhe barrar passagem.  Ela chegou diante do filho e o grito tornou-se estridente. José Alfredo, o Caladão, encolheu e ficou da estatura de um menino. O grito aumentou e o réu minguou ao tamanho de um bebê. E como o grito não parasse, ele virou um feto. Maria da Soledade o tomou nas mãos, agachou-se, levantou o vestido e, num aborto às avessas, enfiou o filho nas entranhas, correu pelo meio da multidão perplexa e sumiu porta afora.

 (Jairo Vianna Ramos)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Inspiração para a Poesia

Inspiração para a Poesia

Rodolfo Pamplona Filho
Eu faço poesia...
Eu faço poesia com tudo...
Alegria ou tristeza...
Feiúra ou beleza...
Dúvida ou certeza..
Pobreza ou riqueza...
Criação ou natureza...
Eu faço poesia com a vida... 

Salvador, 27 de maio de 2013, segunda-feira,

em um engarrafamento monstruoso na Av. ACM.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Efêmero


Se pudéssemos ter consciência do quanto nossa vida é efêmera, talvez pensássemos duas vezes antes de jogar fora as oportunidades que temos de ser e de fazer os outros felizes.
Muitas flores são colhidas cedo demais. Algumas, mesmo ainda em botão. Há sementes que nunca brotam e há aquelas flores que vivem a vida inteira até que, pétala por pétala, tranqüilas, vividas, se entregam ao vento.
Mas a gente não sabe adivinhar. A gente não sabe por quanto tempo estará enfeitando esse Éden e tampouco aquelas flores que foram plantadas ao nosso redor. E descuidamos. Cuidamos pouco. De nós, dos outros.
Nos entristecemos por coisas pequenas e perdemos minutos e horas preciosos. Perdemos dias, às vezes anos.
Nos calamos quando deveríamos falar; falamos demais quando deveríamos ficar em silêncio. Não damos o abraço que tanto nossa alma pede porque algo em nós impede essa aproximação. Não damos um beijo carinhoso "porque não estamos acostumados com isso" e não dizemos que gostamos porque achamos que o outro sabe automaticamente o que sentimos.
E passa a noite e chega o dia, o sol nasce e adormece e continuamos os mesmos, fechados em nós. Reclamamos do que não temos, ou achamos que não temos suficiente. Cobramos. Dos outros. Da vida. De nós mesmos. Nos consumimos.
Costumamos comparar nossas vidas com as daqueles que possuem mais que a gente. E se experimentássemos comparar com aqueles que possuem menos? Isso faria uma grande diferença!
E o tempo passa...
Passamos pela vida, não vivemos. Sobrevivemos, porque não sabemos fazer outra coisa.
Até que, inesperadamente, acordamos e olhamos pra trás. E então nos perguntamos: e agora?!
Agora, hoje, ainda é tempo de reconstruir alguma coisa, de dar o abraço amigo, de dizer uma palavra carinhosa, de agradecer pelo que temos.  
Nunca se é velho demais ou jovem demais para amar, dizer uma palavra gentil ou fazer um gesto carinhoso. 
Não olhe para trás. O que passou, passou. O que perdemos, perdemos. 
Olhe para frente!
Ainda é tempo de apreciar as flores que estão inteiras ao nosso redor. Ainda é tempo de voltar-se para Deus e agradecer pela vida, que mesmo efêmera, ainda está em nós. 
Pense!... Se você está lendo esta mensagem é porque ainda tem tempo!!!
Não o perca mais!...
Que Deus te abençoe!



Letícia Thompson

domingo, 13 de abril de 2014

Frei Germano - Cora Coralina

Frei Germano - Cora Coralina

Quando eu era menina
bem pequena,
pela minha porta,
pela minha rua,
pela minha ponte,
via passar
os frades dominicanos.
Túnica branca.
Larga correia na cintura
prendendo um rosário
de contas grossas.
Hábito solto.
Cruz ao peito.
Sapatões pesados.
Um chapéu grande, preto,
de abas presas, reviradas.
Às vezes, também,
conforme o tempo,
anacrônico, enorme,
um guarda-chuva
amarelado, abarracado.
Muito austeros.
Muito ascetas.
Muito graves.
Corria a lhes pedir benção,
ganhar santinho.
Frei Henrique.
Frei Constâncio.
Frei Manuel.
Frei Germano.
E quantos outros...
Já nem lembro os nomes.
Vinham de terras cultas,
distantes.
Falavam nossa língua
num sotaque estrangeirado,
com muitos erres.
Preocupavam-se demais
com os pecadores.
Queriam salvar todas as almas.
Exortavam sobre o inferno.
Contavam do purgatório.
Exaltando as maravilhas do Céu.
Frei Germano...
Quanto respeito, meu Deus!
Durezas de ascetismo.
Estatura invulgar de sacerdote.
Tão severo...
Tão alto...
descarnado.
Era a austeridade retratada,
fidelíssima,
vestindo sua imensa caridade.
Diziam até que trazia cilício
sobre a carne espezinhada.
Rigoroso nas regras de sua Ordem,
renunciava até mesmo ao consentido.
Desmaiava nos antigos jejuns,
carregando sobre si
a cruz pesada
dos pecados
da cidade.
Envergadura de atleta da Fé.
Embasamento,
sustentáculo
da Ordem de São Domingos.
Grande confessor.
Grande penitente.
Dignificou a Pátria onde nasceu.
Dignificou a Terra onde morreu.
Um dia - inda me lembro:
Apareceu sem avisar
na escolinha laica
da Mestra Silvina.
Minha escolinha primária...
Quanta saudade!
Muito manso,
muito humilde,
se fazendo pequenino,
propôs à Mestra
em dia certo da semana,
ensinar a doutrina
à meninada.
Cinquenta anos decorridos,
guardo na lembrança
sua figura austera,
retratada,
de velho santo.
E as lições aprendidas
do pequeno catecismo.
Como prêmio de aplicação
conservo daquele tempo,
recebido de suas mãos,
uma antiga História Sagrada
e uns santinhos que me têm valido
na aflição.
E sei até hoje
se me perguntarem
os "Novíssimos do Homem"
que nenhum leitor,
católico praticante,
dirá ao certo
sem rever de novo o catecismo.
Frei Germano...
No longo caminho de pedras, de quedas,
de ascensão, da vida percorrida,
nunca para mim
seu vulto
se perdeu no esquecimento.
Nunca.
E eu era apenas
guria pequenina
da escolinha primária
da Mestra Silvina...
E até hoje, guardião de minha fé,
vai me levando pela vida
Frei Germano.

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas ou Cora Coralina, (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985) foi poeta e contista brasileira. Produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás. Começou a escrever poemas aos 14 anos, porém, Publicou seu primeiro livro em 1965, aos 76 anos.


sábado, 12 de abril de 2014

Brigadeiro de Colher

Brigadeiro de Colher (soneto)

Rodolfo Pamplona Filho
Como é bom se sentir criança
lambendo os beiços para aproveitar
o gosto que traz a lembrança
de quando nada havia a preocupar...

A sensação gustativa da memória
que o sabor do doce lança
faz acender a própria história
que é maior que encher a pança,

pois significa simplesmente reviver
a primeira manifestação de prazer,
muito antes de ser homem ou mulher,

pois, antes de qualquer orgasmo,
o seu primeiro grande espasmo
foi provar um brigadeiro de colher.


São Paulo, 09 de junho de 2013.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Procura-se Amizade



Procura-se Amizade
Procura-se: amizade que não se venda,
que não seja alugável, nem por prazo determinado
ou indeterminado, nem muito menos para eventos.

Deve ser ampla o suficiente para que eu sempre
me sinta à vontade. E ser ventilada pela brisa fresca
da alegria de nos revermos.

É indispensável que tenha vista para a justiça
e para a liberdade, em todas as suas acepções.

Precisa ter quatro quartos, e que necessariamente curta
todos eles - mas a suíte da Lua cheia sempre será a preferida.

O sol do seu sorriso deverá brilhar todas os dias;
em compensação, prometo que as nuvens que pairarem
sobre nós servirão unicamente para que conversemos à sombra.

É importante que tenha uma história entre suas paredes.
E, já que as paredes têm ouvidos, que se proponham
a ouvir a minha história. Velhas e novas histórias,
que ficarão muito mais enriquecidas pela interação
com as suas velhas e novas histórias pessoais.

Na portaria, a segurança de que nada que nós digamos,
ou façamos, será usada contra nós, em tempo algum.
Muito ao contrário, tudo que nós confidenciarmos
ao outro servirá para nos tornar mais íntimos, mais próximos,
mais cúmplices e, ao mesmo tempo, mais amplos,
mais abertos, mais encontrados, mais iguais.

A cozinha deverá ser integrada à sala dos nossos papos.
Comeremos e beberemos ao sabor das frases temperadas
e sorvidas pelo carinho e brilho nos olhos, alimentados
pela admiração recíproca. Que nunca estará no freezer,
porque sempre aquecida pelas lembranças do bom
que tem sido ter uma amizade assim.

O corredor bem que servirá para que, volta e meia,
nos encontremos de passagem. Mas um simples
"Oi" será o suficiente para que nós relembremos
o quanto nos gostamos. E a troca de sorrisos dirá
o quanto nos queremos.

É importante que, eventualmente, chova lá fora.
Pararemos para vê-la. E correremos, sorrindo, quando a atravessarmos.
Saberemos que sentir o cheiro da terra molhada
ficará ainda melhor com o cheiro da proximidade do outro.

A casa deverá ter sempre um cantinho para os irmãos e as irmãs.
E um canto de boas-vindas se ouvirá à sua chegada.

Por mais que eu queira que essa casa seja muito minha,
sei que reservarei o melhor espaço dela para os meus pais.
E para os pais de quem me visitar. Porque sempre serei grato
a eles por terem gerado pessoas tão amoráveis, parceiras,
fascinantes, verdadeiras, confiáveis e maravilhosas como eu e você.

Alberto Saraiva


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sinto falta (soneto de pé quebrado)

Sinto falta (soneto de pé quebrado)

Rodolfo Pamplona Filho
Sinto falta do riso
Sinto falta do pulso
Sinto falta do risco
Sinto falta do mundo

Sinto falta do tato
Sinto falta do beijo
Sinto falta do contato
Sinto falta do desejo

Sinto falta da vontade
Sinto falta do tesão
Sinto falta da paixão

Sinto falta da realidade
Sinto falta do calor
Sinto falta do seu amor 


Praia do Forte, 31 de maio de 2013.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Corte Pequeno e Profundo

Corte Pequeno e Profundo

No café da manhã
Um rasgo na mão
Uma dor da faca
Que entrou na carne
sangrou e a ferida me deixou...
Um ai. Um raio-x. Uma sutura.
Um pedaço de mim que cortou...
Uma dor que dilacera, que rasga, que fere, o que recordou...
Navalha a carne,
corre vermelho - a minha cor.
Anestesia que agonia o meu início de dia...
Escrever com sangue,
tirar do abismo da alma, o que sou...
O que é pior: um acidente com uma faca, um incêndio, um roubo à mão armada, um morte não esperada?
Cuidado: a vida é um caos em trânsito!
Um destino trágico ou um engarrafar de pensamento.
Eis, uma poesia para a dor...

Temos que ir em frente. Sangue, suor e lágrimas.

Ezilda Melo
02/04/2013

terça-feira, 8 de abril de 2014

Alienação Parental – Além da Lei (o poema)

Alienação Parental – Além da Lei (o poema)

Rodolfo Pamplona Filho
Qual é o sentido de ser deixado só?
Qual é o significado de
virar joguete de quem o criou?
O que faz alguém transformar
o fruto do amor
em uma forma para torturar
alguém a quem já se entregou?
Como imputar tamanha dor
a quem não pediu sequer
para vir ao mundo viver
ou provar o seu sabor?

Quando filhos viram massa,
só se construi um muro de tristeza;
Quando filhos viram moeda,
só se paga o preço do rancor;
Quando filhos viram brinquedos,
só se joga o jogo do ódio;
Quando filhos viram propriedade,
só se é dono do seu próprio veneno...

Morte, tragédia, culpa,
homicídio doloso da inocência
isolamento, depressão,
raiva convertida em manipulação
roubo, furto, perda,
em pungente sede de não,
vítima que é assassina
também de seu próprio eu,
em uma Medéia que ensina
o avesso de amar o seu
para, ao mesmo tempo,
nunca mais ser de ninguém...

Não seja algoz de quem te ama.
Não seja cúmplice da frustração.
A vida vai além da lei e da cama
e o mundo não é só comiseração.
Se relacionamentos terminam,
filhos são para sempre...
Se partir é doloroso,
mais ainda é deixar de ser gente...


Porto Alegre, 12 de abril de 2013.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Muitos abraços

Muitos abraços

Não corro atrás de ventos,
nem de inventos.
Há coisas demais perto de mim,
Que vejo e não invejo.
Não posso, sozinha, cuidar do mundo,
Nem me iludo.
Há gente demais perto de mim,
De mãos armadas, desalmadas.

Não vou chorar um minuto,
Nem uma gota.
Há choro demais perto de mim.
Quero olhos abertos e libertos.

Não vou engarrafar nuvens
Nem querer a lua.
Há imaginação demais perto de mim
Quero-as ver de longe, da rua.

Não vou cultivar plantas,
Nem horta, não me importa.
Há flores murchas dentro de mim
Que preciso ressuscitar.

Mas quero e peço a Deus:
Mãos limpas, abertas, em oferta,
Coração puro, desarmado e amante,
Longos braços, pra muitos abraços
Do mundo!


Maria Francisca – dezembro/2011.

domingo, 6 de abril de 2014

O Dia em que fui Rejeitado

O Dia em que fui Rejeitado

Rodolfo Pamplona Filho
Hoje dolorosamente chorei
pois finalmente constatei
que meu amor maior
prefere ficar só
do que ter todo dia
a minha companhia...
descobri que
não sou essencial...
que minha presença
não é fundamental...
que estar ao meu lado
pode ser um problema...
e recusar um afago
nem precisa ser dilema...
pois muitas vezes o carinho
é apenas parte do esquema
para sair, de vez, do ninho,
deixar de ser musa de meu poema,
falar que tudo é coisa pequena
e que devo parar de pensar no tema...
até que, tal qual um claro emblema,
conclua que tudo valeu a pena!


Salvador, 14 de abril de 2013, domingo, antes de ir para a igreja....

sábado, 5 de abril de 2014

É Tempo de deixar a Horda

É Tempo de deixar a Horda

Tantos anos de longas batalhas
Séculos de guerra contra a propria existência
O que achávamos que seria de nós? Povo imundo!
Melhor seria desconhecer a vida
Porque quando se sai da caverna
Tudo é pago com sangue
Sangue seu, ou pior, dos seus amores
E aqueles que te colocaram no inferno
Serão eles anjos da vida ou da morte?
Antes do nascimento seria impossível morrer
No final das contas, 
estamos aqui apenas para deixar a horda.

E os jovens fantasiam: "vamos fugir da horda
ou talvez, mudá-la"
Pobres crianças, cheias de sonhos
Ainda não se encontraram na tribo
E tem tempo pra perder com bobagens
A horda é maior que o homem, 
E maior que a própria horda
E já é hora de a deixarmos.

Viemos do nada e para lá voltaremos
Apesar de todas promessas da fé,
O ceticismo tem morada no homem
O medo é maior que a vontade
O ser é hipócrita, e a mínima dor 
Engole as grandes alegrias
Quem afinal nós somos? E por que estamos aqui?
Somos filhos da horda 
E morreremos de desgosto
Somos incapazes, impotentes e fracassados
Somos homens padecendo de vida

Pois já é tempo de deixar a horda.

Gabriel Braz Feliciano

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Estupefacto

Estupefacto

Rodolfo Pamplona Filho
Cada vez mais
eu acredito menos
nas coisas que ouço...

Cada vez mais
eu confio menos
nas pessoas que vejo...

Cada vez mais
eu sei menos
do que me dizem ser a verdade...

Cada vez mais
eu entendo menos
o que afirmam ser a realidade.


No Vôo de Salvador para Porto Alegre, 09 de abril de 2013.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A Diferença entre Engenhosidade e Inteligência

A Diferença entre Engenhosidade e Inteligência

1 - O HOTELEIRO DE NEW YORK

O gerente geral de uma cadeia hoteleira americana viajou pela segunda vez para Seul no lapso de um ano; ao chegar ao hotel onde devia hospedar-se foi recebido calorosamente com um "Bem-vindo novamente senhor, que bom vê-lo de volta em nosso hotel". Duvidando de que o recepcionista tivesse tão boa memória e surpreendido pela recepção, propôs-se que - no seu retorno a New York- imporia igual sistema de tratamento ao cliente na cadeia hoteleira que administrava.

No seu regresso convocou e reuniu todos os seus gerentes pedindo-lhes para desenvolver uma estratégia para tal pretensão. Os gerentes decidiram implementar um software de reconhecimento de rostos, base de dados atualizada dia a dia, câmaras especiais, com um tempo de resposta em micro segundos, assim como a pertinente formação dos empregados, etc., cujo custo aproximado seria de 2.5 milhões de dólares. O gerente geral descartou a ideia devido aos elevados custos.

Meses depois, na sua terceira viagem a Seul, tendo sido recebido da mesma maneira, ofereceu uma boa gratificação ao recepcionista para que lhe revelasse como o faziam. O recepcionista disse-lhe então: “Repare senhor, aqui temos um acordo com os taxistas do aeroporto; durante o trajeto eles perguntam ao passageiro se já antes se hospedou neste hotel, e, se a resposta é afirmativa, eles, à chegada ao Hotel, depositam as malas do hóspede do lado direito do balcão de atendimento. Se o cliente chega pela primeira vez, as suas malas são colocadas do lado esquerdo. O taxista é gratificado com um dólar pelo seu trabalho"

 2 - O EMPACOTADOR DE SABONETES

Em 1970, um cidadão japonês enviou uma carta a uma fábrica de sabonetes de Tókio, reclamando ter adquirido uma caixa de sabonetes que, ao abri-la, estava vazia. A reclamação colocou em marcha todo um programa de gestão administrativa e operacional; os engenheiros da fábrica receberam instruções para desenhar um sistema que impedisse que este problema voltasse a repetir-se. Depois de muita discussão, os engenheiros chegaram ao acordo de que o problema tinha sido desencadeado na cadeia de empacotamento dos sabonetes, onde uma caixinha em movimento não foi cheia com o sabonete respectivo.

Por indicação dos engenheiros desenhou-se e instalou-se uma sofisticada máquina de raios "X" com monitores de alta resolução, operada por dois trabalhadores encarregados de vigiar todas as caixas de sabonete que saíam da linha de empacotamento para que, dessa maneira se assegurasse de que nenhuma ficaria vazia. O custo dessa máquina superou os 250,000 dólares.

Quando a máquina de raios "X" começou a falhar ao fim de 5 meses de operação nos três turnos da empresa, um trabalhador da área de empacotamento pediu emprestado um ventilador de 50 dólares e o apontou para o final da passadeira transportadora. À medida que as caixinhas avançavam nessa direção, as que estavam vazias saíam voando da linha de empacotamento, por estarem mais leves.

 3 - UMA CANETA PARA O ESPAÇO

Quando, antes dos anos 60, a NASA iniciou o envio de astronautas para o espaço, advertiram que as suas canetas não funcionariam à gravidade zero, dado que a tinta não desceria à superfície onde se desejaria escrever.

Ao fim de 6 anos de testes e investigações, que exigiu um gasto de 12 milhões de dólares, conseguiram desenvolver uma esferográfica que funcionava em gravidade zero, debaixo de água, sobre qualquer superfície incluindo vidro e num leque de temperaturas que iam desde abaixo de zero até 300 graus centígrados.

Os Russos, por seu lado, descartaram as canetas e, simplesmente deram lápis às suas tripulações para que pudessem escrever sem problemas.


4 - UMA SOLUÇÃO PARA OS CORREIOS

No século 19, um inglês comum, incomodado com o burocrático sistema de registro de correspondência ao qual era submetido pelo correio inglês para cada carta que despachava, mesmo sendo simples correspondência pessoal, desenvolveu uma ideia para simplificar e desburocratizar o sistema de correios e o apresentou à Câmara: a criação de um selo postal que retirava a necessidade do registro em livro e numeração de cada envelope; um complexo sistema de registro.
A Câmara para decidir sobre o assunto, chamou o Diretor dos Correios inglês, este ao tomar conhecimento da proposta, a rejeitou totalmente, inclusive dizendo que o Sr. que apresentou a proposta não entendia nada de Correios, e que se tal sistema viesse a vigorar, o aumento do fluxo de correspondência superaria a capacidade de funcionamento dos Correios, e que sequer o prédio onde este funcionava teria capacidade para tal fluxo.
Felizmente, a mente prática e inteligente presente na Câmara ouviu o homem comum e não o especialista, não só aprovou a ideia, como construiu um novo prédio para comportar o novo fluxo.  


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Tempo ao Tempo

Tempo ao Tempo
(Rodolfo Pamplona Filho / André Pugas)
Na infância o tempo flui
No ritmo de lesma
Quando cresço o relógio diz
 Que a hora é sempre a mesma
O que muda é a  percepção
No pulsar de um coração
Cada tempo perdido, desperdiçado
É não ter a vida aproveitado.

O tempo não é cruel
Nem severo nem fatal
O que não volta é sempre
Chance perdida no final

Contar os dias, olhar pro céu
Esperando o sol chegar
É quando cessa a luz, a noite vem
Querendo te mostrar que..

Dê tempo ao tempo...
A cada momento...
Que o tempo reserva
A cada tormento
Dê tempo ao tempo
De seu sofrimento
Pois tudo coopera
Para um novo tempo!




segunda-feira, 31 de março de 2014

Temporão


Temporão

Rodolfo Pamplona Filho
A Rosa não desabrocha
apenas na primavera
A Chuva não refresca
apenas no verão

Temporão

Nem sempre se pode
planejar o tempo para tudo,
pois nem sempre há
somente um tempo certo...

Temporão

A Raspa de tacho
A surpresa da vida
A alegria do acaso
A felicidade querida...

Temporão

O presente fora de hora,
como se houvesse hora
para ganhar presente

Ser pai quando podia ser avô...
Ser filho de quem poderia ser neto...
Não há receita para ser gente...

Temporão...

Salvador, 10 de março de 2013.

domingo, 30 de março de 2014

NUNCA MAIS


Fausto Couto Sobrinho
10/3/2013

NUNCA MAIS

Esses vultos fugidios
que vêm do tempo do nunca mais
e brincam de esconde-esconde
nos cantos dos meus olhos
colhendo aqui e ali
uma lágrima, alguns ais

Vão embora, vão embora!
Porque agora...
Nunca mais! 

sábado, 29 de março de 2014

Musicando a Tristeza


Musicando a Tristeza

Rodolfo Pamplona Filho
Musiquemos a sensação...
A tristeza é inspiração...
O que machuca também ensina
e o sofrimento não precisa
ser uma eterna sina...
Somos movidos  a amor
e - porque não dizer? - a dor...
Somos o Som e a Dor...

Brasília, 14 de março de 2013.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Pipocas da Vida


Pipocas da Vida
   

          Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre. Assim acontece com a gente.

          As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira.

          São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas de repente, vem o fogo.

          O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor!

          Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre.

          Pode  ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos.

          Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo, o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.

          Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura,  fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo que ela é capaz.

          Aí sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: BUM!

          E ela aparece como outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.

          Bom, mas ainda temos o piruá... Que é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

          São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar.  Elas acham que não podem existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva.

          Não vão dar alegria para ninguém.